A primeira chuva

Anteontem (21 de Setembro) choveu em Israel, e todos os jornais online logo noticiaram como notícia de capa. Apenas 3 milímetros caíram (no máximo), e uma euforia sem tamanho tomou conta da população. Como explicar isso?

Israel tem um clima mediterrâneo, o que significa que não chove durante o verão. Chove pouco? Não, disse não chove. Nada. É difícil explicar o que isso causa nas pessoas. Da mesma forma que no final de cada inverno eu tenho dificuldade de lembrar o que é passar calor, no final do verão em Israel eu até chego a esquecer que água pode cair dos céus.

Observemos o gráfico abaixo que eu preparei. Ele mostra a média de chuva por mês, para as seguintes cidades: Tel Aviv, Jerusalém, São Paulo e Rio de Janeiro. A primeira coisa a se notar é que apesar de Israel estar no hemisfério oposto do Sudeste brasileiro, o período de seca para todas as cidades é ao redor do mês de Julho. Em Israel a seca é durante o verão. No Sudeste brasileiro é durante o inverno.

chuva

Três dos 12 meses em Israel registram uma média histórica de zero milímetros. De fato, do mês de Maio a Setembro, quase nada chove. Pare por alguns segundos e contemple esse fato. Cinco meses sem chuva…

A chuva é tão importante por aqui, que a de anteontem tem até nome: Yorê. Esse é o nome dado à primeira chuva depois do verão. A última chuva antes do verão também tem nome: Malkosh. Esses são nomes bíblicos, que aparecem em Deuteronômio, capítulo 11, versículo 14: “Então darei a chuva da vossa terra a seu tempo, a temporã [yorê] e a serôdia [malkosh], para que recolhais o vosso grão, e o vosso mosto e o vosso azeite.”
(וְנָתַתִּי מְטַר אַרְצְכֶם בְּעִתּוֹ יוֹרֶה וּמַלְקוֹשׁ וְאָסַפְתָּ דְגָנֶךָ וְתִירֹשְׁךָ וְיִצְהָרֶךָ)

Estamos agora durante a semana de Sukot, a festa judaica das cabanas. É no oitavo dia da festa, em Shmini Atzeret, que um dos versículos da reza das 18 bênçãos (ou Amidá) muda para se adequar à nova estação. Entre Pessach e Sukot, o versículo diz “aquele que faz o orvalho cair” (morid hatal = מוריד הטל), obviamente referindo-se a Deus, que no verão nos presenteia apenas com umas gotinhas. Em Sukot passamos a dizer “aquele que faz o vento soprar e faz a chuva cair” (mashiv haruach umorid hagashem = משיב הרוח ומוריד הגשם).

A própria psique do israelense não deixa a chuva de lado, dando-a uma importâcia dificil de se entender, para quem é de fora. Por aqui, chuva nunca é ruim. Eu me casei no chuvoso mês de Fevereiro, e nas horas que se antecederam à cerimônia caiu um toró muito respeitável. Os convidados que foram chegando ao salão, quase todos diziam: “chuva é uma bênção!”.

Falando em casamento, apesar do calor, as noites de verão são muito procuradas pelos casais que querem se casar. A vantagem é que com muitos meses de antecedência, pode-se planjar uma festa ao ar livre com a certeza absoluta que não choverá. Os grandes shows de rock também são no verão, pelo mesmo motivo. 

Termino com a sugestão de algumas canções israelenses que falam sobre a chuva. “Geshem Bo” (chuva venha), da banda militar haNachal é como um mantra pedindo que a chuva venha; “Geshem” (chuva), de Meir Banai, é uma canção intensa, carregada de emoção, pedindo que a chuva venha lavar a alma de uma pessoa conturbada; “Mitria Bishnaim“, de Nomi Shemer, é leve e alegre, sobre dois namorados pesseando pela cidade na chuva; para terminar, lhes deixo o video de “Geshem Kaved Omed Lipol” (uma chuva pesada está para cair), que é uma tradução de Yehonatan Gefen de A Hard Rain’s A-Gonna Fall, de Bob Dylan. A interpretação é do filho de Yehonatan, Aviv Gefen. Aproveitem a chuva!


 


Dados do gráfico:
Tel Aviv e Jerusalém: http://www.ims.gov.il/IMSEng/CLIMATE
SP e RJ: Wikipedia

Foto de capa: Flickr

Comentários    ( 5 )

5 Responses to “A primeira chuva”

  • Mila Chaseliov

    23/09/2013 at 19:11

    Meus vizinhos de baixo saíram pra rua gritando de felicidade. Uma amiga de Tel Aviv ligou toda feliz pra contar que tomou banho de chuva. É uma alegria. 🙂

  • Fernanda Goldenberg

    23/09/2013 at 21:51

    Nos ganim (escolas de educacao infantil) se fala da chuva o tempo todo… entao ai vao algumas musicas de chuva para criancas:
    http://www.youtube.com/watch?v=EX-QZYUXuDI
    http://www.youtube.com/watch?v=09EMl7diO7k
    http://www.youtube.com/watch?v=CCXM5-lRjpI
    a mais fofa de todas: http://www.youtube.com/watch?v=k6Ob0UqYujE
    e uma especial sobre a yore http://www.youtube.com/watch?v=plyUqIqRWew
    Eu ainda sou bem paulista e detesto chuva, mas trabalhando com criancas israelenses e c as musicas fofissimas de chuva da p melhorar um pouco a situacao!!!!

  • Ricardo Arcanjo

    24/09/2013 at 01:54

    Em maio visitei Israel e fui presenteado com algumas gotas de chuva…Uma nuvem solitária em Jerusalém!

  • Raul Gottlieb

    24/09/2013 at 19:30

    No ano passado eu estava em Tel Aviv nesta época do ano e a minha atual esposa resolveu num certo dia que nós íamos à praia.

    Ou melhor, ela decretou que eu estava com vontade de ir à praia naquele dia. Que era importante para mim lambuzar de areia o livro que estava lendo no conforto sombreado da nossa varanda.

    O céu estava todo azul, não tinha uma nuvenzinha sequer. Um dia perfeito, decretou a doce esposa.

    Eu disse: Marina, hoje vai chover, não é um bom dia para ir à praia.
    Ela disse: Você ficou louco, Raul! Não tem uma nuvem, como você sabe que hoje vai chover?
    Eu disse: Está na Torá, hoje é o primeiro dia da temporada chuvosa – hoje tem Yoré.

    Claro que ela não acreditou em mim e claro que eu tive que obedecer ao comando da minha amada, que diz, dia sim, dia também “eu (e só eu) sei o que é bom para a nossa família”.

    Meia hora depois de conseguirmos um lugarzinho debaixo de uma barraca, no meio da habitual balbúrdia israelense (que me faz acreditar que um dos traços hereditários de Abraão Isaque e Jacó é a surdez – se bem que a Torá não fala nada sobre isto), eu apontei para o horizonte e disse: olha lá, tem uma nuvenzinha chegando e hoje é dia do Yoré…

    Quinze minutos depois estávamos, nós e todos os demais, debaixo do telhado do bar ao abrigo da chuva, que passou rapidinho, por que a Yoré é sempre bem fraquinha.

    A única coisa boa disto tudo é que aproveitamos para tomar uma caipirinha israelense, ou seja, de limão com nana (nenhum barman israelense admite despejar algum líquido no copo sem uma folhinha de nana junto para dar sorte).

    Tomando a caipirinha, tentei convencer a Marina a estudar Torá, mas ela não quis. Até hoje ela acha que eu apenas dei sorte ao prever chuva.

    Por que uma coisa que ainda não inventaram é mulher que dá o braço a torcer. Nem na Terra Santa.

  • Rafael Stern

    28/09/2013 at 05:42

    Recomendo a belíssima música “Mahari Na” do Ehud Banai.