Capítulo 1, Versículo 3 – Democracia e Judaísmo

26/08/2013 | Opinião; Política

Observe as descrições de dois países, A e B. Qual dos dois você diria ser mais democrático?

O país A possui eleições a cada quatro anos, preserva o direito de oposição política, possui um conjunto de leis que garante aos seus cidadãos direitos civis e liberdades básicas como a de imprensa, de religião e de expressão.

O país B não possui eleições, seu quadro político é composto por apenas um único partido e sua constituição não preserva direitos civis e liberdades individuais com tanto rigor.

Não levaria muito tempo para categoricamente declararmos o primeiro país como o mais democrático. De fato, a democracia está associada as idéias de liberdade e participação popular. No entanto, acrescente os seguintes dados aos países acima:

O país A possui um alto nível de desigualdade social, grande parte de sua população não possui plano de saúde, o sistema público de educação é precário e há pouca flexibilidade governamental para implementação de reformas sociais.

O país B possui um baixo nível de desigualdade social, sua população tem acesso a um plano de saúde gratuito, seu sistema público de educação goza de ampla infra-estrutura e seu governo possui a flexibilidade necessária para implementar reformas.

Agora, ao invés de responder a pergunta de qual país é mais democrático, gostaria que você refletisse sobre em qual dos dois países você gostaria de NASCER. Observe que digo nascer e não viver; esse exercício implica em abstrairmos nossas atuais condições. A pergunta é: sem nenhum conhecimento prévio sobre seu sexo, etnia, religião e situação sócio-econômica em qual dos dois países você escolheria nascer?

Imagino que a pergunta tornou-se mais complexa e sua resposta menos óbvia. Imagino ainda que a complexidade se dê pela dificuldade que nossa mente ocidental encontra para visualizar a democracia produzindo resultados negativos. De fato, estamos acostumados a conceber a democracia como um sistema praticamente impecável e qualquer contradição a essa idéia seria de difícil digestão por nosso sistema cognitivo. No entanto, apesar da conotação positiva que intuitivamente agregamos a democracia, devemos ativar nossa consciência e nos perguntar: O que é democracia?  Democracia é um sistema político ou uma forma de vida? Democracia é um conjunto de procedimentos ou valores sociais? Um meio ou um fim?

 Na realidade a democracia possui duas definições, uma procedimental e outra substantiva. A primeira, como o termo indica, é centrada em uma série de procedimentos que preservam o sistema democrático, tais como eleições, direitos civis, liberdades básicas, etc. Segundo essa concepção, a democracia é um meio, sem fins determinados. A segunda teoria, por outro lado, enfatiza os valores associados a democracia. Especificamente, essa perspectiva afirma que a democracia está condicionada aos valores de justiça social e igualdade. Os procedimentos políticos devem adequar-se a essa ordem de valores. A democracia é um fim.

Israel se enquadra na primeira concepção. O país possui eleições constantes e um conjunto de leis que preserva direitos civis e liberdades individuais. Israel adota procedimentos democráticos sem agregar valor aos resultados dos mesmos – a crescente desigualdade econômica, a atual crise de legitimidade popular e problemas na distribuição igualitária de direitos civis são apenas alguns sinais dessa postura.

No entanto, o caso israelense é ainda mais complexo: o país tem que lidar com o conflito entre democracia e judaísmo. Em ‘Antes Democrático, Depois Judaico’ eu ofereço uma série de razões para preferirmos o caráter democrático do Estado antes do judaico; ainda assim, fui questionado sobre a possibilidade do judaísmo humanista ser compatível com a ordem democrática, colocando, assim, os dois em patamar de igualdade. Sigo com a minha posição e aqui explico o porque. Retoricamente, utilizarei as idéias centrais do judaísmo humanista e analisarei uma possível compatibilidade com as duas definições de democracia explicadas acima.

 (1)  Judeu é aquele que se identifica com a história, a cultura e o futuro do povo judeu.

Segundo essa concepção, como definiríamos o cidadão israelense? O judaísmo humanista oferece uma idéia ampla do ‘ser judeu’, mas não sugere nenhuma noção clara do que é ser cidadão israelense. O ponto é que em um regime democrático há a necessidade de definirmos o que constitui ser cidadão – seus direitos e deveres – sendo este judeu ou não. Além da ausência de procedimentos claros, essa concepção de ‘ser judeu’ implica em valores judaicos atrelados a “história, a cultura e o futuro do povo judeu”. Como viver em uma democracia que preze pelo respeito e pela pluralidade se esta é fundamentada em uma única percepção cultural?

(2)  O judaísmo é a história cultural do povo judeu, sendo a religião apenas parte desta.

Sob essa ótica, surge a pergunta: Israel deve oficializar festividades árabes e etíopes ou preservar a “história cultural do povo judeu”? Como conceder autonomia à minorias não-judaicas se o Estado é centrado na história cultural do povo judeu? Além disso, o que é a “história cultural do povo judeu”? A do ortodoxo ou a do secular? O Estado judeu não reconhece a pluralidade – se judaísmo é definido em termos religiosos, não há espaço para o ateu; se é definido em termos culturais, não há espaço para outras culturas; se há espaço para outras culturas e para o ateu, esse Estado é antes democrático, depois judaico. Não vejo a possibilidade de compatibilidade procedimental ou substantiva do judaísmo humanista com a democracia.

(3)  A identidade judaica é melhor preservada em um ambiente livre a pluralista.

Nesse caso, é melhor adotarmos um sistema que seja antes democrático, depois judaico. Dessa forma, garantiríamos “um ambiente livre a pluralista” e, conseqüentemente, a preservação da identidade judaica.

(4)  Qualquer pessoa possui o poder e a responsabilidade de construir sua própria vida independente de qualquer autoridade sobrenatural.

Um sistema político não necessita do judaísmo para adotar essa postura. Ainda assim, o judaísmo humanista não oferece uma estrutura governamental clara. Qual seria a função de lideres judaicos – ortodoxos, tradicionalistas, reformistas, laicos e seculares – no Estado de Israel? Quem seria responsável por questões pessoais como o matrimônio e a separação? Novamente, nos defrontamos com um paradoxo: se seguimos uma linha judaico-humanista para organizar questões pessoais, não somos democráticos; se oferecemos a possibilidade de uma ordem cívica para essas questões somos antes democráticos, depois judaicos.

(5)  Ética e moral devem servir as necessidades humanas e as escolhas devem ser ponderadas baseadas nas consequências das ações ao invés de mandamentos e ordens pré-determinadas.

Perfeito. Porém, sem ordens pré-determinadas, ou seja, sem um conjunto de regras e normas pré-estabelecidas, qualquer regime, seja este democrático ou teocrático, não veria a todos como iguais perante a lei e não estabeleceria padrões governamentais. Apesar de ser uma idéia deslumbrante, o idealismo judaico-humanista é incompatível com as concretas demandas de um sistema político; principalmente, se este for democrático.

(6)  A história judaica, como toda história, é uma saga essencialmente humana. É um testamento do poder humano e da responsabilidade humana. Textos bíblicos e outros de caráter tradicional são produtos da atividade humana e devem ser entendidos através da arqueologia e da análise científica.

A análise científica mostra que quanto menor for a intervenção de qualquer ordem cultural específica em um regime democrático, maior será o poder humano, melhor preservado será a sua autonomia e mais extensa será a liberdade e a dignidade do individuo.

A idéia dessa análise não é excluir o caráter judaico do Estado israelense, mas atentar ao fato de que judaísmo e democracia possuem contradições intrínsecas. Não há compatibilidade entre os dois sistemas capaz de colocá-los em um ‘patamar de igualdade’, pois, enquanto a democracia amplia seus procedimentos e valores a todos os cidadãos sem distingui-los por cor, etnia ou credo, o judaísmo, invariavelmente, reduz sua aplicação a um determinado setor da sociedade. A questão que permanece pendente é como tornar Israel um país judaico semque este torne-se incoerente com os preceitos democráticos. Em relação a essa questão parto de dois pressupostos difíceis de serem justificados teoricamente: a democracia não é um sistema político perfeito e não há nenhuma democracia no mundo que seja perfeita. Os países A e B apresentados na introdução no texto são exemplos dessas imperfeições democráticas. Por essa perspectiva, admito que Israel tampouco estabelecerá uma democracia perfeita. Tendo a crer, portanto, que o máximo a ser feito é tornar o judaísmo uma fonte de valores secundária em Israel o que, na prática, significaria manter a Lei do Retorno como esta se apresenta atualmente e preservar as festividades judaicas como oficiais. Não entrarei no mérito dessa proposta. Meu intuito é que nos tornemos conscientes de nossas incoerências para, assim, convivermos em paz com as nossas hipocrisias.

Comentários    ( 12 )

12 comentários para “Capítulo 1, Versículo 3 – Democracia e Judaísmo”

  • Mario Silvio

    24/08/2013 at 21:13

    Bruno, antes de comentar, uma pergunta: onde você achou a segunda definição de democracia?
    Consultei uns 10 dicionários, em portugues, inglês e espanhol e NENHUM fala nada diferente de

    a : government by the people; especially : rule of the majority
    b : a government in which the supreme power is vested in the people and exercised by them directly or indirectly through a system of representation usually involving periodically held free elections

    f. Doctrina política en favor del sistema de gobierno en que el pueblo ejerce la soberanía mediante la elección libre de sus dirigentes:

    1. Governo em que o povo exerce a soberania, directa ou indirectamente.

    Ninguém, pelo menos até onde eu sei, define democracia pelos resultados obtidos.

    “a democracia está condicionada aos valores de justiça social e igualdade. ”
    Justiça social sim tem mais de uma definição, muitas mais. Já igualdade, no sentido que você usa, é praticamente o OPOSTO de democracia.

    O seu hipotético país B lembra mais uma cadeia (de países medianamente desenvolvidos para cima) ou um quartel do que uma democracia.

    Continuo em outro post

  • Mario Silvio

    24/08/2013 at 21:25

    “O ponto é que em um regime democrático há a necessidade de definirmos o que constitui ser cidadão – seus direitos e deveres – sendo este judeu ou não”
    E tenho certeza de que em Israel não há dúvidas sobre essas duas questões. Eu por exemplo, apesar de judeu, NÃO sou cidadão, enquanto mais de um milhão de NÃO judeus são.

    Confesso que não entendi a maioria dos seus outros questionamentos.

    ” é fundamentada em uma única percepção cultural?”
    Como praticamente todas as outras ?

    “Israel deve oficializar festividades árabes e etíopes ou preservar a “história cultural do povo judeu”? Como conceder autonomia à minorias não-judaicas se o Estado é centrado na história cultural do povo judeu?”
    Que tal fazer como fazem os EUA e o Canadá por exemplo? Em NY, oficializado ou não, sabe-se quando é Yom Kipur, em Iowa provavelmente não. O mesmo se aplica ao ano-novo chines em relação à São Francisco e Vermont.

    “Qualquer pessoa possui o poder e a responsabilidade de construir sua própria vida independente de qualquer autoridade sobrenatural.”
    100% de acordo.

    Deste trecho em diante passo a concordar com muita coisa como por exemplo:

    – deve haver matrimônio civil,
    – a democracia não é um sistema político perfeito e não há nenhuma democracia no mundo que seja perfeita.

  • Paulinho

    24/08/2013 at 22:34

    Gostei muito do texto Nobru, e gosto dessa discussão.
    Me veio um pensamento enquanto estava lendo, de que talvez o que você propõe não seria uma “emancipação” do povo Judeu dentro de Israel? Eu vejo isso com bons olhos. Acho que Israel pode ser o país dos Judeus (da maioria judaica), mas não judaico. Seria como “ser judeu em casa, e Israelense na rua”
    Outra questão é que depois de toda a sua argumentação você diz que manteria a ‘lei do retorno’. Ela não seria uma lei anti-democrática, “primeiro judaico, depois democrático”? Percebi que você terminou o texto ‘autorizando’ certas incoerências. Você acha impossível ser coerente neste pensamento dicotômico entre democracia e judaísmo?
    Grande abraço

  • Raul Gottlieb

    26/08/2013 at 01:16

    Bruno,

    Independente de qualquer outra consideração, o regime do país B não é menos democrático, ele é uma ditadura.

    Eu gostaria de nascer numa democracia, Bruno. As democracias tem instrumentos para o seu aprimoramento, instrumentos estes que dependem do povo. As ditaduras (incluindo o país B) dependem da boa vontade do ditador de plantão para serem decentes. Qualquer mudança no humor do fulano (ou grupo de fulanos) que dirige a ditadura muda a tua vida sem remédio e você vai ficar sonhando ter nascido numa democracia.

    Mas o pior de tudo é que o teu “país A” também não é uma democracia. Democracias tem, por definição, igualdade. Todos tem os mesmos direitos e os mesmos deveres. Assim que uma democracia sem igualdade não é uma democracia.

    Israel não se encaixa na definição de “País A”. Em Israel há igualdade. Se você roubar e for pego vai preso – seja você o Presidente ou um cidadão economicamente fragilizado e sem laços influentes.

    Estou considerando, é claro, que por igualdade se considera a igualdade de direitos e deveres e não algum outro conceito exótico, como todos terem a mesma cor de cabelo, o mesmo gosto por chocolate amargo ou a mesma condição econômica – que são igualdades inatingíveis, nem nas utopias mais selvagens.

    Mas como você propõe um exercício sem concretitude alguma, visto que só podemos escolher onde queremos viver, nunca nascer, entendo que você está flutuando numa dimensão fantástica, onde tudo pode – democracias desiguais, tiranos sempre bondosos e um questionário a ser entregue à cegonha estabelecendo as tuas preferências culturais, políticas e climáticas para ela dirigir o seu voo adequadamente.

    E realmente nesta dimensão eu te dou razão: é impossível haver um Estado Judaico e Democrático ao mesmo tempo. Mas também é possível – na verdade tudo é possível nesta dimensão!

    Um abraço,
    Raul

    • Mario Silvio

      26/08/2013 at 15:26

      “o regime do país B não é menos democrático, ele é uma ditadura.”
      Muito bem colocado.

      “Democracias tem, por definição, igualdade. Todos tem os mesmos direitos e os mesmos deveres.”
      Pensando assim, claro

      “Estou considerando, é claro, que por igualdade se considera a igualdade de direitos e deveres e não algum outro conceito exótico, como todos terem a mesma cor de cabelo, o mesmo gosto por chocolate amargo ou a mesma condição econômica – que são igualdades inatingíveis, nem nas utopias mais selvagens.”
      Exato, mas tudo no texto indica que ele se refere às inatingíveis.

      “As democracias tem instrumentos para o seu aprimoramento, instrumentos estes que dependem do povo.”
      “Life, Liberty and the PURSUIT of Happiness”

  • Raul Gottlieb

    26/08/2013 at 15:36

    Bruno,

    Avancei um pouco mais na leitura do texto e empaquei desta vez nas duas definições de democracia – a procedimental e a substantiva (na primeira tinha parado nas descrições de dois países “democráticos”- uma democracia sem igualdade de direitos e uma democracia sem liberdades individuais, que me pareceu um absurdo, visto serem ambas ditaduras).

    Entendo que a primeira definição não exista. Nenhum sistema político se define pelos procedimentos. A definição passa forçosamente pelos valores e apenas pelos valores.

    No Irã há eleições livres, no sentido que todos são livres para escolher o candidato apontado pelo representante de Allah de plantão. Ou seja, a liberdade de concordar é absoluta. Este procedimento não torna o Irã uma “democracia procedimental” e sim uma ditadura com uma eleição para manter as aparência e que só engana quem quer ser enganado.

    Claro que a minha afirmação que o teu “País A” também não é uma democracia, pois não tem igualdade de direitos e deveres passa pelo entendimento do que você chama de “igualdade social”.

    A meu ver a igualdade social se define como sendo direitos e deveres iguais. Em oportunidades iguais, independente da origem e das opiniões da pessoa. É injusto e cruel criar desigualdade de direitos e deveres para tentar obter uma equalização de status financeiro ou de comportamento. O que é “igualdade social” a não ser uma sociedade que é toda ela sujeita às mesmas leis?

    A tua definição vai por aí?

    Abraço, Raul

  • Breno (Brinquedo)

    27/08/2013 at 02:15

    Adorei o texto.
    As criticas em relação as definições de democracia são todas validas. Apesar de ser um conceito antigo, carece de uma definição especifica. Posso dar como exemplo a democracia ateniense, onde 80mil(aproximadamente) eram cidadãos com direito a voto e respaldo e apoio do estado ateniense alem de muitos outros direitos, porém 350 mil(aproximadamente) eram escravos e não tinham quase nenhum direito.

    A definição do conceito de democracia não é atemporal e deve respeitar as demandas materiais e históricas do seu tempo, sendo assim mais orgânico. Por isso que para cada pessoa e para cada situação( como descritas no exemplo inicial do texto), aqueles regimes podem ser ou não considerados democraticos. Dependendo da sua concepção de “ser humano”, “sociedade”, “educação”, sistema economico”, etc, a concepção de democracia irá se alterar. Chamo como exemplo muitos marxistas que dizem que não há democracia atualmente em nenhum país do mundo, e o que temos são apenas ditaduras do capital…

    Na minha humilde opinião, o artigo levanta ótimos questionamentos, e como um ateu, que mora no brasil, em um país que se diz laico e mesmo assim se sente oprimido e silenciado, eu diria que quanto menos judaismo(seja ele secular, ortodoxo, humanista ou marciano), mais oportunidade de se discutir “o que é democracia e como ela deveria ser” israel teria.

    Abraços.

  • Mario Silvio

    27/08/2013 at 15:36

    Por que você se sente oprimido e silenciado Breno?

  • Yair Mau

    27/08/2013 at 16:58

    Excelente texto, parabéns. Gostaria de saber o porque do nome do artigo: “Capítulo 1, Versículo 3”.

  • Raul Gottlieb

    27/08/2013 at 19:35

    Bruno,

    Mais uma coisa que me chama a atenção negativamente neste seu texto é a questão da nossa “mente ocidental”, que a teu ver tem dificuldade em reconhecer os aspectos negativos da democracia. Segundo você diz, nós (ocidentais) concebemos a democracia como um sistema praticamente impecável.

    Eu suponho que você não está se baseando em nenhuma informação sistematizada e sim numa percepção tua.

    Daí, posso te dizer sem medo de errar que a tua percepção é equivocada. Eu já li muitos autores e conversei com muita gente e ninguém deixa de dizer que a democracia é apenas o melhor sistema político que o homem inventou, mas que está longe de ser perfeito.

    Existem algumas frases feitas a respeito, sendo que a mais popular é de Winston Churchill: “Democracy is the worst form of government, except for all those other forms that have been tried from time to time” (discurso no Parlamento em 11 de novembro de 1947).

    Pelo que sei, os únicos sistemas político perfeitos registrados pelo homem até os dias de hoje repousam na ficção: o Gan Eden bíblico (que não funcionou pela ambição do ser humano), a cidade de Camelot no ideário medieval, a ilha de Utopia no romance de Thomas More, a República de Platão e assim por diante. Provavelmente a cultura oriental também tenha as suas ficções de sistema perfeito. Mas ninguém em sã consciência acredita que o ser humano é capaz de criar um sistema perfeito.

    Finalmente, os orientais também gostam de democracia. Pergunte aos japoneses. Não é preciso ser ocidental, Bruno, para apreciar os valores democráticos.

    Um abraço, Raul

  • Raul Gottlieb

    28/08/2013 at 12:43

    Bruno, me aventurei pelas tuas definições sobre as ideias centrais do judaísmo humanista.

    A primeira definição de quem é judeu não é precisa. O judaísmo (liberal ou não) considera como judeu quem nasceu de uma família judaica (sendo que temos neste caso as variantes matrilinear e ambilinear) e quem se comprometeu a seguir os valores judaicos, através de um processo consciente e informado (chamado popularmente de conversão).

    A definição de judeu não define o cidadão israelense por que ela antecede ao Estado de Israel e não foi afetada pela existência do Estado. Ser judeu e ser cidadão israelense são coisas diversas, com implicações diversas. Você procura coerência em conceitos que não se misturam. Existem judeus que não são israelenses e existem israelenses que não são judeus.

    Não é proposta do judaísmo (humanista ou não) definir quem é cidadão israelense. Cabe ao Estado de Israel definir isto, conforme seus instrumentos democráticos.

    Além disso, a democracia israelense não está fundamentada numa única percepção cultural! De onde você tirou isto?

    A segunda afirmação é mais centrada, mas ainda assim imprecisa. O judaísmo não é a história cultural do povo judeu, mas o ambiente onde se produz a cultura judaica. Mas talvez estejamos apenas falando a mesma coisa com palavras diferentes.

    A decisão sobre os feriados que o Estado de Israel deve celebrar cabe aos instrumentos políticos do Estado. Se houver uma decisão democrática de oficializar São Jorge como feriado, este será oficializado.

    Entendendo que um grupo não precisa ter os seus feriados pessoais oficializados para ser cidadão do Estado. Eu faço aniversário de casamento na sexta feira e não espero que os condôminos do meu prédio mudem sua rotina em função disso, apesar de que a minha será modificada. Semana que vem teremos Rosh Hashaná e eu não espero que o Rio de Janeiro pare por isto, além de não me incomodar que meus vizinhos cristãos ignorem solenemente a minha festividade religiosa.

    A resposta à tua pergunta sobre como conceder autonomia às minorias de um Estado democrático é respondida por centenas de exemplos práticos em todas as democracias do mundo. Mas veja que numa democracia não se espera que as minorias tenham autonomia de decisão (isto é o que acontecia nos impérios totalitários e multiculturais da Europa central, onde cada minoria tinha o direito de fazer o que bem entendesse com os seus membros, desde que todos concordassem com as regras estabelecidas pelo imperador), mas que tenham respeitado o direito de adotar práticas culturais (inclusive as religiosas) específicas, sem coerção. Por acaso os USA deixam de ser uma democracia porque os feriados budistas não param o país?

    Você procura definições exclusivas. Para você, se o ambiente for religioso o ateu tem que ser banido. Parece-me que você está ignorando a possibilidade de convivência entre diferentes, sendo que esta convivência existe desde os tempos pré-históricos, tendo em vista que não existem duas pessoas iguais. Eu penso que você inventa contradições onde elas não existem. Vou dar um exemplo pessoal de convivência harmônica num ambiente religioso:

    Ao chegar no Brasil em 1937, vindo da Itália, meu avô foi morar numa cidade sem comunidade judaica onde a melhor escola (na avaliação dos meus avos) era uma escola de freiras. Minha mãe e minha tia foram matriculadas nesta escola sendo que as freiras exigiram o seguinte: por ser uma escola religiosa elas tinham que ter aulas de religião e tinham que portar uma Maguen David no pescoço, visto que as demais alunas andavam com um crucifixo. Coube aos meus avos providenciar um professor (no caso acharam um Rabino) que preparasse um programa de auto estudo para as meninas (adolescentes na época) e que vinha todos os meses aplicar um exame nelas. As freiras preservaram o seu status de escola religiosa, mas não impuseram a sua religião amplamente majoritária (haviam duas judias para quinhentas cristãs na escola) às minorias.

    Não há nenhuma contradição em ser judeu e acolhedor de pessoas de outras culturas. A Torá é muito específica ao exigir o mesmo tratamento ao judeu e ao estrangeiro que viver entre os judeus. O que você está propondo não é um Estado e sim um Gueto. Os judeus nunca viveram em Guetos por vontade própria. A Guetoização lhes foi imposta. Sempre que as portas foram abertas eles saíram correndo de lá de dentro.

    Depois leio as demais definições.

    Um abraço,
    Raul

  • Raul Gottlieb

    28/08/2013 at 18:55

    Caro Bruno,

    Li o restante do texto e realmente eu discordo de tudo o que você coloca. Eu poderia comentar um a um os quatro tópicos que restam, mas me parece que seria ocioso, visto que algumas coisas se repetem e por que de repente percebi que você não está entendendo (a meu ver, é claro) o essencial na questão que legitimamente te preocupa: a questão da adequação do judaísmo como uma ferramenta política para gerir um Estado.

    Perceba, por favor, alguns fatos preliminares:

    1) O judaísmo é uma obra cultural evolutiva. Quanto mais recuarmos no tempo mais profundas serão as diferenças do passado para o presente.

    2) A evolução foi impulsionada pela necessidade de atender às necessidades do momento. Os judeus não “inventaram” o Bar Mitsvá (por exemplo) ou a matrilinearidade (outro exemplo) ou a monogamia (mais um exemplo) ou até mesmo o Talmud e o Shulchan Aruch por ordem dos céus, mas para atender a necessidades do momento.

    3) Os judeus não se ocupam em gerir um Estado independente há mais de dois mil e duzentos anos.

    Tendo em vista o que vai acima é claro que o judaísmo não evoluiu para responder à necessidade de gestão de um Estado. Você diz que o judaísmo não tem, por exemplo, respostas para o tratamento das minorias que vivem sob soberania judaica. E você tem razão! Não tem mesmo, porque esta não foi uma questão judaica por mais de vinte séculos. Não há porque eu aprender a fazer ensopado de jiló se não há jiló para comprar na feira, não é mesmo?

    Acontece que em 1948 os judeus recuperaram a obrigação de gerir um Estado. Naquele momento os judeus que assumiram aquela tarefa política decidiram por extensa maioria que o Estado seria democrático e inclusivo. Decidiram também que o Estado seria baseado em fundamentos judaicos, conforme se lê na meguilat haatzmaut.

    Então, meu caro Bruno, o que está sendo gestado como sistema político em Israel hoje é judaísmo em formação. É inútil procurar paralelos históricos para as decisões de hoje. O judaísmo está, como sempre esteve, em construção e no Estado de Israel ele está sendo construído na forma de um Estado democrático (e imperfeito porque humano).

    Procurar nas posturas judaicas da Diáspora e da Dispersão ferramentas que habilitem a gestão de um Estado é igual a entrar num açougue procurando por sapatos. A meu ver você está perdendo o seu precioso tempo ao fazer isto. Preocupe-se ao invés em construir um Estado fundamentado nos teus valores e dos demais cidadãos e que atenda às necessidades de hoje: tratamento das minorias, mecanismos de suporte aos fragilizados, ética na guerra, postura face aos inimigos capturados, igualdade de direitos, ecologia, sustentabilidade, etc.

    Finalmente, veja que o Estado de Israel foi fundado pela única razão de que havia a necessidade de haver um Estado Judaico no mundo. Sem esta razão não haveria Estado algum. A decisão de torna-lo democrático foi uma decisão dos judeus que fundaram o Estado (não apenas os políticos, claro), logo a decisão pela democracia foi uma decisão judaica. É ocioso discutir quem se subordina ao que.

    Livre-se da concepção de judaísmo como alguma coisa que veio para você e que você – goste ou não – tem que aceitar e entenda, por favor, que as heranças (mormente as culturais) se conquistam. A tua decisão de morar em Israel foi uma decisão judaica e você em Israel hoje esta construindo o judaísmo. O judaísmo nem é algo do passado nem reside longe de você (na Dispersao, por exemplo), ele é o que você está fazendo hoje.

    Muito obrigado por teu texto. Apesar de eu achar ele muito ruim, ele aborda um assunto realmente relevante.

    Abraço,
    Raul

Você é humano? *