Chipre, Rússia e Israel

No dia 29 de Abril a ONG Hiddush (sigla em hebraico de Liberdade Religiosa e Igualdade) divulgou um estudo feito com 194 países sobre a liberdade de casamento. Cada país ganhou uma nota de zero a dois: 2 corresponde a liberdade completa de casamento, 1 corresponde a restrições parciais e zero indica severas restrições à liberdade de casamento.

Quarenta e cinco países receberam a nota zero, e entre eles Israel. O estudo diz:

Israel recebeu a nota “0” por causa do monopólio religioso do casamento, e que nega a centenas de milhares de cidadãos o direito de se casar. Milhões outros tem negada a possibilidade de se casar em uma cerimônia de sua escolha. Israel é a única democracia ocidental no mundo que recebeu a nota mais baixa. As restrições ao casamento colocam Israel junto com outros países muçulmanos da região: Irã, Paquistão, Afeganistão, Arábia Saudita e o resto dos estados fundamentalistas islãmicos.

Por conta destas restrições, no ano de 2010, cerca de 16% dos casamentos registrados no Ministério do Interior foram realizados fora do país. Muitos casais que não querem uma cerimônia religiosa ortodoxa ou que simplesmente não podem se casar viajam a países europeus para realizar uma cerimônia civil.

Chipre

Roi Levi tem 32 anos e mora em Tel Aviv. Em Março de 2012 ele e sua namorada viajaram para Larnaca, no Chipre, para se casar. “Estávamos esperando um bebê, e resolvemos nos casar para facilitar a burocracia. Subimos no avião às 7 horas da manhã, e às 9 horas já estávamos na prefeitura. A cerimônia civil foi bonita, gostei.” Às 10 e meia da manhã o casal já estava com os documentos em mãos prontos para voltar para Israel. Roi conta: “Todo o processo, papelada, viagem, taxas, etc, tudo custou 5 mil shkalim [cerca de 2.5 mil reais]. Isso acaba ferindo a população mais pobre, que não pode viajar.”

Em Israel assuntos de família como casamento, enterros, adoções, são de autoridade das autoridades religiosas reconhecidas (leia em detalhes no texto do Marcelão, que sai amanhã). O rabinato ortodoxo é quem regula o casamento entre judeus, porém não permite o casamento entre um judeu e uma pessoa de outra religião. “Ambos somos judeus, mas sempre foi muito claro para mim que não me casaria pelo rabinato”, diz Roi. “Eu não tenho problema com o judaismo, apenas com quem o toma como propriedade pessoal. Casar fora do país foi a minha forma de protesto.”

Roi diz que o casamento em Israel deveria ser civil, e quem quisesse também poderia fazer um casamento religioso. “A situação de hoje fere os princípios de liberdade religiosa estabelecidos pela Declaração de Independência. Israel não permite casamento entre pessoas de diferentes religiões, e isso é racismo. O Estado de Israel é um estado racista. Minha esposa e eu tivemos a opção de nos casar pelo rabinato, mas há muitos judeus que vieram da antiga União Soviética que nem tem essa opção, pois o seu judaismo é posto em questão pelo rabinato. A lei do retorno os considera suficientemente judeus para imigrarem para Israel e virarem cidadãos, mas não para se casar.”

Rússia

Evgeniy Kogan tem 31 anos, e imigrou para Israel quando tinha 17 anos. Ele vem da cidade Chelyabinsk, nos montes Urais, que era totalmente desconhecida até um meteoro cair ali em Fevereiro deste ano. “Minha mãe estava em casa e sentiu tudo tremer quando o meteoro se chocou com a terra”. Evgeniy namora Olga há 5 anos, ela também nascida na Rússia, na cidade de Ulyanovsk, onde Lenin nasceu.

“Ambos nossos pais são judeus, mas nossas mães não”, conta Evgeniy. “Queríamos nos casar com uma cerimônia e festa, pensamos viajar para a República Tcheca ou Chipre, mas como temos família na Rússia decidimos nos casar lá mesmo.” Eu lhe pergunto como ele se sente em relação a esta situação. “Deve haver liberdade de escolha, não se pode limitar as pessoas a se casar apenas com judeus. Eu sinto um desconforto pessoal, porque tenho que fazer um milhão de coisas para poder me casar. Eu não culpo o país, nem fico bravo, é mais o grande esforço que tenho que fazer. A família da Olga está ajudando bastante, se não fosse por isso talvez eu me incomodaria mais.”

Depois de se casar na Rússia, Evgeniy e Olga farão uma segunda festa em Israel, para que outros familiares e amigos possam estar presentes. “Nós consideramos bastante fazer aqui uma cerimônia religiosa pelo reformismo, mas não tenho certeza se isso é possível por ambos sermos filhos apenas de pais judeus.”

Cerca de 300 mil pessoas em Israel não tem uma religião definida segundo o Ministério do Interior, e portanto não tem nenhuma opção de se casar em Israel. Em 2010 foi criado um status especial para contornar o problema, o chamado “Pacto de Relacionamento” (a tradução é ruim, mas não encontrei outra forma de dizer ברית זוגיות), que confere ao casal os mesmos direitos de um casamento. Esta opção é permitida apenas caso ambos sejam ‘sem religião’. “Na população de novos imigrantes a minha situação é bastante comum. Minha prima também teve que viajar, se casou na República Tcheca. Eu vi outra pesquisa sobre a liberdade de casamento, e Israel aparece 4 lugares antes do último, no final da lista, então essa pesquisa que você me falou a respeito parece que está certa. Eu concordo com aqueles que ficam com raiva e protestam, mas eu não sou assim, sou acomodado por natureza. Mas nós somos cidadãos completos, e nós merecemos os mesmo direitos”.

Israel

Em Fevereiro de 2008 eu e minha namorada ficamos noivos. Marcamos o casamento para Fevereiro de 2009 para ter bastante tempo de planejar tudo e dar tempo aos familiares planejarem sua viagem a Israel. Ambos somos judeus laicos, e mesmo assim decidimos nos casar segundo a única opção que temos em Israel: pelo rabinato, que é controlado pela corrente ortodoxa. De ortodoxos não temos nada, mas pensamos que se nos casássemos fora do país ou mesmo em Israel por uma outra corrente judaica (conservadora, reformista), estaríamos “fechando portas” aos nossos filhos não nascidos, que no futuro teriam problemas com o rabinato por serem filhos de ‘pais não casados’. O processo para se casar foi o seguinte:

Alguns meses antes do casamento fomos ao rabinato de Ramat Gan, cidade onde morávamos então, para abrir uma pasta de casamento. Preenchemos um formulário, demos fotos 3×4 e pagamos 600 shkalim (cerca de 300 reais). Como ambos nascemos em Israel e estamos inscritos como “judeus” em nosso registro no Ministério do Interior, o processo poderia ter acabado por aí mesmo. O problema é que eu cresci no Brasil, e quando falei em hebraico com a mulher que nos atendeu, ela escutou meu sotaque e lá tive que justificar e contar a história de minha vida. Estive no Brasil dos 4 aos 22 anos, e por conta disso o rabinato não tem como saber que não me casei fora de Israel. Fica por minha conta “provar a minha inocência”, e arranjar duas testemunhas em meu favor.

Rabinato de Ramat Gan
Rabinato de Ramat Gan

Chamei o Marcelão Treistman (que também escreve aqui no Conexão Israel) e o Bruninho Gottlieb para irem ao rabinato prestar testemunho que me conhecem do Brasil e que podem afirmar com “absoluta certeza” que sou solteiro. Eu mesmo fui uma vez chamado por uma amiga para seu sua testemunha, e todo o processo me parece extremamente kafkiano. É com isso que todo imigrante judeu tem que lidar quando quer casar em Israel. O rabinato pode pedir também uma carta da comunidade judaica atestando o judaismo do ‘candidato’, e até mesmo o contrato de casamento religioso (ktuba) de seus pais. (Para um relato mais completo  dos problemas que um novo imigrante pode encontrar quando quer se casar, leia o texto do Gabriel.)

Depois disso é hora de encontrar um rabino para oficiar o casamento. O casal pode se casar com qualquer pessoa que esteja cadastrada no rabinato, e nós encontramos um rabino extremamente simpático chamado Shaul Farber, que há muitos anos foi rabino no Brasil e fala português com um sotaque israelense bastante fofo. O rabino não pode cobrar nada pelo ofício do casamento, mas é de costume pagar sua viagem de taxi até o salão. O casamento só pode ser feito em um salão que sirva comida kasher, com certificado e tudo mais, senão, nada feito.

Mais perto da data do casamento, a noiva tem que participar de 2 encontros com uma ‘rabanit’, que é uma mulher que vai lhe explicar como ser uma boa esposa. Eu mesmo não tive que passar por nenhuma aula, talvez porque os homens já nasçam sabendo ser bons maridos? Minha mulher teve uma boa experiência, a rabanit era simpática e deu ‘dicas de relacionamento’. Já outras noivas podem ter uma experiência não tão boa, e escutar que “os mísseis que caem em Sderot é porque nem todos ali guardam o Shabat”, como uma amiga de minha esposa escutou. Isto tudo não é nada menos que a intromissão da ortodoxia no quarto de dormir de um casal, e com respaldo do estado.

No dia anterior ao casamento, a noiva tem que fazer um banho ritual de purificação em uma Mikve. Na saída da ‘purificação’ minha esposa ganhou um atestado que teve que entregar ao rabino no dia seguinte, antes do casamento.

O próprio casamento ocorreu super bem. O rabino nos ia dizendo o que fazer desde antes da cerimônia com a assinatura do contrato de casamento, até a própria chupá. Tudo isso, é claro, segundo os costumes judaicos-ortodoxos. Um pequeno exemplo: o casamento judaico exige duas testemunhas, mas segundo os costumes ortodoxos, apenas alguém que come kasher e ‘respeita o shabat’ pode ser testemunha, o que elimina toda a minha família e uma astronômica maioria do meu círculo social. E por aí vai.

Meu casamento
Meu casamento

Eu não me arrependo de ter me casado pelo rabinato, mas muitas vezes penso se não teria sido melhor ter casado em uma cerimônia de uma linha judaica mais próxima ao meu coração, como forma de protesto. Tal casamento não seria reconhecido pelo Estado, e assim eu me somaria aos milhares de israelenses que se recusam a aceitar o status quo. Não tenho dúvida que Israel precisa urgentemente por um lado quebrar o monopólio da ortodoxia em assuntos judaicos, e por outro lado dar a opção de casamento civil, livre de restrições de religião, raça, sexo e sexualidade (sim, gays também).

Eu me impressiono como pode ser que esse país moderno e avançado onde vivo é tão retrógrado e discriminatório em questões básicas de direitos civis, e tudo isso em nome… em nome do que mesmo? A iniquidade causada a Evgeniy, que não tem nenhuma possibilidade legal de se casar em Israel, não é menor do que a causada a Roi, que queria um casamento civil, ou menor do que a violação ao meu direito de consciência e de liberdade religiosa. Já faz oito anos que eu fico dizendo a mim mesmo que em 2, ou no máximo 3 anos, o status quo vai ser quebrado. De toda forma, ainda não se perdeu a esperança de sermos um povo livre em nossa terra.


 

Leia outros artigos sobre Casamento em Israel

Conheçam a história de Samuel, um imigrante brasileiro em Israel que conheceu o amor da sua vida por aqui e hoje, assim como muitos, enfrenta um grande dilema para conseguir realizar o seu sonhado casamento em Eretz Israel. Quais são as barreiras que impedem este jovem judeu sionista de casar debaixo de uma chupá, segundo os costumes de Moisés e Israel?

Leia o texto completo

O advogado Marcelo Treistman apresenta as leis e aspectos legais que definem o casamento em Israel. Existe caasamento inter-religioso no país? A lei reconhece a união Homossexual? O casamento civil fora do território israelense é reconhecido pelo Estado? Conheça as respostas a estas perguntas neste artigo esclarecedor.

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Comentários    ( 3 )

3 Responses to “Chipre, Rússia e Israel”

  • Raul Gottlieb

    15/05/2013 at 00:51

    Conheço um casal de sabras (não são imigrantes) que se casou numa cerimônia religiosa liberal – ambos frequentam sinagogas liberais com alguma assiduidade – e se recusou a casar de alguma outra forma para obter o documento do Estado. Ela preenche os papéis referentes à sua filha como “mãe solteira” e assim ganha um subsídio do estado. Esta minha conhecida acha que se todos tomarem a atitude dela e do marido o Estado vai ter que fazer alguma coisa, porque o subsídio às mães solteiras (que eu não sei qual é) seria insuportável.

    Conheço uma mulher que casou grávida e um marido Cohen. Ela teve que esconder o fato do Rabinato e quando perguntada, na entrevista com a Rebitzen, quando foi a sua última menstrução inventou uma data que lhe permitisse casar no dia em que havia reservado o salão.

    É também por tudo isto que os israelenses não aguentam mais os charedim.

  • Rabina Sandra Kochmann

    15/05/2013 at 22:45

    Querido Yair: O fato de ter se casado pelo Rabinato ortodoxo só disminui um pouquinho a possibilidade dos seus filhos de passar pela mesma experiência de “provar a sua inocência” q vcs passsaram, pq se algum deles decidir se casar com alguma outra pessoa q pode trazer “dúvidas” para o Rabinato, as perguntas voltaram. O casamento pelos Movimentos Masorti (Conservador), Reformista o qualquer outra opção fora do Rabinato não “fecha portas”. Se for assim, o 90 % dos olim hadashim iamos ter problemas pq os nossos pais foram casados por Rabinos não ortodoxos ou sem Rabino mesmo (algum Diretor comunitário, Moré, sheliach, etc). Para o Rabinato o importante é comprobar q as pessoas q vão se casar são judias e solteiras e ponto. Não quem foi o Rabino, Rabina ou outra pessoa que oficiou o casamento dos pais. Estou a favor da possibilidade do casamento civil em Israel para quem não quer ter nenhum tipo de casamento religioso e tb da possibilidade de escolha da corrente religiosa que preferir, para quem sim quer casamento religioso.
    Querido Raul: Eu conheço pessoas que “aproveitam” que os casamentos dos Movimentos Masorti e Reformista não são reconhecidos pelo Estado para continuar recebendo subsidios por divorcio e por mães solteiras. No Movimento Masorti não aceitamos ser cúmplices deste engano ao Estado. O reconhecimento dos nossos casamentos vai chegar pelo caminho da justiça e não pelo engano ao Estado. Bjs desde Jerusalem!

  • Henrique Moscovich

    16/05/2013 at 00:19

    A sociedade israelense tem 65 anos de vida, ela vai evoluir,
    A população tem como mudar este status quo pelo voto e ações civis!
    Pois quem subsidia os haredim são todos que pagam impostos aí.
    As nossas mulheres já podem rezar como bem quiserem , aos poucos se chega numa sociedade igualitária( se assim for o desejo da maioria)
    Cordialmente Shalom
    Henrique Moscovich