Bem me Kerry, mal me Kerry*

09/02/2014 | Conflito; Política

Desde que o presidente dos EUA, Barack Obama, nomeou John Kerry como Secretário de Estado, a sociedade israelense discute em média uma polêmica a cada dois dias. Kerry, aparentemente, assumiu o cargo disposto a trocar o papel dos EUA de intermediário a catalizador do processo de paz entre israelenses e palestinos. De forma distinta de sua antecessora, Hilary Clinton, e do primeiro emissário nomeado por Obama, George Mitchell, o atual ministro do exterior, em um espaço curto de tempo, visitou a região diversas vezes, pressionou o primeiro ministro Netanyahu e o líder da Autoridade Palestina (AP) Mahmmoud Abbas a retornarem às negociações, e forçou a barra para que os dois governos tomassem posturas polêmicas, causando reações da sociedade e, principalmente, de segmentos mais linha dura do governo israelense. A grande pergunta a ser feita é: até que ponto o governo israelense, a AP e outras supostas influências compartilham da mesma vontade de Kerry?

Sou testemunha de que Kerry realmente está se esforçando: o Secretário de Estado já me fez esperá-lo passar por duas vezes até que viesse escoltado com seus mais de dez veículos, uma delas entre Guilo (bairro judaico em Jerusalém Oriental) e Belém e outra na Estrada 1 (que liga Jerusalém a Tel-Aviv). No último mês, seu nome foi visto nas capas de jornais e nas principais notícias dos maiores sites informativos israelenses, e sua foto aparecia nos telejornais quase todos os dias. Quase não se escuta nem lê mais o nome do Presidente dos EUA envolvido com o caso. Kerry assumiu o protagonismo da novela, mas para alguns ele vêm sendo uma verdadeira pedra no sapato.

Na semana passada, o jornalista Thomas Freedman, do diário norte-americano The New York Times, revelou a existência de um “Plano Kerry” para a solução do conflito. Este suposto plano causou forte repercussão na mídia israelense e provocou um terremoto no governo de Netanyahu. O plano não continha nada de novo, sendo inclusive muito parecido com a Iniciativa de Genebra: Criação de um Estado Palestino com base nas fronteiras de 1967; Jerusalém dividida, cada metade como capital de um Estado; a anexação de 80% dos assentamentos judaicos por Israel em troca de terras desabitadas próximas à linha verde; um Estado palestino desmilitarizado, mas com uma polícia comprometida com a contenção do terror e contando com tropas da OTAN em seu auxílio; o reconhecimento dos dois lados, de que a Palestina é o Estado nacional do povo palestino, e que Israel é o Estado nacional do povo judeu; e indenizações aos refugiados palestinos e aos judeus expulsos dos países árabes. Dois pontos levantados por Kerry, no entanto, são novos: a permanência de parte dos colonos israelenses na Palestina, que seriam convertidos a uma minoria judaica no Estado a ser criado; e um prazo de três anos para que todas as exigências sejam cumpridas após a assinatura do acordo.

Duas reações me surpreenderam: a não reação de nenhum elemento do governo à divisão de Jerusalém (até agora) e a aceitação de Netanyahu à existência de uma minoria judaica na Palestina. Era previsível, entretanto, que o líder do partido “HaBait HaYehudi” e Ministro da Economia e das Religiões, Naftali Bennet, reagisse. A quase tudo, diga-se de passagem. Assumindo o papel de “radical de direita do governo”[ref]Antiga referência neste papel, o Ministro das Relações Exteriores e líder do partido Israel Beiteynu, Avigdor Liebermann, saiu dos holofotes após acusações de corrupção, adotando uma postura mais reservada.[/ref], Bennet não faz o tipo que se dobra facilmente. À diferença de Liebermann e dos radicais do Likud, o Ministro da Economia não baseia seus argumentos somente na segurança nacional, mas principalmente em doutrinas religiosas. Bennet pertence a uma corrente nacionalista-religiosa (ou sionista-religiosa), oriúnda do primeiro movimento sionista ortodoxo. O partido posiciona-se contrário à criação de um Estado Palestino na Terra de Israel, alegando ser o povo judeu o dono deste território por direito, utilizando o Tanach[ref]Bíblia hebraica[/ref] como referência, e chegou a propor um plano de anexação dos territórios C da Cirjordânia por Israel.

Naftali Bennet
Naftali Bennet

Não só Netanyahu escutou críticas de Bennet. Nesta segunda-feira (03/fev), a atacada pelo ministro da economia foi a ministra da justiça e negociadora oficial do governo, Tzipi Livni. A líder do partido HaTnua foi repreendida por Bennet após, em uma discussão com o negociador palestino Saeb Erekat, ter respondido que ambos não deveriam atrelar-se a questões de narrativa sobre o passado, mas sim olhar para o futuro e aproveitar a oportunidade de chegar a um acordo[ref]Erekat afirmou: “Nós (os palestinos) estamos aqui há bem mais tempo que vocês”.[/ref]. Naftali Bennet afirmou que Livni não poderia dar este tipo de resposta como membro do governo: “Narrativa? 2000 anos de nostalgia são narrativa? O Tanach é uma narrativa? Jerusalém é uma narrativa? Os dois Templos Sagrados são narrativas? Narrativa para quem busca as raizes do nosso fracasso nas últimas décadas – fracasso, pois eles falam em justiça e nós em narrativa. Desta forma eu farei o que a Ministra da Justiça, que deveria representar o povo judeu, não fez: a Terra de Israel foi recebida pelos nossos ancestrais há 3800 anos. No mesmo Tanach que acreditam muçulmanos, cristãos e judeus, está escrito: ‘vão para esta terra’. (…) A Terra de Israel pertencia ao povo judeu milhares de anos antes de os palestinos entrarem neste mundo.” Livni não respondeu. A crise entre os dois não é novidade: desde que Kerry (sim, novamente ele) começou a intermediar as negociações, os dois se estranham. A libertação de prisioneiros palestinos em troca da volta das negociações foi o suficiente para que toda a bancada do HaBait HaYehudit atacasse a Livni.

Naftali Bennet não é o único político a participar de polêmicas. O Ministro da Defesa israelense, Moshe Ayalon (Likud) foi mais um a envolver-se com Kerry: Ayalon afirmou que os palestinos não desejam paz e que o que os israelenses deveriam fazer é deixar o tempo passar até que o secretário de Estado norte-americano recebesse o Prêmio Nobel da Paz, pois era tudo o que ele desejava. O Departamento de Estado dos EUA e a Casa Branca reagiram de imediato. Ayalon foi obrigado a desculpar-se, mas seus ataques ao plano de Kerry não cessaram.

A última polêmica não tumultuou somente o governo, como também as relações entre Israel e os EUA. Determinados membros do governo (Ayalon, por exemplo) deixaram claro que com ou sem acordo Israel seguirá seu bom caminho normalmente. John Kerry compreendeu estas declarações como um certo menosprezo às suas tentativas e afirmou que, caso o acordo não prossiga, será difícil evitar um boicote internacional a Israel. Foi a senha para a bomba estourar[ref]Como vocês puderam ler no artigo do Claudio Daylac, o boicote não é algo desconhecido pela sociedade israelense. Desta vez, no entanto, a ameaça vem dos maiores aliados de Israel: os EUA[/ref]! Boa parte da bancada do Likud, liderados pelo próprio Primeiro Ministro e pelo Ministro de Assuntos Estratégicos Yuval Steinitz, atacaram o discurso de Kerry. Netanyahu afirmou que o boicote não seria nem justo nem viável. Steinitz recomendou a Kerry pensar antes de discursar. Yair Lapid, Ministro das Finanças e líder do partido Yesh Atid, afirmou que não cortará os incentivos às colônias[ref]Deve-se frizar, no entanto, que Lapid também disse que o fim do conflito é urgente para Israel, pois o país não resistirá por muito tempo na situação atual.[/ref]. Alguns membros dos partidos HaBait HaYehudi e Israel Beiteynu reagiram com menos cordialidade[ref]Assim como parte da bancada do Likud, como Dani Danon, rival político de Netanyahu dentro do partido[/ref], e aproveitaram a brecha para criticar os palestinos. O assunto boicote (ou sanções) é bastante delicado no país: Israel é o país que mais faz pressão por sanções radicais ao Irã, e não admite ser colocado em igualdade de condições com a República Islâmica. John Kerry causou, ao mesmo tempo, uma grande crise interna no governo e um ódio mortal à sua pessoa.

Kerry (no meio), com Livni (à esquerda) e Erekat (à direita)
Kerry (no meio), com Livni (à esquerda) e Erekat (à direita)

O Secretário de Estado dos EUA, no entanto, não parece próximo de desistir. Está acelerando o processo para que se assinem documentos antes da libertação da quarta leva de prisioneiros, no fim de março. A libertação de prisioneiros palestinos é sempre polêmica na sociedade israelense, uma vez que a maioria deles é acusada de ações terroristas (parte comprovada), causando a ira dos familiares das vítimas. Kerry demonstra não querer esperar este momento para progredir. Mahmmoud Abbas, até agora, desaprovou apenas um ponto: o reconhecimento de Israel como Estado judeu. Netanyahu afirma que esta recusa é suficiente para que a situação siga estagnada. Parece um ponto muito pequeno próximo a todas as outras questões juntas[ref]Netanyahu e Abbas também discordaram publicamente do tempo estipulado de três anos para a retirada das tropas israelenses da Cisjordânia: Israel deseja 20 anos, enquanto os palestinos pedem cinco. Ainda que não haja consenso, não me parece uma questão sobre a qual seja difícil chegar-se a um acordo[/ref]. A pergunta que fica é: o que acontecerá se Abbas vier a concordar com esta exigência? O governo Netanyahu tem vontade política de assinar este acordo? Caso este hipotético futuro chegue, eu espero que sim. Mas duvido[ref]Bennet afirmou nesta quarta-feira (05/02) que caso as negociações prossigam de acordo com os planos de Kerry, sem dúvidas seu partido deixará o governo[/ref]. Kerry que me prove o contrário.

* O título é uma sugestão de Yair Mau.

Comentários    ( 23 )

23 comentários para “Bem me Kerry, mal me Kerry*”

  • Marcelo Starec

    09/02/2014 at 16:40

    Olá João,

    Bom artigo…Fiquei com uma dúvida – Qual a proposta de Kerry em relação a Gaza?

    Abraço,
    Marcelo.

    • João K. Miragaya

      09/02/2014 at 16:50

      Ola Marcelo. Obrigado pelo elogio.

      Kerry ainda não divulgou qual o seu plano inteiramente, apenas admitiu que parte do divulgado pelo The New York Times é correto. Mesmo assim, suponho que Gaza será ligado à Cisjordânia através de uma (ou duas) via expressa, supervisionados pelo exército israelense.

  • Mario Silvio

    09/02/2014 at 16:45

    João,
    Esse texto me deu coragem para finalmente fazer uma pergunta que faz muito tempo quero fazer para quem mora aí: e se for IMPOSSÍVEL um acordo? Eu cada vez mais me convenço de que, infeliz e tragicamente, é.
    O que os palestinos já se propuseram a ceder? O que já FIZERAM até agora? Como se comportaram quando Israel se dispôs a atender praticamente tudo que eles DIZEM querer?
    E finalmente, o que mais é preciso para PROVAR que as lideranças palestinas farão de tudo para impedir a assinatura de um acordo justo?

    Só não digo que a chance é zero porque existe uma esperança, os próprios palestinos abrirem os olhos e verem o que conseguiram até agora sob esses seus opressores.

    • João K. Miragaya

      09/02/2014 at 17:08

      Olá Mário.

      Eu não acredito na impossibilidade de entendimento entre seres humanos. A história nos mostra que os homens chegam a acordos por bem ou por mal, mas não conheço um conflito que tenha durado desde os primórdios da humanidade até agora. As posições beligerantes se extinguem, ou porque são derrotadas em algum momento por um exército mais forte, ou porque renunciam à guerra em função de um acordo. Eu não entrego os pontos. Você, sim?

      Veja bem: se você olhar para a questão sob uma narrativa árabe, certamente entenderá como renúncia o fato de que os palestinos, de acordo com o plano de partilha de 1947, tinham 45% do território e hoje admitem construir um Estado em cerca de 33% dele. Isto na tua perspectiva pode não ser considerado uma renúncia, mas na deles é. Admitir que os refugiados (e seus descendentes) não regressarão às suas casas, que parte de Jerusalém Oriental não será parte do Estado palestino, que determinados territórios da Cisjordânia, onde casas palestinas foram demolidas por mandatos administrativos, tampouco regressarão a seus donos, também são renúncias. Isto, é claro, se você não observar a questão sob o ponto de vista israelense. Os árabes palestinos também perguntam o que Israel está disposto a ceder, pois para eles não é suficiente. E é por isso que a Ministra da Justiça Tzipi Livni afirmou que chegou a hora de dar fim a determinadas narrativas intransigentes e tentar chegar a um acordo.

      O que eles já fizeram até agora? Considerando “eles” como a Autoridade Palestina, a resposta é: um monte de coisas. Há cooperação entre os dois lados em diversas áreas. Os Acordos de Oslo foram importantes neste aspecto. Você sabia que a polícia palestina prende terroristas? Você sabia que no incêndio do Carmel em 2010 os palestinos enviaram frotas de bombeiros para ajudar a apagar o fogo? Existe uma cooperação administrativa desde 1993. Eles reconheceram o Estado de Israel (não como Estado judeu, o que quase nenhum país do mundo reconhece) e se colocaram à disposição de conviver lado a lado. Abbas, até agora, vêm cumprindo com as exigências israelenses. Não há mais intifada e o braço armado da Fatah está inativo. Ainda faltam algumas renúncias dos dois lados, mas eu particularmente considero injusto afirmar que a AP é a responsável por não termos chegado à paz.

      Em relação a provar, eu não tenho como te provar o que virá no futuro. Não há como ter garantias de nada. Sobre posturas futuras temos promessas e ameaças. Temos duas opções: (1) não acreditar nas promessas e temer as ameaças, o que nos levará a seguir na mesma (má) situação atual. (2) acreditar nas promessas e não temer as ameaças, o que nos trará um futuro incerto, mas, na minha opinião, dificilmente pior do que temos hoje.

      Um abraço

    • Mario Silvio

      10/02/2014 at 17:45

      Oi João,
      Começo dizendo que torço muito para estar errado e você certo. Você disse algumas coisas que eu não sabia, como por exemplo que no incêndio do Carmel em 2010 os palestinos enviaram frotas de bombeiros para ajudar a apagar o fogo, mas disse outras das quais discordo.
      Vou citar uma em especial porque a considero o principal obstáculo à paz, o único que não admite um compromisso:
      ” Admitir que os refugiados (e seus descendentes) não regressarão às suas casas, ”
      Eles nunca disseram isso. Do The Times of Israel em 13/1:

      “In a significant hardening of the stated Palestinian negotiating position on the right of return, Palestinian Authority President Mahmoud Abbas said that he could not negotiate away the absolute right of Palestinian refugees and their descendants to return to sovereign Israel.”

      De novo, espero que você esteja certo. Um abraço.

    • João K. Miragaya

      10/02/2014 at 20:25

      Mário Sílvio: quem você chama de “eles”? Esta pergunta é chave para o nosso diálogo.

      Eu já li de Abbas declarações opostas a esta que você transcreveu. Isso quer dizer que ele, como a grande maioria dos políticos, faz discursos direcionados para determinados públicos. Sabe quem é famoso por fazer isso? Binyamin Netanyahu. Já perdi a conta da quantidade de vezes que eu o escutei (ou o li) dizer que nunca concordará com a divisão de Jerusalém, com a criação de um Estado palestino, com a remoção de colônias, e etc. Mas amanhã ele pode afirmar que é a favor de um Estado palestino, que admite dividir Jerusalém, remover colônias… são políticos. Por que a retórica do outro é mais importante do que a do nosso?

      Um abraço

    • Mario Silvio

      10/02/2014 at 20:38

      No caso eles são TODAS as lideranças palestinas, passadas e atuais.
      “Eu já li de Abbas declarações opostas a esta que você transcreveu.”
      Pode ser, mas se você se refere àquela vez em que disse que tinha desistido de voltar para sua cidade, ele se desmentiu no dia seguinte. Ou melhor, não foi exatamente um desmentido, disse que se aplicava somente a ele.
      Vou pesquisar o assunto. Mas independentemente do que eu achar, você está certo em uma coisa, são políticos.
      Sabe o que eu gostaria que aparecesse? Um Anwar Sadat palestino. Mas temo que ele seria assassinado mais rapidamente ainda que o original.

  • Raul Gottlieb

    10/02/2014 at 00:15

    Gostei do texto, João, parabéns.

    Eu gostei da forma como o Benett interpelou a Livni com relação à narrativa. Sem a menor dúvida nós judeus temos uma ligação com o território de Israel Bíblico e dizer que isto é uma “narrativa” nossa é uma bobagem, pois o termo vem carregado com uma conotação de “opinião”. O Sionismo (a ligação dos judeus com Tzion) não é uma opinião passível de ser debatida. É um fato.

    Mas não gosto nada da forma como Benett justifica o direito aos judeus a terem soberania naquele território por causa desta narrativa. Reconhecer que o território é o berço do povo judeu é uma coisa, exigir soberania nele expulsando os atuais ocupantes é outra completamente diferente.

    A meu ver as colônias atrapalham muito a Israel e deveriam ser removidas. Mas penso também que sua eventual remoção não vai mudar nada na questão entre Israel e Palestina, assim como a retirada de Gaza não fez efeito algum. As colônias são um problema sim, mas elas não prejudicam a paz, que só virá se os Palestinos quiserem (e, como você sabe, a meu ver eles não querem ainda).

    Apesar de ser um assunto marginal, senti falta no teu texto de uma análise sobre a proposta do Lieberman de integrar cidades árabes na fronteira ao Estado da Palestina. Gostei da proposta dele, pois fortalece ambos os lados – tanto a economia Palestina como a questão demográfica em Israel – sem mexer com as populações, que apenas mudariam de carteira de identidade. O que você achou da proposta dele?

    Minha única discordância contigo é sobre a relevância da aceitação da definição de Israel como um Estado Judaico. Sem esta aceitação a resolução 181 de 1947 perde o sentido e Israel não tem razão de ser. Entendo os motivos de Israel em exigir isto e desconfio dos motivos do presidente da ANP em não aceitar esta cláusula. Porque ele não pode aceitar isto?

    Mas como você, eu acredito que Israel um dia será aceito pelos vizinhos como um país e haverá uma paz legítima. Só penso que isto não acontecerá tão cedo. Antes de acontecer o mundo tem que parar de ajudar os Palestinos e os árabes tem que adotar a cultura ocidental de convivência entre os diferentes. Falta muito, mas sou otimista! O que são 200 anos para um povo de 3.500?

    Abraço,
    Raul

    • João K. Miragaya

      10/02/2014 at 12:32

      Oi Raul. Obrigado pelo elogio.

      Não era a minha intenção debater propostas distintas, mas sim discutir o impacto do plano de Kerry no governo Netanyahu. Mas se você quer saber a minha opinião, a proposta de Liebermann (sobre a qual se debateu publicamente há dois anos e hoje anda esquecida), a meu ver, é terrível. Eu não estou de acordo com transformar cidadãos israelenses em palestinos (revogar sua cidadania) sem que eles assim desejem. Acho que o futuro Estado palestino deve dar esta opção aos árabes-israelenses que assim quiserem, mas jamais incluí-los em uma troca. A cidadania deles não vale menos do que a dos judeus israelenses, ou pelo menos não deveria valer. Por que não deixar Maale Adumim e seu parque industrial dentro dos territórios? Isso o Liebermann não propõe.

      Um abraço

  • Raul Gottlieb

    10/02/2014 at 08:16

    João,

    Você tem certeza que este plano de ligar Gaza ao território da ANP ainda está em cima da mesa?

    Não se houve falar dele há um tempão.

    O Hamas não aceita a existência de Israel e não colabora com a ANP.

    Talvez um dia os dois estados Palestinos, a leste e a oeste de Israel sejam unidos de alguma forma, mas há a possibilidade de quando isto acontecer o homem não esteja mais se locomovendo com automóveis, ônibus e transportando cargas em caminhões.

    Abraço, Raul

    • João K. Miragaya

      10/02/2014 at 12:35

      Não tenho certeza, mas acredito que sim. Obviamente nenhum primeiro ministro israelense permitirá que isto aconteça sem que haja garantias de que isto não afetará a segurança de seus cidadãos. Fará a paz quem acreditar nestas garantias, e esta é uma questão de confiança. Qualquer proposta de criação de um Estado palestino inclui este plano (ou outro semelhante), pois não se vê uma Palestina que não inclua Gaza.

      Abraço

  • Raul Gottlieb

    10/02/2014 at 20:16

    João,

    Eu concordo contigo. A cidadania não deve ser revogada sem o consentimento da pessoa. Isto não se faz.

    Mas o que você acha de fazer um plebiscito e ver se eles querem mudar de cidadania?

    Se o resultado por positivo (eles querem mudar de cidadania), a Palestina sairia fortalecida e Israel sairia fortalecido. Uma situação ganha-ganha.

    Se o resultado for negativo os seus representantes na Knesset terão que parar de dizer que eles são vítimas de discriminação, que Israel pratica apartheid com eles, que Israel é um país racista onde eles nasceram na “raça errada”. Que a bandeira e o hino do país não os representam.

    Eles terão escolhido viver num país judaico e os políticos que elegem teriam que se dedicar a outras bandeiras. Teríamos uma situação onde Israel ganha e a Palestina perde (pois perde uma população muito bem educada).

    Então Israel ganharia sempre. Eu achei a ideia dele maravilhosa! Ela puxa o tapete debaixo da demagogia dos políticos árabes. Fiquei com pena (mas não surpreso) que o mundo não a endossou.

    Transferência de populações é algo que aconteceu tantas vezes na história! A Turquia e a Grécia trocaram populações. A Índia e o Paquistão trocaram população. Tudo isto por acordo político das lideranças. Não é algo impensável.

    Você apoiaria um plebiscito?

    Abraço, Raul

    • João K. Miragaya

      10/02/2014 at 20:21

      Eu sou plenamente a favor da democracia direta. Raras são às vezes que eu não apoio que a população diga o que quer através do voto.

  • Raul Gottlieb

    10/02/2014 at 20:20

    João,

    Se Gaza está no mapa do acordo costurado pelo Kerry, então não há a mais remota hipótese de haver algum acordo, pois o Hamas, que domina Gaza de fato não está envolvido nas negociações, além de não aceitar se envolver em nenhuma negociação que admita a existência do Estado de Israel, independente de onde passariam as fronteiras.

    A meu ver, se é impossível pensar num Estado Palestino sem Gaza, é impossível pensar em acordo enquanto o Hamas dominar Gaza.

    Abraço, Raul

  • Raul Gottlieb

    10/02/2014 at 20:24

    Mais uma coisa – creio que houve uma conversa recente sobre deixar as colônias dentro do Estado Palestino. Isto aconteceu? Creio que li sobre isto na semana passada.

    Mas a resposta do Abbas foi categórica: o Estado da Palestina não pode ter cidadãos judeus. Não foi isto mesmo?

    • João K. Miragaya

      11/02/2014 at 13:49

      Raul,

      Este tema foi muito discutido na semana passada, e está explicado no meu texto. Leio os jornais todos os dias e não vi absolutamente nenhum comentário de nenhuma liderança palestina recusando a ideia. Quem recusou foi o Bennet.

  • Raul Gottlieb

    10/02/2014 at 21:50

    Acabei de ler um comentário muito bom do Benett sobre a tentativa do Kerry em promover a paz entre Israel e os Palestinos: “os esforços de paz tentados pelos ‘estrangeiros’, quando dão errado (e até agora todos deram) explodem na cara dos locais”.

    A minha tradução é meio liberal demais. A íntegra está aqui: http://www.timesofisrael.com/bennett-western-peace-efforts-keep-blowing-up-in-our-faces/

  • Raul Gottlieb

    10/02/2014 at 21:52

    Sobre o plebiscito:

    É, eu também acho uma boa ideia. Israel só tem a ganhar!

    Seria uma boa bandeira para todos os partidos políticos de Israel abraçar.

    Pena que apenas o Lieberman empurre esta ideia.

  • Marcelo Starec

    11/02/2014 at 15:00

    Oi João,

    Sobre a questão de Gaza, não estariam programadas eleições nos territórios palestinos, num futuro próximo?…Indago que se isto ocorrer os palestinos de Cisjordânia e Gaza teriam de escolher entre o Fatah e o Hamas (ou alguma outra improvável alternativa)…Seria isso mesmo?

    Abraço,
    Marcelo.

    • João K. Miragaya

      11/02/2014 at 16:45

      As eleições estão e não estão programadas. O mandato de Abbas já expirou faz tempo, mas não há data para outras eleições.

      Abraço

  • Marcelo Starec

    11/02/2014 at 18:48

    Obrigado pela resposta João,

    Abraço,

  • Raul Gottlieb

    12/02/2014 at 17:47

    Sendo preciso:

    O Abbas está no décimo ano do mandato de quatro para o qual foi eleito.

  • Raul Gottlieb

    13/02/2014 at 09:05

    Tive um sonho esta noite, baseado em três cenários:

    Cenário 1

    Você recebe uma oferta de emprego, que não julga apropriada e fala para a empresa proponente que a proposta deles é fraca, que a empresa é ruim e que você jamais vai trabalhar lá. Passados dois anos a empresa em que você trabalha começa a ir mal e você volta para a primeira empresa exigindo trabalhar lá.

    Todo mundo acha que você não regula bem, pois todos entendem que a oferta tinha validade apenas para o momento em que foi feita. Isto sem falar no desprezo que você manifestou.

    Cenário 2

    Um rapaz pede para namorar uma moça (eu sou de 1950 e na minha época a gente “pedia para namorar”, hoje deve ser diferente, mas o conceito é o mesmo) e ela o rejeita com uma boa dose de desprezo.

    30 anos depois a tal moça se vê sozinha e volta ao rapaz, agora casado, com 3 filhos, e exige estabelecer um relacionamento, baseado no pedido dele de 30 anos atrás.

    Todo mundo acha que a solidão derreteu os miolos da moça, pois entendem (apesar do rapaz não ter dito isto) que o pedido de namoro venceu no minuto seguinte em que foi rejeitado com desprezo.

    Cenário 3

    A ONU passa uma resolução em 1947 estabelecendo dois estados, um judaico e um árabe, no território do Mandato Britânico da Palestina. Os judeus estabelecem o seu estado e os árabes desprezam a decisão e cinco países árabes lançam uma guerra de aniquilação contra o estado judaico no dia em que este proclama a sua independência.

    Mais de 60 anos depois os árabes dizem terem “aberto mão” de grande parte do território que a ONU havia alocado para eles em 1947 e que eles perderam numa guerra que iniciaram, continuam não aceitando um estado judaico em sua vizinhança e se aferram à justiça internacional para reclamar seus direitos, alegando que em 1948 eram um “estado” (que se recusaram a declarar) que teve que parte de seu território ocupado e exige a aplicação das leis que regulam as relações entre dois estados.

    Muita gente acha que as demandas dos palestinos são cheias de razão e que a resolução que eles vilipendiaram em 1947 tem validade eterna e efeito retroativo, ou seja, eles eram um estado, mesmo tendo decidido não ser.

    Ou seja, quando Israel está na jogada a lógica e o bom senso pedem para tirar um cochilo.

Você é humano? *