Casamento Igualitário

Navegando no Facebook me deparei com notícias felizes vindo de dois amigos israelenses que se mudaram para os EUA por conta de um pós-doutorado, um post do blog de um deles com o título: “I do” [o famoso sim do casamento].

O texto, lindo, relata como uma questão burocrática, o casamento para garantir o visto de um dos parceiros, acabou se transformando num dia emocionante e feliz, como qualquer casamento.

Como já foi falado no Especial Casamento, ninguém casa no civil em Israel, sejam pessoas de sexos diferentes ou do mesmo. Então o casal nunca sequer cogitou se casar, apesar de estarem juntos há muitos anos.

E aí me lembrei de uma notícia que acabou não sendo discutida no Conexão Israel: uma matéria sobre um vídeo dos candidatos do partido de Naftali Bennett, HaBait HaYehudi (A Casa Judaica) falando sobre casamento igualitário.

Quando li a matéria não me surpreendi nem um pouco, afinal trata-se de um partido de ultra-direita e religioso-nacionalista. Em resposta à pergunta “O que você acha sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo?” as declarações dos candidatos à Knesset variam entre “não há necessidade disso” até Deus criou o mundo assim, homem e mulher.

Mais tarde, em casa, li a postagem do membro da parlamento, Nitzan Horowitz, e assumidamente gay e aí sim entendi de verdade o quão absurdo foi esse vídeo. Traduzo aqui:

“Um grupo de pessoas insolentes, cuidadosamente bem produzidas, não têm vergonha de olhar para a câmera, e de me dizer como devo viver e com quem. E se atrevem a julgar a mim e aos meus amigos.

Por que são vocês, e o que são vocês, para definir exatamente o que é família, o que é um relacionamento, quem tem permissão para casar-se e a quem é proibido? Com que direito e com base em quê?  É porque vocês têm uma kipá em suas pequenas cabeças, isso lhes dá o direito de insultar as pessoas?

Sua audácia e hipocrisia em relação ao transporte público no sábado, educação, leis alimentares…. Pretensão de me forçar, eu, cidadão secular e livre, e de me conduzir no seu ‘jogo’.

Mas agora é ainda mais grave. Porque isso é a nossa vida pessoal e de nossas famílias. Mas eu já estou acostumado com as suas besteiras, e com certeza não vou mudar nada na minha vida por causa desse absurdo. Mas há tantos homens e mulheres, mesmo em seu setor – sim – há homossexuais, religiosos, e por causa de seu primitivismo e das suas convicções, passam por grande sofrimento. Às vezes, a ponto de se suicidarem. Eu não os perdoarei pelo que estão fazendo com pessoas nessas comunidades, e com suas famílias.

Quem me dera isso fosse apenas uma de suas manobras para ganhar votos nas primárias. Eu vi vocês em ação na Knesset. A Casa Judaica… Piores que os partidos ultra-ortodoxos. Eles chamaram vocês de Casa dos Não-Judeus. Por que insultar os não-judeus? Vocês, só Casa dos Perversos.

Nós temos amor, e o amor vencerá.”

A revolta de  Horowitz é comprensível. É um absurdo que um direito civil tão básico lhe seja negado. A mesma coisa acontece a tantos outros casais no país, que cumprem com todas as obrigações impostas pelo Estado – exército, impostos etc – mas na hora de decidir oficializar sua união não podem.

E compartilho a preocupação. Orientação sexual não é uma escolha, homossexualidade não é exclusivo da população secular. Graças a deus – ao ativismo – existem comunidades de apoio a religiosos homossexuais em Israel. E eles não são poucos.

Tel Aviv é conhecida como o principal destino  gay da região, mas a realidade no resto do país é bem diferente. Nos meus anos de Jerusalém, fiz questão de sempre ir à Marcha do Orgulho LGBT. Conversei com alguns ativistas, e sei que a vida lá é bem diferente da realidade que as campanhas de marketing mostram. Nem todos se encaixam ou querem viver nessa Tel Aviv rosa.

Há alguns anos conversei com a organizadora do evento Women’s Gathering, um encontro de lésbicas e simpatizantes em bares de Jerusalém. Ela é religiosa “light”, e me explicou que resolveu começar o evento porque não encontrava um espaço para ser quem ela é, na cidade que escolheu morar e onde se sente conectada. Fui a alguns encontros e foi bem interessante. Mulheres de todo o país vêm, para se conhecer, trocar idéias, e quem sabe, encontrar uma parceira.

A comunidade LGBT de Jerusalém não é homogênea. Há religiosos, seculares, jovens e velhos. O que os torna comunidade é o fato de que escolheram viver em Jerusalém ou, como me disseram, se recusaram a ser empurrados para um gueto em Tel Aviv.

Pra terminar, uma das minhas campanhas favoritas para o casamento igualitário.

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E pra quem quiser saber mais sobre os grupos de apoio a religiosos homossexuais em Israel aqui vão alguns links em Inglês:

A Casa Aberta – grupo de apoio LGBT em Jerusalém: http://joh.org.il/index.php/english

Bat Kol – grupo de lésbicas religiosas: http://www.bat-kol.org/english/

Hod – Ortodoxos homosexuais: http://www.hod.org.il/?en=1

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “Casamento Igualitário”

  • Raul Gottlieb

    03/02/2015 at 21:08

    Oi Mila,

    Muito bom ter você de volta no Conexão. Você andava sumida e a tua presença faz falta na mistura de sucesso deste nosso site preferido de análises sobre Israel por israelenses. Espero que esteja tudo bem contigo.

    Quando li “casamento igualitário” pensei num casamento de direitos iguais, diferente do casamento ideal da minha atual esposa, que pode ser assim definido: “um casamento é a união de duas pessoas na qual uma está sempre certa e a outra é o marido”.

    Não imaginava que o casamento igualitário era um eufemismo para um casamento de duas pessoas do mesmo sexo.

    Acho que o termo é mal escolhido. Igualdade é usada usualmente para definir direitos e deveres e não gênero ou características físicas. Uma sinagoga igualitária advoga que homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres e não que ela deve conter apenas homens ou apenas mulheres.

    Mas é claro que isto é apenas um rótulo. Cada um escolhe o que mais lhe apraz e sempre vai ter um ranheta como para empacar com o rótulo escolhido.

    O meu ponto principal que grande parte do barulho em torno da união de pessoas do mesmo sexo é causado por miudezas.

    O que importa se o rótulo é “casamento” ou “união civil”? Ambos produzem os mesmos direitos e deveres aqui no Brasil, mas a militância exige que a sociedade use o termo “casamento”, cuja conotação mais habitual é de ser heterossexual.

    Com isto a militância (pelo menos parte dela) quer ofender alguns grupos religiosos. A meu ver não há a menor necessidade disto. A religião é uma opção pessoal e ninguém tem o direito de impor aos outros o seu viés, desde que os direitos iguais de todos estejam mantidos.

    Enfim, a luta dos homossexuais para serem aceitos pela religião não me comove, mesmo sendo eu parte militante de uma corrente religiosa que, em muitas partes do mundo, abraça os casamentos homossexuais.
    Já a luta dos homossexuais pelos direitos civis me mobiliza muito. Inclusive pelo seu direito de adotar crianças. Esta luta está ganha (ou muito bem encaminhada) em quase todo o mundo civilizado (ou seja, o mundo não islâmico) e precisa ser ganha em Israel também. Concordo integralmente contigo que isto é uma necessidade premente.

    Mas sem vilipendiar os ortodoxos no quesito específico da homossexualidade, visto que cada um se define como quer.

    O que eles têm que aceitar é que a sua vertente da religião não pode pautar o Estado, pois religião é mera opção.

    Eles têm que aceitar que uma vertente religiosa não pode impor a sua visão de sociedade para um Estado. A homossexualidade é uma faceta de um problema muito maior.

    Um beijinho, Raul

    PS – sobre as duas fotos que você colocou no final há uma evidente contradição. Quem quer preservar a palavra “casamento” para a união heterossexual não está advogando que a união homossexual seja banida do cenário jurídico civil. Mas quem advogava a negação dos diretos dos negros estava pedindo para que estes fossem tratados diferentemente pelo Estado.

    PS2 – o que seria um religioso “light”? É um religioso com baixo teor de gordura, com adoçante em vez de açúcar e magrinho? Pode ter certeza que a definição “light” para quem não segue estritamente a halachá dos chacahamim de Bnei Berak (ou seja, a sharia judaica) é ofensiva.

    • Mila Chaseliov

      04/02/2015 at 13:12

      Oi Raul,
      eu voltei! 🙂
      Casamento igualitário sim, em inglês Marriage Equality, esse é o termo correto. Até a Veja usa http://abr.ai/1vs4J0v (e a matéria é de 2011). Exatamente pela questão de direitos iguais, para todos os cidadãos, independente de gênero ou orientação sexual.
      Quanto ao rótulo importa pela questão legal, como o Marcelo explica no texto dele: http://www.conexaoisrael.org/casamento-em-israel-apectos-legais/2013-05-14/marcelo

      Sobre a foto, eu discordo de você. Novamente, estamos falando de direitos civis. Por que alguns cidadãos têm menos direitos do que os outros?

      Religioso light de leve, exatamente como você falou, sem seguir a sharia judaica! (adorei o termo!). Desculpe se você achou ofensivo, nunca foi a intenção. Beijos!

    • Yair Mau

      04/02/2015 at 21:25

      Concordo que o rótulo não importa, tanto faz se é casamento ou união civil. Mas se tanto faz, então por que a resisência de se chamar de casamento? Esse “tanto faz” é usado como argumento para dizer aos gays que a união deles não é casamento. Obviamente o mesmo argumento pode ser usado para o outro lado, já que “tanto faz”.

      Para mim, pessoalmente, não é tanto faz. O dia que Israel tiver casamento civil, para heteros e gays, provavelmente o nome será “união civil”. Mas ninguém é dono da língua, se a população em geral chamar isso de casamento, então é casamento, e a legislação deveria estar de acordo.

  • Raul Gottlieb

    04/02/2015 at 22:58

    Mila e Yair

    Eu acho que concordamos em quase tudo, mas com algumas divergências menores:

    a) Eu realmente acho que “igualitário” é um nome ruim para denotar o casamento ou união homossexual, pois o gênero dos cônjuges não significa igualdade de direitos e deveres e o termo igualdade está tradicionalmente carregado com este significado. Não me importa muito se o mundo todo acha diferente, vou continuar com a minha opinião até perceber que estou errado.

    b) Sobre casamento ou união civil eu penso que se apoderar de um termo usado pela religião é uma provocação desnecessária que desvia o foco da questão central. Pode ser que daqui a uns anos a coisa mude naturalmente, mas hoje isto me parece desnecessário.

    Os rótulos têm alguma relevância, mas não demais, principalmente quando o texto explica o assunto. Assim que esta discussão está na periferia do assunto, que foi bem abordado pela Mila.

    Abraço, Raul

Você é humano? *