Cantei Para Ti, Minha Terra

11/11/2017 | Cultura e Esporte

Tendo nascido e crescido por mais de 25 anos no Brasil, sempre fui conectado com a música e a cultura brasileira. Também sempre escutei e apreciei a música e a cultura israelense, e quando vim morar em Israel, essa mistura virou uma verdadeira bagunça na minha cabeça. Quando tentei colocar ordem, foi difícil separar algumas coisas, pois minha mente havia feito conexões que, afinal, não parecem tão loucas assim. Convido vocês a embarcarem comigo nas minhas viagens. Abram a cabeça, e permitam a criatividade e a boa vontade fazerem seus trabalhos.

Programas de Televisão

Dan Almagor é um poeta, tradutor, e historiador da cultura israelense. De 1974 a 1976 foi o apresentador de um programa de televisão israelense no Canal 1 chamado “Sharti Lach Artzi” (“Cantei Para Ti, Minha Terra”). Em 24 episódios de cerca de 1 hora de duração, faz um verdadeiro apanhado da história de Israel através da música. Conta histórias, causos, e chama cantores para apresentarem as músicas. É um mergulho profundo e lindo nessa história cultural tão rica e interessante, que bebeu da fonte de diversas culturas distintas, transformando tudo através do uso do hebraico, da relação com a Terra de Israel, com a agricultura, com o trabalho no campo, com o estilo de vida camponês, pastoril. Quem quiser se deliciar com essa preciosidade, pode conferir o primeiro episódio neste link:

 

Rolando Boldrin é músico, ator, e estreou em 1981 o programa Som Brasil, na TV Globo, que se tornou Empório Brasileiro na TV Bandeirantes, Empório Brasil no SBT, e hoje é o programa Sr. Brasil, da TV Cultura. Seguindo o seu lema “vamos tirar o Brasil da gaveta”, Rolando Boldrin conta causos, histórias, e chama cantores para apresentarem músicas brasileiras. O programa é uma celebração da música popular nacional, percorrendo diversas regiões do Brasil, chamando cantores conhecidos e revelando novos talentos. Curiosidades da história da cultura brasileira são contadas pelos próprios protagonistas, como no caso deste episódio, em que o Roberto Menescal conta como o termo “Bossa Nova” foi utilizado pela primeira vez para designar o gênero musical quando um funcionário do clube A Hebraica, no Rio de Janeiro, resolveu criar um nome para o jovem grupo que ia se apresentar no clube (a partir do minuto 20:50).

 

 

Duplas sertanejas

Hoje em dia, quando se fala em música sertaneja, diversas reações podem ser despertadas em diferentes pessoas. Houve talvez um processo de industrialização desse gênero musical super tradicional no Brasil, que acabou enviesando para melodias mais simples e letras que apelam para desilusões amorosas. Mas o sertanejo de décadas atrás representava um estilo bem diferente. Evidenciava a relação do trabalhador com a terra, com o sertão, com o campo. Pena Branca e Xavantinho cresceram no interior de Minas Gerais, aprenderam a tocar o violão e a viola enquanto trabalhavam na lavoura, e se imortalizaram cantando as músicas mais tradicionais do repertório popular brasileiro. Transitaram entre a música caipira e a MPB, sendo gravados por nomes como Milton Nascimento e Caetano Veloso. Neste excelente episódio do programa “Viola, Minha Viola”, uma bela homenagem é prestada à dupla, e podemos conferir algumas gravações tradicionais de suas belas canções evidenciando a vida no campo e a natureza do Brasil. Dentre as minhas preferidas, estão “Cuitelinho”, “Eu, a Viola e Deus” e “Vide Vida Marvada” (essas duas últimas escritas e compostas pelo Rolando Boldrin). Deliciem-se.

 

Haparvarim” é, ouso dizer, uma dupla caipira israelense. Diferentes formações já compuseram esse dueto, mas a que se imortalizou foi Yossi Huri e Ori Harpaz. Empunhando dois violões (um grande e um pequeno), à semelhança de Pena Branca e Xavantinho, Haparvarim também cantam a natureza e a vida no campo, mas em Israel. Ori Harpaz nasceu em kibutz, e as músicas que a dupla gravou saíram direto do cancioneiro folclórico pioneiro kibutziano, além de composições posteriores de Naomi Shemer e Nachtze Heiman, por exemplo. O seguinte link abre uma verdadeira mina de ouro, que é um show deles de quase 2 horas, e que contém o repertório mais tradicional da trilha sonora israelense. Dentre as minhas preferidas estão “Bein Habroshim”, “Erev Shel Shoshanim”, além de muitas outras. Algumas versões em hebraico de músicas brasileiras (músicas de Noite Ilustrada e Dorival Caymmi, traduzidas por Yaakov Shabtai) também são tocadas nesse show, mas o foco deste texto é traçar os paralelos que não são tão diretos assim. Deleitem-se.

 

Corais

Seguindo o mesmo estilo musical do duo “Haparvarim” , o coral “Haguevatron” é formado por homens e mulheres, que gravam lindas versões das músicas israelenses mais tradicionais. Com belas vocalizações, nos transportam de volta à época mítica do pioneirismo, quando a realização coletiva era mais importante do que a individual, e isso se refletia em diversos âmbitos da vida – na organização do trabalho, na criação dos filhos (que não pertenciam aos pais), na dança (a hoira) e, é claro, na música, onde as vozes individuais não tinham ainda lugar, apenas o coral.

Do outro lado do mundo, Quarteto em Cy e MPB4 são dois quartetos, um de mulheres e o outro de homens, que diversas vezes se juntaram para imortalizar com suas vocalizações maravilhosas as canções mais lindas da música popular brasileira.

Separei esses dois pares de canções, para a pura apreciação de vocês.

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Jerusalém e Luciana

Ori Harpaz (um dos eternos integrantes do duo “Haparvarim”) morou em São Paulo quando era jovem, pois seu pai foi enviado de Israel como representante do movimento juvenil Hashomer Hatzair. Lá, cresceu escutando o melhor do samba e da música popular brasileira. Vi um show do Ori no Rio de Janeiro em 2014, que durou umas 3 horas e meia, movido pela pura paixão de tocar. Jair Rodrigues tinha falecido naquele mês, e Ori prestou uma homenagem como não vi nenhum outro artista brasileiro fazendo, tocando e cantando com perfeição as melhores músicas de Jair. Desde os tempos do Haparvarim, Ori já cantava diversas músicas brasileiras traduzidas para o hebraico. Mas nesse show, ele fez algo ainda mais impressionante. Ori misturou uma música brasileira e uma música israelense, na mesma batida do violão, mostrando como as músicas eram muito parecidas. Eu fiquei muito impressionado com a relação que ele encontrou entre as músicas “Meal Pisgat Har Hatzofim” e “Cantiga Por Luciana”. Não gravei na ocasião, e não encontrei a gravação em nenhum lugar. Tenho vontade de um dia tentar em contato com ele e pedir para ele gravar essa preciosidade. Por enquanto, fica o convite para vocês escutarem as duas músicas separadamente, tentando misturar os refrões na cabeça. É um lindo exercício.

Apreciem os seguintes dois pares de versões – um par com vozes femininas, outro com vozes masculinas. A versão masculina de “Meal Pisgat Har Hatzofim” foi gravada na sinagoga de Manaus, com a belíssima voz do chazan Isaac Dahan, o violão do Murilo Laredo, e o autor que vos escreve na gaita.

 

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Comentários    ( )

Um comentário para “Cantei Para Ti, Minha Terra”

  • Alex Strum

    14/11/2017 at 16:14

    Obrigado Rafael por este presente.
    As canções hebraicas e a bossa nova foram o roteiro musical da minha adolescência no Ichud e da juventude na faculdade. Saudade.
    abs, Alex

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