Do Catar para o mundo: a história da Al-Jazira

Em junho de 1995, o príncipe herdeiro do Catar, Hamad bin Khalifa al-Thani, sucedeu seu pai Khalifa em um calmo golpe de Estado. O novo emir deu início a uma série de reformas que visavam modernizar o país, desde a suspensão da censura sobre a imprensa até a concessão do direito ao voto para as mulheres. Foi com este clima que criou-se a Al-Jazira.

Tendo apenas 44 anos à época, o emir Hamad era considerado um exemplo da nova geração de líderes que poderiam modernizar os países do Golfo Pérsico. O processo que permitiu às mulheres participarem das eleições municipais – para um órgão consultivo – era inédito na região, assim como sua abordagem no campo das telecomunicações. Desde a época em que ainda era o príncipe herdeiro, Hamad já demonstrava interesse em criar no Catar um canal de televisão moderno, que gozasse de liberdade de imprensa e transmitisse uma programação mista de entretenimento e jornalismo. Esta mescla, entretanto, foi logo abandonada, e a Al-Jazira já foi fundada como um canal de notícias.

Os trabalhos para erguer o canal começaram ainda antes do golpe de Estado, com a intenção de melhorar o serviço de televisão no país, e ganharam envergadura depois que o emir assumiu o poder. Coincidentemente, em 1996, a companhia de televisão via-satélite saudita Orbit decidiu romper seu contrato com a BBC – e consequentemente interromper as transmissões do canal britânico em árabe – devido a uma polêmica em torno de reportagens consideradas delicadas pela família real saudita e pela corrente islâmica wahabbista, oficial do país.

Esta crise significava que um grande contingente de profissionais de televisão altamente qualificados e fluentes em árabe encontrava-se momentâneamente sem emprego, e a Al-Jazira podia contratá-los para seus recém-abertos escritórios em Londres e em Doha. A oferta catariana de salários mais altos e maior liberdade rapidamente atraiu uma grande equipe e, antes do final do ano, a Al-Jazira estava no ar, transmitindo seis horas de programação diária. A transmissão foi se expandindo gradualmente, e o canal já começou o ano de 1999 funcionando 24 horas por dia.

O fechamento do Ministério da Informação catariano simbolizou o final da censura sobre a mídia no país. Sendo uma emissora estatal, entretanto, ainda é um tabu para a Al-Jazira criticar a família real e o governo, mas qualquer outro tópico pode ser levantado. Esta nova realidade permitiu a transmissão de debates sociais, políticos e até mesmo religiosos, com a participação de especialistas originados de todas as linhas de pensamento, algo até então inédito no Mundo Árabe.

Como a maioria dos canais nacionais de televisão no Oriente Médio e no norte da África são considerados pela população local como meros meios de propagação da visão oficial de seus respectivos regimes, o “novo estilo” da Al-Jazira foi um sucesso imediato. Os programas do canal, amplamente reconhecidos por transmitir opiniões diversas, tornaram-se os favoritos da audiência. A população de língua árabe logo comparou a Al-Jazira a canais de notícias ocidentais, considerando-a uma fonte de alta qualidade, fora do controle do governo.

O fato de transmitir em árabe e a partir de um país árabe apenas aumentava esta preferência e significava que o canal tornara-se uma fonte de orgulho para os árabes. Sendo seus principais competidores, como serviços de notícias não-censuradas, as estações de rádio dos países ocidentais – ou mesmo de Israel – que transmitem em árabe apenas a versão traduzida do noticiário oferecido em seus idiomas originais, a grande vantagem competitiva da Al-Jazira é ter jornalistas e produtores árabes, em sucursais por todo o Mundo Árabe. O público percebe esse tempero local e se reconhece na tela, reagindo positivamente a programas que foram criados sob medida para o telespectador árabe.

A aceitação do canal pelo Mundo Árabe lhe conferiu tanta relevância que a Al-Jazira passou a ser a primeira opção de líderes regionais, transmitindo anúncios dramáticos de figuras como Osama bin Laden, Muammar al-Qaddafi e Saddam Hussein. Ao mesmo tempo, o canal consolidava sua presença global com grandes furos, como ser a única emissora autorizada a transmitir ao vivo o bombardeio anglo-americano do Iraque durante a “Operação Raposa do Deserto”, em 1998. Com mais e mais casos de sucesso, a reputação da Al-Jazira cresceu e o canal passou a ser considerado internacionalmente como uma fonte tão confiável quanto a CNN, a BBC ou qualquer outro serviço de notícias de respeito.

Este sucesso levou à criação de outros canais com a marca Al-Jazira. Além do serviço internacional do canal de notícias em idioma árabe, transmitindo 24 horas por dia, há atualmente um canal em inglês, tendo como público alvo a população mundial como um todo, cujo objetivo é competir com emissoras como a CNN e a BBC, mas invertendo o sentido e levando ao mundo o noticiário sob a ótica árabe e muçulmana. Há ainda serviços nos idiomas locais de mercados muçulmanos não-árabes, como a Turquia e os Bálcãs. A Al-Jazira também criou canais de entretenimento que oferecem desde programação infantil até documentários, além de um canal focado apenas em debates políticos. Sua subsidiária esportiva, recentemente renomeada “beIN Sports”, com seus inúmeros canais, transmitiu as duas últimas Copas do Mundo. A audiência da Al-Jazira é estimada em dezenas de milhões de espectadores, tanto nos países árabes como em suas diásporas na Europa, nas Américas e na Oceania.

No artigo anterior, contei a história do surgimento dos canais de televisão via-satélites no Mundo Árabe. No próximo artigo, o último desta série, analisarei o impacto da Al-Jazira na sociedade árabe do Oriente Médio e do norte da África.

Imagem de capa: http://america.aljazeera.com/content/dam/ajam/images/articles/snowden_timeline_aj.jpg

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “Do Catar para o mundo: a história da Al-Jazira”

  • Mario S Nusbaum

    21/01/2015 at 13:07

    Muito interessante, a emissora realmente destoa, positivamente, no universo da mídia árabe. Aproveito para perguntar: israelenses podem viajar para algum dos emirados? E pessoas com carimbo de Israel no passaporte? Judeus de outros países enfrentam problemas por lá?

    • Raul Gottlieb

      22/01/2015 at 09:31

      Mario, Israel não carimba mais os passaportes. A pessoa recebe um cartãozinho do tamanho de um cartão de crédito na entrada e este documento vale como identificação da pessoa durante a sua estada no país, devendo mostrá-lo ao sair. Aliás, aqueles carimbos no passaporte só servem mesmo para aumentar a dimensão do documento e encarece-lo. Abraço, Raul

  • Raul Gottlieb

    21/01/2015 at 14:04

    Oi Cláudio,

    Gostei da frase onde diz que a Al Jazira alcançou a mesma credibilidade que a BBC e a CNN. Efetivamente o noticiário destas 3 tem a mesma credibilidade: zero.

    Eu li há algum tempo que a Al Jazira montou uma operação nos USA, mas que os resultados iniciais foram decepcionantes (pouquíssimos espectadores). Você tem esta informação?

    Abraço, Raul

  • Rodrigo Weisz

    21/01/2015 at 22:28

    E como se posicionam em relação à Israel?

  • Marcelo Starec

    01/02/2015 at 20:23

    Oi Claudio,
    Muito interessante o artigo!…Aguardo o próximo desta série.
    Abraço,
    Marcelo.

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