Atentados terroristas influenciam o resultado das eleições em Israel?

25/02/2015 | Conflito, Eleições, Política.

O número de mortos em atentados terroristas no ano de 2002 foi de 452 pessoas. Nas eleições de 2003, o Likud, partido principal do bloco de direita do país, ganhou as eleições, obtendo nada menos que 38 cadeiras, contra apenas 19 do segundo colocado, o Partido Trabalhista (Avoda). Será que o aumento do número de atentados causou este resultado?

Esteban Klor e Claude Berrebi, professores da Universidade Hebraica de Jerusalém, pesquisaram o efeito de atentados terroristas sobre o resultado das eleições e buscaram entender qual a influência deles na preferência de voto dos israelenses.

Gráfico 1 - Número de mortos em atentados terroristas entre Setembro 2000 até 2013
Gráfico 1 – Número de mortos em atentados terroristas entre Setembro 2000 até 2013 – Fonte: Shabbak.gov.il

Estudar este tipo de influência não é tarefa simples. A dificuldade começa pela ingrata tarefa de definir atentados terroristas, e segue pela coleta de dados confiáveis. Se não bastasse estes, o maior dos problemas está em elaborar um modelo que encontre causalidade, e não apenas correlação entre eleições e terrorismo – e é aqui que esbarramos no conceito de simultaneidade.

Simultaneidade: Terrorismo e eleições influenciam um sobre o outro. E, portanto, uma simples correlação temporal não é suficiente para demonstrar causalidade. Em outras palavras, ataques terroristas podem influenciar a preferência dos eleitores, mas o terrorismo também pode ser uma reação a estas próprias preferências. Dessa forma, a sequência de eventos ao longo do tempo não serve como prova de causalidade.

A solução para este problema está em tentar buscar uma técnica de identificação, ou seja, algum método que permita encontrar a direção correta do efeito causal e, consequentemente, anular a simultaneidade.

Por meio de um modelo econométrico que foge do escopo deste artigo, os pesquisadores se utilizaram de variações, tanto no tempo, como no espaço, para superar as limitações da simultaneidade e buscar causalidade na relação entre terrorismo e eleições. Para o leitor curioso, o box 1 explica de forma resumida e simplificada a metodologia do artigo.

Box 1:  Explicação da metodologia do estudo.

A parcela de votos no bloco da direita em uma determinada cidade é o fenômeno que queremos explicar, tecnicamente chamado de variável dependente.

Explica-se este fenômeno por meio de um conjunto de variáveis independentes. Entre as variáveis independentes, os autores escolheram: o número de fatalidades em atentados nesta mesma cidade, o número total de fatalidades em atentados em Israel, além de uma série de outras variáveis socioeconômicas que servem para “controlar” o modelo, ou seja, que buscam incluir a maioria das outras características que influenciam no voto dos eleitores, permitindo assim, que o efeito dos atentados seja analisado de forma separada, sem interferência de outros fatores.

O estudo faz uma divisão entre dois campos políticos em Israel – o bloco de direita e o bloco de esquerda. A divisão inclui o Likud, os partidos religiosos, os partidos nacionalistas e os partidos identificados com imigrantes russos no bloco dos partidos de direita. Os partidos árabes, o Meretz, o Avoda e o extinto partido Am Echad, no bloco dos partidos da esquerda. Partidos de centro, como o também extinto Shinui, foram excluídos de ambos os blocos. Durante o período analisado, Yesh Atid, Kadima, HaTnua e Kulanu ainda não haviam sido criados.

O estudo se concentra nas cinco eleições que aconteceram entre 1988 e 2003. Ao longo do artigo, os autores fazem uma série de testes de robustez, que tem como objetivo verificar se os resultados são consistentes e não fruto de acaso ou manipulação incorreta dos dados.

Por exemplo, (i) os autores excluem todo o tipo de assentamentos na Cisjordânia, já que estes podem ser os que definem a influência.Em outras palavras, pelo fato de que há muito mais atentados nestes assentamentos, sua influencia na pesquisa pode ser muito grande, e assim, poderiamos estar obtendo um resultado viesado – um resultado que apenas representa as preferências eleitorais dos habitantes destes assentamentos. Tirar os assentamentos da pesquisa e obter o mesmo resultado, nos mostra que o estudo não está condicionado a estes assentamentos.

(ii) Visto que a variável mais importante é relativa a atentados ocorridos próximo das eleições, os autores alteram o tempo considerado como “próximo” das eleições; Eles testam um ano, seis meses e três meses – e continuam obtendo resultados similares, apesar de que em diferentes magnitudes.

Além disso, eles fazem testes para causalidade inversa e para outros motivos que possam ser os responsáveis pelos resultados obtidos.

Mesmo após estes testes, os resultados se mantiveram consistentes,apenas variando em intensidade de acordo com o método utilizado.

Resultados

As duas principais evidências encontradas pelos pesquisadores são as seguintes:

1. Terrorismo influencia o voto dos eleitores israelenses. E considerando-se que as diferenças entre a porcentagem de votos nos blocos de direita e esquerda, na maioria das eleições é bastante reduzida, ataques terroristas podem ter sido fundamentais para definir o grupo político que formou o governo em algumas das eleições pesquisadas pelos autores. (Por exemplo, nas eleições de 1988, o Likud derrotou o Avoda com diferença de apenas um mandato, e o modelo prevê que atentados realizados três meses antes destas eleições, tiveram o poder de influenciar 46.000 votos – o equivalente a 2.5 mandatos no colégio eleitoral da época).

2. Atentados terroristas polarizaram o eleitorado israelense. Localidades onde houve atentados terroristas tenderam a aumentar seu apoio ao bloco da direita, assim como demais cidades onde já contavam com uma maioria de direita entre seus eleitores. Cidades que apresentavam uma maioria de esquerda (caso estas não tenham sido as que sofreram os atentados) tenderam a aumentar o seu apoio ao bloco de esquerda. Ou seja, atentados polarizaram ainda mais a sociedade israelense.

Voltando ao exemplo do começo do texto: de acordo com o modelo dos autores, nas eleições de 2003, cerca de 240 mil pessoas alteraram seu voto na direção do bloco direitista. Se considerarmos que o número de votos por mandato foi de 25.138, isso significa incríveis nove cadeiras do Knesset – fato este que ajuda a explicar a esmagadora vitoria do Likud , com 38 cadeiras, contra apenas 19 do Avoda.

Previsões 2015

Tive a oportunidade de ser aluno de um dos autores, Prof. Claude Berrebi, no tempo em que estudei na Universidade Hebraica. Berrebi sempre fazia questão de lembrar que uma previsão dos resultados eleitorais com base no modelo seria inútil para as eleições atuais (ele estava se referindo as eleições de 2013, mas o comentário também é pertinente para estas eleições), porque todo o contexto estrutural se alterou durante esse periodo. Apenas para citar tres eventos importantes: em 2005, houve a retirada unilateral de Gaza, em 2011, os protestos sociais e nas duas ultimas eleicoes, foram criados muitos novos partidos de centro .

A população israelense de hoje em dia dá maior importancia a questões socioeconômicas. De acordo com o autor, esta é a principal mudança ocorrida nas eleições de 2013 em relações as eleições pesquisadas. Ainda segundo ele, esta foi a primeira vez na história de Israel que o tópico conflito-segurança ficou atrás das questões socioeconômicas na lista de prioridades do eleitor israelense.

Se quiseremos ser insistentes, ignorar este conselho, e tentarmos fazer uma previsão mesmo assim, devemos considerar que houve um aumento no número de atentados e de vítimas nos últimos três meses de 2014. De acordo com o serviço de seguranca geral de Israel, nestes meses, o país teve nove mortos e 54 feridos em atentados terroristas. Estes números já são maiores que a soma de todos os mortos e feridos durante todo ano de 2013 (seis mortos e 30 feridos).

No entanto, comparado ao fenômeno na década de 2000, os números ainda são consideravelmente baixos em relação a quantidade de fatalidades em atentados necessária para que haja um efeito considerável nas eleições como um todo. Por este ponto de vista, este não será um fiel da balança nas proximas eleições.

Particularmente, gostaria de ver um estudo dos efeitos de foguetes do Hamas sobre a preferência do eleitor israelense, porém ainda desconheço a existência de estudos sobre este tema.

Sendo assim, resta esperar os resultados do dia 17 de Março, e ver qual bloco irá formar o próximo governo.

Fontes:

  • Berrebi, Claude and Esteban F.Klor. “Are voters sensitive to terrorism? Direct evidence from the Israeli electorate.” American Political Science Review 102.03 (2008): 279-301
  • http://www.shabak.gov.il/

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Atentados terroristas influenciam o resultado das eleições em Israel?”

  • Marcelo Starec

    25/02/2015 at 16:11

    Oi Amir,
    Muito interessante o texto e o estudo!…E fico feliz em saber que hoje outras questões também muito relevantes para o País, como a economia, influenciem mais as eleições do que o terrorismo…Por outro lado, queria aqui colocar uma questão, que acredito seja pertinente ao tema do artigo – Esse estudo incluiria também em terrorismo, os riscos existenciais (a percepção deles pelas pessoas), como por exemplo o risco de um Irã com bombas nucleares, o risco de uma piora (ou a vantagem de uma melhora) nas relações internacionais, enfim, nas alianças que garantem ou auxiliam muito Israel a garantir a sua segurança?…Entendo ser questões também relevantes, pois embora podem nada ter haver com o terrorismo recente, mas também são questões totalmente distintas das de um “País normal”, digamos assim, mas que acredito, também influenciam o eleitor.
    Um abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    27/02/2015 at 17:48

    Amir

    Parabéns pelo texto muito bem feito. Em minha opinião o professor Berrebi está certo. Estas análises avaliam o passado, mas não conseguem ser preditivas, pois o ambiente e as percepções mudam o tempo todo assim que, ao contrário do que foi escrito há algumas semanas no Conexão, penso que a história não se repete.

    O terror é uma ferramenta idealizada por grupos com muito pequeno apelo racional e nenhum senso moral justamente para influenciar as decisões dos eleitores em países democráticos.

    A minha intuição indica que o terror já teve grande influência nos eleitores. Contudo, na medida em que o terror é usado mais e mais, ele se banaliza e o seu poder de influência cai.

    Pergunto: o estudo mostra uma esta tendência que a minha intuição deduz (e que pode estar errada)?

    Abraço,
    Raul

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