Chegou o verão em Israel: é hora de fazer farofa

Sob um calor de 30 e poucos graus, o israelense vai para a praia, luta por estacionamento, come melancia, entra na água de roupa, ouve grito de salva-vidas e desvia das águas-vivas. Todas essas aventuras de graça e sem álcool, que por aqui é caro.

Sexta-feira é dia de praia, essa é a tradição dos verões em nossa casa. E, com isso, a cada véspera de Shabat experimento todas as sensações que me fascinaram no começo da aliá (em um infernal julho), e que continuam me fazendo sorrir até hoje. Um lado “engraçadim” de Israel, talvez o mais pitoresco e o mais familiar.

Geralmente escolhemos Herzlia, na região central de Israel, por todos os motivos. Porque é linda com suas areias branquinhas, porque cobre todas as opções possíveis (com agito e sem, com sombra e sem, com turista e sem) mas, principalmente, porque é perto de nossa cidade, Raanana. Na última sexta, a escolha foi “a mais perto possível, com mais possibilidades de estacionar o carro sem muito sofrimento”. Estacionar, aliás, ou meditar para não sofrer muito na hora de encontrar vaga, é um aspecto importante quando você se programa ir para a praia no verão.

Caminhamos cerca de 500 metros entre o carro estacionado e o pé na areia. Na altura dos 200 metros, em uma barraquinha do Beit Chabad que sempre está perto do acesso da praia nas sextas-feiras recolhendo almas judias, dois jovens e dois adultos de capa preta e chapéu convidam meu marido para colocar tefilin. Ele sempre aceita e diz se sentir num SPA: ao contrário de quando coloca sozinho e morrendo de sono todas as manhãs, nas sextas ele recebe tapinha nas costas, instrutor e massagista. Fica ali entorpecido e guiado, repetindo palavra a palavra as bênçãos que conhece de cor, com os chabadnikim prendendo para ele o tefilin na cabeça e no braço direito.

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Eu e minha filha sempre sentamos em uma escada e observamos o evento. Infalivelmente, chegam até nós duas lindas criancinhas chabadnikim, oferecendo velas de Shabat. Sempre aceito, apesar de ter estoque em casa, só para ver o sorriso de felicidade no seu rosto. Velas aqui são baratíssimas. Todo mundo acende o tempo todo. Acho que consumimos mais velas per capita aqui do que no Vaticano.

Na areia, espalhamos nossa tralha sob as enormes armações de madeira que há em quase toda praia de Israel. Acho isso um luxo. Brancas, lindas, bem-conservadas. Tirando a moçada jovem, todo mundo traz comida para a areia. Já vi até famílias comendo frango com arroz, mas em geral o que rola são frutas cortadinhas e besteiras do tipo Bamba e amendoim. Na beira d’água, um monte de mães corre atrás de suas crianças, enfiando-lhes na boca pedaços de melancia e melão. São essas as frutas da época, compradas a dois shekels o quilo. Uma barganha.

Há ali mulheres árabes na água com seus filhos. Totalmente vestidas. Calça, lenço, blusa de manga comprida. Perto delas, judias ortodoxas, também vestidas. Aqui não há cerimônia: se você é religiosa ou árabe, entra de roupa mesmo. Em piscina pública também. Nessa hora, penso como somos primo-irmãos, mesmo que não gostemos de convidar uns aos outros pra jantar – o que acontece em muitas famílias, aliás.

Na água, um senhorzinho finge nadar. Nada de fenomenal nisso, se não fosse a sunga preta com faixa roxa e uma touca de borracha da mesma cor na cabeça. A touca insiste em cair, ele insiste em recolocá-la. Não sei bem para quem serve. Ele tem uma cara meio brava, mas quando vê que o estou observando dá um sorriso. Muitos israelenses fazem assim: mantém a carranca até você sorrir para eles.

Depois do sorriso, vejo que há uma água-viva nadando perto de mim. Essa é a época delas. Como se tivessem data marcada de visita. Logo as areias estarão repletas dessas geleias mortas, as crianças vão correr e gritar enquanto as cutucam. Isso dura tipo duas semanas. Nesses dias, se vê nos jornais um mapinha desenhado com um monte de imagens que se parecem com o pac-man, mostrando onde há mais “medusas”, onde há menos.

Dentro da água, além do senhorzinho e da água-viva, há um monte de adultos em seus 30 anos com cabeças raspadas e óculos escuros. Todo mundo com uma calvície avançada, percebe-se. Essas são outras duas coisas típicas de praia em Israel: cabeças calvas raspadas e óculos escuros dentro do mar. A marola fica engraçada com aquele monte de repolhos reluzentes com duas bolhas escuras (ainda mais se observados por mim, que entro no mar sem meus necessários óculos multifocais).

Pouca gente acumula latinhas e garrafas de cerveja em volta das cadeiras como se faz no Brasil. Há um motivo financeiro atrás disso: uma garrafa de 300 ml custa cerca de 23 reais. Um copo com meio litro, 30. Não há economia que sobreviva a uma tarde bebum na praia. Pelo menos não quando já se tem família – o negócio é sair pela esquerda com a melancia.

Ainda não me acostumei com os gritos do salva-vidas. Ele fica no segundo andar de sua casinha de madeira com um megafone irritante. Chama a atenção pontual de quem se arrisca. “Menino de óculos e bermuda azul, venha já para cá”; “senhora de biquini vermelho, senhoraaaaaaaa, a senhora mesmo! Saia com essa criança daí”. Claro que quando ele começa a gritar, todo mundo que está no mar automaticamente olha para ele e espera ouvir a descrição. Eu, que na infância – para horror dos meus pais –  gostava de ficar boiando solitária no fundão do mar do Guarujá, não tenho essa boiada aqui. Se eu saio dos trilhos, levo bronca do salva-vidas.

Algumas vezes ouvi – e entendi, um grande feito – o breve discurso que alguns deles gostam de fazer quando o mar está bravo, dizendo que “hoje o mar quer comer alguém”. Ainda morro de rir quando ouço isso. São uns românticos. Praticamente uns Amos Oz.

Sempre levo comigo para a praia um livro, hábito antigo cultivado na adolescência nas praias do Litoral Norte de São Paulo. Lá rola aquela monotonia, sem mães correndo com melancia na mão, homens carecas flutuando de óculos, mulheres vestidas segurando três filhos com dois braços, salva-vidas alertando que o mar não está para peixe. Mas aqui, aqui não. O livro fica na bolsa, porque o que há à minha volta é invariavelmente mais interessante.

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Comentários    ( 11 )

11 Responses to “Chegou o verão em Israel: é hora de fazer farofa”

  • Marcelo Starec

    05/07/2015 at 06:26

    Oi Miriam,

    Gostei muito do artigo! Me senti na praia, com o guarda vidas dando bronca nas pessoas…No brasil é realmente diferente, tampouco se imagina alguém mergulhando de roupa, como algo normal…Interessante…Fiquei pensando…será que as jovens árabes ainda mergulham de roupa, ou parte delas já abandonaram esse hábito de seus pais?…Outro ponto que gostaria de comentar…Não sei se tem sentido isso que estou colocando, mas talvez um pouco desse seu sentimento de monotonia, no passado, seja devido a uma fase diferente da sua vida e não apenas pelas diferenças entre o que seria a praia nos dois países? Mas, enfim acho que os seus leitores, principalmente os não familiarizados com as praias de Israel, ficaram com vontade de conhecer esse lado menos turístico do País, digamos assim…

    Abraços,
    Marcelo.

    Abraços,

    • Miriam Sanger

      05/07/2015 at 08:48

      Oi, Marcelo.
      Fico feliz que tenha gostado.
      Não acho que havia monotonia não. Acho que Israel tem mesmo um ritmo próprio e interessante. E, sim, as praias são usadas de forma muito diferente, pelo menos na visão dessa paulistana patricinha aqui 🙂
      Abraço e boa semana!
      Miriam

  • Leão Sziczkowski

    05/07/2015 at 14:24

    Oi Miriam
    Adorei o texto
    Estamos muito mais próximos do que eu imaginava.
    Também estou morando em israel, em Petach Tikva, há 10 meses fiz alyá
    Tenho amigos e parentes morando em Raanana.
    Estive algumas vezes em Hertzlia, inclusive como farofeiro na praia. Outras vazes, num cafe no Canion.
    Podemos nos encontrar, ou em Raanana ou na praia.
    Não se preocupe porque voce tem marido. Eu tenho mulher e ela vai junto. E me serve de interprete também.
    Vamos ter muitas histórias para contar, um para o outro.
    Meu endereço é Rechov Levin,2 dirá 3
    Meu celular é 058 590 0808
    Meu e-mail é leaoszp@gmail.com
    Um abraço
    Leão

    • Miriam Sanger

      07/07/2015 at 10:07

      Obrigada pela mensagem, Leão. Certamente vamos nos cruzar por aí.
      Abraço,
      Miriam

  • Alex

    05/07/2015 at 15:48

    Bravo.
    Precisamos desta injeção de vida cotidiana israelense para nos sentirmos mais próximos e lembrar que Israel não é só política, guerra, conflitos, etc…
    Obrigado.
    Alex

    • Miriam Sanger

      07/07/2015 at 10:06

      Oi, Alex.
      Tem toda, toda razão. Concordo 100%.
      Abraço e obrigada pelo comentário,
      Miriam

  • Suzy Capobianco

    05/07/2015 at 17:08

    Adorei seu artigo. Encontrei-o no facebook, através do meu afilhado que mora em Israel e colabora com essa Conexão Israel. Me invadiu um prazerzinho de ver o muito familiar ( da mãe berrando na beira do mar no Guarujá até minhas calmas férias em Ubatuba com livros que tb não saem da sacola porque não posso deixar de comtemplar aquela maravilha de nada acontecendo) misturado com um urbano judaico que aí se institucionalizou e aqui é memória de grupo fechado. Pena o inferno das vagas de carro, que se parece com o Rio e maravilha a primaiada de roupa no mar: em paz. Delícia de cotidiano compartilhável!

    • Miriam Sanger

      07/07/2015 at 10:05

      Olá, Suzy.
      Fico feliz que tenha gostado.
      Vou compartilhar todo “cotidiano” que puder descrever em palavras, pode deixar.
      Abraço, e continue nos acompanhando!
      Miriam

  • Raul Gottlieb

    06/07/2015 at 17:53

    O Marcelo tem um ponto. Em Israel só se reconhece os árabes quando estão fantasiados com roupas folclóricas. No mais não dá para saber de forma alguma quem é o que. Já vi muita gente vestida à ocidental falando em árabe nas ruas, restaurantes, universidades e demais locais públicos.

    • Miriam Sanger

      07/07/2015 at 10:08

      Oi, Raul. Verdade. A população está cada vez mais misturada. Mas ainda falta muito…
      Abraço,
      Miriam

  • Maria Lucia

    07/07/2015 at 22:21

    Miriam, Simplesmente lindo este relato que você escreveu ….simplesmente faz a gente sentir que está aí….como eu desejo morar aí….você descreveu tão perfeitamente que eu cá estou ainda vendo…ouvindo…sentindo…amando este lugar mais ainda!!! SHAVUA TOV…TOV..TOV!!! Muito obrigada por compartilhar!!!!

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