Biquíni israelense e canga brasileira

Dana estava sentada na areia, distraída demais em se achar linda por detrás de óculos de sol Gucci e um biquíni preto que mesmo que fosse do tamanho certo, no Brasil seria considerado enorme. E este tinha dois números a mais de pano sobrando.

Per favor, obrigado, quanto custa, como fais chegar aqui! É o que eu sei de português – ela disse rindo com os dentes muito brancos. – Mas eu falo um pouco de espanhol. O português é de quando estive no Brasil. Mas é muito difícil. É bem diferente do espanhol, né? e eu só aprendi um pouco. Você é brasileiro mesmo?

– Sou. Você esteve onde no Brasil? Como foi?

– Fomos mais para o norte. Porto Seguro, Salvador, Morro de São Paulo, na Amazônia e uns dias em São Paulo. Adorei as praias, as trilhas, florestas. As cidades menos. Muita pobreza, tudo muito acabado. E achei São Paulo muito cheio de gente. Foi viagem depois do exército. É bem comum aqui, depois de prestar o serviço obrigatório. Juntei um dinheiro durante o serviço, trabalhei mais um pouco por uns meses e fui com outras duas amigas que foram dispensadas mais ou menos na mesma época que eu para a América do Sul. Fomos para a Bolívia, Peru, Colômbia e depois um pouco no Brasil. Mas Brasil menos, que agora está muito caro.

– Ficaram muito tempo viajando?

– Não muito. Seis meses.

– E quais os planos agora?

Dana se ajeitou sobre a canga brasileiríssima e com suas enormes unhas pintadas abriu um saco de Bamba, sem me oferecer.

– Agora eu estou esperando iniciar o ano letivo para começar a estudar. Ciências do Comportamento, na Universidade de Tel-Aviv. Eu não sabia muito bem o que eu queria estudar, mas minha nota do secundário foi suficiente para ser aceita… E daí eu posso seguir depois para alguma especialização. Sociologia, psicologia, outra coisa, ou talvez coisa nenhuma. Eu nem sei se eu presto para estudar, mas meus pais disseram que me ajudam, então eu vou tentar. Se eu conseguir continuar lá onde estou trabalhando agora, vai ser legal. Vou até poder pagar tudo sozinha.

– Onde você trabalha?

– Tá vendo lá aquela rua? – Ela apontou para a Gordon, quase na nossa frente, depois da praia. – Tem um restaurante lá. Eu sou garçonete.

– Gosta do trabalho?

– Até posso dizer que gosto. Tipo, não vou viver disso para sempre, né? Mas dá para economizar um dinheiro, juntar para, talvez comprar um carro, ou viajar no verão que vem… Não decidi ainda. É um bom restaurante. Os pratos são caros, então eu ganho boas gorjetas. Mas eu também sou boa no que eu faço. Já era garçonete quando ainda morava com meus pais, antes do exército, em Kfar Saba, desde os 17 anos.

– E quantos anos você tem agora?

– 22. – Ela riu. – Parece mais?

– Não. Não parece. Você mora onde agora?

– Na Mapu. Eu e mais dois roomates. Um rapaz e uma moça.

– O apartamento é bom?

Ela riu.

– Bom? É uma bosta! Mas meus roomates são legais e os quartos são relativamente grandes. Não existem apartamentos muito bons em Tel-Aviv. A não ser, claro, que você seja milionário. Esse aí é de um cara. A avó dele deixou de herança e ele vive em Boston. Você acha que ele se importa em ajeitar o imóvel? Mas meus roomates são legais. Um é um rapaz mais velho, designer gráfico em uma empresa daqui de Tel-Aviv, a outra é jornalista. – Ela me empurrou o saquinho de Bamba, me oferecendo um. – Pega aí! A gente traz essas coisas para praia e é um negócio meio comunal. Bamba, biscoito, frutas, cerveja…

Dana falava muito rápido, com um hebraico de concordâncias muito corretas, um pouco atropelado e muito cheio de gírias, abrindo muito as vogais num falar um pouco afetado do sotaque de “Norte de Tel-Aviv”. Mordia obsessivamente os próprios lábios e brincava com o seu iphone, de mão em mão, enquanto eu me entretinha em imaginar aquilo caindo na areia.

– Você tem namorado?

– Não. A gente até ri, entre as amigas, que estamos agora todas solteiras. – E olhou para as amigas, logo ali, todas com biquínis parecidos, sob cangas idem. – Eu tinha um namorado antes de sair para a viagem, mas agora prefiro estar solteira.

– Me conte um pouco sobre a sua família.

– Meu pai é médico dermatologista, minha mãe é funcionária da prefeitura de Raanana. Meu pai cresceu num kibutz no norte. Meus avós ainda moram lá. Não teve férias na minha infância em que eu não passei com eles, nadando na piscina, ajudando a colher abacates, ou na fábrica do kibutz. Minha mãe é de Jerusalém. Ela é a oitava geração em Israel. Já família do meu pai veio da Romênia, pouco depois do início da 2a Guerra. Só sobrou meu avô e um outro irmão, que aliás, foi parar em São Paulo. De resto morreram todos. Eu tenho um irmão mais novo que agora está no exército. Está na 8200. [ref]Unidade de inteligência eletrônica do exército – http://pt.wikipedia.org/wiki/Unidade_8200[/ref]

– E você? Fez o que no exército?

– Trabalhei na Kiriah. [ref]Campus do Centro do Estado-Maior de Israel, em Tel-Aviv http://en.wikipedia.org/wiki/HaKirya[/ref] – E ela sorriu. – Mais que isso não posso dizer.

– Você votou em quem nas últimas eleições?

– No Lapid.

– Por que?

– Eu não sou muito ligada a política. Minha mãe, ou pelo menos a família dela, costuma sempre votar no Likud. Mas eu sei que ela acabou votando no Kachlon. Meu pai, talvez por causa da infância dele no Kibutz, é fanático pelo Avodá. Eu achei por bem ser neutra. Além do que sempre gostei bastante dele. – E daí ela sorriu. – Meu irmão votou no Aleh Yarok [ref]Aleh Yarok, literalmente Folha Verde. – Partido cuja bandeira é a legalização das drogas leves http://en.wikipedia.org/wiki/Ale_Yarok[/ref]. Mas foi só de palhaçada, que eu sei que ele fica bêbado com meia vodka-redbull. Ele é muito nerd. Ei! Não, não escreve isso! Ele me mata! – E ela começou a rir.

– Como é que você vê a questão palestina?

– Bem, como eu disse, eu não sou muito ligada em política. Mas eu tenho diversos amigos árabes, minha mãe e a família dela sempre tiveram excelentes relações com os vizinhos em Jerusalém. A verdade é que eu não tenho a menor ideia de por que tem tanta gente de todos os lados procura tanto motivo para brigar.

– Vai ficar muito mais na praia?

– Não. Eu trabalho hoje. Apareça lá no restaurante!

– Vou sim.

– Traga os amigos.

– Com certeza!

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