Bibi, Abbas e o Holocausto

30/04/2014 | Conflito; Opinião; Política

E mais uma vez chegou Yom haShoá. Pra quem acompanha o Conexão Israel há um tempo, escrevi um texto ano passado sobre a peça baseada no livro de Primo Levi, quem quiser pode ver aqui.

Depois de Pessach, os jornais começam a falar do Holocausto. A nova lei, que determina que crianças no Jardim da Infância aprendam sobre o evento, a viagem aos campos de concentração organizada por um professor da Al Quds University com estudantes palestinos, inúmeras colunas, relatos de como vivem os sobreviventes hoje em dia, histórias do passado. Mas não é disso que eu quero falar.

A notícia do dia foi que o líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, deu uma declaração em árabe e em inglês dizendo que o Holocausto foi um dos maiores crimes hediondos da história moderna. E o que isso tem de tão especial?

Num momento em que mais uma vez os palestinos tentam uma reconciliação e que as negociações de paz estão subindo o telhado, a declaração pública de Abbas é um reconhecimento de um evento histórico que faz parte da identidade do Estado Judeu. Em termos concretos isso talvez não seja nada, mas em termos simbólicos é muito importante.

Eu senti vergonha quando li a resposta do Primeiro Ministro Netanyahu, que ao invés de receber a declaração do colega como um gesto simbólico de reconhecimento, acusa Abbas de fazer Relações Públicas com a comunidade internacional. Ora, em primeiro lugar Bibi é um dos que mais usa o Holocausto, sempre lembrando que tentaram nos eliminar da face da terra. Invariavelmente em seus discursos na ONU ou em entrevistas ele cita o evento. É claro que como representante do Estado Israel ele deve lembrar ao mundo o que aconteceu, há pouquíssimo tempo atrás, num momento em que negacionistas surgem por todos os lados e a quantidade de sobreviventes, testemunhas históricas, diminui consideravelmente.

Agora, a realidade dos sobreviventes hoje em dia em Israel, no segundo governo consecutivo do Primeiro Ministro, não é nada reconfortante. Segundo a última pesquisa do Foundation for the Benefit of Holocaust Victims in Israel, 50.000 vivem na pobreza e 60% dos 193.000 sobreviventes que vivem no país estão preocupados com a a má situação financeira.

Em segundo lugar, Bibi perdeu mais uma chance na arena da política internacional. Ainda que a declaração de Abbas tenha sido calculada, uma estratégia política no campo de batalha da comunicação, ela aconteceu. O líder da Autoridade Palestina, região onde quase não se estuda ou se fala sobre, e muitas vezes se nega o Holocausto, fez uma declaração pública reconhecendo o acontecimento. A reação do primeiro ministro mais uma vez ajuda no isolamento político de Israel.

O Yad Vashem, museu e centro mundial de estudos do Holocausto, deu uma declaração muito mais cordial. Recebeu com esperança de mudança de comportamento no mundo árabe, especialmente o palestino, e espera que seja refletida em termos práticos no currículo escolar e nos meios de comunicação da Autoridade Palestina. Por fim colocou seu material em árabe e em outros idiomas à disposição de quem quiser saber mais. Uma resposta simples e sensata.

O Holocausto não é uma questão judaica. Sim, foram 6 milhões de judeus assassinados (e mais negros, ciganos, homossexuais, deficientes) mas isso não o torna exclusivo do povo judeu. A engenharia de morte montada pelos nazistas é uma questão da humanidade. Foram seres humanos que criaram e planejaram, foram seres humanos que executaram, e foram seres humanos que se calaram. Tratar o Holocausto como uma questão exclusivamente judaica, como se só nós pudéssemos entender ou sentir compaixão, é diminuir, é esvaziar o que foi sim um dos crimes mais hediondos da história moderna. E fazer má política em cima disso é muito pior.

Foto de capa: Cerimônia de Yom HaShoá 2014 – Yad Vashem

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “Bibi, Abbas e o Holocausto”

  • Raul Gottlieb

    01/05/2014 at 12:39

    Cara Mila,

    Você não precisa sentir vergonha cada vez que o Primeiro Ministro de Israel falar algo que julga inadequado. Pois é claro para todos que entendem como funciona uma democracia que o PM não representa o Estado e sim o governo. E que nenhum governo representa a opinião de 100% da população.

    Se eu fosse sentir vergonha das coisas que a Dilma fala e das coisas que o seu governo faz ia morar debaixo da cama, sem coragem nem para ir comprar pão na esquina. Sou brasileiro apesar dela e não por causa dela, assim como você é israelense apesar do Bibi e não por causa dele.

    Dito isto, perceba que você pinçou apenas uma parte da declaração do iminente representante da Autoridade Palestina. Na mesma declaração que fez por ocasião do Iom Hashoá, Mahmoud Abbas disse o que segue:

    “The Palestinian people, who suffer from injustice, oppression and denied freedom and peace, are the first to demand to lift the injustice and racism that befell other peoples subjected to such crimes.”

    Ou seja, ele pegou uma carona na Shoá e igualou os Palestinos aos judeus sob o Nacional Socialismo. Não preciso falar quão inadequada é esta comparação, não é mesmo?

    Se de um lado a declaração dele em Iom Hashoá é um sinal muito positivo, este apêndice aponta para o outro lado. O Bibi resolveu apontar para este último lado, no que ele não está de todo errado, a meu ver, tendo em vista que a declaração do Abbas veio logo em seguida ao acordo entre o Hamas (que diz claramente querer matar os judeus) e a ANP.

    Não estou dizendo que julgo a declaração do Bibi adequada. Mas sim que existem mais nuances do que as que você considerou.

    Um beijinho, Raul

  • Mario S Nusbaum

    02/05/2014 at 18:47

    Concordo em que o Netanyahu, mais uma vez, pisou na bola e o Abbas fez um gol, mas falar as lideranças palestinas falam qualquer coisa.
    Sempre que eles falam QUALQUER coisa, lembro de um dos grandes (são tantos!) gênios do humor judeu, Groucho Marx:
    “Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros.”

  • Raul Gottlieb

    06/05/2014 at 00:39

    O texto do link abaixo, do jornalista árabe israelense Khaled Abu Toame me parece bem interessante.
    http://www.gatestoneinstitute.org/4298/hamas-abbas-jihad

    Outra coisa – o Conexão inventou de colocar uma barra do lado esquerdo que não escalona na mesma proporção do restante do site. Quando se escalona para um tamanho de letra grande (ideal para leitura à distância) esta barra fica em cima dos textos e impede a leitura. Sugiro colocar a barra do lado direito. Vocês sabem, não é: não dá para confiar em quase nada da esquerda 🙂

  • Rebeca Daylac

    08/05/2014 at 18:14

    Mila,

    Parabéns pelo artigo!!!

  • Marcelo Starec

    09/05/2014 at 00:59

    Oi Mila,

    Consigo entender o seu sentimento de esperança (Tikvá), em relação à declaração do Abbas. Mas desde que soube dela, fiquei um tanto desconfiado…Concordo com o Raul. Infelizmente, a gente precisa ter e querer a paz, mas também desconfiar das reais intenções de quem faz esse tipo de declaração, visto que muitos usam justamente todo esse horror que os judeus passaram para tentar posteriormente fazer uma absurda equiparação com os árabes-palestinos, ou seja, dão uma volta e saem eles como vítimas dessa tragédia (o Holocausto). Por fim, cito uma frase do artigo trazido pelo Raul, que no meu entender diz muito: “Abbas’s statements may sound nice and heart-warming to Westerners. But they must bear in mind that he is not a Hamas spokesman. Above all, the world needs to pay attention to what Hamas itself is saying.”

    Abraços,
    Marcelo.