Bye bye, Shimon Peres

10/10/2016 | Sociedade

Pudera Deus permitir que os israelenses se comportassem tão bem na vida cotidiana quanto no velório de um dos mais amados, odiados, criticados e abençoados líderes do país. Confesso que, antes da despedida de Shimon Peres em frente à Knesset, que aconteceu em uma quinta-feira véspera do feriadão de Rosh Hashaná (ano novo judaico), nunca havia visto esse povo tão silencioso, respeitoso, paciente – e em fila. Segundo a imprensa local, 50 mil israelenses passaram por lá, sem nenhuma confusão. Para mim, essa talvez tenha sido mais uma lição de vida: descobrir que tudo, tudo mesmo, é possível nesse canto do mundo.

Cheguei ali por volta das duas da tarde. Seguindo a recomendação ao público, estacionei meu carro em um dos locais divulgados (no meu caso, o Estádio Teddy) para tomar a condução gratuita disponibilizada para nos levar até o parlamento. Outra recomendação divulgada, a de não circular de carro na região da Knesset e, se possível, nem viajar a Jerusalém, foi amplamente atendida pela população, e à noite pudemos ver nos noticiários imagens das estradas de acesso e das ruas daquela área quase às moscas. Algo que não seria notícia em um dia comum – a falta de problemas no trânsito – ganhou destaque em todos os jornais locais.

Shimon levou as bandeiras a meio-mastro…
Shimon levou as bandeiras a meio-mastro…

Fazia um calor do cão, coisa inesperada para essa época do ano. Um céu lindo, azul escuro, típico do outono que ainda não teve coragem de chegar. Havia um fluxo constante de gente, que chegava a passos calmos e se alinhava comportadamente na fila que nos conduzia primeiro para a linha de bandeiras de Israel a meio-mastro, sob as quais havia uma foto sorridente do mais poético dos líderes locais de todos os tempos e (desconfio) de todo o mundo, com algumas coroas de flores. Mais à frente, virávamos à direita para chegar até o meio da fachada da Knesset, onde estava o caixão do “chaver” Shimon, embrulhado em uma bandeira israelense.

Mesmo ali, não houve bagunça. Ninguém ficou mais tempo do que o necessário, ninguém fez estripulia nem dramas típicos do povo daqui. Uma serenidade incrível. Ele teria se orgulhado ainda mais desse povo que ele defendeu como se fosse um “colete à prova de balas”, como disse um dos israelenses o qual entrevistei ali para uma matéria de jornal, o motivo que me levou até ali.

Shimon Peres, em maio de 2016, na Universidade Hebraica de Jerusalém.
Shimon Peres, em maio de 2016, na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Só passei a acompanhar Shimon Peres depois que cheguei a Israel, há quatro anos. Minha única imagem dele era, até então, a do homem que recebeu o prêmio Nobel da Paz. Um cara de fala mansa, cabelos sempre alinhados e um olhar que às vezes parecia sonhador, mas na maior parte das vezes demonstrava um humor do gênero que eu mais gosto, o judaico, que mistura piada à ironia fina e desconcertante. (Só depois da morte dele vi uma outra faceta sua, irada e estressada, nas reportagens de TV mostrando sua atuação como político aos berros com seus opositores).

Eu tive a sorte de conhecer melhor Shimon Peres já perto de seus 90 anos, conduzindo seu Centro Peres para a Paz, em Yafo, para receber celebridades e criar microambientes experimentais para misturar nossas populações locais tão cheias de idiossincrasias. Ao longo desses quatro anos de vivência em Israel, eu estive a poucos metros dele em duas situações. Em ambas eu fazia reportagem. Na primeira delas, eu estava acompanhando a vinda de Joaquim Barbosa, que receberia um Honoris Causa pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Os dois se sentaram lado a lado no palco, Peres com cara de curioso, Barbosa com um jeito tímido, com fones de ouvido cravados nas orelhas e os dois pés delicadamente enfiados para baixo da cadeira em que se sentou. Achei graça de Peres naquela ocasião por dois motivos: primeiro porque era dificílimo entender o que ele dizia com sua fala mansa e divagações românticas em um microfone que insistia em ficar longe de sua boca; segundo porque tudo indicava que seriam palavras breves e ele permaneceu ali, em pé, deixando-se levar pela emoção do momento por pelo menos trinta minutos.

Peres (mais curioso com a plateia do que com os discursos) e Barbosa (comportado como ele só) na Universidade Hebraica de Jerusalém.
Peres (mais curioso com a plateia do que com os discursos) e Barbosa (comportado como ele só) na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Na segunda vez, Peres recebeu Caetano Veloso e Gilberto Gil no Centro Peres. Ele esbanjou simpatia e bom humor. Recebeu as duas estrelas – um Caetano com cara de quem comeu e não gostou e um Gil com uma certa expressão de sono (há de ter sido o fuso) – com uma humildade desconcertante. Eu cheguei até ali por causa dos cantores, mas fui embora ali com Peres na cabeça. Um fofinho.

Foi um contato muito superficial com o que ele foi ou representou, confesso com alguma vergonha. Não o vi criando, gerindo, mudando, estimulando, gerenciando, amando, representando, criticando e todas as outras coisas que é possível fazer em 70 anos de atuação pública, como muitos israelenses viram seja em tempo presente ou em filmes e documentários. Pude admirar sua insistência pela paz sem distrações, uma vez que só o vi já entregando o seu mandato presidencial para um outro querido (na minha opinião), Reuven Rivlin. Presidente aqui tem dessas coisas: pode ser fofo o quanto quiser. Shimon foi, e encerrou sua trajetória política com essa marca.

Peres com Gil-soneira e Caê-azedinho no centro pela paz, em Yafo.
Peres com Gil-soneira e Caê-azedinho no centro pela paz, em Yafo.

Assim, na hora de entrevistar as pessoas que estava na fila para minha matéria, foi somente isso o que vi: um olhar de tristeza pela perda de alguém que, tudo indica, foi maior ainda do que seu nome. Os inimigos terão sempre seus argumentos para lembrar dele – como os fracassados Acordos de Oslo e os terríveis atentados terroristas que os sucederam, as inúmeras eleições que ele perdeu e por aí vai –, mas me parece que, à distância, já estão começando a encontrar argumentos para amenizar o discurso contra o homem político que ele foi. Um de meus entrevistados, um estudante de escola talmúdica (yeshivá), citou que “um homem de 93 anos tem muito tempo na vida para cometer muitos erros, mas ele participou como ninguém do Estado de Israel – e fez muito bem ao povo de Israel ter a sua própria nação”. Só por isso, disse ele, merecia o respeito dos ultraortodoxos, discordantes da “mania” de Peres em acreditar na criação de um Estado palestino.

Nesse dia e no seguinte, Jerusalém se encheu dos manda-chuvas do mundo, que aterrissaram no abarrotado Aeroporto Ben-Gurion que bufava de cansaço com o vai-e-vem dos israelenses em plena comemoração do Ano Novo. Colocaram kipá na cabeça e fizeram discursos emocionantes. Achei graça ao ver na TV o quanto se apertavam sentados às cadeiras, que certamente foram espremidas para as confirmações de última hora, entre elas a do líder palestino Abu Mazen. “Paz” foi a palavra que mais se falou naquele dia, e sei que muitos outros além de mim divagaram, em frente da TV, a respeito das possibilidades reais de isso um dia acontecer por aqui.

Até os ultraortodoxos deram um pulinho no velório.
Até os ultraortodoxos deram um pulinho no velório.

Daí todo mundo tomou o avião de volta, os milhares de policiais que guardaram a cidade voltaram a seus postos em outros locais, o trânsito voltou ao caos e até a casa de Abu Mazen foi alvo de tiros de um correligionário discordante de sua visita de condolências.

Lá se foi o último elo de uma corrente de admiráveis que foi capaz de sonhar e atuar quase que na medida certa, o que resultou na criação de um Estado moderno para os judeus nesse canto doido do mundo. Quero ser otimista e acreditar que como outros grandes de suas gerações – Martin Luther King, Gandhi e até John Lennon – ele deixou uma marca que se tornará uma bandeira a ser empunhada para sempre. O céu está em festa, claro. Logo saberemos como nos viramos aqui embaixo sem um cara como Shimon Peres.

O prédio do Centro Peres para a Paz, em Yafo.
O prédio do Centro Peres para a Paz, em Yafo.

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