Cinco meses de Zinho

08/06/2017 | Sociedade

Alon Grunewald nasceu em Porto Alegre. Exatamente 4 de novembro de 1938. Fez aliá com a família para o Kibutz Bror Chail, aos 16 anos. Com 28, por volta de abril de 1967, cumpria reserva ativa (miluim) no exército de Israel.

“Cheguei ao Sinai dois meses antes de estourar a guerra e fiquei mais três, depois de terminar”, revela.

A região desértica não tinha as demarcações de fronteira, como existem atualmente. Os soldados acampavam, em algum local, e improvisavam a base.

“Havia comunicação com uma central e não faltavam mantimentos. Nós guardávamos pontos estratégicos, de segurança nacional”.

Importante ressaltar que o serviço militar é obrigatório para homens (três anos) e mulheres (biênio), a partir de 18. Terminado este período, dependendo do grupamento, ou regimento, há convocações anuais, para reciclagens, treinamentos e cumprimentos de funções.

Zinho, como é conhecido, ficou cinco meses seguidos em miluim. Hoje, seria algo impensável. Duas, estourando três, semanas consecutivas são o máximo que pedem. Até porque o exército paga, no mínimo, 80% do salário do reservista, quando ele se ausenta do trabalho. O custo não é baixo.

Todos têm compromissos, família. Parar a vida por alguns dias, reencontrar colegas de longa data, às vezes, é prazeroso. Se passa um tempo maior, já atrasa todo mundo.

No ano seguinte, ele casou-se com Dina, teve filhos e netos. Vive muito bem até hoje. Entretanto, aqueles cinco meses de 1967 marcaram sua vida.

“Não foi para rir, foi para chorar. Sempre me perguntam se era como no filme israelense Gvat Halfon Eina Ona [comédia pastelão. Em hebraico, seratei burekas]. Não era. Tratava-se de algo pesado. Vida real. Nossa vida parada. Sabíamos da importância para o Estado, tudo bem, mas era o deserto, sol na cabeça, cinco meses direto”, desabafa.

Zinho faz questão de esclarecer que não foi condecorado. Apenas cumpriu a função pré-determinada.

Como ele, houve vários naquela época. Pessoas que estavam fazendo guarda, “tranquilamente”, quando explode algo enorme.

O que fazer?

O fato é que vida continuou. Zinho construiu família. Trabalhou 34 anos como câmera, engenheiro de luz e som, no canal 1, de televisão, viajou pelo mundo profissionalmente e se aposentou.

O egípcio Anuar Sadat assinou a paz com o israelense Menachem Begin. O Sinai trocou de dono, mas alcançou-se a paz.

Aqueles cinco meses completam 50 anos agora. Muitos celebram com festas o heroísmo dos soldados. Zinho dá de ombros. Foi marcante em sua vida, tem orgulho, mas não é uma lembrança feliz.

Foto da capa: Daniela Feldman Niskier
Link Gvat Halfon Eina Ona: https://www.youtube.com/watch?v=5EJ52w95Eh0&list=PLy8GR5xZJiW6qP97mEDNmHsrPyRST0jBH

Artigos relacionados

Ver mais artigos

Comentários    ( 0 )

Você é humano? *