Ben Gurion e os caçadores das cores perdidas

Não há governo no mundo que não tenha tido alguma história de “tacanhice” com relação a alguma tecnologia nova. Israel, a Startup Nation, não é exceção. O pioneiro desta tendência foi um dos maiores estadistas do século passado: David Ben-Gurion. Assim como boa parte da sua geração, “O Velho” tinha medo e um profundo desgosto pela televisão. “O povo do livro não irá se tornar o ‘povo da tela’” dizia. Igal Alon, então ministro da Cultura, em uma frase que demonstra todo seu saber no assunto, temia que o povo adotasse a cultura de “narguilé e dança do ventre”.

Não era só o que as elites classificavam de sub-cultura que assustava o governo. Havia o medo de que a introdução de um novo tipo de mídia fosse dividir as opiniões do povo, na época monolíticas, em relação ao Partido Trabalhista, assim como afetar a integração das diferentes culturas que chegavam ao país. Acima de tudo, havia o medo econômico, já que apenas recentemente o jovem país saíra da economia de racionamento pós independência, e a massiva importação de um equipamento caro iria causar danos ao país.

Ben-Gurion fez o que pode para evitar, ou pelo menos adiar, a entrada da televisão em Israel. Foi só em 1966, já no governo de Levi Eshkol, que o país viu sua primeira transmissão de televisão pela TV Educativa. E embora o mundo já pudesse ver a máquina de fazer loucos em todo seu explendor colorido, a transmissão em Israel era em preto e branco. E assim seguiu-se, por muitos, muitos anos.

Mesmo assim, para quem tinha dinheiro, ainda valia à pena ter um aparelho a cores. Alguns programas, especialmente séries e filmes, eram comprados do exterior, e estes eram gravados em cores. Telespectadores, alguns anos depois, também podiam ver programas em cores via satélite, diretamente de estações da Europa e dos EUA. Já em 1974, as transmissões dos vizinhos, Jordânia e Egito, também passaram a ser em cores. E até mesmo os Estúdios Hertzelia, em 1974, compraram equipamentos de gravação e edição em cores. Mas era basicamente para fazer trabalhos para produtoras estrangeiras. A partir dos meados dos anos 70, várias produções locais, especialmente as jornalísticas, eram também originalmente produzidas em cores – uma exigência das agências europeias, que costumavam comprar este tipo de material para retransmissão.
E aí entra em cena uma das mais estúpidas e desastrosas patacadas anti-tecnológicas da história de Israel: O Mechikon (מחיקון).

Em tradução literal, este neologismo improvisado significa “apagador”. Foi uma imposição do governo à Autoridade de Telecomunicações (Rashut Ha’Shidur – רשות השידור), responsável pelo Canal 1 (estatal). O mechikon apagava as cores da transmissão. Ou seja: mesmo que fosse uma série importada, gravada a cores, ou uma transmissão local feita para o exterior, a cores, saía da torre transmissora com o canal das cores enfraquecido.

A lógica por trás desta imposição era que a televisão à cores, por ser muito mais cara que a preto e branca, iria aumentar a desigualdade entre ricos e pobres na sociedade, além do motivo econômico: Israel estava em crise e não havia a menor necessidade de criar-se mercado para um produto caro e importado.

E eis que a criatividade israelense entrou em cena. Demonstrando um fino talento técnico e um péssimo gosto para copyright de nome de produto, criou-se o Anti-Mechikon. Um aparelho que, acoplado a sua televisão colorida, recuperava o sinal das cores apagado na antena, e possibilitava ver Dalas, O Homem de 6 Milhões de Dólares, Mulher Biônica e Mary Tyler Moore em toda sua exuberância colorida.

O aparelho era caro, e portanto, acabava por aumentar ainda mais a disparidade entre as diferentes classes sociais, e o valor necessário para investir para se ver Eurovision em technicolor.

Anti-Mechicon acabou por virar expressão idiomática, significando exatamente aquilo que foi: uma solução técnica para um problema artificialmente inventado por burocratas.

Em 1981, pouco antes das eleições, o governo acabou com o Mechikon e finalmente todo o espectro de cores pode ser contemplado vendo-se Chips, os Patrulheiros, dentre outros. Apenas algum tempo depois toda a grade de programação local ficou colorida. E apenas em 1995 houve a primeira transmissão de um canal comercial e privado em Israel. A TV a cabo também surgiu por essa época e hoje Israel pode se orgulhar de ter uma TV tão boa, ou tão ruim, quanto no resto do mundo.

Fontes: http://www.ynet.co.il/articles/0,7340,L-2928437,00.html

http://www.damada.co.il/topics/inventions/db/television/television_8.shtml?item=television&year=1927

https://he.wikipedia.org/wiki/%D7%90%D7%A0%D7%98%D7%99-%D7%9E%D7%97%D7%99%D7%A7%D7%95%D7%9F