A bela vida espiritual paga com os impostos da difícil vida material

Ao longo dos últimos meses, as polêmicas, porém intocáveis, figuras dos rabinos-chefes ficaram em evidência na imprensa israelense.

Chegava ao fim o mandato (de dez longos anos) dos dois rabinos-chefes nacionais: O Rabino Chefe Ashkenazi Yona Metzger e o Rabino Chefe Sefaradi, Shlomo Amar.

Após meses de negociações que envolveram principalmente os partidos Shas (ortodoxo sefaradi) e HaBait HaYehudi (nacional-religioso, principal interessado na eleição do rabino-chefe ashkenazi), mas também o Likud (do primeiro-ministro Netanyahu) e o Yesh Atid (de Yair Lapid, defensor de bandeiras ligadas à separação entre religião e Estado), foi eleito um colégio eleitoral de “150 homens notáveis” (as mulheres são excluídas do processo, que reúne rabinos-chefes municipais, deputados e figuras da sociedade civil).

Este colégio eleitoral, na prática, apenas referendou a decisão fisiológica e nepotista anteriormente acertada entre os líderes políticos: um banho de água fria nas correntes ortodoxas progressistas, engajadas na candidatura do rabino-chefe da cidade de Shoam, David Staiv, um rabino sionista, que serviu e mandou seus filhos às unidades de combate do exército. Foram eleitos para um mandato que só terminará em 2023 os ultra-ortodoxos Yitzhak Yosef (filho do Rishon LeTzion, Ovadia Yosef, rabino-chefe sefaradi entre 1973 e 1983) e David Lau (filho de Israel Meir Lau, rabino-chefe ashkenazi entre 1993 e 2003).

Os rabinos eleitos nem sequer fizeram as provas exigidas dos candidatos à vaga. Eles foram nomeados pelos próprios pais sem mais exigências. A halachá permite esta eleição baseada apenas na percepção do nomeante de que o nomeado possui as condições necessárias para o exercício da função. O que vemos acontecer em Israel hoje é a criação de um ente estatal governado através de técnicas totalitárias e absolutistas.

Toda esta questão movimentou o país em torno dos cargos de Rabino-Chefe como função comissionada pelo Estado. Em recente investigação realizada pelo jornal Haaretz, foi revelado mais uma face da delicada questão da relação entre o Estado e Religião que ocorre em Israel.

Como ficou comprovado na matéria assinada pelo jornalista Yair Ettinger, rabinos chefes de municipalidades em Israel estão recebendo salários milionários.

O salário não possui relação com o tamanho da comunidade que representam – há rabinos chefes que “representam” apenas duas mil pessoas. Há rabinos chefes que representam trinta e cinco mil pessoas. O verbo “representar” vai assim mesmo, com aspas, pois não é claro quantos destes habitantes sentem que são representdos por ele ou são contemplados com os serviços oferecidos pelo rabinato municipal, pago com o dinheiro de impostos de todos os cidadãos.

Observem que para ocupar o cargo, é necessário que se receba uma nomeação direta do governo, prostituindo de vez a relação entre autoridades religiosas e autoridades políticas.

Note que em algumas dessas comunidades não há Chevra Kadisha (sociedade funerária) e não são emitidos certificados de kashrut. Alguns desses rabinos têm pouquíssima atividade para documentar em seus relatórios oficiais, e ainda assim ganham um salário astronômico.

Alguns dos rabinos chefes municipais ainda conseguem arrumar tempo para um salário adicional advindos de institutos (Yeshivot) que gerenciam. Isso sem falar no pagamento extra – apontado pela Controladoria do Estado em seu relatório mais recente: a de que muitos destes rabinos chefes receberam pagamentos (não contabilizados) para a realização de casamentos.

Os números com os valores abaixo foram retirados do site do Ministério de Serviços Religiosos.

Israel - ConexaoIsrael - rabinato

Nos últimos 53 anos o rabino Meshumer Tzubri, rabino chefe de Gan Yavne (cerca de 22 mil moradores), liderou a lista dos maiores salários recebidos por uma autoridade religiosa no país. De acordo com o relatório financeiro de seu conselho religioso o seu salário é de ₪928.843 Shkalim por ano, equivalente a R$598.280 reais. Ele é seguido pelo rabino Yehuda Stern do município de Elkana (cerca de 3,8 mil moradores) que recebe ₪765.377 Shkalim anuais equivalente a R$472.106 reais, e logo depois há o rabino David Abuhatzeira de Yavneh (33.000 habitantes), com ₪724.343 Shkalim anuais equivalente a R$466.628 reais.

Em comunidades como Rosh Pina, Elyachin, etc…, o salário dos rabinos é claramente inflado se fizermos uma análise da atividade real que realizam (kashrut, enterros, registro de casamentos…) – em outras palavras: estão ganhando muito dinheiro para trabalhar muito pouco.

 É importante notar que o cargo de rabino chefe municipal ou comunitário é vitalício. O Rabinos-Chefe continuará o seu “trabalho” mesmo após a sua aposentadoria. Hoje em Israel cerca de sessenta por cento dos rabinos-chefes já possuemm mais de 75 anos.

Finalizo este texto com as palavras de Dov Halbertal, um professor de lei judaica que serviu no passado como o chefe do gabinete do rabino chefe de Israel e faz uma crítica ao atual Estado Judeu e a relação entre religião e Estado:

“A única solução possível, para o benefício da religião e para o benefício do Estado, é adotar a Primeira Emenda da Constituição dos EUA – a separação completa entre o Estado e a religião.

Eu não acredito que alguém tenha que pagar por minhas crenças. Não é ético que os seculares financiem estudantes de yeshiva e a elevada taxa de natalidade entre os ultra-ortodoxos. Não há nada que irrite mais os israelenses seculares do que sentirem um cuspe em sua cara após terem dado ao ultra-ortodoxo uma quantia generosa de dinheiro. Os ultra-ortodoxos se opõem aos valores de uma sociedade secular, ao sionismo, a criatividade, o recrutamento ao exército, a igualdade sexual e muito mais. No entanto, eles não têm escrúpulos em exigir e receber dinheiro desta mesma sociedade, intensificando assim a animosidade do público em relação a eles.”

 Eu assino embaixo.

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Comentários    ( 14 )

14 Responses to “A bela vida espiritual paga com os impostos da difícil vida material”

  • marcelo

    18/09/2013 at 20:11

    não tem mto o q discutir, esse é o meior absurdo de Israel.

  • Almeida

    18/09/2013 at 21:44

    Marcelo,como já é do seu conhecimento,tem charedim que não aceitam dinheiro do governo.
    Uma minoria vc vai responder,prefiro nem entrar nesse merito no momento.
    Vim aqui apenas para comentar – Por que não viramos rabinos ?

  • Yair Mau

    18/09/2013 at 23:09

    Belíssimo texto, parabéns! É exatamente esse tipo de sujeira que tanto afasta o judeu laico da religião, pelo menos em Israel. A religião judaica como um todo fica manchada com absurdos como os que você expôs no texto. Deve-se notar que essa é a ponta do iceberg. Dezenas de outros textos poderiam ser escritos (e serão!) sobre kashrut, proselitismo no exército, misoginia apoiada pelo estado, etc.
    Existe em Israel, de fato, uma casta de sacerdotes, que é não menos corrupta que aquela que havia na época do Segundo Templo. Que Deus nos acuda.

  • Doris Barg

    18/09/2013 at 23:28

    Marcelao obrigada pelo texto q além de mto bem escrito, explicado, está apontando com embasamento fatos e dados q precisam mesmo serem expostos e conscientizados. Vou compartilhar. Parabens!

  • Leonardo

    20/09/2013 at 13:12

    Vai morar no Brasil então, lá o estado e religião são separados e a política é bem melhor. Afinal o problema é a religião e não a política, né?

    • Mario Silvio

      20/09/2013 at 18:06

      O problema é a mistura dos dois Leonardo, que nunca deve acontecer. Palavras de um patrício nosso: “Dê a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”

  • Raul Gottlieb

    22/09/2013 at 01:02

    Almeida, é justo usar dinheiro de impostos recolhidos de todos os cidadãos para patrocinar serviços religiosos promovidos por uma facção do espectro religioso da nação?

    Leonardo, o teu comentário é muito interessante por que mostra com precisão a profundidade do pensamento dos que defendem que o Estado patrocine o Rabinato em Israel e sua endêmica corrupção. Muito obrigado por compartilhar.

  • Israel

    22/09/2013 at 20:22

    ISTO E UMA VERGONHA,sem palavras.

  • Zandro

    06/10/2013 at 17:21

    Não é só absurdo, é leviano e inescrupuloso. Parecem até políticos brasileiros.
    Que vergonha esses “rabinos”.

  • Guilherme Engelender

    26/12/2013 at 15:40

    Sinto dizer mas, se o Estado não é laico, não é nenhum absurdo. Somente o montante pode ser questionado.

    Se Rabino Chefe é cargo público, se há um Ministério para Serviços Religiosos, claramente os impostos devem financiar tais atividades.

    A questão é principiológica. A consequência (salários estratosféricos) é política.

  • Henrique Moscovich

    19/03/2014 at 04:05

    A comunidade que quiser rabino chefe que se cotize e pague!
    Nenhum rabino Haredim me representa em nenhuma parte do mundo..