Cheiro de Torquemada

Cheiro de torquemada - Israel

 

Foram precisos pouco mais de 560 anos para que os habitantes da cidade de Toledo na Espanha se revoltassem contra a lei chamada “Limpeza de sangue”, a qual fornecia instrumentos de descriminação legal contra as minorias judias e muçulmanas que ocupavam a região.

A lei determinava e exigia a comprovação de uma ascendência puramente cristã para a nomeação de indivíduos com funções de supervisão e de comando no país, impedindo desta forma a inclusão de judeus e muçulmanos que haviam sido coagidos a se converter.

Estas minorias eram consideradas impuras para ocupar posições de hierarquia superior ao cristão – Dizia-se que nem o batismo “lavava o sangue dos seus pais” – comprovando o temor da destruição da supostamente límpida e pura sociedade cristã da época. Os “cristãos novos”, como eram conhecidos os judeus, eram definidos como inimigos do povo espanhol. De fato estávamos conhecendo mais um capítulo da longa história das leis raciais Européias.

Trinta anos mais tarde, tomava forma aquilo que hoje conhecemos como Inquisição Espanhola – Os seus reflexos e o seu simbolismo ecoam até os nossos dias. Durante este período centenas de milhares de judeus foram levados aos tribunais eclesiásticos e muitíssimos foram condenados a morte.

Em 1492 publica-se um decreto Real ordenando a expulsão dos judeus do território espanhol num prazo máximo de três meses. Diversas fontes judaicas retratam o século XV na Espanha, como um período de escuridão, de dor e sofrimento.

Esta breve introdução de história dos séculos passados se faz necessária para entender os últimos acontecimentos ocorridos em Israel.

No jornal da manhã, leio a entrevista do Rabino ortodoxo Shmuel Eliahu idealizador da chamada “Carta dos Rabinos”. A carta nada mais é do que a elaboração de um documento assinada por diversos rabinos onde se intima todo povo judeu israelense a não vender, nem alugar casas a minoria árabe da região. É importante ressaltar, que apesar de não ser um documento estatal, os rabinos que a ratificam são todos funcionários do governo que recebem um salário para trabalhar como rabinos. Ou seja – o documento que diz-se privado – é na verdade elaborado por funcionários estatais que cuidam de assuntos religiosos.

A tarde já era possível ouvir no rádio outros rabinos demandando comportamentos análogos: “Diminuam as chances de qualquer ligação com os goym“, “não trabalhem onde eles trabalham“. Em resumo se proclama: – “acabem com qualquer possibilidade de coexistência”.
Segundo os defensores deste movimento, esta é a nossa única arma de defesa contra a assimilação. Somente desta forma estaríamos protegendo o sonho de Hertzl – um Estado Judeu, na terra de Israel. Este comportamento seria uma estratégia de legitima defesa contra aqueles que nos impõe uma “intifada silenciosa”.
Eu certamente abomino a comparação estúpida do Holocausto Nazista ao tratamento outorgado aos palestinos nos territórios. E não tenho dúvidas de que o Estado israelense encontra-se a milhas de distância do Estado Inquisidor instituído na Espanha do século XV.
Tenho certeza que parte da solução do presente conflito passa pelo tratamento dado a minoria árabe dentro de nosso país. É necessário que eles sintam os efeitos benéficos de um Estado Democrático, onde se possa viver em igualdade lado a lado com seu vizinho. É importante viver em um local onde exista a possibilidade de sentir-se cidadão.
A tentativa de camuflar a defesa de nosso povo e de nossa terra com um comportamento indigno que demanda o impedimento de qualquer tipo de contato com o outro é inaceitável. A defesa do sionismo não nos isenta de nossa obrigação de buscar a coexistência.
E este é exatamente o ponto que nos divide. Onde eles vêm a solução, eu enxergo o problema. Onde eles objetivam a defesa, eu prevejo o ataque. Onde se profetiza a existência de gerações judias não assimiladas, não me é muito difícil imaginar uma geração hostil ao diferente.
Por fim, onde há um anseio sincero pela pureza, eu sinto mesmo é cheiro podre de Torquemada.

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Comentários    ( 2 )

2 Responses to “Cheiro de Torquemada”

  • Saulo

    23/12/2012 at 20:02

    Este tipo de situação revela um detalhe complexo israelense. O primeiro é que, Israel é um estado laico? Se for, por quê sustenta rabinos para algo puramente religioso? Veja bem, ao contrário dos ateus militantes__ e não sou ateu__ que enxergam a religião como um problema, não vejo a religião como problema. Mas, o fato de haver a vinculação do Estado com Religião só torna as coisas piores. Que moral teriam os israelenses a falar do Hamas ou ainda do Irã, que são estados teocráticos? O segundo problema é que se judeus fazem isto, vai remeter, inevitavelmente, à situação alemã nazista, quando os alemães pediam para não se vender nada a judeus… Ora, que moral teriam? Mas, como sempre, ortodoxos e ultraortodoxos sempre olham para o próprio umbigo, e se esquecem que fomentam um antissemitismo travestido de antissionismo…

  • Martinho Júnior

    17/02/2013 at 01:37

    Infelizmente, essa linha de raciocínio e de atuação da ortodoxia não me causa estranheza e muito menos surpresa. Ocorre que a ortodoxia também tem uma atuação extremamente preconceituosa em relação aos bnei-anussim, grupo que tenho o orgulho de pertencer. Estes, caso queiram retornar efetivamente ao seio do povo judeu, são relegado a categoria de não judeu e forçados (mais uma vez) a me submeter a uma conversão para só então serem admitidos como judeu. Ser tratado como um não judeu, significa entre outras coisas, nunca ter tido um passado judeu e isso é inadmissível para os bnei-anussim,

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