Bandeja de Prata

19/11/2015 | Economia, Política.

Esqueça a ameaça nuclear iraniana ou o terrorismo do Estado Islamico. Deixe de lado o conflito com os palestinos. A maior ameaça a sociedade israelense nos próximos anos é a concentração de poder e riqueza nas mãos de um grupo muito seleto de pessoas.

Assim apontam três importantes personalidades (1) que apresentaram suas visões no muito bem recebido Magash HaKessef (2)  – em português, “Bandeja de Prata” – mini-série de três capítulos, organizada pelo canal 8.  Vamos ver alguns relatos surpreendentes a seguir.

O “Clube dos Dez” e o controle do crédito

Estima-se em um valor de três trilhões de shekels (3.000.000.000.000) o patrimonio financeiro dos israelenses, que inclui fundos de pensão, fundos de previdência, investimentos, entre outros.

Destes, dois trilhões (66% do total) estão concentrados nas mãos de dez grupos. Veja o infográfico a seguir com os sócios do ‘Clube dos Dez’ e suas companhias.  

Fonte: Magash HaKessef, capítulo 1                                     Crédito:Piktochart.com

Agora veja que interessante. Aproximadamente um quarto destes dois trilhões pertencentes ao ‘Clube dos Dez’, ou seja, o equivalente a 434 bilhões de shekels estão concentrados na mão de apenas cinco fundos de pensão (Migdal, Clal Seguros,Phoenix e outros dois)  que dominam nada menos que 97% do mercado.

Estes fundos emprestaram em 2013, cerca de 100 bilhões de shekels. Para quem? Veja abaixo os beneficiários destes empréstimos. (Clique na foto para ampliá-la)

Fonte: Magash HaKessef – Capítulo 1

As mesmas fotos presentes no primeiro infográfico não são mera coincidência. O dinheiro está se movimentando em circulos fechado, disponível para os demais sócios do clube. Clal Seguros empresta para o Fundo de Pensão Phoenix, que empresta para o Fundo de Pensão Migdal, que por sua vez, empresta para a Clal Seguros. Um jogo de cartas marcadas.   

A concentração do mercado de crédito reflete na concentração dos demais mercados. Vamos entender a lógica. Nao há interesse do ‘Clube dos Dez’ que haja concorrencia, já que eles emprestam dinheiro para grandes empresas em mercados concentrados e tem interesse de manter as suas estabilidades e rentabilidades. Além é claro, do típico caso em que eles mesmos são os donos destas empresas (3).

Antes da abertura do mercado de telefonia celular, havia apenas três empresas em atividade (Cellcom, Pelephone e Partner), financiadas pelo ‘Clube dos Dez’ (4).

Qual o incentivo deles em aumentar a concorrência?

Diminuir a lucratividade das empresas e aumentar o risco de calotes?

Melhor garantir um mercado com poucas empresas, altos preços, menores riscos e pagamentos em dia.

O mesmo vale para o setor alimentício. Altíssima concentração. Em diversos casos, também financiada pelo ‘Clube dos Dez’.(5)

Ossem, Telma-Unilever, Strauss, Coca-Cola e Tnuva representam 48% do mercado de alimentos. Cinco empresas. Os outros 52% do mercado são divididos entre 1.108 empresas diferentes. Veja o infográfico abaixo. Em mercados importantes, como leite, sopas, café, uma única empresa domina mais de 70% do mercado.

Fonte: Magash HaKessef, capítulo 2 Créditos:Piktochart.com
Fonte: Magash HaKessef, capítulo 2                                                             Créditos:Piktochart.com

Existem mecanismos para combater a concentração. Em geral, o combate acontece em dois estágios: primeiro, a mídia tem o papel de informar o grande público, criar um ambiente de discussão e  debater soluções para o problema.

Em seguida, orgãos reguladores têm a missão de criar políticas de defesa do consumidor, por meio do incentivo a concorrência e da proibição de cartéis.   

Mas o que será que acontece na prática em Israel?

O quarto poder

O principal canal de televisão israelense, canal 2, é controlado por duas diferentes redes, que dividem a grade de programação. Reshet e Keshet. A primeira, é de propriedade dos irmãos Ofer. A segunda, está sob controle de Yitzhak Tshuva e Muzi Wertheim. Veja novamente o primeiro infográfico e lembre quem eles são.

O tradicional jornal Maariv, em constantes problemas financeiros, foi comprado por Nochi Dankner quando este começou a sofrer intensos ataques por parte de outros meios de comunicação.

Vejamos se talvez os reguladores possam ser a solução.

Regulação

Dizem os livros de economia que as falhas do livre mercado podem ser corrigidas pela regulação governamental. Mas e se este “livre mercado” tem ferramentas para controlar os próprios reguladores?

O ‘Clube dos Dez’ tomou medidas para sinalizar aos reguladores que é melhor jogar do lado deles. Veja o seguinte.

Entre os principais cargos do governo relacionados ao controle de verbas públicas, regulação de mercado e combate a concentração, destacam-se quatro:

(a) Supervisor Geral dos bancos

(b) Diretor Geral do Ministério da Fazenda

(c) Contador Geral do Ministério da Fazenda

(d) Responsável da regulação de negócios.

Estes são cargos ocupados por personalidades públicas, muitas vezes, doutores em economia das mais respeitadas universidades.

Pois bem. De acordo com o Magash HaKessef, nada menos que quinze (!) representantes, nos últimos 20 anos, saíram destes postos-chave e foram diretamente trabalhar em um banco/empresa ligado ao ‘Clude dos Dez’.  

Nos últimos dez anos, 80 reguladores passaram do setor público para trabalhar junto de uma empresa relacionada aos dez grandes. A mensagem?

Se eu quero estabilidade, com um alto salário, talvez melhor eu me comportar bem durante os meus dias de funcionalismo público.

Fica o questionamento, muito bem exposto por Yaron Zelicha, no capítulo 2 da série: “quem regula os reguladores”?

Exagero?

Essa semana, a Celcom, maior companhia de telefonia celular do país, anunciou a compra da Golan Telecom. A Golan é a empresa mais popular do mercado e a que oferece planos mais acessíveis.

A empresa foi o símbolo da redução de preços que aconteceu após a abertura do mercado em 2011. A proposta de compra fará da Cellcom a maior empresa com 37%, contra 27% da Partner, segunda colocada. Um processo de “reconcentração”.

O contrato inclui uma estranha cláusula que diz que se a fusão não for autorizada, a Golan deve pagar uma multa de 600 milhões de shekels para a Cellcom –  totalmente fora dos padrões normais. Em termos práticos, a multa garante que a Golan não continuará suas operações no mercado israelense, com ou sem a aprovação da fusão.  

O governo precisa aprovar a operação. E são dois orgãos os responsáveis pela decisão: o Ministério das Telecomunicações e a  Autoridade de Controle Anti-Truste  (equivalente ao CADE no Brasil).

O problema é que o Ministério das Telecomunicações está atualmente sob o controle de Bibi, e  a Autoridade Anti-truste, que é parte do Ministério da Economia, também está sob controle de Bibi.

Sim, confuso, mas verdadeiro. O primeiro ministro acumula hoje em dia, os cargos de Ministro da Economia, Ministro das Telecomunicações, Ministro da Cooperação, e se não bastasse, o de Ministro do Exterior (além de ter ocupado provisoriamente o Ministério da Saúde).

Parece que a concentração não está restrita ao setor privado. As decisões sobre o nosso dinheiro e sobre as nossas políticas estão nas mãos de pouquíssimas pessoas, que lutam para manter o status quo e manter a população alienada a este processo.

A ameaça da concentração é perigosa principalmente porque ela ameaça a democracia. 

E como bem sabemos, nada nos será dado em uma bandeja de prata. A sociedade deve exigir soluções para estes problemas antes que seja tarde demais.

Referencias:

  1. Guy Rolnik, editor chefe do jornal “The Marker”, caderno economico do jornal Haaretz, Yaron Zelekha, ex-contador geral do Ministério da Fazenda e Daniel Gutwein, professor de História Judaica na Universidade de Haifa.
  2. O nome Magash HaKessef (Bandeja de Prata) é uma referencia a frase proferida pelo ex-presidente de Israel, Dr. Haim Weitzmann em 1947,  “Não se concede um Estado a um povo em uma bandeja de prata”. A frase imortalizou-se no poema Bandeja de Prata, de Natan Alterman Os autores, no caso da série, provocam os telespectadores a lutar por seus direitos e mostrar que sem luta, não haverá nenhuma mudança no status quo.
  3. Por exemplo, Cellcom (maior de telefonia celular) e Shufersal (maior supermercado) são do grupo IDB, ex-Nochi Dankner, agora substituído por Eduardo Elsztain.Yitzhak Tshuva, além de dono da Phoenix, controla também a Delek. A familia Omer, entre outros, controla a Zim e a Israel Chemicals. Todas “competindo” em mercados monopolistas.
  4. A Cellcom já é parte do grupo IDB, de Eduardo Elsztain,a Partner obteve crédito (http://www.globes.co.il/en/article-cellcom-raises-debt-partner-takes-loan-1001001907).
  5. http://www.haaretz.com/1.546107

Foto de Capa: http://www.dreamstime.com/royalty-free-stock-photography-money-silver-platter-image3850867

 

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Comentários    ( 9 )

9 Responses to “Bandeja de Prata”

  • Ricardo Gorodovits

    19/11/2015 at 17:09

    Amir, obrigado, seus textos sempre valem a leitura e nos obrigam a pensar fora da caixa. Como na referência 2 você não mencionou, acho que vale agregar que o poema de Natan Alterman referencia a cerimônia de Pidion Haben, que por sua vez referencia a antiga prática de cada família cujo primeiro filho fosse do sexo masculino, de dedicá-lo ao serviço do Templo. Em tempo: há belíssima tradução do poema para o portugues, feita por Cecília Meireles (provavelmente a partir de uma versão em ingles).

    • Amir Szuster

      22/11/2015 at 01:41

      Ricardo, muito obrigado pelos elogios e pela referencia extra sobre a Bandeja de Prata.
      Aproveito para acrescentar que Bandeja de Prata em hebraico, também pode significar Bandeja de Dinheiro, como colocado na imagem de abertura do texto (meu colega Yair Mau me atentou para esse interessante jogo de palavras.
      Um abraco

  • Marcelo Starec

    19/11/2015 at 23:28

    Oi Amir,

    Bem, há vários motivos justos para algo assim ocorrer em Israel. Vamos aos principais: 1) Israel é um país muito pequeno e com um mercado também muito reduzido, o que torna na prática muito difícil evitar os oligopólios, por mera questão de “economias de escala”; 2) A impressão que tenho, considerando-se todo o desenvolvimento da economia israelense, é que as empresas sejam, via de regra, eficientes (e não o contrário); 3) Israel privatizou saindo de uma economia inteiramente estatizada, bem no estilo Rússia – Leste Europeu e a manutenção das empresas tal como eram antes (só que com maior eficiência, já que o modelo estatal faliu, quebrou) deve ter gerado naturalmente esse nível alto de concentração. Concluo que essa quase “teoria da conspiração” apresentada (e aqui falo meio em tom de brincadeira mesmo Amir, não de crítica ao texto…) não me preocupa – infelizmente, não faço parte nem ninguém da minha família faz parte desses “titãs”, mas conheço Israel o suficiente para saber que é um país com um nível de corrupção muito pequeno mesmo, uma justiça que de fato funciona e uma sociedade culta e extremamente exigente, que não aceitaria ser “explorada” por um grupo de “titãs” que mandassem no País. Assim sendo, creio que se deve sim estar sempre pensando naquilo que é o melhor para a sociedade – o primeiro modelo que Israel adotou (e alguns tem uma certa “nostalgia”, o da estatização total – esse foi um total fracasso e certamente a ele não quero retornar em hipótese alguma!!!), o segundo – adotado até hoje, é o domínio de empresas privadas e com grande concentração – pelo menos até o presente momento parece estar, via de regra, dando certo – e deverá estar sempre sob análise, no sentido de que o objetivo final das empresas tem de ser, de forma indireta, contribuir para o bem comum…e quando isso não acontece (e em geral hoje vem acontecendo – ou seja, a sociedade está sim se beneficiando do modelo adotado) aí deve-se propor os devidos ajustes.

    Muito interessante e original o seu texto Amir,

    Um abraço,

    Marcelo.

    • Amir Szuster

      22/11/2015 at 01:49

      Oi Marcelo,
      Obrigado pelo comentario, como sempre muito interessante.
      Eu acredito que Israel é uma economia desenvolvida em um país com instituicoes bem estabelecidas e democraticas. Mas o risco exposto no texto é real. Voce tem razao em relacao as economias de escala, mas existem mercados que sao concentrados em exagero por conta de mecanismos articificais.
      Por exemplo, o mercado de gás natural foi monopolizado nao por falta de interessados, e sim por protecao.(Isso esta gerando protestos muito grandes por aqui)
      As maiores empresas quase nao sao taxadas, e recebem ajuda do governo.
      E o mais incrivel, 40% das receitas do pais, estao concentradas em 19 familias.
      Um abraco

    • Amir Szuster

      22/11/2015 at 01:52

      Corrijo meu proprio comentario. Onde escrevi receita, quis dizer renda.

    • Marcelo Starec

      27/11/2015 at 22:52

      Oi Amir,
      Muito obrigado pelo elogio e pela resposta….Veja, não estou discordando de você…Entendo que de fato sempre que existir algum exagero ou distorção, cabe à sociedade reclamar e ao Estado dentro do possível atuar, pois entendo que sempre o objetivo final das empresas deve ser o de promover o bem comum…Só tenho um certo receio de alguns exageros que as vezes ocorrem quando estes dados são demonstrados…O que quero dizer é que nem sempre o melhor para a sociedade é provocar uma brutal concorrência e tampouco recorrer a um intervencionismo excessivo do Estado ou a uma estatização das empresas para o fim de promover “a justiça” (exemplos do mau uso desses instrumentos não faltam!..)….

      Abraço,

      Marcelo.

  • Mario S Nusbaum

    20/11/2015 at 17:49

    A manchete da primeira figura é dúbia, e tenho um palpite de que foi proposital. Dá a impressão de que os 2/3 pertencem a esses grupos, mas na verdade eles apenas os administram.

  • Mario S Nusbaum

    20/11/2015 at 18:00

    Relativo ao que eu disse acima: “Os quatro grandes bancos brasileiros de capital aberto – Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e BTG Pactual – concentram 71,85% de todo o volume administrado em fundos de investimentos no Brasil.No primeiro trimestre de 2015, essas quatro instituições arrecadaram juntas R$ 2,484 bilhões em receitas com a administração e a gestão do patrimônio de R$ 2 trilhões em recursos de terceiros.”

    • Amir Szuster

      22/11/2015 at 01:51

      Oi Mario,
      Obrigado pela participacao.
      De fato, o texto esta cheio de nuancias e inclusive jogos de palavras, como explicado na minha resposta ao comentario do Ricardo G.
      Esses grupos apenas administram esses 2/3. Mas fica o dado que coloquei para o Marcelo, tambem em resposta ao comentario dele, que 40% da renda do país está concentrada na mao de 19 familias.
      Um abraco,
      Amir

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