Beijo é arma

25/08/2014 | Cultura e Esporte.

Já falei sobre a relação entre ‘guerra e pão‘ e ‘paz, pagar e inteiro‘ nos artigos passados. Hoje é a vez de Beijo e Arma.

Ambas as palavras, beijo e arma, tem a mesma raiz de 3 letras: N-SH-K. Beijo se diz NeSHiKa (נְשִׁיקָה) e arma se diz NeSHeK (נֶשֶׁק).

Podemos inventar centenas de explicações do que o beijo representa, e por que às vezes ele pode ser tão perigoso como uma arma. O exercício pode até ser divertido, mas a ligação verdadeira destas palavras exige menos imaginação que o esperado.

O beijo

Tudo deriva do verbo NaSHaK, que significa ‘encostar’, ‘tocar’, ‘se encontrar’. Escrito desta forma, o verbo é usado para ações nas quais algo ou alguém faz a si mesmo, por exemplo: as ondas encostaram na praia (הגלים נשקו לחוף). Em sua forma super-ativa, o verbo hiSHiK tem o sentido de fazer com que outras coisas ou pessoas se encostem, por exemplo: eles fizeram os copos se encontrarem (הם השיקו כוסיות), ou em outras palavras, ‘eles brindaram tim tim’. O leitor atento deve ter percebido que em hiSHiK a primeira letra da raiz, o N, está faltando. Falarei mais a respeito depois.

De tocar, encostar, pode-se imaginar facilmente como o verbo possa ter ganhado o sentido de ‘beijar’. Uma das definições de NaSHaK no dicionário Even-Shoshan diz: “tocou e trouxe seus lábios perto de alguém ou algo em uma expressão de amor, amizade ou respeito, ou por um sentimento de grande atração.” Hoje, a forma mais usada para beijar é NiSHeK, e NaSHaK tem um sentido mais literário, poético e antigo.

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Propaganda da Benetton

Não faltam exemplos bíblicos de beijos, e eles vêem de vários jeitos. Quando Jacó encontra Raquel pela primeira vez, beijinho de amor (Gênesis 29:11, וַיִּשַּׁק יַעֲקֹב לְרָחֵל). Mais beijos quando Aarão encontra Moisés depois de um prolongado período sem se ver, desta vez de saudades (Êxodo 4:27, וַיֵּלֶךְ וַיִּפְגְּשֵׁהוּ בְּהַר הָאֱלֹהִים וַיִּשַּׁק לוֹ). Há também beijos controversos, como o que Jacó recebeu de seu irmão gêmeo e rival, Esaú (Gênesis 33:4, וַיָּרָץ עֵשָׂו לִקְרָאתוֹ וַיְחַבְּקֵהוּ, וַיִּפֹּל עַל-צַוָּארָו וַיִּשָּׁקֵהוּ; וַיִּבְכּוּ). Tem gente até hoje discutindo se este último beijo foi sincero ou não…

A primeira parte já está resolvida, falta agora entender o que ‘arma’ tem a ver com a história toda.

A arma

Hoje em dia a arma mais comum é a de fogo, e pode-se ferir alguém de uma grande distância. Contudo, em um mundo onde espadas, paus e facas tem um papel bélico central, é entendível como a ideia de ‘encostar’ possa ter emprestado uma de suas raízes (N-SH-K) para a criação da palavra ‘arma’.

Aliás, este processo não é exclusivo do hebraico. A palavra arma em português está ligada ao latim armus, que significava originalmente braço. Assim é que funciona, o abstrato sempre empresta ideias do concreto.

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Propaganda da Benetton

Voltando ao hebraico. A explicação de ‘proximidade’ e ‘contato’ faz sentido quando se explica a origem de NeSHeK (arma), mas como podemos ter certeza que não é apenas uma coincidência? Trago-lhes três evidências, duas muito boas e uma meia-boca. Todas as três pintam a figura que em hebraico antigo os conceitos de toque e violência estão bastante ligados.

Evidência 1, raiz K-R-V: ‘Perto’ se diz em hebraico KaRoV (קָרוֹב), enquanto que ‘batalha’ se diz KRaV (קְרָב). Este exemplo é tão bom para provar meu ponto que eu poderia parar por aqui, mas vamos adiante.

Evidência 2, raiz L-CH-M: ‘Soldar duas coisas junto’ se diz hiLCHiM (הִלְחִים), e ‘guerra’ é miLCHaMa (מִלְחָמָה). Mais uma vez, ‘encostar duas coisas’ e ‘violência’ estão ligadas. Eu ignorei completamente o verbo soldar (hiLCHiM) no artigo “Pão e guerra“, que tratava da raiz L-CH-M, porque simplesmente não cabia na história que eu então queria contar, mas este é um ótimo exemplo agora nesta história.

Evidência 3, do sábio do Talmud RaMBaN, cujo nome é Rabbi Moshe ben Nahman, também conhecido como Nahmanides. Na conhecida história da luta entre Jacó e um homem (anjo), depois da qual ganha o novo nome de Israel, o verbo ‘lutar’ aparece em Gênesis 32:25 com a raiz A-V-K (וַיֵּאָבֵק). Nahmanides discute de onde vem este verbo, dizendo que vayeAVeK (lutou) deve ser entendido como vayeCHaVeK (abraçou, ou clinch, como no boxe). Ele argumenta que é comum a letra Alef (A) ser trocada por Chet (CH), e traz diversos exemplos bíblicos para provar seu ponto. No hebraico de hoje em dia, uma palavra para luta é maAVaK (מַאֲבָק), enquanto que CHaVaK (חָבַק) é uma forma rebuscada de dizer ‘abraçar’. Conclusão: mais um exemplo onde violência (luta) e contato (abraço) estão ligados. Trouxe este exemplo porque quis dar a honra ao RaMBaN (que é isso, a honra é toda minha!), e se o leitor não está convencido e achou forçado, lembre-se das duas primeiras evidências, que certamente são convincentes.

Cadê o N?

Eu disse antes que a primeira letra da raiz N-SH-K desapareceu no verbo hiSHiK (הִשִּׁיק), ou ‘fazer duas coisas entrarem em contato’. A letra N é um tanto fraca quando é a primeira das três letras da raiz, e tende a ser deixada de lado. Isto acontece em vários outros casos. De N-F-L temos NaFaL (cair = נָפַל), mas ‘queda d’água’ se diz maPaL (מַפָּל). De N-G-Ayin temos NaG’A (encostar = נָגַע), mas ‘contato’ se diz maG’A (מַגָּע). Finalmente, de N-SH-K temos NaSHaK (encostou = נָשַׁק), mas ‘tangente’, ou aquilo que encosta em um ponto apenas, se diz maSHiK (מַשִּׁיק).

Nos três exemplos acima o N desapareceu, mas deixou evidências, podemos saber que falta algo! Quem prestar atenção na segunda letra das palavras que não tem N (maPaL, maG’A, maSHiK), verá que existe um pontinho dentro dela. O nome deste pontinho é Dagesh Chazak, e neste caso indica que o N foi embora, mas fez a próxima letra bastante mais forte. As consoantes P, G e SH nos exemplos acima deveriam ser mais longas e pesadas, mas no hebraico de hoje não se fala mais assim. Como soa uma consoante longa? Perguntem a algum amigo italiano a diferença entre pena (punição) e penna (de galinha), e poderão ouvir a diferença.

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Lieberman e Lapid se beijando, montagem do partido Meretz

Derivados

Só para não deixar pedra sobre pedra, listo abaixo algumas as palavras e expressões que tem a raiz N-SH-K, que é o tema deste artigo.

maSHiK (מַשִּׁיק) = tangente, em geometria.
hiSHiKu kosiot (הִשִּׁיקוּ כּוֹסִיּוֹת) = encostaram os copinhos, brindaram tim tim.
machalat haNeSHiKa (מַחֲלַת הַנְּשִׁיקָה) = literalmente ‘a doença do beijo’, ou mononucleose, que é transmitida pela saliva.
NeSHeK cham (נֶשֶׁק חַם) = literalmente arma quente, arma de fogo.
NeSHeK kar (נֶשֶׁק קַר) = literalmente arma fria, arma branca.
shvitat NeSHeK (שְׁבִיתַת נֶשֶׁק) = literalmente descanso de arma, armistício.
mimSHaK (מִמְשָׁק) ou miNSHaK (מִנְשָׁק) = interface em computação.
NeSHiKa (נְשִׁיקָה) = o doce suspiro.
NeSHiKa tzarfatit (נְשִׁיקָה צָרְפָתִית) = literalmente beijo francês, como é conhecido o beijo de língua.
NeSHiKa shvedit/amerikait (נְשִׁיקָה שְׁוֶדִית/אָמֶרִיקָאִית) = literalmente beijo sueco ou beijo americano, ou beijo apenas com os lábios.

Fontes:
Blog Mikra Revivim, Haaretz, blog Balashon. A argumentação detalhada de Nahmanides pode ser econtrada aqui, façam uma busca por “אבק”, e logo chegarão ao trecho relevante.

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