Civis inocentes de Gaza são os responsáveis ​​pelo seu destino

21/07/2014 | Conflito, Opinião, Sociedade.

Artigo de Yaron London, publicado no  dia 17 de julho de 2014.

Civis inocentes de Gaza são os responsáveis ​​pelo seu destino
Traduzido por Marcelo Treistman

É possível que a guerra já tenha terminado quando estas palavras chegarem ao mundo.

Se isso acontecer, este artigo poderá ser lido tranquilamente durante a próxima guerra, que, sem dúvida, ocorrerá em breve. O acordo que está tomando forma é incapaz de impedi-la. Eu já escrevi muitas vezes sobre o estatuto do Hamas , que reflete a visão e os objetivos dos fundadores da organização. Sei que alguns têm aceitado o meu conselho e notaram que a visão de mundo de muitos dos autores deste estatuo não é diferente dos autores dos escritos anti-semitas mais desprezíveis.

Os judeus, os governantes secretos do mundo, são os culpados por todas as suas mazelas. Eles iniciaram as grandes guerras que eclodiram desde os tempos antigos até os dias de hoje, espalharam epidemias que mataram milhões de pessoas e causaram todas as injustiças sociais. São um vírus e devem ser destruídos.

Alguns dos meus amigos acham que eu estou dando muita importância para palavras porque quem ganha a vida fazendo delas a sua produção tende a superestimá-las. A realidade, eles dizem, é mais forte que os documentos fundamentais escritos por ideólogos desesperados, e quando a realidade muda para melhor, ainda que as janelas abertas da esperança sejam estreitas, as velhas fórmulas são interpretadas de forma a estar de acordo com a própria existência. Depois de um tempo, ninguém se lembra o que está escrito.

Judeus que expressam esta afirmação estão esquecendo que o movimento sionista foi impulsionado por palavras originárias do que foi escrito há milhares de anos que ainda são memorizadas de forma incessante.

Não se assuste com essa comparação. Eu não estou tentando justificar ou condenar visões incorporadas em palavras, mas com o seu poder de motivar os movimentos políticos, provocarem revoluções e enviar as pessoas para matar e morrer. O estatuto do Hamas é um texto que expressa uma ideia e, criando uma ideia está criando ações. Se ele não tem importância, então aqueles cânticos de “morte aos arábes” e os escritos dos rabinos que recomendam a remoção da maior quantidade de prepúcios filisteus também não tem.

Aqueles que minimizam a importância do estatuto também afirmam que poucos palestinos leram o que estava escrito. Acho que isso é verdade, mas quantos de nós podem citar a Declaração de Independência de Israel, leram a “Auto-Emancipação” de Leo Pinsker, memorizaram “Der Judenstaat” de Theodor Herzl e já ouviram falar sobre o “Muralha de Ferro” de Ze’ev Jabotinsky?

A essência dos escritos fundamentais se infiltra na língua falada, nos sistemas de ensino, na linguagem da imprensa, nos discursos políticos, nos sermões dos clérigos religiosos e se infiltram na consciência nacional. O estatuto do Hamas é um componente importante na consciência de quem dispara mísseis contra nós, mesmo senão se deram ao trabalho de ler uma única linha sequer.

Há aqueles que têm prazer no sofrimento dos palestinos, e há aqueles que sentem pena dos habitantes de Gaza inocentes que se machucam, apesar dos esforços do exército para abater apenas aqueles que nos agridem. Podemos tentar reduzir a matança de pessoas inocentes, mas a conduta de uma entidade política é a criação de um coletivo e não de indivíduos.

Nem todos os judeus apoiam a política de ocupação e colonização, e eu sou um daqueles que se opõem a ela, mas eu sei muito bem que no final do dia eu vou pagar o preço por essa política, bem como meus filhos e netos, e eu nunca pensaria em afirmar que eu não sou responsável por isso.

Sou responsável pois compartilho a responsabilidade pela sociedade em que vivo, e se eu falhei ao tentar mudar sua conduta, a responsabilidade cai também sobre os meus ombros. Assim é em nações, cujas regras de conduta são diferentes das regras de conduta dos indivíduos.

Palestinos em Gaza, que reclamam que a culpa não é deles, porque são as vítimas de seus governantes, porque tudo que eles querem é ganhar a vida e viver em paz, podem estar dizendo a verdade. Mas se eles estão realmente dizendo a verdade, deveriam ter se rebelado contra seus governantes e lidado de forma corajosa contra aqueles que constroem bases de mísseis sob as suas casas.

Por eles não conseguirem fazê-lo, terão que pagar um preço que eu gostaria de tê-los poupado.


Yaron London

Texto original – Aqui

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Comentários    ( 32 )

32 Responses to “Civis inocentes de Gaza são os responsáveis ​​pelo seu destino”

  • Mario S Nusbaum

    24/07/2014 at 01:54

    Vale a pena acrescentar: esse senhor, após ver o que tinha acontecido com os judeus, aproximou-se da colônia e virou um defensor radical de Israel, também contribuía muito com instituições judaicas.
    Ele participou do julgamento de alemães.

  • Rodrigo

    24/07/2014 at 18:12

    Mario, você não acha que o fato dos Palestinos celebrarem as façanhas do Hamas não tem nada a ver com o valor de suas vidas?

    Que herói eles puderam construir ao longo dos anos? Um conflito antigo como esse já teve pelo menos duas gerações de pessoas que nasceram dentro disso tudo. Já nasceram dentro de uma realidade onde o ódio de ambas as partes já estava estabelecido. Como se muda isso? Como podemos esperar que essas pessoas tenham o discernimento lógico de colocar sua força de vontade contra o “verdadeiro” inimigo, que no caso seria o Hamas?

    A visão dos Israelenses e dos Palestino tem a estreiteza emocional como condicionante primordial. Não dá pra ignorar esse fato. O terror causado pela morte iminente é sentido em igual peso por ambas as partes. Só que neste ponto, Israel tem uma vantagem. Tanto em estrutura quanto em poder. Mas o medo faz isso. O medo molda o raciocínio e, desta forma, acaba por justificar atos injustificáveis… Mais do que achar responsáveis e continuar procurando culpados, o mais importante seria pensar numa solução. A solução pacífica pode parecer utópica, mas acredito que seja possível.

    Gostaria de saber quais foram as propostas já debatidas a respeito de soluções pacíficas que, confesso, desconheço…

    • Mario S Nusbaum

      24/07/2014 at 20:39

      “você não acha que o fato dos Palestinos celebrarem as façanhas do Hamas não tem nada a ver com o valor de suas vidas?” Não sei o que você chama de valor de suas vidas Rodrigo, mas vou explicar o meu ponto de vista melhor. Digamos que um governo paraguaio decida, por um motivo qualquer, que o Brasil pertence a eles e passe a assassinar brasileiros paraguaios sempre que possível, tanto aqui quanto lá.
      Digamos também que um paraguaio morra durante uma REAÇÃO brasileira. Os meus sentimentos
      em relação a isso dependeriam muito de quem fosse. Pela ordem do qual me deixaria mais triste para o menos:

      1) alguém que se manifestasse contra a política do seu país
      2) alguém que ficasse calado
      3) alguém que desse tiros para cima cada vez que um brasileiro fosse assassinado e organizasse paradas em homenagem do assassino

      Para ser sincero eu até ficaria contente no caso 3. Voltando ao “valor” da vida, fiquei muito triste com a morte do John Lennon e contente com a do Bin Laden. Estou errado?

    • Mario S Nusbaum

      24/07/2014 at 20:53

      “Que herói eles puderam construir ao longo dos anos?”
      A minha pergunta é outra: que herói eles quiseram construir ao longo dos anos?

      “Um conflito antigo como esse já teve pelo menos duas gerações de pessoas que nasceram dentro disso tudo. Já nasceram dentro de uma realidade onde o ódio de ambas as partes já estava estabelecido.”
      Verdade, nada a contestar. Como você disse, de AMBAS as partes, certo? OK, pergunto aos amigos que moram em Israel: quantas festas foram dadas em homenagem aos animais que queimaram o garoto palestino? Quantas paradas? Algum de você pretende comprar um vídeo glorificando a façanha?

      “Como podemos esperar que essas pessoas tenham o discernimento lógico de colocar sua força de vontade contra o “verdadeiro” inimigo, que no caso seria o Hamas?”
      Imaginando que elas não são cegas. Como você chega à conclusão de que um governo é bom ou ruim?

      “Mais do que achar responsáveis e continuar procurando culpados, o mais importante seria pensar numa solução”
      De acordo, mas digamos, que os culpados estejam sabotando a solução. O que fazer? É isso que eu quero dizer com apoio ao hamas ser prejudicial para todos. . A solução pacífica pode parecer utópica, mas acredito que seja possível.

      “Gostaria de saber quais foram as propostas já debatidas a respeito de soluções pacíficas que, confesso, desconheço… ”
      Foram muitas, vamos lá. A primeira foi a da partilha, que Israel aceitou e os árabes não. Depois tivemos o período entre 48 e 67, quando se alguém impediu os palestinos de criarem um país certamente não foi Israel.
      Em tempos bem mais atuais, Israel ofereceu, DUAS vezes, praticamente tudo o que os palestinos dizem querer, em Camp David e em Taba e as propostas foram ignoradas.
      É mais ou menos assim Rodrigo: você alega que certo terreno que eu ocupo é seu. Após décadas de briga eu digo: ok, você tem razão, mas eu construí um galinheiro em um dos cantos e lhe dou 97% dele e você SAI CORRENDO!!!!!! Acredite, foi o que aconteceu.

      Finalizando: Israel ocupava Gaza e resolveu se retirar (e nem eu como judeu consigo avaliar direito o custo político e psicológico de tirar os israelenses de lá). Primeira ação palestina após a saída das tropas: incendiar as sinagogas. Segunda: incendiar a estufas. Terceira: começar a lançar foguetes sobre Israel.

  • Rodrigo

    24/07/2014 at 22:36

    Mario, obrigado por responder e me esclarecer melhor. Eu realmente não nego que a mentalidade dos Palestinos seja negativa em diversos pontos. E essa mentalidade tem raízes muito fortes e profundas no emocional do povo.

    Mas creio que a discussão se torna confusa quando começamos a olhar para o fato de eles comemorarem atos odiosos. Aqui o foco se perde pois parece que isto dá a Israel o direito de contra-atacar da forma como faz.

    Esse questionamento pode inflamar muitas pessoas pois entendo a dificuldade humana de lidar com tamanha provocação e falta de humanidade por parte Palestina. Infelizmente, é um povo que há milênios sofre pela falta de humanidade em sua própria cultura (espero não estar sendo preconceituoso aqui).

    Mas se a falta de humanidade e desprezo pela vida do israelense por parte dos Palestinos é vista de forma tão negativa (por quê é!), não podemos dizer que a ofensiva de Israel é melhor, ou menos pior.

    Por mais que a motivação Israelense para atacar a Palestina se derive da postura do Hamas, não há razão no mundo que torne isso algo justificável do ponto de vista moral.

    Claro que essa é uma opinião pessoal e, daqui do Brasil, não posso ter idéia do que seja esse terror. Mas talvez isso me faça ver as coisas de outra forma, sem olhar através do prisma do terror.

    A situação é gravíssima, eu sei. Sem solução visível.

    Mas essa “solução” que mata mulheres e crianças certamente não é a melhor.
    E não é o fato de que os terroristas usam mulheres e crianças como escudo e de cometerem todas essas atrocidades que dá a Israel razão sobre o que faz. Nada justifica bombardear uma escola (sob pretexto nenhum, mesmo que digam que tem bombas lá embaixo).

    O problema é que tudo é colocado como uma questão de “falta de escolha” como se esses ataques fossem a única resposta possível. E além disso ainda se contesta por quê os Palestinos não se voltam contra o poder deles. É a única coisa que eles têm. Quem mais no mundo mostra pra eles uma outra solução?

    Agora, responsabilizar pessoas em situação de tão grave e duradoura miséria e que já sofreram o que sofreram e que já NASCEM dentro disso tudo, como se a culpa de estarem levando bomba na cabeça fosse deles…que raciocínio é esse? Por quê ver todos eles como o Bin Laden e não como um John Lennon em potencial? Por quê matá-los em vez de ajudá-los?

    E antes que alguém pergunte: Não, não sei como ajudá-los, mas tudo o que eu sei é que eles precisam de ajuda, não de bombas. Qualquer “solução” dada fora desse paradigma não pode ser colocada como uma solução verdadeira.

    • Mario S Nusbaum

      25/07/2014 at 17:06

      Não precisa agradecer Rodrigo, é um prazer trocar idéias com pessoas bem intencionadas e sempre se aprende alguma coisa, o “lucro” é mútuo.

      “O problema é que tudo é colocado como uma questão de “falta de escolha” como se esses ataques fossem a única resposta possível”
      Com toda sinceridade, a única outra que vejo é cortar o fornecimento de energia. Gostaria muito de ouvir uma terceira.
      “É a única coisa que eles têm. Quem mais no mundo mostra pra eles uma outra solução?”
      Não é verdade Rodrigo, e nem precisa sair de lá para perceber isso: AP. Não sou daqueles que a consideram moderada, mas pelo menos ela não faz de tudo para que morra o maior número possível de palestinos. Isso para não falar que o Abbas pelo menos mora lá.

      “Agora, responsabilizar pessoas em situação de tão grave e duradoura miséria e que já sofreram o que sofreram e que já NASCEM dentro disso tudo, como se a culpa de estarem levando bomba na cabeça fosse deles…que raciocínio é esse?”
      Vou dizer. O já nascem dentro disso tudo depende, claro, da idade de cada um. Quem tem mais de 50, nasceu em um território administrado pelo Egito, quem tem 40, em um administrado por Israel mas não bombardeado. Quem tem 8, nasceu num lugar sem nenhum israelense e cujo governo adotou a política de lançar foguetes sobre o vizinho diariamente. Não lembro se foi nesse blog, mas recentemente escrevi quais foram as três primeiras coisas que o governo de Gaza fez após assumir o controle:
      1) Incendiar sinagogas
      2) Incendiar estufas, que produziam alimentos e geravam renda
      3) Atacar Israel

      “Por quê ver todos eles como o Bin Laden e não como um John Lennon em potencial?”
      Bom, estatisticamente pode surgir qualquer um dos dois por lá, mas a MASSA é educada para ser bin ladens, e isso pode-se provar facilmente.

      Que eles precisam de ajuda é óbvio, e eu concordo plenamente, mas não dá para ajudar antes de derrubar o hamas. Alemanha e Japão foram MUITO ajudados, mas só depois do nazismo e do regime imperial serem derrotados.

      um abraço e bom final de semana

    • Rodrigo

      25/07/2014 at 23:07

      Entendo o seu ponto Mario e você não está errado de forma alguma em nenhum argumento no que tange às motivações por parte de Israel e do Hamas. Mas, ao que parece, o Hamas pouco se importa com a vida dos Palestinos, o que faz com que essa “reação desproporcional” seja inócua para resolver a situação.
      Minha revolta toda reside aí.
      O texto que estamos debatendo trata de responsabilidade. Como se a reação de Israel fosse natural e aceitável. Nesse ponto, não nego de forma alguma a responsabilidade do Hamas. Mas também, não podemos culpar a população palestina por não pegarem em armas e se revoltar contra o poder de seus governantes. Até por quê, quem tomaria o poder então? Seria realmente melhor para Israel?
      Veja bem, não me oponho a Israel, só questiono a estratégia usada para a resolução do problema, pois a suposta solução não resolve nada e causa muito sofrimento.

Você é humano? *