Assim Lutamos em Gaza

23/05/2015 | Conflito; Opinião; Política

“Breaking The Silence” (em hebraico: שוברים שתיקה, Shovrim Shtika) é uma organização israelense não-governamental, formada por soldados que coletam e publicam testemunhos sobre o seu serviço militar na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. A missão declarada da organização é servir como uma plataforma para  “quebrar o silêncio” dos soldados israelenses que regressam à vida civil em Israel e “descobrem a lacuna entre a realidade que encontraram nos territórios ocupados, e o silêncio que eles escutam em casa sobre as consequências desta ocupação”.

Desde 2004, foram coletados centenas de testemunhos de soldados e oficiais. Ao publicá-los, o Breaking the Silence objetiva “forçar a sociedade israelense a enfrentar a realidade que ela mesmo teria criado” e encarar a verdade sobre o “abuso perpetrado contra os palestinos, saques e destruição de propriedade” que eles indicam ser de conhecimento público de todo soldado que serviu nos territórios.

Assim lutamos em Gaza” é o título do mais recente relatório publicado pela ONG. São 240 páginas que trazem relatos anônimos, em primeira pessoa, de soldados e oficiais que serviram na Faixa de Gaza em unidades de combate no último conflito, no verão de 2014. No documento existe o testemunho detalhado de incidentes graves, incluindo exemplos de mortes arbitrárias e desnecessárias de civis palestinos.

Testemunho 24. página 68 – “Assim lutamos em Gaza” . Unidade: Blindada • Classificação: Primeiro sargento • Localização: Deir al-Balah

“Fomos enviados para proteger engenheiros [de combate] no trabalho de identificação e destruição de um túnel. Nosso trabalho era proteger as “D9S” (escavadoras blindadas), enquanto eles cumpriam o seu objetivo. Nós movíamos os nossos tanques de lado a lado, às vezes avançamos um pouco, às vezes parávamos ao lado de alguma casa. De repente eu vi uma janela com persianas antigas e brancas. Notei que estava aberta e, em seguida, fechada. Então, abriu e fechou novamente. Não consegui ver ninguém fazendo nada, eu apenas vi a persiana abrindo e fechando de uma forma que não podia ter sido o vento. Então eu disse para o meu oficial

“Eu vi aquela persiana em movimento”.

Ele olha para o local e diz: “Você está imaginando coisas “.

Um segundo depois digo: “Agora, olha de novo”.

Ele me disse:” Sim, está se movendo, vá em frente, destrua ”

E eu digo,”OK, e nós mandamos dois foguetes direto na janela”.

—-

– “Você estava em perigo?

– “Não”.

– “Então, por que você atirou?”

– “A instrução era: “Qualquer um que você identificar na área – você atira”.

O que vai acima é um dos exemplos mais suaves que podemos encontrar no relatório que, em sua essência, espera que Israel mude a forma com a qual combatemos o terror palestino. Deseja que seja institucionalizada regras claras para preservar as vidas dos cidadãos de Gaza e limitar os danos colaterais da mesma forma que faria se civis israelenses estivessem sendo mantidos como reféns pelo Hamas. É isto mesmo que vocês leram – a organização pretende definir os cidadãos palestinos como reféns de um grupo terrorista. Desta forma, seria uma obrigação moral de Israel protegê-los a todo o custo durante a perseguição dos verdadeiros terroristas.

Logo na introdução do último conjunto de testemunhos, O Breaking the Silence informa sobre a mudança drástica no protocolo das “regras de engajamento (rules of engagement)” do exército. Estas regras determinam “quando”, “onde” e “como” existe a possibilidade de uso de força. As “regras de engajamento” devem equilibrar dois objetivos conflitantes: a necessidade de recorrer à força para completar os objetivos da missão e a necessidade de evitar o uso de força desnecessária.

O BTS deixa claro que o último conflito cristalizou um protocolo preocupante – denominado “dano mínimo aos soldados”. A instrução passada aos combatentes de todos os batalhões era única: “o exército enviou diversos pedidos para que a população civíl saísse do local. Se alguém encontra-se naquele perímetro, ele não é inocente e deverá ser abatido. Esté novo protocolo, como consequência, teria concedido aos soldados uma “permissão para matar”. Uma vez que no local só haviam inimigos, todo e qualquer uso da força se fazia necessário. Desta forma, a conduta nestes locais teria aumentado – significativamente – o número de vítimas civís do lado palestino.

Em um plano visual poderíamos traçar os objetivos desta nova “regra de engajamento”. Objetiva-se a proteção, em ordem:

1 – Civis israelenses / 2 – Soldados Israelenses / 3 – Civis palestinos / 4 – Terroristas.

A organização clama por mudanças. Afirma que um exército que deseja-se caracterizar como “defensor da justiça e guardião da moral” teria que alterar a ordem para a proteção de:

1 – Civis israelenses / 2 – Civis palestinos / 3 – Soldados Israelenses / 4 – Terroristas.

De fato, esta abordagem significa que mais soldados israelenses morreriam, menos vidas de civis palestinos seriam perdidas e a capacidade e força militar Israel no enfrentamento de um inimigo como o Hamas seria reduzida.

Depois da publicação oficial na primeira semana de maio, a ONG enfrentou duras críticas de alguns setores da sociedade. Foram chamados de “traidores”, “nazistas”, “massa de manobra de antissemitas”, etc. Houve quem questionasse o financiamento do grupo e afirmasse que eles estavam fazendo um desserviço ao país.

Eu conheço bem a organização. Respeito (e muito) o trabalho que é realizado. Não os considero traidores, muito menos ingênuos. Acredito que fazem um trabalho relevante num país que possui um exército subjugado ao estado de direito.

Conheço também soldados que lutaram nesta última guerra. São meus amigos, colegas de trabalho. Alguns têm postado nas redes sociais relatos públicos que vão de encontro ao que é citado no relatório. Não negam que o que foi narrado tenha acontecido. Não negam o novo protocolo. Colocam em perspectiva – no entanto – o que significa “lutar contra um inimigo como o Hamas”.

Status: Sargento; Soldado do Batalhão 13 da Brigada Golani.

“Não me escondo por trás do anonimato. Quer ouvir o meu testemunho? Então: Eu lutei em Gaza. E guerra é desagradável para ambos os lados. Vocês falam sobre soldados que defecaram em uma panela, ou soldados que comiam cereais dos habitantes locais de Gaza [testemunhos no [último relatório do Breaking the Silence].

E eu sinto muito, mas não vejo nada imoral. Especialmente quando existe atiradores snipers palestinos tentando te matar cada vez que você abaixa as calças para fazer as suas necessidades em um campo aberto. Quanto ao resto eu não acredito que um soldado tenha dado um tiro em um ciclista sem motivo aparente. Haviam Comandantes que estavam por toda parte e não havia tal anarquia.

Havia?

Este soldado então é um assassino. Cometeu um assassinato sem motivo. Não está apto a usar um uniforme. Que se leve este soldado a julgamento. Ao longo de todo o conflito, a ocupação de casas e fortificações, preservamos a dignidade humana. Ainda que acreditássemos que havia ao nosso lado um inimigo, às vezes. E, às vezes correndo o risco de perder nossas vidas

Você perguntaram se o IDF é o exército mais moral no mundo? Eu não sei. Eu servi apenas no exército de Israel, em nenhum outro exército do mundo. Quando eu entro em minha minha cama quente em Modiian, eu durmo muito bem. Sem peso na consciência e sem Qassams.

Se eu não tenho dúvidas de que ambos testemunhos são verdadeiros, me pergunto se o título: “Assim lutamos em Gaza” é o melhor para um relatório composto de alguns testemunhos, quando sabemos que milhares de soldados participaram da invasão terrestre. Me sentiria mais confortável com “assim também lutamos em Gaza”.

Nos depoimentos contrários que tenho lido e nas conversas que ocorrem nos intervalos do meu local de trabalho há questionamentos e afirmações que não posso descartar para a formação da minha opinião sobre “como lutamos em Gaza” . Os difíceis testemunhos do BTS não são capazes de anular o contraditório que eu ouço de pessoas que convivo diariamente. Eles – os depoimentos – convivem lado a lado em minha cabeça.

Conheço bem as circunstância da entrada terrestre em Gaza no último verão. A decisão ocorreu logo depois que houve uma tentativa de invasão do território israelense por terroristas. Eles entraram em Israel através de um túnel construídos a partir de casas dos habitantes de Gaza. O exército tinha um período muito curto para identificar mais túneis e destruí-los. Havia também a necessidade de interromper – de forma imediata – o lançamento de foguetes sobre território israelense que já durava quase um mês.

Sei também que estamos em um conflito assimétrico, que as regras do direito internacional não são capazes de abrigar toda a sua complexidade. O Hamas utiliza-se da falta de uniforme que diferencia um combatente de um civil; armazena munições em mesquitas; utiliza escolas e hospitais como centrais de comando; usa a sua população como arma.

Eu questiono o que eu sei realmente sobre a guerra. Como é que se combate moralmente um inimigo que não se importa com a moral. Devemos analisar a grande dificuldade de adaptação das normas de guerra para um campo de batalha não-tradicional, como o último conflito em Gaza. Neste novo tipo de micro-guerra, cada soldado é um tipo de comandante, um agente moral. Cada soldado deve decidir se o indivíduo em pé diante dele, vestido de jeans e tênis, é um combatente ou não. Que tipos de riscos deve assumir um soldado para evitar a matança de civis?

Um dos testemunhos mais difíceis que li foi sobre a morte de um palestino idoso e desarmado. Na última quinta feira questiono este fato a um amigo que esteve em Gaza e ele me relata que o seu batalhão teria impedido um palestino idoso de explodir 20 soldados.

Não entrar em Gaza naquele momento significava manter foguetes caindo em Tel Aviv, Rishon leTzion, norte e sul, além de deixar 60 túneis abertos. Entrar em Gaza sem o protocolo de “dano mínimo” significava aumentar o número de morte de soldados israelenses.

O relatório do BTS nos pergunta onde está a moral do exército que se diz o “mais moral do mundo”. O questionamento é válido e importante. Israel (ainda) possui uma organização com liberdade para fazer esta pergunta e publicar o que publicou.

Considerando que não havia a possibilidade de não entrar em Gaza naquele momento.

Considerando o combate em perímetro urbano.

Considerando o conflito assimétrico.

Considerando o comportamento do inimigo perante a sua própria polução.

Eu acrescento mais algumas perguntas a tantas outras não respondidas: poderia ter sido diferente? Como?

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Comentários    ( 28 )

28 Responses to “Assim Lutamos em Gaza”

  • Eva Lan

    04/06/2015 at 14:45

    A BDS é uma organização que esta ganhando pontos com sua campanha de boicote contra Israel, à base de uma propaganda que não recua diante de nenhuma mentira, acusando Israel de apartheid e de genocidio contra os palestinos.
    No Brasil, essa campanha avança. Através de uma idéia simples, a de se recusar a comprar produtos israelenses, pressionar artistas para que não se apresentem em Israel, impedir contratos com empresas israelenses, dão às pessoas a ilusão de influir sobre o mundo. Na verdade, seu objetivo principal é de difundir suas teses diabolisando Israel para isola-lo cada vez mais sobre a cena internacional: um Estado paria, como ja foram os judeus.
    Um dos fundadores de BDS, Omar Barghouti, diplomou-se pela Universidade de Tel Aviv, mas não tem vergonha de acusar Israel de apartheid.
    Nesse momento, proponho que enviemos mensagens de apoio a Caetano Veloso e Gilberto Gil, que resistem às pressões para anular seus concertos em Israel. O Facebook deles foi invadido pela propaganda pro-palestina boicotista, mas eles resistem.
    Ja postei a minha mensagem no Facebook de Caetano: ” Parabéns, Caetano e Gil, por sua coragem de ir cantar em Israel. Israelenses de todas as origens e religiões poderão aplaudi-los juntos, porque o apartheid so existe na cabeça doente dos boicotadores.”
    Quem estiver de acordo, faça circular entre seus amigos.