À beira do (fasc)(rac)(ab)ismo

27/12/2014 | Conflito; Opinião; Política

Como é do conhecimento geral, a situação política em Jerusalém não está das melhores. A tensão vem crescendo nos últimos meses, principalmente depois que um grupo de judeus religiosos vinha estimulando uma possível mudança no status quo da Esplanada das Mesquitas, local onde se encontra o Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa e onde era o Templo de Israel até a década de 70 do primeiro milênio.

Nos dois últimos meses, quase uma dezena de ataques terroristas aconteceram na cidade (também em Tel Aviv). A tentativa de assassinato do líder do movimento pela volta dos judeus à Esplanada das Mesquitas, atropelamentos em estações do bonde, esfaqueamentos nas ruas, chacina na sinagoga no bairro de Har Nof e, obviamente, o confronto da polícia com a população árabe de Jerusalém Oriental que vinha combatendo a entrada de novas famílias de colonos em seus bairros, como aconteceu em Silwan. A morte de um cidadão árabe que atacou com uma barra de ferro um carro da polícia com um tiro à queima roupa, gerou uma série de manifestações e confrontos entre a polícia e as populações árabes em algumas cidades do norte do país. Na última quinta feira um coquetel molotov foi jogado dentro de um carro de uma família judia nos territórios ocupados.

Houve burburinhos sobre uma nova Intifada, dessa vez religiosa, muito mais estimulada pelo governo israelense do que pelo governo palestino. Se por um lado Abu Mazen conclamou o povo palestino a lutar contra a mudança do status quo na Esplanada da Mesquitas, sendo acusado de incitamento, de outro, ministros israelenses diziam que os judeus também tinham direito de orar no local sagrado hoje controlado pelos muçulmanos. Diversos membros do gabinete israelense mantinham seu fanático discurso de chamar o presidente palestino de terrorista, indo de encontro à opinião de grande parte da comunidade internacional e, ultimamente, do chefe do serviço interno de segurança, o Shin Bet, que afirmou que Abu Mazen não estimula o terrorismo.

Na onda de violência, Benjamin Netanyahu fez um discurso dizendo à população árabe israelense também são cidadãos do país e, como qualquer judeu, também têm direitos e deveres. A violência não seria tolerada.

Os atentados que ocorreram em Jerusalém recentemente, foram realizados por habitantes de Jerusalém oriental, a parte da cidade ocupada por Israel após derrotar o exército jordaniano que ocupava a região até 1967. Desde então, construiu-se o discurso de unificação da cidade, mas basta um rápido passeio pelos bairros em questão para perceber que essa unificação é fictícia.

A principal resposta do governo aos atentados ocorridos é a destruição das casas dos terroristas que cometeram os crimes. Essa é uma prática que já vem sendo aplicada nos territórios ocupados há anos apesar das diversas críticas da comunidade internacional e dos debates apontarem ser completamente ineficaz tal prática. Em geral os terroristas morrem após os atentados, então as principais vítimas das demolições são suas famílias, esposas, filhos, pais. Obviamente isso não é um ato educativo e sim, vingança, punição coletiva..

Acompanhei muitas vezes o debate de que dentro de Israel isso não acontecia. Essa prática se aplicava ao estado de exceção da ocupação israelense. Porém chegamos ao abismo agora.

As casas de todos os terroristas de Jerusalém oriental foram sido destruídas a mando do governo israelense. O próprio primeiro-ministro dá a ordem para a demolição. Árabes israelenses, terroristas, têm suas casas destruídas após o atentado.

E os judeus israelenses terroristas? Antes do início da última guerra com o Hamas, quando os corpos dos três jovens colonos foram encontrados, um grupo de judeus sequestrou e incendiou um jovem árabe de um bairro de Jerusalém oriental, Shoafat. Primeiro surgiram boatos que diziam que ele havia sido morto por outros árabes por ser homossexual, mas em poucos dias isso se mostrou mentira e os jovens foram presos. As casas dos terroristas judeus foram destruídas? Não. Suas famílias continuam vivendo em suas residências. Não há uma política de punição coletiva ou uma suposta justiça com a demolição das casas.

Podemos acrescentar o recente atentado ao colégio bilíngue árabe-israelense em Jerusalém. Os terroristas presos fazem parte de uma organização de extrema direita.

Bibi, não minta. Não podemos ter dois pesos e duas medidas em Israel e nem nos territórios ocupados. Não são cidadãos com os mesmos direitos e nem com os mesmos deveres. Aqui, como em quase todo o mundo, os direitos e deveres não são iguais para todos, mesmo que leis afirmem garantir essa equidade.

O governo liderado por Benjamin Netanyahu com grande influência do movimento de colonos, estava destruindo de vez o sionismo ao transformá-lo, realmente, em uma política racista e discriminatória.. É fundamental que refundemos o sionismo. Que sejamos capazes de construir um Estado que inclua e não exclua nem discrimine. Um Estado que seja capaz de entender diferentes perspectivas históricas como base fundamental para a inclusão de todos os seus cidadãos.

 

Comentários    ( 12 )

12 comentários para “À beira do (fasc)(rac)(ab)ismo”

  • Marcelo Starec

    27/12/2014 at 22:04

    Oi Marcos,
    Embora seu artigo trate de um tema muito relevante e seja muito interessante, tenho um ponto fundamental para discordar dele. Entendo ser correta e justa (e não uma “punição coletiva”!) a destruição da casa da família do terrorista. Em meu entender, independente deste ser árabe, judeu ou, enfim, qualquer um…Acho justo!…O governo começou agora com a medida, portanto não poderia aplicar ela retroativa, mas de agora em diante, ainda que o primeiro tenha sido um árabe – se um judeu fizer o mesmo – matar pessoas rezando à machadadas ou algo similar, tem de sofrer essa mesma sanção…Se isso não ocorrer, aí sim eu serei obrigado a concordar contigo…mas é um absurdo que um muçulmano mate pessoas que estavam rezando, a machadadas e facadas, morra na ação e tenha a sua família o direito a ficar bem e ainda receber (como é comum e frequente entre os islâmicos fundamentalistas!), gordos auxílios financeiros para compensar o “martírio” de um filho e nenhum tipo de punição, como sempre ocorreu!…Esse ato precisa ser punido com a perda da casa e isso tem como objetivo desestimular o frequente apoio das famílias muçulmanas fundamentalistas àqueles que cometem atos do gênero, o que infelizmente acontece muito!…Tenho pena, isso sim, de todos aqueles que nada fizeram de errado e morreram a machadadas por nada, nada mesmo, além do policial árabe (druzo), que foi um herói e deu a sua vida para evitar muito mais mortes!….
    Abraço,
    Marcelo.

  • Otávio Zalewski

    27/12/2014 at 23:46

    Boa Tarde, Marcos. Eu me considero sionista, mas não compartilho e não acho que para ser sionista seja necessário ser frouxo em relação aos atentados terroristas e a esta nova política dos árabes “palestinos” referendada por seu líder na Cisjordânia e em Gaza. E é necessário que a família dos terroristas sejam pressionadas e o resto da população árabe se sintam ameaçados. Já vimos o que resultou a política frouxa de ceder territórios em troca de uma futura paz. E não considero assentamentos e sim colônias dentro da terra que por direito pertence a nós judeus.
    Abraço fraterno, Otávio.

  • Mario Silvio

    28/12/2014 at 00:20

    Tive que ler três vezes esse texto para finalmente me convencer de que não se tratava da imprensa ofical do hamas, de um post do Abbas ou de um artigo do Haaretz!!!!!! ” “muito mais estimulada pelo governo israelense do que pelo governo palestino.”

    Como é que é????????????

    Deixemos Israel e o santo abbas de lado por um momento, pode ser? Vamos imaginar que fulano e beltrano considerem um certo local sagrado, ok? SÓ QUE fulano aceita os dois rezarem lá e beltrano, que você tanto admira, quer exclusividade. E?

  • Dani Lindenbaum

    28/12/2014 at 15:19

    E a esquerda no início do Estado judeu, quando não aceitava trabalhadores árabes nos Kibutzim?..nem nas fábricas?..Golda Meir disse que não existe o povo palestino. Será o Sionismo , seja de Direita ou esquerda, um movimento racista ou no mínimo descriminatório?..

    • Raul Gottlieb

      30/12/2014 at 11:04

      Sim, Dani. Não aceitavam membros árabes nos kibutzim, mas como os kibutzim eram de esquerda, eles não eram racistas, eram alguma outra coisa ainda a ser engenhosamente definida.

      Você apontou certeiramente para o padrão duplo do discurso da esquerda.

      Parabéns! E obrigado.

  • Raul Gottlieb

    28/12/2014 at 16:16

    Enquanto isto um palestino pede permissão para discordar. Leiam, pois vale a pena:

    http://www.gatestoneinstitute.org/4991/palestinians-enemy-europe

  • Daniel Cohen

    04/01/2015 at 00:39

    Ótimo texto. Melhor ainda o título.

    Marcelo Starec,
    Não entendo como pessoas podem achar educativo ou justo, que um Estado destrua a casa de alguém que não cometeu nenhum crime. Os números de atentados terroristas não se reduziram com a medida, certamente educativo não está sendo, punitivo com certeza, justo.. será?

    Por que a mãe / mulher / filhos de alguém que cometeu um atentado terrorista é mais culpada (os), a ponto de ter seu domicílio destruído (parece até banal essa medida.. parece que não dói e não pode significar uma vida inteira de trabalho para conquistar um teto para uma família) que os familiares de alguém que cometeu estupro, assassinato, tráfico humano, pedofilia, etc..? Por que um grupo de familiares é mais criminoso a ponto de serem punidas?

    Outra questão que me chamou atenção no seu comentário foi o seguinte trecho:
    “O governo começou agora com a medida, portanto não poderia aplicar ela retroativa, mas de agora em diante, ainda que o primeiro tenha sido um árabe – se um judeu fizer o mesmo – matar pessoas rezando à machadadas ou algo similar, tem de sofrer essa mesma sanção…Se isso não ocorrer, aí sim eu serei obrigado a concordar contigo…”
    Não sei precisar quando e qual a legitimidade jurídica que o governo israelense tem pra fazer isso, mas duas coisas são certas, não foi ontem que ele começou com esta medida, assim como não foi ontem que ocorreu o primeiro atentado terrorista judaico no atual Estado de Israel, isso ocorre a anos.
    Seu discurso me parece cego de amor, trás equívocos históricos e parcialidade.

    Abrs

    • Marcelo Starec

      04/01/2015 at 01:53

      Caro Daniel,

      Entendo as suas colocações. Sobre os fatos em questão, acredito ser pertinente lembrarmos de alguns aspectos que sempre, ou quase sempre, ocorrem em casos assim – muçulmanos jovens cometem atos brutais e desumanos, se propõem a matar até a morte e o fazem, de fato. O pior de tudo isso, em meu entender, é a família ir a mídia (como quase sempre ocorre!) e dizer ao mundo – tenho muito orgulho do que o meu filho fez, foi um verdadeiro herói !…E como se isso ainda não bastasse, organizações extremistas islâmicas recompensam (e isso abertamente!) as famílias pelo “martírio” do filho – ou seja, nenhuma punição e ainda uma recompensa financeira e moral. Assim o que ocorre, na prática?…Nenhuma punição e ainda gordos benefícios à família do terrorista. Por isso Daniel, em meu entender, torna-se necessário encontrar um modo que efetivamente puna e desestimule tais atos! E veja: essa lei foi inventada pelos próprios países árabes, por algum motivo (que acredito tenha sido esse que eu descrevi), para combater o terrorismo islâmico. Eu jamais seria dessa opinião se os familiares fossem a mídia e dissessem ter vergonha do que o filho fez. Infelizmente eu nunca vi na prática um único caso (até gostaria muito de estar errado! E mesmo que tenha havido algum, é fato que se trataria de uma honrosa exceção)…No que diz respeito a legislação, infelizmente não tenho conhecimento suficiente para te responder…Por fim, não acho que a sua visão esteja incorreta, porém entendo que algo de novo precisa ser feito, pois do modo como ficaria esse caso, sem a destruição da casa, em minha opinião, deixaria algo injusto que poderia servir de estimulo a novos atos terroristas do gênero. Acho que esse tema merece ser melhor discutido mas entendo que quem faz um ato assim, já que deseja morrer e não dá valor a sua própria vida mas preza os seus pais, então tem de se encontrar algum modo efetivo de desestimular que tais atos sejam perpetrados, não sei se essa punição (destruir a casa) serve ou não a esse propósito e deixo aqui a mesma dúvida que você colocou ” justo.. será? “…No mais, sim, assumo que a minha visão é parcial e sinceramente não creio na imparcialidade, mas na tolerância (convívio e discussão de ideias diferentes)…Acho que esse assunto é de fato de extrema complexidade e eu, com toda a sinceridade, não me sinto capaz de dar uma resposta definitiva a uma questão tão complicada. Adoraria podermos discutir muito mais esse tema!…..
      Abraço,

    • Mario Silvio

      04/01/2015 at 14:42

      Não conheço a lei israelense Marcelo, mas imagino que haja uma lei parecida com esta brasileira: Art. 287 – Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime:
      Pena – detenção, de três a seis meses, ou multa.
      Devido à situação do país a pena deveria ser MUITO maior e resolveria o problema.

    • Raul Gottlieb

      05/01/2015 at 16:17

      Não tenho certeza, mas creio que a casa só é destruída se ficar provado que a família participou ou incentivou o ato do criminoso.

      Na semana passada eu li uma notinha dizendo que a família de um fulano não havia participado no crime dele então a casa deles não seria destruída.

      De todas as formas, a destruição da casa da família me parece ser uma tremenda injustiça. Urge encontrar um meio mais inteligente para tratar com os terroristas e suas famílias.

  • Daniel Cohen

    06/01/2015 at 01:39

    Me apoio na vertente colocada pelo Mario, acho que é o caminho mais civilizado e correto de se punir alguém por um crime. Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime. Detenção ou multa.

    Porém, nos discursos, dois pontos ainda me chamam a atenção:

    1) a tendência contínua em amenizar os “nossos” erros e potencializar os dos “outros”. O Governo israelense impõe uma medida punitiva desumana como essa, temos atos terroristas judaicos fora as consequências sociais que culminam estas medidas e o que mais vejo aqui são apontamentos a jovens muçulmanos. Não eximo nenhum terrorista de seus atos, tampouco quem faz apologia e educa para a violência. Porém acho que se queremos atitudes diferentes de alguém, temos de ser exemplo, bons exemplos e auto-crítica é fundamental para alcançar tal objetivo. Nos falta auto-crítica.

    2) o que gera estes atos terroristas, e os pontos nos quais nos compete atuar, não foram tocados em nenhum momento. esse é o tipo de discussão que nos leva a soluções de médio e longo prazo, porém soluções para um conflito, não retalhos, como destruir casas ou prender um terrorista.

    Abrs

  • Erick M. R.

    27/02/2015 at 18:10

    Sou Gentio, não Judeu!, mais creio no Mesmo D’us, e sigo as leis de Moises, e todas as determinações da Torah em respeito aos Gentios, pois procuro ter uma Intimidade com o Criador e quero estar preparado para Era Messianica. Quando Leio sobre Judeus falando sobre Israel e sobre o Judaismo, e sobre a terra que o próprio D’us os deu, observo o Extremo Egoismo do Judeu em relação à Terra prometida e ao próprio D’us como sua total propriedade! Eu tenho medo de vocês! Me pergunto se como Gentio não seria hostilizado se tentasse orar no muro das lamentações ou nos lugares sagrados dos judeus, mas principalmente do Criador, pois tudo mesmo que seja prometido à alguém, não é do Criador? Me pergunto se para vocês tenho direito à salvação, ou em que parte do plano humano eu me encaixo, se o discurso Judaico é que foi prometido e dado aos judeus são de Sua inteira propriedade!. Eu tenho uma Casa, ninguém me tira ela, pois é minha! e duvido que D’us me tiraria pois sou Justo e caminho em integridade, me pergunto, com D’us ao meu lado quem me tirará? Se entrar um intruso em minha casa e não sai ou á governa por anos, é por que algo eu fiz para o tal! D’us é Justo!. Sou Gentio e tenho orgulho de ser, ainda bem que não nasci Judeu, por que não quero algo para mim, quero um Bem para todos… Quero ser mais Parecido com D’us, por que ele me formou Gentio, e não existe só um mundo para mim ( no mundo vindouro ) Existe agora, também!…

Você é humano? *