Barenboim vs Bauer

09/07/2017 | Uncategorized

Debate aberto entre o pianista e maestro Daniel Barenboim e o historiador israelense Yehuda Bauer. Tradução e comentários por Rafael Ellis Reuben e Yair Mau.

Não fosse o Holocausto, não haveria ocorrido a Nakba

Por Daniel Barenboim, publicado no jornal Haaretz em 8 de junho de 2017.

Daniel Barenboim é pianista e maestro mundialmente reconhecido. Nascido na Argentina, possui também cidadanias de Israel, da Autoridade Palestina e da Espanha. Juntamente com o acadêmico palestino Edward Said, criou em 1999 a West-Eastern Divan Orchestra – uma iniciativa que reúne todos os anos no verão jovens músicos israelenses, palestinos e de todo o mundo árabe para formar uma orquestra em Sevilha, promovendo o diálogo e o entendimento através da música. É conhecido também por desafiar o boicote da execução em Israel das obras de Richard Wagner, compositor alemão adotado por Hitler e pelo regime nazista.

Atualmente, a política internacional é dominada por questões como a União Europeia, a crise dos refugiados, a ameaça do isolacionismo americano, a guerra na Síria e a luta contra o extremismo islâmico. Durante décadas, a solução do conflito entre israelenses e palestinos estava no topo da lista de prioridades da política americana e européia. Contudo, depois de diversas tentativas fracassadas de se chegar a uma solução, parece que se instaurou um status quo. A opinião vigente—acompanhada de desconforto, mas também de falta de esperança e desilusão—é de que o conflito é insolúvel.

A tragédia neste ponto de vista cresce à medida que o conflito se exacerba e a situação dos palestinos se deteriora, e até mesmo o maior dos otimistas já não pode assumir que o atual governo dos EUA terá uma atitude racional para a solução do conflito. Neste ano e no próximo, lembraremos de duas datas especialmente tristes para os palestinos: em 2018 marcaremos os 70 anos da Nakba [desastre em árabe], quando foram expulsos mais de 700 mil palestinos do território que fora antes controlado pelo Mandato Britânico, como resultado direto da resolução da ONU da partilha da Palestina e da independência de Israel em 14 de maio de 1948. A Nakba ainda continua a acontecer nesse momento—mais de cinco milhões de descendentes diretos dos palestinos expulsos seguem em exílio forçado. Ontem, 10 de junho, marcamos os 50 anos da ocupação israelense dos Territórios Palestinos, uma situação insustentável tanto em termos práticos quanto morais. Até mesmo os que dizem que a Guerra dos Seis Dias, que acabou nesta data, era essencial para defender Israel, não podem negar que a ocupação e tudo que deriva dela é um desastre completo, não apenas para os palestinos, mas também para os israelenses.

Passaram-se 50 anos, e a resolução do conflito parece mais distante do que nunca. E apesar do assunto não ser “popular” hoje em dia, ele ainda é importante, e tem grande significado para as pessoas da Palestina, Israel, Oriente Médio e de todo o mundo. Portanto, com os 50 anos da ocupação, eu peço à Alemanha e à Europa que retornem a solução do conflito ao topo de sua lista de prioridades. Este não é um conflito político, mas um conflito entre duas nações, ambas convencidas de que tem direito exclusivo ao mesmo pequeno território. A Europa declara que deve ser hoje mais forte e mais independente. Tal posição a obriga a exigir também o fim da ocupação e a reconhecer o estado palestino.

Como judeu que mora em Berlim há 25 anos, eu tenho um ponto de vista especial com respeito à responsabilidade histórica da Alemanha neste conflito. A única coisa que me permite viver livremente e alegremente na Alemanha é o fato de que os alemães lidaram e lidam com seu passado. Até mesmo na Alemanha de hoje há tendências preocupantes vindas da extrema esquerda, e devemos lutar contra elas. Mesmo assim, a sociedade alemã, em sua grande maioria, tornou-se uma sociedade tolerante e livre, consciente de sua responsabilidade humanitária.

A Alemanha sempre sentiu uma obrigação especial à Israel, e com razão, e mantém com ela relações estáveis e fortes. Mas eu quero ir um passo adiante: A Alemanha deve também ter uma responsabilidade especial para com os palestinos. Não fosse o holocausto, não haveria sido tomada a decisão da partilha da Palestina, não haveria a Nakba, não haveria a guerra de 1967, e não haveria ocupação. Na verdade, esta responsabilidade não cai apenas nos ombros da Alemanha, mas também de toda a Europa, porque o antissemitismo era um fenômeno pan-europeu, e os palestinos seguem sofrendo das consequências diretas deste antissemitismo, apesar de eles não serem responsáveis por ele de forma alguma.

A Alemanha e a Europa devem reconhecer sua responsabilidade para com o povo palestino. Isto não quer dizer que elas devem tomar medidas contra Israel, mas sim, a favor dos palestinos. A ocupação não é aceitável, tanto moralmente quanto estrategicamente, e deve-se por um fim a ela. Até agora o mundo não fez nada significativo para trazer o seu fim, mas a Alemanha e a Europa devem exigir o fim da ocupação e o retorno às fronteiras de 1967. Deve-se promover a solução de dois estados, e para tanto deve-se finalmente reconhecer a Palestina como um Estado independente. Deve-se encontrar uma solução justa à crise dos refugiados. Deve-se reconhecer o direito de retorno dos palestinos, e efetivar tal direito em colaboração com Israel. Deve-se garantir a divisão justa dos recursos e garantir os direitos humanos e direitos civis básicos dos palestinos. A Europa deve garantir isso, especialmente agora, tendo-se em vista as mudanças que ocorrem na ordem mundial.

Hoje, 50 anos após 10 de junho de 1967, estamos distantes de uma solução do conflito entre israelenses e palestinos. Somente se a Alemanha e a Europa reconhecerem sua responsabilidade histórica e tomarem passos em prol dos palestinos, poderemos talvez evitar a manutenção do estado vigente, e a possibilidade de que em 50 anos marquemos os 100 anos da ocupação israelense dos Territórios Palestinos.

Carta aberta a Daniel Barenboim

Por Yehuda Bauer, publicado no jornal Haaretz em 17 de junho de 2017.

Yehuda Bauer é um historiador israelense reconhecido por sua especialização na pesquisa do Mandato Britânico na Palestina e do Holocausto. Nascido em Praga em 1926, imigrou para a Terra de Israel com sua família em 1939, onde foi membro do Palmach e lutou na Guerra de Independência em 1948, e posteriormente foi ativo no partido Mapam. Professor do Instituto para o Judaísmo Contemporâneo da Universidade Hebraica de Jerusalém, esteve associado ao longo da sua carreira acadêmica a instituições de peso como as universidades Yale e Brandeis, além do Yad Vashem. Foi agraciado em 1998 com o prestigioso Prêmio Israel de História do Povo Judeu, por sua contribuição com os estudos do Holocausto.

Escrevo-lhe em resposta a seu artigo (“Não fosse o Holocausto, não haveria ocorrido a Nakba”, Haaretz, 8.6), como um de seus numerosos admiradores, não apenas como maestro e pianista, mas também como homem de valores. Eu concordo com o senhor com grande frequência, contudo as opiniões expressadas em relação ao Holocausto carecem de fundamentos.

A Nakba, a tragédia palestina, resultou da disputa entre dois povos por um pequeno pedaço de propriedade imobiliária. Centenas de milhares de palestinos foram expatriados. Parte deles fugiu, como populações civis fogem em momentos de guerra; parte deles foi expulsa pelo lado judaico; parte deles partiu muito embora houvessem os judeus pedido que ficassem (em Tiberíades, em Haifa, em Jaffa); parte deles ficou, e seus descendentes compõem a atual minoria palestina de Israel, que luta por igualdade. A liderança árabe se recusou a estabelecer um estado árabe em parte da Terra, e lutou uma guerra-de-soma-zero para expulsar os judeus. Não há dúvidas que, houvessem vencido, teria ocorrido uma Nakba judaica muito mais grave, como ficou comprovado nos relativamente poucos casos em que foram conquistados assentamentos judaicos pelo outro lado (por exemplo, o kibutz Massada [no vale do Jordão], Shaar HaGolan, Gush Etzion, o bairro judaico da cidade velha de Jerusalém, entre outros). Qual a relação disso tudo com o Holocausto? Não há qualquer relação.

O senhor volta ao argumento, comum até mesmo entre judeus, que o Estado de Israel é resultado do Holocausto—mas não o é. O movimento sionista construiu a infraestrutura de uma entidade política judaica na Terra de Israel nas décadas que antecederam 1947–1948. Ela buscava propiciar a imigração de multidões de judeus, especialmente da Europa Oriental, onde eram econômica e nacionalmente perseguidos, enquanto que o resto do mundo estava fechado para eles. Por exemplo, uma significativa porcentagem dos 3,3 milhões de judeus da Polônia almejava imigrar para a Terra de Israel. O Holocausto foi um golpe para esse anseio, e eliminou a reserva humana em que se baseava o movimento sionista. Desse modo, extinguiu a possibilidade prática—assim parecia então—de estabelecer uma entidade política judaica na Terra de Israel. O fato de que ainda assim tal entidade veio a existir é que exige explicações. Contrariamente às suas palavras, a fórmula histórica é: mais Holocausto, menos Israel; menos Holocausto, mais Israel.

A maioria dos sobreviventes do Holocausto na Europa se concentrou entre 1945 e 1957 nos campos de deslocados na Alemanha, Áustria e Itália. Enquanto os britânicos controlavam a Terra de Israel, eles combateram as tentativas dos próprios sobreviventes e dos enviados da colônia judaica local de chegar aqui. Até o fim de 1948, e na prática até ao menos 1950, as portas dos Estados Unidos estavam fechadas a estes judeus. Como resultado do Holocausto, de fato os sobreviventes apoiaram amplamente o sionismo. A solução sionista parecia, aos seus olhos, com razão, como a única solução; eles não podiam ficar no cemitério das suas famílias. Sua presença nos campos de deslocados gerou uma pressão pesada sobre o mundo político para encontrar uma solução que possibilitasse sua absorção na Terra de Israel.

Desse ponto de vista, de fato houve influência do Holocausto sobre os desdobramentos, mas no sentido contrário ao que o senhor argumenta: a pressão não era do Holocausto, senão dos sobreviventes do Holocausto; ou seja, se houvessem sobrevivido menos judeus, a pressão seria pequena, e é incerto se Israel teria surgido. Contrariamente, se mais judeus houvessem sobrevivido, o estabelecimento de Israel teria sido muito mais fácil. Novamente: mais Holocausto, menos sionismo e menos Israel; menos Holocausto, mais sionismo e mais Israel.

Suas palavras aparentemente se baseiam também no argumento de que Israel surgiu devido ao sentimento de culpa do “mundo” pelo assassinato de judeus na guerra. Essa é uma lenda judaica—como se os influentes e abastados do mundo se houvessem lamentado pelo que ocorreu. Atualmente, temos acesso aos arquivos do período entre 1945–1948. O Reino Unido se opunha a um Estado judaico, e assim como ele, o Departamento de Estado dos Estados Unidos—que propôs ainda em março de 1948 (depois de aprovado o plano da Partilha em novembro de 1947) não dividir a terra, e sim estabelecer um protetorado anglo-americano que mantivesse a política do Livro Branco britânico de 1939, cujo princípio era entregar a terra, dentro de dez anos, à população árabe. O Holocausto e a sina dos judeus na guerra não tiveram relevância.

A única potência que mudou sua atitude em relação ao assunto foi a União Soviética, cujo representante na ONU, Andrei Gromyko, fez um discurso em apoio ao Estado judeu (14.5.1947), e até lembrou, em uma única frase isolada, o sofrimento dos judeus na Segunda Guerra Mundial. A mudança de posição da URSS resultou de sua vontade de repelir a Grã-Bretanha do Oriente Médio, por meio do apoio ao movimento sionista que estava em conflito com os britânicos. Os soviéticos não davam a mínima importância ao destino dos judeus.

Apenas os representantes da Guatemala e da Nicarágua se referiram, em certa medida, ao que hoje chamamos de Holocausto. Todos os demais Estados viram na decisão sobre o futuro da Terra de Israel um assunto político e prático. As questões morais eram para eles absolutamente secundárias. Ninguém, com exceção de representantes das duas pequenas nações já mencionadas, se referiu ao extermínio dos judeus na guerra, e certamente não apresentou nenhum sentimento de culpa. Não se falou no Holocausto, mas sim se discutiu o que fazer com os deslocados e como lidar com o conflito entre judeus e árabes na Terra de Israel. E por que sentiriam culpa? Não foram eles que exterminaram os judeus.

O povo alemão tem responsabilidade histórica por muitos crimes cometidos no período do Terceiro Reich, especialmente pelo mais extremo genocídio da história da humanidade—a Shoá. Ele não tem nenhuma responsabilidade pela Nakba, pois ela não foi causada pelo Holocausto, e sim pelo combate entre os dois povos pela Terra de Israel. É importante ressaltar isso repetidamente, e não permitir que tal deturpação histórica, que se presta à promoção de agendas políticas, continue a se propagar como se fosse verdade histórica. Infelizmente, não poucas iniciativas educacionais, que realizam encontros entre jovens israelenses, palestinos e alemães em Israel e na Alemanha, se baseiam nessa deturpação.

Quem gosta da música mas não entende dela, deve estudá-la para emitir uma opinião. Quem tem a memória do Holocausto fervendo dentro de si, mas ela não é a sua especialidade, deve aprender sobre ela.


Comentário nosso, Rafael Ellis Reuben e Yair Mau

A troca de ideias entre Barenboim e Bauer (e especialmente a resposta do último) ajudam a desmistificar a comum associação entre o Holocausto e as origens do conflito Israelo-palestino. Mas o que isso nos ensina?

Acho interessante perceber, antes de tudo, como surgiu o mito. Bauer explica de forma passageira que se trata de uma “lenda judaica” – como vários outros elementos da narrativa sionista, o Holocausto foi usado como explicação ou justificativa da necessidade do Estado de Israel. Daí que, nas décadas seguintes ao estabelecimento de Israel, líderes sionistas em Israel e na diáspora terem revisto os eventos de 1947–1948, incluindo a votação da proposta da Partilha da Palestina na ONU em 29.11.1947, como uma expressão de “culpa do mundo” pela inação em relação ao sofrimento dos judeus na guerra. Havendo lido a carta de Bauer, a explicação a partir dos verdadeiros interesses geopolíticos das potências no começo da Guerra Fria parece mais lógica e melhor fundamentada historicamente.

Ainda assim, está claro que esse mito persiste, tanto entre admiradores quanto entre detratores de Israel—cada lado usando-o para os seus fins: a narrativa sionista argumenta que o apoio internacional ao sionismo foi uma resposta tardia e insuficiente para o sofrimento dos judeus, incapaz de redimir a comunidade internacional por sua indiferença, enquanto a narrativa palestina acusa a comunidade internacional de tolerar os crimes cometidos contra os palestinos devido a esse mesmo “sentimento de culpa”, alguns até mesmo explicando a Nakba como fruto de um “trauma que transformou vítimas em perpetradores”.

A questão que fica é—em que medida é justificável utilizar e interpretar a história para fundamentar narrativas nacionais e demandas políticas, especialmente em se tratando de um episódio traumático como o Holocausto? Acho que podemos traçar a linha vermelha na honestidade histórica, e descartar usos que carecem de honestidade com a pesquisa histórica.

Mas isso é suficiente? Ou será que qualquer uso político de fatos históricos é automaticamente uma distorção?

Há usos políticos e aceitáveis para o Holocausto? Tanto a direita quando a esquerda israelense diriam que sim, pois desde sempre usam o Holocausto para promover suas agendas políticas: desde a manutenção e construção de colônias na Cisjordânia, passando pela questão nuclear iraniana, e até os processos de paz (ou a falta deles).

O que vocês acham?

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Comentários    ( 2 )

2 comentários para “Barenboim vs Bauer”

  • Fábio

    13/07/2017 at 17:45

    Caros:

    Antes de mais nada, é preciso corrigir o texto. Está “A maioria dos sobreviventes do Holocausto na Europa se concentrou entre 1945 e 1957”, presumo que o correto é 1947 e não 1957.

    Muito grato pela divulgação do texto, em especial, da resposta de Yehuda Bauer. Há mais o que dizer a respeito do assunto. Em resumo: um bom número de negacionistas do Holocausto, em especial, os simpatizantes pela causa palestina, são partidários dessa estratégia em razão de acreditar que questionando a real ocorrência do genocídio, abalam o argumento que teria concedido legitimidade moral e política a criação do Estado de Israel.

    O tema é extenso.

    Com um abraço, Fábio.

    • Yair Mau

      20/07/2017 at 11:28

      Olá Fábio,
      O original diz 1957 mesmo: “מרבית שורדי השואה באירופה התרכזו בין 1945 ל–1957 במחנות העקורים בגרמניה, באוסטריה ובאיטליה”

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