Chad Gadia e a Velha a Fiar

Na véspera da libertação dos judeus do Egito, conta a Torá que Deus teria ordenado que cada família abatesse um carneiro e espalhasse seu sangue pelos batentes das portas de suas casas (o que mais tarde teria dado origem ao costume de se colocar a mezuzá [1]. Posteriormente, quando os judeus viviam em Israel e havia o templo em Jerusalém, a festa de Pessach era marcada pela peregrinação a Jerusalém levando o dízimo da colheita do trigo, mas principalmente também pelo sacrifício de um carneiro no templo. Depois que o templo foi destruído e os sacrifícios abolidos, o carneiro continuou sendo lembrado de diversas formas – seja através do zeroa na keará [2] do seder [3], ou através da tradicional música cantada no final do jantar, o Chad Gadiá (“um cabrito”, originalmente em aramaico). Eu mesmo já participei de um Pessach em que havia uma cabeça inteira de carneiro na mesa durante todo o jantar, apenas para lembrar do sacrifício. Na comunidade judaica de Manaus, um carneirinho vivo é tradicionalmente sorteado entre as crianças no seder comunitário na Hebraica.

Ao fugirem da Inquisição da Igreja Católica na Península Ibérica, muitos judeus se refugiaram no Brasil. Traços da cultura judaica podem ser encontrados no folclore brasileiro, como é o caso da adaptação do Chad Gadia para a antiga música do interior do Nordeste brasileiro, A Velha a Fiar. A contribuição judaica para a formação sócio-cultural do Brasil é bonita e digna de ser homenageada. E acredito que como judeus brasileiros devemos incorporar com orgulho e alegria traços da cultura brasileira nas nossas tradições. Seja a farinha de mandioca em Pessach (viva o pão de queijo!), ou o Chad Gadiá versão brasileiríssima.

Os vídeos apresentam até mesmo montagens parecidas dessas duas canções eternamente conectadas. O “Chad Gadia” aqui é a versão da Chava Alberstein, cantada em hebraico, que acrescenta no final uma estrofe muito forte trazendo o Chad Gadia para os dias de hoje no contexto do conflito árabe-israelense. Essa montagem é de uma escola de teatro no Neguev chamada Goodman. “A velha a Fiar” apresentada aqui é interpretada pelo Arthur Khol.

 

 

A Velha a Fiar

Estava a velha em seu lugar
Veio a mosca lhe fazer mal
A mosca na velha e a velha a fiar

Estava a mosca em seu lugar
Veio a aranha lhe fazer mal
A aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava a aranha em seu lugar
Veio o rato lhe fazer mal
O rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava o rato em seu lugar
Veio o gato lhe fazer mal
O gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava o gato em seu lugar
Veio o cachorro lhe fazer mal
O cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava o cachorro em seu lugar
Veio o pau lhe fazer mal
O pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava o pau em seu lugar
Veio o fogo lhe fazer mal
O fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava o fogo em seu lugar
Veio a água lhe fazer mal
A água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava a água em seu lugar
Veio o boi lhe fazer mal
O boi na água, a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava o boi em seu lugar
Veio o homem lhe fazer mal
O homem no boi, o boi na água, a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava o homem em seu lugar
Veio a mulher lhe fazer mal
A mulher no homem, o homem no boi, o boi na água, a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

Estava a mulher em seu lugar
Veio a morte lhe fazer mal
A morte na mulher, a mulher no homem, o homem no boi, o boi na água, a água no fogo, o fogo no pau, o pau no cachorro, o cachorro no gato, o gato no rato, o rato na aranha, a aranha na mosca, a mosca na velha e a velha a fiar

 

Chad Gadia
Comprou papai por dois zuzim
Um cabrito, um cabrito

Veio o gato e comeu o cabrito
E veio o cachorro e mordeu o gato
Que comeu o cabrito
Que nosso pai trouxe

Comprou papai por dois zuzim
Um cabrito, um cabrito

E então apareceu um bastão
Que bateu no cachorro, que mordeu o gato
Que comeu o cabrito que nosso pai trouxe

Comprou papai por dois zuzim
Um cabrito, um cabrito

E então irrompeu o fogo
E queimou o bastão
Que bateu no cachorro
Que mordeu o gato
Que comeu o cabrito
Que nosso pai trouxe

Comprou papai por dois zuzim
Um cabrito, um cabrito

E veio a água e apagou o fogo
Que queimou o bastão
Que bateu no cachorro, que mordeu o gato
Que comeu o cabrito, que nosso pai trouxe

Comprou papai por dois zuzim
Um cabrito, um cabrito

E veio o touro e bebeu a água
Que apagou o fogo
Que queimou o bastão
Que bateu no cachorro, que mordeu o gato
Que comeu o cabrito, que nosso pai trouxe

Comprou papai por dois zuzim
Um cabrito, um cabrito

E veio o abatedor e abateu o touro
Que bebeu a água
Que apagou o fogo
Que queimou o bastão
Que bateu no cachorro, que mordeu o gato
Que comeu o cabrito, que nosso pai trouxe

E veio o anjo da morte e matou o abatedor
Que abateu o touro
Que bebeu a água
Que apagou o fogo
Que queimou o bastão
Que bateu no cachorro, que mordeu o gato
Que comeu o cabrito, que nosso pai trouxe

Comprou papai por dois zuzim
Um cabrito, um cabrito

E por que você está cantando “Chad Gadya”?
A primavera ainda não veio, Pessach não chegou (trocadilho com a tradicional musiquinha Simcha raba, simcha raba, aviv higia, pessach ba)
E o que mudou em você, o que mudou?
Eu mudei esse ano
Todas as noites, todas as noites (trocadilho com Ma nishtana, halaila haze, mikol haleilot)
Perguntei somente as 4 perguntas (da musica ma nishtana)

Essa noite eu tenho outra pergunta
Até quando vai continuar a roda terrível?
O perseguidor e o perseguido, o carrasco e a vítima
Quando vai terminar essa loucura?
E o que mudou em você, o que mudou?

Eu mudei esse ano.

Eu já fui uma ovelha e um cabrito manso
Hoje sou uma pantera e um lobo carnívoro
Já fui uma pomba e já fui um cervo
Hoje não sei quem eu sou

O nosso pai comprou por dois zuzim
Um carneirinho, um carneirinho
O nosso pai comprou um carneirinho por dois zuzim
E de novo, começamos do início

 

A letra completa da música em hebraico, com tradução e transliteração, com um trecho de uma entrevista da autora, podem ser conferidos no blog Shirim em Português


A relação entre as duas músicas veio à minha atenção através de um texto escrito pela professora Jane Glasman: http://coloquioslusofonia.blogspot.co.il/2011/08/trajetorias-judaicas.html

 

Notas:

[1] Pergaminho contendo trechos da Torá pregado no batente da porta.

[2] Prato simbólico contendo seis alimentos que representam diferentes partes da história de Pessach.

[3] Literalmente, “ordem”. É o nome do jantar tradicional em que é contada a história de Pessach segundo um livro que ordena tudo.

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