Bibi, Abbas, Hamas…

10/01/2013 | Conflito

Bibi[1] diz que não negocia com o Hamas por ser um grupo terrorista. Abbas não negocia com Israel sem que o governo deixe de construir assentamentos. Bibi diz que não negocia com condições prévias. O Hamas não reconhece o Estado de Israel. Israel não reconhece o Hamas como governo. Hamas e Fatah entraram em guerra pelo poder em 2007. Ninguém parece se entender, tudo é muito confuso e complexo, e a única certeza é que a paz está distante. Bem distante. Como a situação chegou ao que é hoje? Vamos em frente, sem deixar de olhar para trás.

 

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1. Boaz Bismut

“Sobre o que, exatamente, falaríamos com o Hamas?” Este é o título da coluna[2] do jornalista e ex-embaixador israelense na Mauritânia, Boaz Bismut, no tabloide direitista Israel HaYom (Israel Hoje). O colunista defende que não se pode ignorar os pedidos por um diálogo com o Hamas, mas questiona se há o que dialogar com o grupo terrorista, que sequer reconhece o Estado de Israel. Ele pergunta: o que Hamas negociaria? Ele cita que líderes do Hamas, recentemente, afirmaram que “não desejam matar judeus, só os sionistas que ocupam a sua terra sagrada”. Como Israel negociaria com um grupo que não cogita a possibilidade de ceder nada entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo? Qual seria o sentido do diálogo se a outra parte não aceita abrir mão de nada? Proponho uma análise sobre as relações de Israel com o Hamas, e a busca pelas razões do entrave no processo de paz com a Fatah. Caminhos serão propostos por mim, humildemente, e cada um concorda se quiser. A narrativa também é a minha visão dos fatos. Aqui, no momento, não estou preocupado com a falácia da imparcialidade.

 

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2. Ismail Hanyieh

O Hamas existe desde 1987, desde então não reconhece o Estado de Israel e tampouco é reconhecido pelo mesmo. O Fatah existe desde 1964. Em 1993, seu ex-líder, Yasser Arafat, assinou os Acordos de Oslo com o ex-1º Ministro Itzhak Rabin, renunciando ao terror e reconhecendo o Estado de Israel. Recebeu em troca a autonomia das áreas A e B da Cisjordânia (dividida em A, B e C) e a possibilidade de formar um governo reconhecido por Israel, a partir da criação da Autoridade Palestina (ANP em português e PA em inglês). Arafat, que nunca foi “engolido” pela direita israelense, faleceu em 2004, ainda sem lograr a criação do Estado palestino.  Mahmoud Abbas (Abu Mazen), intelectual acadêmico, um dos interlocutores e planejadores dos Acordos de Oslo, e sensivelmente mais moderado, foi seu sucessor após as eleições do executivo da ANP em 2005.

 

2005, no entanto, foi também o ano em que Ariel Sharon (Likud, 2001-2005) efetivou o Plano de Desconexão (retirada unilateral de Gaza). Apesar dos pedidos de Abbas, Sharon decidiu não envolver a ANP no seu projeto, retirando o IDF[3] e todos os 7.500 colonos judeus de Gaza. O Hamas vendeu a Desconexão como uma vitória militar, e levou as eleições para o legislativo em 2006, dificultando qualquer negociação entre Israel e os palestinos naquele momento. Quando o Hamas venceu as eleições de 2006, muitos analistas defendiam que a situação finalmente mudaria, pois, sendo governo, o grupo não poderia mais sustentar posições tão radicais. Um acontecimento, no entanto, não deu tempo hábil para o Hamas ter alguma experiência em um governo reconhecido internacionalmente.

 

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3. Mahmoud Abbas (Abu Mazen)

Em 2005 e 2006 houve, respectivamente, eleições para o executivo e para o legislativo da ANP. Venceram, nesta ordem, Abbas (Fatah) e o Hamas. Ismail Haniyeh, líder do grupo fundamentalista, tornou-se 1º Ministro. As diferenças de visão e estratégia dos dois grupos resultaram em um conflito (Guerra Fatah-Hamas), com mais de 800 mortos e 1000 feridos. Abbas demitiu Haniyeh, dissolveu o parlamento e convocou novas eleições, não aceitas pelo Hamas. O Fatah foi expulso de Gaza e o Hamas, por sua vez, da Cisjordânia. Até hoje o Hamas não reconhece o governo do Fatah, e nem o Fatah nem Israel reconhecem a autonomia do Hamas em Gaza.

 

O Hamas, isolado em Gaza pelo bloqueio israelense, e com poucos aliados no momento, reforçou seu fundamentalismo. Sem conseguir dar sequência aos atentados com homens-bomba, o grupo se reinventou e passou a atirar foguetes contra Israel. E Israel, tratando o Hamas somente como um inimigo militar, passou a negociar com a Fatah como se Gaza não existisse. O Hamas foi ignorado por Ehud Olmert (Kadima, 2006-2009) e por Abbas nas negociações de Anápolis.

 

O Hamas tentou mostrar que existia em diversos momentos: no sequestro de Gilad Shalit, em 2006; durante a Operação Chumbo Fundido, em 2009; durante a última Operação Pilar Defensivo, em 2012. E por diversas vezes disparou foguetes contra Israel, ameaçou o Estado judeu, e etc. Israel prefere ignorá-los. E é aí que entra o nosso excelentíssimo 1º Ministro.

 

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4. Binyamin (Bibi) Netanyahu

Bibi não ignora o Hamas. Desde a sua campanha para eleger-se 1º Ministro até o fim do seu mandato (que deverá se prolongar), ele só fala sobre Hamas e Irã. O grupo sunita e o Estado islâmico são elementos tão presentes na retórica de Netanyahu, que às vezes é possível confundi-lo com um líder militar. Quem Bibi ignora é o Fatah. Ignora quando segue construindo assentamentos na Cisjordânia. Ignora quando diz que Jerusalém Oriental é como Tel-Aviv, e nunca será devolvida. Ignora, sobretudo, quando exclui a Fatah do mapa das negociações que contam até mesmo com o Hamas. Os likudnikim[4] não confiavam em Arafat, não só pelo seu passado terrorista, mas pelo seu presente corrupto e negligente em relação ao terrorismo. Até hoje a Fatah conta com um grupo armado[5], mas este se encontra efetivamente inativo. Durante o período de Arafat, não eram tão raros os atentados terroristas em Israel vindos da Cisjordânia. Tudo o que Israel exigiu de Abbas para que se negocie era acalmar os ânimos dos palestinos. O presidente da ANP o faz de forma eficiente: há sete anos o clima é de tranquilidade entre os dois lados, salvo os aniversários do Nakba[6]. E tudo o que Abbas pede em troca das negociações é o congelamento da expansão dos assentamentos na Cisjordânia. Mas Bibi o ignora solenemente, diz que não negocia com condições prévias e o joga para fora do mapa político.

 

Bibi não só é indiferente ao Fatah, como sustenta a moral do Hamas. Abbas, que durante dois anos e meio de mandato sentou-se com Bibi por duas míseras vezes, resolveu ir à ONU em 2011. Mesmo sabendo que seria derrotado pelo veto americano, fez questão de tentar junto às Nações Unidas a declaração do Estado palestino nas fronteiras de 1967. O que fez Bibi durante o processo? Terminou as negociações com o Hamas (quem disse que ele não negocia com o grupo?), trocando o soldado Gilad Shalit por mais de mil prisioneiros. Resultado? Comoção em Israel, festa do Hamas em Gaza e, novamente, Abbas isolado. Querem outro exemplo? Agora mesmo, há pouco menos de dois meses, quando foi acordado o cessar-fogo com o Hamas após a Operação Pilar Defensivo, Abbas tentou participar das negociações, mas Bibi o ignorou novamente. O Hamas saiu fortalecido de novo. E os jornais israelenses nem se recordavam que existiam palestinos na Cisjordânia.

 

Abbas foi à ONU outra vez, mas, agora, de forma mais inteligente: foi exigir o reconhecimento da Palestina como Estado observador. Para isto ele não dependia do Conselho de Segurança, e ganhou de lavada. Bibi ameaçou não repassar o orçamento da ANP e cancelar os Acordos de Oslo[7]. Abbas, finalmente, percebeu que tudo o que Oslo lhe deu durante o governo Bibi foram pepinos para administrar, e disse que Netanyahu poderia cancelar os acordos à vontade. Abbas se cansou de Bibi. Só nos sobra o Hamas.

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5. Abbas

 

Hoje temos um parceiro do lado palestino. Negociar trocas de território com o Hamas é um erro, pois assim se deslegitima o nosso aliado Fatah. Bibi não quer paz, pois não deseja trocar territórios. Por isso fortalece o Hamas. Negociar ou não com o Hamas é um tema recorrente, mas o governo já deu a sua resposta: eles preferem o Hamas ao Fatah. Enquanto o governo Olmert, também de forma equivocada, ignorava o Hamas e até chegou a dar ajuda financeira ao Fatah durante a guerra civil palestina, o governo Netanyahu mostra preferir o oposto. Hoje Hanyieh está em primeiro lugar nas pesquisas para a sucessão de Abbas como presidente da ANP. O candidato à reeleição foi ultrapassado após a última operação israelense em Gaza.

 

E o Hamas? Eles acreditam realmente que conseguirão acabar com o Estado de Israel? A minha opinião é que não. Ninguém é bobo daquele lado para acreditar que uma guerrilha mixuruca pode vencer o exército mais forte do Oriente Médio. Mas o último conflito, apesar de pela primeira vez posicionar a União Europeia ao lado de Israel, também deu força política ao Hamas. Líderes de países como o Egito, a Turquia, o Qatar e outros visitaram Gaza durante a operação e manifestaram solidariedade ao grupo religioso. O Hamas negociou o cessar-fogo com Israel, sem a participação da Fatah. Não se sabe exatamente o que foi acordado, mas certamente algo de proveitoso o Hamas conseguiu. O grupo apresenta indícios de que deseja participar das decisões políticas na região e ser reconhecido como governo também por Israel. Se deixarão de ser terroristas, se abandonarão suas aspirações de ter todo o território entre o Jordão e o mar, isto eu não posso dizer. Mas o diálogo com o Hamas é sim possível. Se nos lembrarmos que fizemos paz com o Egito, disparado nosso maior inimigo na época, e colocamos Rabin e Arafat (um ex-terrorista) na mesma mesa, pode-se dizer que o diálogo com o Hamas é possível. Evidentemente que cada caso se deu em um contexto distinto, mas afirmar a impossibilidade é uma ofensa à história. O Fatah só reconheceu o Estado de Israel após 29 anos de uma mistura sangrenta entre Intifada, Guerra do Golfo, operações e atentados. Se nós realmente preferimos o Hamas à Fatah, então que escolhamos logo o nosso partner. A única pergunta é: o quão sangrento pode ser o processo que levará o Hamas a reconhecer o Estado de Israel?

 

Eu prefiro o Fatah e a paz. E que seja o mais cedo possível.

Notas


[1] Apelido do 1º Ministro Binyamin Netanyahu.

[2] 09/12/2012: http://www.israelhayom.co.il/site/newsletter_opinion.php?id=10231&newsletter=09.12.2012

[3] Exército de Defesa de Israel.

[4] Nome dado aos partidários do Likud.

[5] Brigada de Mártires de Al-Aqsa.

[6] 14/05/1948: Nakba significa “desastre” em árabe, e é como os palestinos se referem ao dia da Declaração de Independência do Estado de Israel.

[7] Que prevê o seu autocancelamento em caso de medidas unilaterais de um dos lados.

 

Fotos

Capa: http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2010/12/201012435638356609.html

Foto 1: http://zone.walla.co.il/?w=/3054/1761331/888034/5/@@/media

Foto 2: http://www.demotix.com/news/858329/pm-ismail-haniyeh-hamas-opens-international-book-fair-2011

Foto 3: http://www.thelondoneveningpost.com/world/west-bank-cheers-mahmoud-abbas-after-un-vote/

Foto 4: http://news.yahoo.com/israeli-leader-calls-early-elections-205530717.html

Foto 5: http://extra.globo.com/noticias/mundo/na-onu-obama-sarkozy-pressionam-por-saida-negociada-para-palestinos-dilma-defende-estado-2645991.html

Comentários    ( 15 )

15 comentários para “Bibi, Abbas, Hamas…”

  • Mirna Lindenbaum

    10/01/2013 at 17:09

    Prezado João,

    Poucas vezes eu li uma análise tão lúcida sobre a questão Israel/Palestinos. Vou compartilhar com amigos, principalmente os não judeus. Eu sempre parto do seguinte princípio: para analisar uma situação, ser contra ou a favor, devemos conhecer tudo o que envolve essa situação, principalmente o seu desenrolar histórico (assim como você, também formada em História). Básico, não é? Mas, infelizmente, não é o que acontece. A “análise” mais comum é aquela que se parece com um filme de Hollywood: bandidos (EUA, Israel e, consequentemente todos os judeus) e mocinhos (palestinos, mulçumanos e árabes, pobres vítimas da ganância implacável do Imperialismo, comandada, claro, por judeus). Essa posição burra é amplamente tomada por pessoas do mais alto nível intelectual: colegas historiadores, sociólogos, jornalistas e, assim por diante, e apoiada por pseudo conhecedores da política internacional. Ler seu artigo foi um bálsamo. Mais uma vez, parabéns.

  • João Koatz Miragaya

    10/01/2013 at 17:26

    Mirna, antes de tudo muito obrigado pelos elogios! É sempre bom quando um colega de profissão valoriza positivamente o nosso trabalho.

    Estou escrevendo este texto há quatro dias. Cada vez que eu escrevia duas páginas, percebia que não estava analisando nada, mas somente descrevendo. Há muitos acontecimentos omitidos por mim aqui, a maioria deles para que o texto não se tornasse algo muito longo. Gostaria que mais pessoas tomassem conhecimento da situação aqui através dos nossos olhos e pelos olhos palestinos. Os periódicos brasileiros compram notícias dos meios de comunicação menos confiáveis e a informação fica pela metade.

    Estou de pleno acordo contigo no que se refere à visão “bom x mau”. O escritor Amos Oz, na sua coletânea de discursos, “Contra o Fanatismo”, fala sobre isso. As análises devem ser feitas em cima de cada momento histórico e tendo em vista que os personagens envolvidos não são representações puras de ideologias. Resumir o sionismo à política de Netanyahu é o mesmo que dizer que socialismo é o Stálin, ou que os palestinos são o Hamas.

    Mais importante do que procurar vilões e herois é buscar alternativas para que o problema seja resolvido.

    Muito obrigado novamente!

  • andre

    10/01/2013 at 22:16

    Muito lúcido e equlibrado. Apoiado!

  • Mirna Lindenbaum

    10/01/2013 at 23:23

    João,

    Não conhecia o periódico eletrônico ‘Conexão Israel’, me tornarei leitora assídua, adorei a linha editorial.

    Faz muita falta pessoas como você para alimentar um debate saudável, pois a falta dele traz somente debates rasos e, infelizmente, o velho antissemitismo, pois ainda associam, como na Idade Média, o mau ao judeu, nesse caso Israel.

    Espero que você continue com esse belo trabalho!

    Abraços.

  • João Koatz Miragaya

    11/01/2013 at 13:58

    Obrigado, André! Obrigado novamente, Mirna!

    Seguiremos sim com o site como estamos fazendo. Os convido a curtir a nossa página no facebook afim de que saibam quando publicamos textos novos. E os convido, também, a ler nossas publicações mais antigas.

  • André Basséres

    11/01/2013 at 16:50

    João, o texto está muito bom, bem escrito e bem argumentado, mas sinto falta das questões mais espinhosas como o retorno dos refugiados e a questão da cidadania (falta dela na verdade). Afinal, você fala em diálogo, fala em paz, mas ela parece bastante difícil (quiçá impossível) sem mudanças drásticas na posição israelense, correto? Gostaria de ler mais suas opiniões sobre isso, pois não basta ser ponderado, há um motivo pelo qual a direita israelense não é ponderada: é que ela não quer ser, pois isso significa questionar se Israel, como conhecemos, poderia continuar a existir em termos mais razoáveis: nas fronteiras de 67, com o retorno dos refugiados, etc. Então, o que fazer? Como seria possível esse diálogo para paz de que você fala sem transformações radicais? Em tempo: argumento raso e “medieval” é a afirmação de que ser crítico de Israel (ou mesmo contra) é ser antissemita. Não é. Israel é a potência invasora e militarmente superiora e tem sim, por conta disso, sua parcela de responsabilidade maior. Não adianta afirmar que os “palestinos também erram” como mostra o crescimento do Hamas, pois não são as casas dos israelenses que são derrubadas com tamanha frequência, nem são israelenses que perdem suas vidas em guerras cada vez mais unilaterais e injustificáveis. E o resto do mundo tem todo o direito de se indignar com o estado dessa violenta e injusta ocupação e de se colocar contra os frequentes genocídios israelenses em território palestino. E ainda bem que isso acontece, é o pingo de esperança com o qual os palestinos talvez ainda contem, pois, certamente, não há esperança para eles do lado das negociações com Israel.

  • João Koatz Miragaya

    11/01/2013 at 17:31

    André, obrigado pelo seu comentário e pelo elogio.

    Antes de tudo, eu queria deixar claro não estou neste texto dando a minha opinião sobre o que é necessário para se chegar a paz, estou me referindo somente ao diálogo. Talvez eu fale sobre propostas e o que é moralmente justo em outro texto. Neste eu preferi escrever sobre o que vem antes de qualquer proposta: a vontade de negociar um com o outro. De três lados, só se vê isso no líder da ANP, Mahmmoud Abbas.

    Em segundo lugar, André, eu não considero que ser crítico a Israel seja antissemitismo. Pelo contrário, eu sou bastante crítico. Meus textos estão aí para provar isso, e concordo 100% contigo sobre a maior responsabilidade de Israel no conflito. Quem é ocupado não são os israelenses, e quando se ataca o Hamas, quem mais sofre é a população palestina. Mas acho que a Mirna se referiu à cegueira de alguns críticos, e eu concordo com ela. Não entendo a que você se refere com “guerras unilaterais”. Não há como ignorar que existem dois lados se agredindo. Não há como esquecer o passado que criou toda esta situação. E não há como medir o conflito somente por questões numéricas. Eu só entendi o que acontece após vivenciar este último confronto. O Assad já matou mais gente nesta guerra civil síria do que Israel em mais de 20 anos (isto inclui duas intifadas), e não se escuta nenhuma voz contra o que acontece lá. Nem os termos “chacina” ou “massacre” são encontrados, pois tudo o que se passa é negligenciado sem nenhuma culpa. Em relação a Israel, se fala até em “genocídio”, dando a ideia de que o objetivo é exterminar os palestinos da região através de assassinatos. Pior que isso: dizem que esta é a essência do sionismo.Não me parece equilibrado. O Rei Hussein da Jordânia realizou algo do gênero na década de 1970, mas não se lê nada sobre isso nos artigos em português publicados sobre o povo palestino. Se um árabe massacra, o caso é ignorado. Se um israelense o faz, é genocídio e motivo para questionar a existência do Estado de Israel.

    Veja bem: a minha retórica não pretende justificar nenhuma guerra israelense contra o Hamas ou a postura durante as Intifadas. Eu acho que o Hamas não existe à toa, Israel tem sua responsabilidade grande nesta história. E eu sou a favor de um cessar-fogo desde o primeiro dia de cada confronto. Sou a favor de um Estado palestino nas fronteiras de 1967, com capital em Jerusalém Oriental e com uma solução justa à questão dos refugiados. Além disso, acredito que os fins não justificam os meios, e acho que se bombardeio resolvesse alguma coisa, Israel teria crédito no futuro. Só penso que não há nenhuma boa vontade quando se analisa esta questão no Brasil, e a prova disto é a comparação com qualquer outro acontecimento mundial.

    Um abraço

  • Mirna Lindenbaum

    12/01/2013 at 04:44

    Olá, João.

    Aqui estou novamente. Você compreendeu corretamente quando disse que os debates rasos sobre o assunto, por pessoas que não conhecem o processo, acabam, por falta de argumentos mais sólidos, caíndo no caminho fácil do uso de antigos chavões recheados de preconceitos.

    Infelizemente, André, essa é realidade que eu encontro em debates, artigos, opiniões expressas em jornais, revistas, etc.

    Pode ter certeza: não acho, de jeito nenhum, que criticar Israel é ser antissemita. Só que, raramente, encontrei pessoas que tivessem essa postura. Não procurei as fontes certas? Conversei com pessoas não preparadas? Talvez, não sei.

    Como você bem alertou João, a análise crítica feita com dois pesos e duas medidas, dá bem uma idéia sobre essa situação. No meu perfil no Facebook, da última vez que postei dados sobre o assunto, comparando a questão da Síria e de Israel/Palestina, a única resposta que recebi foi que ” Israel era um estado nazista”. Ponto final. Só isso. Nenhum argumento, nenhum debate, nenuma troca de idéias. O que será que devo pensar sobre essa situação?

    Bem, me senti na obrigação de me posicionar.

    Abraços.

  • Raul Gottlieb

    12/01/2013 at 22:54

    André:

    “Israel é a potência invasora e militarmente superiora e tem sim, por conta disso, sua parcela de responsabilidade maior” é, a meu ver, uma afirmação que atropela frontalmente a realidade.

    A agressão à soberania do Estado de Israel está na origem de todas as guerras que aconteceram na região desde 1948. O fato de Israel ter vencido os confrontos militares, alguns por larga margem, não muda esta realidade. Não há espaço aqui para uma longa análise, então só me aterei ao conflito do final do ano passado, onde a ofensiva de Israel respondeu a mais de mil mísseis lançados de Gaza contra alvos civis, de janeiro a outubro (estou excluindo os misseis lançados no conflito aberto de novembro-dezembro). Foram dezessete mil, quinhentos e cinquenta e sete desde 2001 (escrevo por extenso para maior clareza, pois o número desafia a compreensão de muitos).

    Ou seja, Israel não é invasor. Ele defende seu direito de existir.

    É verdade que Israel é uma potência militar e econômica na comparação com os seus vizinhos. Mas nenhuma responsabilidade moral diferenciada advém desta situação. Veja que a Declaração Universal dos Direitos Humanos iguala a todos os homens. Ela não torna os mais fortes alvos legítimos de ataque ou de espoliação pelos mais fracos. A DUDH imita a Torá nisto. Ela não diz “Não roubarás os mais pobres”, ela diz tão somente “Não roubarás”.

    Ou seja, Israel é uma potência regional sim. Mas, e daí? Isto lhe obriga a seguir um código de conduta diferenciado?

    Ao longo do tempo, por conta das circunstâncias, Israel desenvolveu uma admirável capacidade de defesa às agressões. Parece-me ser imoral culpar os israelenses por isto.

    Você também cita “frequentes genocídios israelenses”, no entanto não há nem nunca houve nada disso. O que sim existe são as incessantes declarações por parte de vozes de várias partes do mundo árabe conclamando ao extermínio dos judeus. Os mais “moderados” se referem “apenas” aos israelenses.

    Claro que o mundo pode se indignar com o que bem entender, fazer ponderações equilibradas sobre coisas que ignora crassamente e distorcer fatos ao seu bel prazer.

    Não obstante Israel continuará a se defender, para o profundo desgosto de alguns, visto que os judeus aprenderam da pior forma possível qual o real peso do humanismo e da justiça nas relações internacionais.

    Cordialmente, Raul

  • Marcelo Treistman

    13/01/2013 at 14:10

    Querido André,

    Nem toda opinião contrária a Israel poderá ser considerada antissemitismo. Muitas delas apenas refletem uma profunda ignorância em relação ao assunto. Desconhecimento mesmo… Não creio que quando você utiliza as palavras ” frequentes genocídios” as utiliza com má-fé intencional…

    É apenas algo que você repete sem uma profunda investigação…

    A população palestina (refugiados inclusive) possuem uma das maiores taxas de natalidade do mundo. A população cresce a cada ano em números jamais vistos. Você poderá procurar dados da explosão demográfica ao longo dos anos em uma simples busca na Internet.

    Então das duas uma:

    Ou Israel não prática o “genocídio frequente” que você afirma, ou merecemos ganhar o prêmio de incompetência do ano. O que você sugere? Será que genocídio é a palavra correta a ser colocada no seu comentário?

    Por que o número de mortos do lado Israelense é menor?

    Não é por causa da generosidade dos foguetes do Hamas.
    Não é por causa da natural perícia desenvolvida pelos judeus para fugir de foguetes.
    Não é por causa da irrelevância dos dispositivos lançados — que podem, sim, matar muita gente.
    Não é por causa da imperícia do terror.

    Não é que os terroristas palestinos não queiram matar os israelenses… Querem, sim! Não é que não disponham de armas para tanto. Dispõem, sim. Mas um governo democrático, como o de Israel, é eleito também para proteger o seu povo, não para mandá-lo para a morte.

    A sua aritmética e o seu entendimento sobre a questão é muito claro: Os israelenses só serão justos quando houver um número proporcional de corpos dos dois lados ou de casas derrubadas…

    Sinto muito decepcioná-lo. Se isto é o necessário para que você possa considerar a responsabilidade “menor” de Israel no conflito, eu espero que você continue acreditando para todo sempre que a nossa responsabilidade supera a dos extremistas palestinos na questão.

    Desejo-lhe um excelente dia.

  • Adrián

    17/01/2013 at 08:17

    Interesante y valioso artículo. No te preocupes João, en la propia descripción de los acontecimientos está el análisis. ¡Enhorabuena!

  • João Koatz Miragaya

    18/01/2013 at 09:37

    Muchas gracias, Adrián!

  • Gabriel

    04/02/2013 at 03:19

    Com relação a calma na Cisjordânia. Eu acredito que o Fatah não é um movimento fiável, e que a tranquilidade em Jerusalém é resultado da cerca de segurança que foi construída como efeito dos ataques. Os riscos aumentaram e a quantidade de terroristas dispostos a morrer na fronteira, tentando passar, e não como mártires, é muito menor.
    Outra coisa: Pra que abrir duas frentes e ter mortos também na Cisjordânia, se já está aberta uma frente no sul, que passa o muro por cima com foguetes e passar a mensagem da mesma maneira? Apoiar eles com recursos e ver a revolução acontecer de longe… ou mesmo com o silêncio e a cumplicidade. Só a gente vê Gaza e Cisjordânia separadas, os Palestinos “revolucionários” (terroristas) não.

    O Fatah controla sim a sua população, mas não melhor que o Hamas, e com ideologia similar. Eles também são responsáveis por disseminar comunicação, educar e apoiar a conquista do território israelense para formar a Palestina. A política se faz nas mesquitas, as leis são ditadas através de minaretes.

    Estes movimentos estão criando uma identidade nacional Palestina que não favorece a convivência pacífica com Israel. É sempre ou tudo ou nada na mesa de negociação. Cansa, não?

Você é humano? *