Cada povo com seu político bizarro

15/06/2015 | Política

Em quase 20 anos morando em Israel, eu ainda me pego surpreendido por lances para lá de bizarros. O último, que me encontra em meio a merecidas e por demais curtas férias é a inacreditável epopéia do clã Hazan e sua impressionante capacidade de não ter nem sequer um pingo vergonha na cara.

Começando do fim (que é para ser alinhado à atual conjuntura política), conto do Hazan filho: Oren Hazan, 30o lugar da lista do Likud, parlamentar para lá de ativo, que hoje pode vir a ser motivo para nada menos que o fim do governo.

Oren é o que o pessoal da minha terra costumava chamar de “boyzinho de vila”. Andava para lá e para cá em meio a companhias duvidosas e pouco higiênicas. Mas parecia bem apessoado, bem falante, de terno fazia até a impressão de ser um sujeito quase sério. E por quase um mês de governo, depois de assumir seu lugar na Knesset, foi só objeto de alguma piada e algumas expressões de nojo. Não muito mais que isso. Programas humorísticos pegaram no pé dele por conta de um suposto passado como diretor de cassino e uns comentários feitos por ele, bem mal trabalhados e que são típicos de jovens políticos sem experiência. E ficaria nisso, não fosse o jornalismo investigativo do Canal 2 (que, droga, perdi de ver essa) provar que o que se suspeitava por aí era verdade: ele realmente tinha sido diretor de um cassino na Bulgária. Consumia drogas pesadas e fazia uma alegre ponte entre clientes do cassino e moças da vida. Coisa que, se não era crime, está longe de ser algo digno de um parlamentar. Ainda menos de um membro da Comissão de Segurança e Relações Exteriores da Knesset – e vice-presidente da Knesset.

Agora ao problema (como se a excrecência ética descrita até agora não fosse problema): o governo atualmente é formado por uma coalizão muito estreita. São apenas 61 parlamentares. E se somente um deles falta a uma votação, importantes e estratégicos projetos de lei, fundamentais para a direita, deixam de passar. E eis que Oren Hazan é passível de ser oficialmente suspenso. Neste momento está apenas diplomaticamente afastado. Mas se a oposição quiser se articular para derrubar o governo, agora seria o momento mais vulnerável da coalizão. Por pura questão matemática.

Como todo clã, os Hazan também têm um patriarca à altura. Yehiel Hazan, pai de Oren. Em 2003 Yehiel foi pego votando por outro parlamentar. Como que para deixar bem claro que se trata de uma família de nível (a ver de que nível estamos falando), Yehiel tentou apagar a prova do crime invadindo um almoxarifado da Knesset, onde se guardava a memória do equipamento de contagem de votos. Foi pego, literalmente com a mão na massa. Foi condenado à prisão e a trabalho comunitário. Culpou a tudo, todos e até à pia da cozinha de perseguição política.

Mais crítico ainda como corolário dessa história, é o fato de que gente assim popula no Likud e em outros partidos por conta de esquemas de votações internas e troca de favores nos baixos e baixíssimos cleros partidários. Ariel Sharon tentou mudar a constituição do seu partido, o Likud, justamente para lutar contra esse tipo de fenômeno. Não conseguiu, e por conta dessas rompeu com o Likud e criou seu próprio partido. Netanyahu não vai fazer a mesma coisa. Tantas e tantas vezes provou ser bastante incompetente em resolver problemas internos dentro do Likud. Vai botar as coisas em panos quentes, cozinhar em água fria, dar um pitaco no menino e esperar que todo mundo esqueça o que acontecer. A bizarrice de um Oren Hazan me surpreende. A solução para esse problema provavelmente vai só me deprimir.

 

ATUALIZAÇÃO (03/12/15):
Oren Hazan sim conseguiu me surpreender. Aliás, surpreendeu provavelmente a todos, trazendo um novo significado à expressão “How low can you go“. Semana passada, durante uma importantíssima votação na Knesset, Hazan mostrou ao mundo a que veio. Uma semana antes, a parlamentar Karin Elharar, do Yesh Atid, que é portadora de um tipo de atrofia muscular e usa cadeira de rodas, precisou da ajuda do seu vizinho de bancada, Issawi Frej, do Meretz, para efetuar seu voto. Hazan acusou Frej de votar duas vezes (o que é irônico, porque foi justamente por votar por outro que o pai de Oren foi condenado). Foi então que, semana passada, provando que a zoeira não tem limites aqui também, Oren gritava para Karin, em meio às discussões parlamentares: “E aí? Vai querer a ajuda do Issawi?” mais ou menos ao nível de 3a série, deixando todo mundo tão sem jeito que um programa humorístico daqui fez uma campanha para deixar Oren na Knesset, fazendo o que quer, porque ele faz todos os outros parlamentares parecerem muito melhores, por comparação.

Mas no fim a zoeira sim tem limites. Ontem a Comissão de Ética suspendeu Oren da Knesset por um mês. Está vetado de participar de discussões em plenário. Não foi suspenso de votar, já que essa não é uma prerrogativa da comissão – o que afinal mantém a estabilidade política da corrente instável coalizão.

Foto da Capa: http://www.timesofisrael.com/herzog-agrees-to-keep-shamed-lawmaker-from-sinking-coalition/

Comentários    ( 17 )

17 Responses to “Cada povo com seu político bizarro”

  • Fábio

    15/06/2015 at 14:17

    Caro Gabriel, não quero contribuir para a sua depressão. Mas a profissão atribuída a esse Hazan (que pena que não seguiu o sentido do próprio sobrenome e tornou-se cantor litúrgico…) por algumas décadas foi muito explorada, em especial na Argentina e no Brasil (mas não só aqui) por judeus. E é um dos bons exemplos de como, diferente do que muito se acredita, os judeus não se ajudam e não são unidos (pelo menos o tanto que se diz). Boa parte das vítimas de tráfico de escravas sexuais era também composto por judias (as chamadas polacas). Vi em processos mais de um caso no qual o sujeito explorava a própria esposa e não raro a própria filha. Mas a maioria deles fazia isso com a filha dos outros mesmo.

    E qual a conexão com o atual membro do Knesset? Alguns dos cafetões, depois de dedicação a esse tipo de exploração e entrada de capital, aposentaram-se do ofício e com os recursos adquiridos dedicaram-se a outro negócio e o passar dos anos tratou de apagar (ou comprar) o bom nome.

    Em um espaço de algumas décadas, não é incomum ler em malas diretas judaicas comunitárias referências a pessoas apresentadas como netas de “grandes beneméritos da comunidade judaica”. E ainda dizem que somos um povo de boa memória.

    Com um abraço, Fábio.

    • Mario S Nusbaum

      17/06/2015 at 17:51

      Ou seja Fábio, somos um povo normal, como todos os outros. “Nossa” máfia nos EUA foi muito atuante, e sempre se deu bem com a italiana.

    • Fábio

      26/06/2015 at 06:25

      É verdade. Se deu bem quando nada disputou com eles ou eles com os “nossos”. O assunto é relatado no belo filme “Era uma vez na América” (Once Upon a Time in America) de 1984. Depois de muitos anos de produções norte-americanas (produtores judeus) fazendo filmes a respeito dos gangsters e mafiosos italianos nos EUA, uma produção ítalo-ianque (filme do Sergio Leone com música do grande Ennio Morricone). Puseram ainda o Robert de Niro, ator bastante identificado junto ao público com a própria origem italiana, que já tinha feito vários papéis de mafiosos e afins, como um judeu mafioso.

      Ainda assim, nada se compara – em termos de absoluta crueldade e falta total de humanidade – com o que é possível encontrar (nos arquivos públicos) a respeito da exploração de mulheres (muitas delas, judias) no Brasil por parte dos cafetões e traficantes (idem, judeus).

  • Marcelo Starec

    16/06/2015 at 00:33

    Oi Gabriel,

    Bom…coisas de um País “normal”…veja os jornais brasileiros, argentinos, franceses etc…Capaz de você até achar o sujeito muito ético….rs….

    Abraços,
    Marcelo.

    • Fábio

      16/06/2015 at 05:56

      Caro Marcelo, você tem razão. O próprio Ben Gurion teria dito que “quando tiver ladrões e prostitutas Israel terá alcançado o estágio de um país normal”, mas barrou por longo tempo a televisão e se não me engano, a coca-cola? Ou era outra coisa?

      Com um abraço, Fábio.

    • Mario S Nusbaum

      17/06/2015 at 17:49

      Exato Marcelo, no “nosso” Congresso ele estaria em casa, seria apenas mais um.

  • Raul Gottlieb

    16/06/2015 at 12:03

    Gabriel,

    Um dos dilemas que o teu texto desperta é a questão do voto em lista.

    Talvez uma pessoa com a ficha corrida do Oren Hazan não seria eleita de per si.

    Mas como trigésimo numa lista com nomes respeitáveis na frente ele teve a sua chance.

    O voto em lista é mais ideológico, porque se vota numa plataforma ideológica e não numa personalidade.

    Mas tem este lado negativo – as figuras de proa podem carrear junto delas pessoas duvidosas e o eleitor não consegue avaliar todos os nomes da lista um a um.

    O voto no candidato é mais personalista, o que numa sociedade politicamente mais evoluída (ou seja, que não se deixa levar por candidaturas bizarras como a do slogan “pior não fica”) pode ser melhor.

    É um bom debate.

    Abraço,
    Raul

    • Gabriel Paciornik

      20/06/2015 at 16:20

      Nem é essa a pergunta, Raul. O problema é como essa lista é criada, por quem e com qual intuito.

    • Fábio

      21/06/2015 at 09:05

      Pois é. Em verdade, os candidatos eleitos do mesmo partido que estão primeiro na lista apenas escondem melhor os respectivos podres…
      Abraços, Fábio.

    • Leandro Rocha

      30/06/2015 at 07:02

      Existe uma proposta de voto em lista aqui no Brasil, que acho a melhor de todas: voto dado em dois turnos, no primeiro vota-se no partido, para definir o número de cadeiras que ele terá, e no segundo vota-se na pessoa apenas, para definir a sua ordem dentro da lista.

    • Fábio

      30/06/2015 at 14:00

      Leandro, essa proposta é uma certa manutenção do voto na pessoa e não no projeto político de um partido. Aparentemente, os partidos temem que seus programas de governo (existe mesmo, na maioria deles, fora enriquecer com verbas públicas?) não sejam atraentes o suficiente e mantém a decisão quanto a eleição nos rostos dos políticos.

      Política séria deveria ser os partidos possuírem programas e projetos de governo e os que encabeçam as listas tão somente aplicarem uma vez eleitos. E não essa politicalha personalista e apartidária (partidos no Brasil são só simbólicos, no mau sentido) que temos.

      Com um abraço, Fábio.

  • Raul Gottlieb

    16/06/2015 at 12:10

    Muita coincodência. Acebei de ler o Conexão, fui ver a imprensa israelense e encontrei isto em destaque:

    http://www.timesofisrael.com/allegations-of-sexual-assault-against-scandalized-mk-surface/

    O Conexão é up to date!

    • Gabriel Paciornik

      20/06/2015 at 16:19

      Sou, ou somos, ou tentamos ser 🙂

      Às vezes um assunto é interessante per se, às vezes ele só vai ganhar alguma relevância depois de tomar volume e de se desdobrar. É comum eu ver um assunto se desenrolando em algo interessante, e aí é uma questão te timing. Se eu escrevo cedo demais, vou ter que me basear em especulações e dar muito poucos fatos. Se eu espero demais, o assunto já é antigo e irrelevante – ou pior, já se transformou em algo muito mais sério, que exige um tratamento bem diferente. Como não temos pretensão de ser um noticioso, costumo optar por escrever mais tarde. Mesmo porque, ao que eu saiba, somos o único veículo em português que produz esse tipo de material.

      Abraços!

    • Leandro Rocha

      03/07/2015 at 21:43

      Discordo, acho que ela é o meio-termo mais inteligente entre o voto na pessoa e o voto no político. Hoje o que acontece aqui no RJ por exemplo… Muita gente vota no Bolsonaro pq ele é linha dura e honesto, mas não percebem que a chapa dele é formada por vários canalhas que são eleitos com o voto dele.

      Se essa proposta passasse, os conservadores não votariam no primeiro turno no PP na mesma proporção, e não elegeriam, por exemplo, o Julio Lopes por tabela. Aí o PP faria uma vaga no quociente eleitoral e o Bolsonaro entraria, mas sem puxar mais ninguém.

      Essa proposta obrigaria os partidos a terem chapas mais coerentes (e formadas por pessoas honestas), sob pena de perderem votos de legenda no primeiro turno.

      No entanto, ela não tiraria do eleitor a possibilidade de dar a palavra final sobre qual a ordem das listas.

      Esse sistema de lista fechada, com todo o respeito, mas eu acho covarde… Por exemplo, o nº 15 da lista do Meretz (ou do PSOL aqui no Brasil) SABE que nunca será eleito. O nome dele ta la só pra fazer figuração. Isso traria é mais disputa interna entre os partidos, e num país como o Brasil que não tem tradição interna de partidos fortes, e existe uma grande dificuldade pra se criar partidos novos, esse sistema elitizaria ainda mais a política.

  • Leandro Rocha

    03/07/2015 at 21:48

    Vou fazer uma pergunta aqui TOTALMENTE OFF com o tópico, mas é pq aqui vcs sempre respondem, mas lá na página do facebook ou por mensagem interna não.

    No vídeo da Canção do Acordar, do Méretz

    https://www.youtube.com/watch?v=KIylmGYaGHc

    Fiquei curioso com uma coisa: aos 2’16 tem um cartaz com a imagem do Barack Obama dizendo “Yes, we…” e um símbolo. O que ele quer dizer?

    • Marcelo Treistman

      04/07/2015 at 17:58

      Olá Leandro,

      O simbolo é a palavra em hebraico “כן”, que significa “sim” e tem o mesmo som da palavra em inglês “can”. Trata-se de um jogo de palavras.
      Um grande abraço.

    • Leandro Rocha

      07/07/2015 at 08:59

      Obrigado pela resposta! Vocês tem coko conseguir pra mim a letra completa dessa música em hebraico transliterado pro Português? Não é a tradução que quero, essa já tem, queria aprender a cantar, só que escrito em alfabeto latino.