Civis inocentes de Gaza são os responsáveis ​​pelo seu destino

21/07/2014 | Conflito; Opinião; Sociedade

Artigo de Yaron London, publicado no  dia 17 de julho de 2014.

Civis inocentes de Gaza são os responsáveis ​​pelo seu destino
Traduzido por Marcelo Treistman

É possível que a guerra já tenha terminado quando estas palavras chegarem ao mundo.

Se isso acontecer, este artigo poderá ser lido tranquilamente durante a próxima guerra, que, sem dúvida, ocorrerá em breve. O acordo que está tomando forma é incapaz de impedi-la. Eu já escrevi muitas vezes sobre o estatuto do Hamas , que reflete a visão e os objetivos dos fundadores da organização. Sei que alguns têm aceitado o meu conselho e notaram que a visão de mundo de muitos dos autores deste estatuo não é diferente dos autores dos escritos anti-semitas mais desprezíveis.

Os judeus, os governantes secretos do mundo, são os culpados por todas as suas mazelas. Eles iniciaram as grandes guerras que eclodiram desde os tempos antigos até os dias de hoje, espalharam epidemias que mataram milhões de pessoas e causaram todas as injustiças sociais. São um vírus e devem ser destruídos.

Alguns dos meus amigos acham que eu estou dando muita importância para palavras porque quem ganha a vida fazendo delas a sua produção tende a superestimá-las. A realidade, eles dizem, é mais forte que os documentos fundamentais escritos por ideólogos desesperados, e quando a realidade muda para melhor, ainda que as janelas abertas da esperança sejam estreitas, as velhas fórmulas são interpretadas de forma a estar de acordo com a própria existência. Depois de um tempo, ninguém se lembra o que está escrito.

Judeus que expressam esta afirmação estão esquecendo que o movimento sionista foi impulsionado por palavras originárias do que foi escrito há milhares de anos que ainda são memorizadas de forma incessante.

Não se assuste com essa comparação. Eu não estou tentando justificar ou condenar visões incorporadas em palavras, mas com o seu poder de motivar os movimentos políticos, provocarem revoluções e enviar as pessoas para matar e morrer. O estatuto do Hamas é um texto que expressa uma ideia e, criando uma ideia está criando ações. Se ele não tem importância, então aqueles cânticos de “morte aos arábes” e os escritos dos rabinos que recomendam a remoção da maior quantidade de prepúcios filisteus também não tem.

Aqueles que minimizam a importância do estatuto também afirmam que poucos palestinos leram o que estava escrito. Acho que isso é verdade, mas quantos de nós podem citar a Declaração de Independência de Israel, leram a “Auto-Emancipação” de Leo Pinsker, memorizaram “Der Judenstaat” de Theodor Herzl e já ouviram falar sobre o “Muralha de Ferro” de Ze’ev Jabotinsky?

A essência dos escritos fundamentais se infiltra na língua falada, nos sistemas de ensino, na linguagem da imprensa, nos discursos políticos, nos sermões dos clérigos religiosos e se infiltram na consciência nacional. O estatuto do Hamas é um componente importante na consciência de quem dispara mísseis contra nós, mesmo senão se deram ao trabalho de ler uma única linha sequer.

Há aqueles que têm prazer no sofrimento dos palestinos, e há aqueles que sentem pena dos habitantes de Gaza inocentes que se machucam, apesar dos esforços do exército para abater apenas aqueles que nos agridem. Podemos tentar reduzir a matança de pessoas inocentes, mas a conduta de uma entidade política é a criação de um coletivo e não de indivíduos.

Nem todos os judeus apoiam a política de ocupação e colonização, e eu sou um daqueles que se opõem a ela, mas eu sei muito bem que no final do dia eu vou pagar o preço por essa política, bem como meus filhos e netos, e eu nunca pensaria em afirmar que eu não sou responsável por isso.

Sou responsável pois compartilho a responsabilidade pela sociedade em que vivo, e se eu falhei ao tentar mudar sua conduta, a responsabilidade cai também sobre os meus ombros. Assim é em nações, cujas regras de conduta são diferentes das regras de conduta dos indivíduos.

Palestinos em Gaza, que reclamam que a culpa não é deles, porque são as vítimas de seus governantes, porque tudo que eles querem é ganhar a vida e viver em paz, podem estar dizendo a verdade. Mas se eles estão realmente dizendo a verdade, deveriam ter se rebelado contra seus governantes e lidado de forma corajosa contra aqueles que constroem bases de mísseis sob as suas casas.

Por eles não conseguirem fazê-lo, terão que pagar um preço que eu gostaria de tê-los poupado.


Yaron London

Texto original – Aqui

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Comentários    ( 32 )

32 comentários para “Civis inocentes de Gaza são os responsáveis ​​pelo seu destino”

  • Mario S Nusbaum

    21/07/2014 at 18:08

    Excelente texto.
    “Alguns dos meus amigos acham que eu estou dando muita importância para palavras”
    OK, deixemos as palavras de lado então. E para foguetes, bombas e assassinatos devemos ou não dar muita importância?
    Se amanhã o hamas mudar seu estatuto para declarar-se sionista e jurar amor eterno a Israel, mas continuar atacando o país e assassinando seus cidadãos, o que deveriam as IDFs fazer?

    “Palestinos em Gaza, que reclamam que a culpa não é deles, porque são as vítimas de seus governantes, porque tudo que eles querem é ganhar a vida e viver em paz, podem estar dizendo a verdade. Mas se eles estão realmente dizendo a verdade, deveriam ter se rebelado contra seus governantes e lidado de forma corajosa contra aqueles que constroem bases de mísseis sob as suas casas.”
    Ou, pelo menos, não celebrarem assassinatos nem muito menos festejarem animais que esmigalham cabeças de bebes.

    A tempo: também sou contra os assentamentos, eles são péssimos para todo mundo.

  • Paulinho

    21/07/2014 at 20:08

    Não sou um leitor que escreve sobre tudo o que vocês postam, apesar de ler todos os textos e admirar muito o trabalho de vocês.
    Mas tenho me sentido a opinar.
    Este texto é um absurdo. Responsabilizar as pessoas pelos governos que eles tem é uma coisa, culpa-los por serem vítimas fatais do conflito entre Israel e Gaza é outra completamente diferente. Imagina qual é a condição de um Palestino que é contra o Hamas de protestar contra eles, de negar que eles entrem em suas casas para escavar um túnel ou armar um míssel por que a “localização é boa” ou por qualquer outro motivo.
    Esse texto é desumano! “Terão que pagar um preço que eu gostaria de te-los poupado”. Pagar o preço de que? De ser Palestino e viver em Gaza? Por favor…

    • Marcelo Treistman

      21/07/2014 at 21:02

      Paulinho,

      Eu tenho uma percepção diferente. Este é “o” melhor artigo que eu li sobre o conflito. É ele que explica o processo pelo qual o conflito chegará ao fim. A paz “estável e duradoura” tem seu início quando aquela sociedade se rebelar contra quem lhes oprime e lhes coloca nesta situação.

      Paulinho, se eu – como israelense – sou responsável por cada pessoa que morre em gaza, porque eles não seriam responsáveis? Se eu sou responsável pela ocupação e expansão de assentamentos, o cidadão de Gaza também é responsável pela regime que lhe oprime. O medo e a submissão já fazem parte de uma escolha, ainda que esteja representada pela falta dela.

      Se, um governo fundamentalista judaico, tomasse o poder em Israel e fosse na minha casa me obrigar a esconder mísseis para que eles fossem lançados a esmo sobre zonas habitacionais em Gaza, com o objetivo de impor um governo fundamentalista judaico sobre todo o Oriente Médio, eu tenho plena consciência das minhas alternativas:

      a) Me rebelar contra o regime que me oprime.
      b) Fugir ou morrer.
      c) Saber que haverá uma reação daqueles que não aceitam a imposição de uma teocracia judaica sobre eles.

      Finalizo com uma difícil frase:

      Quando um cidadão de Gaza é ameaçado pelo regime tirânico para servir como um “escudo humano” e proteger aqueles que tentam impor a opressão fundamentalista sobre toda uma região, ele já está morto e já é um escravo.

      Ele, o cidadão inocente de Gaza, de fato, não tem muita opção. Ele deverá optar: se rebelar, fugir, morrer ou saber que aqueles que não se curvarão diante da imposição de um regime teocrático islâmico irão reagir e serão obrigados a atingir o local de lançamento de foguetes.

      O texto revela toda a nossa humanidade. E o “mal”, é mais humano do que a gente gostaria que fosse.

    • Raul Gottlieb

      21/07/2014 at 21:32

      Olá Paulinho,

      Os governos não nascem num vácuo. Os militares tinham amplo apoio popular no Brasil em 1964. Hitler tinha amplo apoio popular em 1933. O Hamas não conseguiria fazer o que faz sem apoio popular.

      Claro que isto não significa 100% de apoio. Basta ter um apoio razoável e muita vontade (além de condição) para aplicar a força.

      Penso que no final das contas, se o povo não quiser os governantes não se impõem. A ideia de que todos os povos tiranizados são entes fracos e sem capacidade de reação me parece um tanto fantasiosa.

      Contudo, não tiro a tua razão: há um limite nisto tudo. Se o poder tirânico for muito opressivo, se revoltar é muito difícil. Mas não me parece que este seja o caso em Gaza.

      Abraço, Raul

    • João K. Miragaya

      22/07/2014 at 00:28

      Recentemente no meu mestrado fiz um curso chamado “Sociedades em regimes ditatoriais”. Há diversos cientistas sociais tentando explicar a passividade popular em períodos de opressão, com relativo sucesso. Para um historiador é algo muito difícil, pois trata-se de examinar memórias, e cada qual é relatada de acordo com a posição na qual o sujeito se encontra após o período, e pretende construir seu passado de forma lógica, justificando sua postura. Mas se há um consenso é o de que durante as ditaduras, observa-se um comportamento passivo da maior parte da população durante a maior parte do tempo em que o regime se mantém. Nós não sabemos quando a ditadura do Hamas terá fim, mas outro fator que recorrentemente aparece nas diferentes ditaduras, é a existência de um inimigo (muitas vezes inventado) nacional. Em outras palavras, enquanto o Hamas conseguir usar-nos como inimigo do povo palestino, terá parte da população a seu lado.

      Eu também achei este texto horrível. Yaron London às vezes faz boas reportagens, mas os absurdos que escreveu neste artigo lhe tiram toda a credibilidade. O autor não tem a menor ideia do que é viver em uma ditadura sanguinária, sem absolutamente nenhum segundo de independência real em toda a sua história. Culpar o povo palestino pelas próprias mortes, neste caso, é uma covardia sem tamanho.

      Golda Meir, em sua autobiografia, relata um caso em que um representante do governo britânico (ou francês) lhe diz que “se Hitler odiava os judeus a tal ponto, não pode ser que os judeus tenham feito algo a ele”. Sua indignação é narrada na obra, de modo que ela conta que nunca mais tornou dirigir a palavra a este sujeito.

      Não posso estar de acordo com a indignação de Golda Meir e concordar com o que escreve Yaron London.

    • Marcelo Treistman

      22/07/2014 at 01:10

      João,

      Se a opinião do Yaron pode ser descartada porque ele não viveu submisso a uma tirania islâmica, então tenho certas dúvidas sobre as conclusões dos cientistas sociais que você indicou em sua pesquisa, porque, creio eu, eles também não viveram um regime de opressão.

      A gente pode não saber o que faria se estivesse expostos a um regime como o que existe na Faixa de Gaza, mas todos nós temos plena consciência de quais são as alternativas que nos restam. Não acho que são muito diferentes daquelas que eu indiquei na minha resposta acima.

      Eu não acho que os palestinos merecem o destino que lhes colocou nesta situação. Desta forma acho que a sua comparação com o relato da Golda Meir sem espaço neste debate.

      Eles certamente merecem uma vida digna e livre. Lamento profundamente por todos os civis inocentes. Apenas acho que eles são responsáveis pelas suas escolhas, e infelizmente, elas são aquelas que eu apontei.

    • João K. Miragaya

      22/07/2014 at 22:21

      Marcelo,

      O Yaron tem uma diferença grande em relação aos pesquisadores: ele opina sem pesquisar. Ele não desenvolveu absolutamente nenhum trabalho, não apresenta argumentos consistentes, não discute material recolhido e não teoriza. Apenas responsabiliza. E responsabiliza errado.

      Existe uma opção d, que é a seguida pela maioria dos palestinos: não fazer nada, por medo, sem saber qual futuro os espera. A passividade popular é praticamente uma regra geral em ditaduras repressivas.

      A minha discussão não é contigo, é com o Yaron London. Por isso o relato da Golda Meir se encaixa perfeitamente nesta ocasião. A responsabilização dos palestinos pelo que ocorre é covardia.

    • Mario S Nusbaum

      24/07/2014 at 01:48

      João,
      Sua discussão com o Marcelo não faz sentido, e é fácil explicar porque

      “durante as ditaduras, observa-se um comportamento passivo da maior parte da população durante a maior parte do tempo em que o regime se mantém.”
      “o autor não tem a menor ideia do que é viver em uma ditadura sanguinária, sem absolutamente nenhum segundo de independência real em toda a sua história”

      Verdade, assim como é verdade que “A gente pode não saber o que faria se estivesse expostos a um regime como o que existe na Faixa de Gaza, ”

      Até aí acredito que estamos todos de acordo.

      “Existe uma opção d, que é a seguida pela maioria dos palestinos: não fazer nada, por medo, sem saber qual futuro os espera. A passividade popular é praticamente uma regra geral em ditaduras repressivas.”
      Com isso eu também concordo, SÓ QUE…..
      http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,contra-israel-so-a-resistencia-e-a-resposta-imp-,789154
      Trecho: “A tenda erguida na Cidade de Gaza em homenagem a Abdel Hadi Ghnim – considerado o primeiro terrorista suicida da causa palestina – estava em festa na quinta-feira.”

      http://www.psbrs.org.br/v3/index.php?option=com_k2&view=item&id=1662:israel-liberta-26-presos-%C3%A0s-v%C3%A9speras-de-reuni%C3%A3o-de-paz&Itemid=491
      Trecho: “Israel libertou nessa terça-feira 26 palestinos condenados por terrorismo, medida negociada para retomar o diálogo direto de paz, parado há três anos. Os 26 detentos seguiram diretamente para a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, onde foram recebidos com festa. ”

      Ou seja João, existe também a alternativa e. Você tem algo a dizer a favor dela?

    • Mario S Nusbaum

      24/07/2014 at 01:34

      ” De ser Palestino e viver em Gaza? ”
      Não Paulinho, de votar nos terroristas, de celebrar suas “façanhas”, de organizar paradas e festas em homenagem a eles.

      “Imagina qual é a condição de um Palestino que é contra o Hamas de protestar contra eles, de negar que eles entrem em suas casas para escavar um túnel ou armar um míssel por que a “localização é boa” ou por qualquer outro motivo.”
      Nisso estamos de acordo, mas leia o que eu escrevi acima

  • Flavia

    21/07/2014 at 21:17

    Um dos textos mais idiotas que já li na minha vida. Então as crianças de Gaza são responsáveis pelo destino delas também? Seguindo o mesmo raciocínio eu posso ir numa favela dominada pelo tráfico e tacar algumas bombas até exterminar todo mundo já que os habitantes deveriam ter se rebelado contra o crime organizado? Digno de pena.

    Por falar em destino o seu eu já determinei: ser trollado virtualmente. Inclusive o do tradutor, que deveria ter se ligado na ambiguidade do título (aliás eu resolvi ler o texto porque achei que os inocentes de Gaza eram responsáveis pelo MEU destino).

    • Marcelo Treistman

      21/07/2014 at 22:11

      Olá Flávia

      Agradeço o comentário e a visita.

      Respondendo objetivamente a sua pergunta, você não pode explodir toda a favela para combater o crime organizado. Israel não está explodindo toda a Faixa de Gaza para acabar com os terroristas. Se desejasse destruir, teria condições para fazê-lo. Não o faz, justamente, porque não há desprezo pela vida inocente que você insinua em sua mensagem.

      o Hamas comete diversos crimes, em especial, a utilização de sua população civil como armamento neste conflito.

      Eu não creio que a sua comparação com o narcotráfico é legítima ou honesta (demonstra um certo desconhecimento sobre o que representa o fundamentalismo islâmico). Mas apenas pelo amor ao debate, seria análogo a um grupo de traficantes que ocupassem uma favela, e lançassem foguetes para diversos bairros do Rio de Janeiro, escondendo-se nos barracos de civis inocentes. O que você faria? Qual seria a sua opção moral para impedir esta agressão?

      Sobre por onde perpassa a “responsabilidade do civil inocente de Gaza” veja a minha resposta para o Paulinho acima.

      Respeito a sua opinião sobre qual será o meu destino virtual. Felizmente, nem eu e nem você vivemos em Gaza e somos livres para manifestar tudo aquilo que sentimos e acreditamos. Meu país está lutando justamente contra aqueles que cassaram esta possibilidade, que oprimem o seu próprio povo e que não estão dispostos a ceder e conviver com o diferente.

      Um grande abraço

  • Marcelo Starec

    21/07/2014 at 21:40

    Com certeza é um bom artigo!…É no meu entender claro que a verdade não está em nenhum dos extremos! A escolha é difícil – imaginem um civil normal de Gaza decidir ser contra um regime totalitário, fundamentalista e que mata os seus oponentes sem o menor pudor, inclusive e principalmente dentro da sua própria população. Porém, há de fato um outro lado nessa questão, que faz o artigo de extremo interesse para a devida compreensão do conflito. É fato que nenhum regime consegue sobreviver sem a conivência ou a cooptação dos que lá vivem, mas a escolha sempre existe, ainda que tenha um alto custo! Temos vários exemplos na história, onde as pessoas decidem fugir, ou mesmo chegam a lutar contra regimes totalitários, mesmo sabendo dos riscos! Assim, acho que nem é justo se culpar exclusivamente a população civil de Gaza por aceitar o Hamas, mas tampouco é aceitável simplesmente considera-la vítima de um Grupo Terrorista radical que a controla. Não é! Logo, tenho que admitir que uma população que aceita entregar (ou não reage) ao uso das suas crianças pelos terroristas como escudos humanos, que permite que suas casas, escolas e mesquitas sejam transformadas em bases de lançamento de mísseis contra civis do outro lado, precisa também admitir que de alguma forma está no mínimo sendo conivente com tudo isso e assumir em parte a responsabilidade pelo que está fazendo, em prol de uma causa indefensável. Aliás, só lembrando, essa população já teve oportunidade de se expressar, por uma única vez, nas urnas e por maioria escolheu o Hamas, com o atual discurso e Estatuto que afirma categoricamente o seu objetivo de matar a todos os judeus (ainda que muitos defendam que tenha sido um mero voto de protesto!). Concluo dizendo que os civis palestinos que não são a favor do Hamas e de seus objetivos explícitos deveriam (e talvez muitos estejam fazendo isso, no pensamento!) agradecer a Israel por estar ajudando-os a se livrar desse regime totalitário, terrorista e sanguinário que não respeita nada e ninguém e declaradamente pouco se importa e até gosta de que ocorra a morte de civis, sejam eles israelenses ou árabes palestinos, pois de qualquer modo eles se beneficiam junto a opinião pública mundial.
    Abraço,
    Marcelo.

  • Paulinho

    22/07/2014 at 03:48

    Eu pensei na mesma comparação que a Flavia fez, claro que guardada as devidas proporções. É importante lembrar que a situação dos morros do RJ não surgiram do nada, nem a situação atual de Gaza. Esse que é o problema. Enquanto não assumirmos nossa responsabilidade na negociação, não vamos assumir nossa responsabilidade nos ataques a Gaza.
    Marcelão, na boa, acho prepotência sua colocar o destino dos Palestinos dentro dessas três opções (lutar, fugir ou aceitar as consequências). Nos três casos eles tao correndo sério risco de vida. Acho que esses dilemas são fáceis de serem respondidos. Sempre fazemos escolhas, certo?! Então eles que façam as deles e arquem com as consequencias. Mas as consequencias não estão pré-determinadas, ainda mais quando dependem do governo israeiense também. Se Israel pode mudar (ou influenciar) esse quadro em algum nível, isso não seria apenas uma questão pacifista, mas uma ação inteligente (na minha opinião) de não alimentar mais o ódio e fortalecer ainda mais o Hamas.
    Raul, eu não desresponsabilizei os cidadãos de Gaza pelo seu governo, leia de novo meu comentário.

    • Marcelo Treistman

      22/07/2014 at 09:19

      Paulinho,

      O que dizer? Você realmente acha que você (ou Israel) são responsáveis pela criação de um regime fundamentalista. Eu discordo de forma veeemente desta posição.

      Você acha que Israel pode influenciar na melhora da situação, eu também acho! Mas não teremos paz enquanto não contarmos com ajuda dos palestinos como agente principal de mudança deste quadro. Eles devem compreender que aqueles que lhe oprimem são os mesmos que os colocaram diante de escolhas tão difíceis.

      Quanto as opções dos palestinos inocentes de Gaza as escolhas são aquela que eu apontei. Não é prepotência. É apenas análise lógica. E é certo – em todos os casos eles estão correndo risco de vida.

      Paulinho, eu estou vivendo em Israel. Eu não posso esquecer que cada sirene que soa alto nos meus ouvidos é um aviso: Tem alguém querendo me matar. Eu tenho 1,5 segundos para me esconder e evitar o meu assassintato.

      Você consegue imaginar o dia que temos 5 sirenes? Você consegue imaginar a vida de alguém em Sderot com 5 sirenes por hora? Como você consegue dormir, trabalhar, viver depois da certeza que tentaram te assassinar 5 vezes no mesmo dia?

      Ficaria feliz de saber a sua opinião sobre qual deveria ser a reação de um país para a situação que eu lhe expliquei acima. Agora: se você me disser que devemos tolerar a tentativa de meu assassinato para não fortalecer aqueles que tentam me assassinar, eu te peço encarecidamente que você nem me responda.

      Um grande abraço

    • Raul Gottlieb

      22/07/2014 at 13:52

      Olá Paulinho e olá João

      Começando do micro para o macro eu tenho que dizer que conheço mais de uma pessoa que se recusou a morar nos morros controlados pelos traficantes com receio das influências em seus filhos. Foram morar mais longe, porém numa comunidade legal, em casas propriamente adquiridas. Elas saíram dos morros para as casas não porque tivesse galgado de condição econômica, mas porque queriam evitar o convívio com a violência.

      Conheço bastante bem três pessoas que fizeram este caminho. Trabalho com elas há dezenas de anos. Observei a mudança, conversamos sobre a opção que fizeram. Não estou chutando nem fazendo estudo acadêmico, estou relatando a minha experiência de vida.

      Ou seja, pelo menos no Rio há gente que resolve se afastar da violência e da lei do tráfico. Não é apenas uma minoria que faz esta escolha, muito pelo contrário. Penso que isto prova (pelo menos prova para mim) que o ser humano é dotado de arbítrio e que consegue superar a sua herança, quando adquire uma visão racional sobre a sua condição.

      Como os morros nasceram? Seguramente não foi pela pobreza, pois ao mesmo tempo em que nasciam as favelas se desenvolviam bairros para população de baixa renda. Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Saracuruna, Xerem, etc. não são o produto da superpopulação da Rocinha, não é mesmo?

      Os morros nasceram porque alguns pobres e espertalhões (não são qualidades excludentes, vocês sabem) resolveram que era mais prático invadir um local ao lado do trabalho do que pagar para ir morar mais longe. E o poder público populista (esta é uma praga do Brasil que grassa devido à ignorância da população sobre o significado de cidadania) tolerou, de olho em dois polos: (i) o voto dos invasores; (ii) o voto dos que consideram todo invasor um combatente pela liberdade.

      Criaram um lugar sem lei, pois se lei houvesse eles não teriam aquele lugar. E neste vácuo de poder surgiu o poder do tráfico. Um círculo vicioso clássico.

      Como isto tudo se relaciona com a submissão dos Palestinos à tirania do Hamas, eu não sei dizer. Mas sei que o povo do Egito se sentiu forte a ponto de aplicar um belo pé na bunda na Irmandade Muçulmana (mãe do Hamas). Alguns dizem que foi um golpe militar. Mas esta alegação é ridícula. Porque se 40 milhões de pessoas não são um movimento popular, então nenhum deles o é.

      E aí entra outra reflexão. Porque será que os países árabes se recusam a dar cidadania aos Palestinos? No Líbano, na Síria, no Kuwait, no Golfo, etc. eles não têm direito à cidadania e têm enormes restrições de trabalho e moradia. Será que é porque estes governos sabem que se derem alternativa de cidadania vai sobrar muito pouca gente querendo viver sob o Hamas e o Fatah? E que assim eles garantem a continuidade do problema Palestino, criado para ser um eterno espinho nas costas de Israel? Lembrando que todos estes são governos ditatoriais que necessitam do inimigo externo e que Israel é um inimigo ideal.

      Os habitantes de Gaza não podem se mudar. A opressão aos Palestinos é infinitas vezes mais aguda por parte dos árabes do que por parte de Israel. Mas muitos ainda acham que cabe a Israel encontrar uma solução. Eu penso que cada vez que um judeu fala isto um árabe esclarecido dá uma gargalhada.

      Abraço, Raul

  • Eduardo

    22/07/2014 at 11:40

    Assim com em 1948, os israelenses não foram responsáveis pelos mais de 600 mil refugiados palestinos – foram eles próprios que saíram com a intenção de voltar – , hoje Israel não é responsável pela morte de civis em Gaza, são eles mesmos que se colocam embaixo dos nossos mísseis com a intenção de nos aniquilar.

    • Marcelo Treistman

      22/07/2014 at 12:17

      Ninguém negou a responsabilidade de Israel.
      Israel é responsável pela morte dos palestinos inocentes em Gaza uma vez que escolheu revidar a agressão de foguentes lançados sobre o meu país a partir de suas casas. Se Israel assume esta responsabilidade, porque os palestinos que concordam ou são obrigados a esconder estes mísseis também não seriam?

      Se eu, como israelense, sou responsável pela expansão de assentamentos (ainda que não concorde com eles) porque os palestinos não seriam responsáveis pela sua opção (ação ou omissão) na conduta daqueles que os oprimem e os utilizam como ferramenta de um objketivo maior de islamização do mundo?

      As opções que eles tem não são confortáveis (eu listei quais são elas – veja na resposta ao Paulo acima) e todas elas significam um risco de vida. Você, eu e os palestinos possuímos plena consciência de quais são as alternativas.

      Se você acha que Israel não deve reagir a tentativa de assassinato de seus civis porque a agressão parte do meio de civis utilizados de forma covarde você já tomou uma posição neste conflito. E ela significa um desejo velado de que civis isralenses sejam mortos. Espero que Israel não concorde com você.

    • Eduardo

      22/07/2014 at 19:55

      CA-RA-LHO! Questionar a versão oficial do exército israelense de que os civis palestinos estão sendo mortos porque querem, por sua própria responsabilidade e por ordens do Hamas agora é DESEJAR VELADAMENTE A MORTE DE CIVIS ISRAELENSES!?!

    • Marcelo Treistman

      22/07/2014 at 22:43

      Não, de forma alguma.
      Quem deseja a morte velada dos israelenses são aqueles que questionam a necessidade de uma resposta do meu país contra a agressão reiterada de um governo que já expressou publicamente a incompatibilidade de seu regime ao lado de um Estado judeu democrático.

      No seu comentário acima, me pareceu que você questionava justamente a legitimidade da reação israelense e não a sua intensidade. Peço perdão se lhe compreendi mal.

      Um grande abraço.

  • Paulinho

    22/07/2014 at 19:08

    Oi Marcelão!
    Eu realmente não moro em Israel, não voto na knesset e não ouço a sirene tocando. A experiência do conflito eu não tenho e nem posso falar que entendo, porque não entendo, não vivi isso, não sei como me comportaria. As vezes falo em primeira pessoa, como se passasse pelo conflito, porque me sinto envolvido como povo, mas realmente não estou aí.
    Eu já pensei nas perguntas que você me fez e tento pensar nelas pelo outro lado também, acho isso muito importante. Não acho que devemos ser complacentes com a tentativa de assassinato de ninguém. Acho que não dei a entender isso, se o fiz, me expressei mal. No meu modo de ver, existe um campo muito grande entre “aceitar os mísseis do Hamas” e o que está sendo feito.
    Eu expressei aqui uma indignação com o texto do Yair London que trata a vida do outro com indiferença e pouco valor. O título do texto e a última frase expressam uma ideia que eu considero absurda, e o único ponto em que eu estou de acordo com o autor é que as palavras tem muita força.

    Quanto ao que você escreveu Raul, acho admirável o que as pessoas que você conhece fizeram. Nós temos o poder de escolha, mas a responsabilidade não pode ser atribuída TODA ELA ao indivíduo. O Estado tem deveres TAMBÉM. E eu não acho que os pobres que foram morar em favelas eram tão espertalhões assim para escolherem viver sem saneamento básico em situações degradantes muitas vezes. Podemos lembrar que a baixada é um lugar muito longe do centro, e as condições de transporte da nossa cidade não são lá muito boas, não é?! Bom, mas isso é outro papo.

    Um abraço

    • Marcelo Treistman

      22/07/2014 at 22:34

      Paulinho,

      Esta é uma questão que Israel é obrigada a responder diariamente: como preservar os direitos humanos quando você está lutando contra alguém que realmente acredita que deus determinou que você não merece viver. Com o agravante de que eles estão preparados para morrer (e matar a sua população) em nome deste objetivo.

      A agressão que sofremos não é por causa de uma disputa política, não é um confronto de ideias e definitivamente não é uma questão territorial. Estamos respondendo a uma tentativa declarada de assassinato perpetrada por um governo que utiliza covardemente a sua população civil.

      E sim. Como cidadão israelense que vota, ouve a sirene e sente medo de morrer sou responsável por minha complacência na morte de civís inocentes em Gaza. Se eu não fui claro quanto a esta questão, me expressei mal. Na resposta de Israel ao Hamas, não consigo enxergar nenhuma outra alternativa.

      Um grande abraço

    • Raul Gottlieb

      23/07/2014 at 12:58

      Paulinho,

      O Estado não existe – é uma construção dos homens. Tudo o que existe é o homem e suas opções.

      Atribuir responsabilidade ao Estado é atribuir responsabilidade a um objeto indefinido e eu não vejo objetos indefinidos atuando por aí.

      Vejo homens, seus sentimentos e escolhas construindo e operando instituições ou agindo por sí próprios..

      Você consegue enxergar um estado sem homens (no sentido de seres humanos, sem distinção de gênero)?

      Claro que não. Então tudo é mesmo fruto das opções que fazemos, consciente ou inconscientemente.

      Abraço, Raul

  • Alex Strum

    23/07/2014 at 20:59

    Tenho acompanhado atentamente, através deste blog e pela imprensa em geral, as notícias e comentários sobre o conflito entre Israel e o Hamas e o que mais me chama a atenção é que há uma tímida aceitação do direito de Israel de se defender, uma crítica feroz da reação de Israel, mas nenhuma proposta concreta de soluções alternativas de como resolver o conflito.

    Diante desta seca de propostas práticas, tomo a ousada iniciativa de fazer um “brainstorming” para buscar alternativas concretas que poderiam resolver o conflito, ou pelo menos atender às principais demandas dos críticos das ações Israelenses.

    Começando pela desproporcionalidade de baixas de Israel com relação aos palestinos, acho que se Israel passar a matar um israelense a cada terrorista que for morto, facilmente passará a haver um equilíbrio justo neste aspecto.

    Outra solução prática seria a substituição das armas modernas usadas pelo exército de Israel por espingardinhas de chumbo. Certamente reduziria muito as baixas do lado do Hamas promovendo assim o equilíbrio almejado.

    Pensando em soluções mais estruturantes penso que se todos os seis milhões de judeus de Israel se jogassem no mar, como aliás já foi sugerido, o problema estaria resolvido pela raiz. Como benefício colateral o falecido presidente do Egito Gamal Nasser poderia ser elevado à condição de profeta por muitos árabes.

    Outra alternativa na mesma linha seria os seis milhões de judeus emigrarem de Israel. Simplesmente ir embora e abandonar o país. O destino possivelmente seria a China onde seis milhões a mais não fariam diferença. O Hamas poderia então se estabelecer e criar a base para a expansão do seu califado, quem sabe para a Europa.

    Finalmente, pensando que a raiz do problema talvez seja apenas de natureza afetiva e de auto-estima, quem sabe se todos os judeus do mundo convidassem os líderes do Hamas, para serem seus amigos no Facebook, tudo se resolveria sem violência.

    Tenho certeza que outros haverão de ter idéias mais criativas e objetivas que estas mas talvez se sintam com vergonha de expô-las em público.

    Peço desculpas por tratar de assunto tão sério e dramático desta forma irônica, mas foi a única que encontrei para expressar minha profunda revolta com a maneira injusta e hipócrita que o tema está sendo tratado pela imprensa em geral.

    Nem eu, e tenho certeza que nenhum judeu, se alegra em ver crianças sendo mortas. É uma enorme tragédia. Mas a tragédia tem que ser evitada por quem tem responsabilidade por ela, neste caso o povo de Gaza que escolhe e apóia líderes que preferem a morte à vida.

  • Rodrigo

    23/07/2014 at 23:34

    O debate é sempre muito construtivo e só de ler a opinião de vocês já me esclareceu muita coisa. O que questiono é a necessidade de apontar um responsável e determinar que ele arque com as consequências. Encontrando um “responsável”, imediatamente colocamos a situação numa perspectiva simplista de “bom” e “mau”.

    Me incomoda também a visão excessivamente racional em cima do assunto, onde as questões emocionais de cada lado são postas de lado como se isso fosse possível. Certamente as pessoas têm livre arbítrio mas nem todas vislumbram isso. E não o fazem por quê já estão quebradas emocionalmente.

    A atribuição de responsabilidade aqui exclui o fator emocional que praticamente rege nossas vidas e que, mesmo que acreditemos que certa ação é inteiramente racional, isso não é verdade de forma alguma. A realidade é subjetiva e pertence ao mundo interno de cada um. A racionalidade também está confinada dentro da emoção. A emoção é capaz de estreitar ou ampliar a visão.

    No caso, os dois povos já estão extremamente quebrados emocionalmente e a situação atingiu um nível onde a atribuição de responsabilidade se assemelha a crianças (completamente desprovidas de controle emocional) dizendo “ele que começou!”

    De forma alguma acredito saber a solução para o conflito ou estou dizendo que é uma coisa fácil. Mas se formos considerar os fatos, é preciso também analisar os fatores emocionais humanos que são, realmente, os ditadores da guerra.

    Infelizmente, também não vejo uma solução para o conflito. Tudo parece utópico. Mas a matança, certamente, não pode ser uma solução. Não posso concordar com isso e acredito que esse caminho não vá trazer paz e tranquilidade a nenhum dos lados.

  • Mario S Nusbaum

    24/07/2014 at 01:52

    Após escrever basicamente a mesma coisa em 4 posts, me dei conta de que a discussão toda ignora o que eu aponto: não se está exigindo heroísmo de ninguém, que os palestinos de Gaza peguem em armas contra o hamas (se bem que seria bom para todo mundo), mas precisam celebrar suas façanhas? Dar festas em sua homenagem?
    Ouvi da boca de um senhor canadense que lutou na II Guerra como major que a coisa mais difícil de se encontrar na Alemanha depois da derrota era um nazista, NINGUÉM tinha sido!

  • Mario S Nusbaum

    24/07/2014 at 01:54

    Vale a pena acrescentar: esse senhor, após ver o que tinha acontecido com os judeus, aproximou-se da colônia e virou um defensor radical de Israel, também contribuía muito com instituições judaicas.
    Ele participou do julgamento de alemães.

  • Rodrigo

    24/07/2014 at 18:12

    Mario, você não acha que o fato dos Palestinos celebrarem as façanhas do Hamas não tem nada a ver com o valor de suas vidas?

    Que herói eles puderam construir ao longo dos anos? Um conflito antigo como esse já teve pelo menos duas gerações de pessoas que nasceram dentro disso tudo. Já nasceram dentro de uma realidade onde o ódio de ambas as partes já estava estabelecido. Como se muda isso? Como podemos esperar que essas pessoas tenham o discernimento lógico de colocar sua força de vontade contra o “verdadeiro” inimigo, que no caso seria o Hamas?

    A visão dos Israelenses e dos Palestino tem a estreiteza emocional como condicionante primordial. Não dá pra ignorar esse fato. O terror causado pela morte iminente é sentido em igual peso por ambas as partes. Só que neste ponto, Israel tem uma vantagem. Tanto em estrutura quanto em poder. Mas o medo faz isso. O medo molda o raciocínio e, desta forma, acaba por justificar atos injustificáveis… Mais do que achar responsáveis e continuar procurando culpados, o mais importante seria pensar numa solução. A solução pacífica pode parecer utópica, mas acredito que seja possível.

    Gostaria de saber quais foram as propostas já debatidas a respeito de soluções pacíficas que, confesso, desconheço…

    • Mario S Nusbaum

      24/07/2014 at 20:39

      “você não acha que o fato dos Palestinos celebrarem as façanhas do Hamas não tem nada a ver com o valor de suas vidas?” Não sei o que você chama de valor de suas vidas Rodrigo, mas vou explicar o meu ponto de vista melhor. Digamos que um governo paraguaio decida, por um motivo qualquer, que o Brasil pertence a eles e passe a assassinar brasileiros paraguaios sempre que possível, tanto aqui quanto lá.
      Digamos também que um paraguaio morra durante uma REAÇÃO brasileira. Os meus sentimentos
      em relação a isso dependeriam muito de quem fosse. Pela ordem do qual me deixaria mais triste para o menos:

      1) alguém que se manifestasse contra a política do seu país
      2) alguém que ficasse calado
      3) alguém que desse tiros para cima cada vez que um brasileiro fosse assassinado e organizasse paradas em homenagem do assassino

      Para ser sincero eu até ficaria contente no caso 3. Voltando ao “valor” da vida, fiquei muito triste com a morte do John Lennon e contente com a do Bin Laden. Estou errado?

    • Mario S Nusbaum

      24/07/2014 at 20:53

      “Que herói eles puderam construir ao longo dos anos?”
      A minha pergunta é outra: que herói eles quiseram construir ao longo dos anos?

      “Um conflito antigo como esse já teve pelo menos duas gerações de pessoas que nasceram dentro disso tudo. Já nasceram dentro de uma realidade onde o ódio de ambas as partes já estava estabelecido.”
      Verdade, nada a contestar. Como você disse, de AMBAS as partes, certo? OK, pergunto aos amigos que moram em Israel: quantas festas foram dadas em homenagem aos animais que queimaram o garoto palestino? Quantas paradas? Algum de você pretende comprar um vídeo glorificando a façanha?

      “Como podemos esperar que essas pessoas tenham o discernimento lógico de colocar sua força de vontade contra o “verdadeiro” inimigo, que no caso seria o Hamas?”
      Imaginando que elas não são cegas. Como você chega à conclusão de que um governo é bom ou ruim?

      “Mais do que achar responsáveis e continuar procurando culpados, o mais importante seria pensar numa solução”
      De acordo, mas digamos, que os culpados estejam sabotando a solução. O que fazer? É isso que eu quero dizer com apoio ao hamas ser prejudicial para todos. . A solução pacífica pode parecer utópica, mas acredito que seja possível.

      “Gostaria de saber quais foram as propostas já debatidas a respeito de soluções pacíficas que, confesso, desconheço… ”
      Foram muitas, vamos lá. A primeira foi a da partilha, que Israel aceitou e os árabes não. Depois tivemos o período entre 48 e 67, quando se alguém impediu os palestinos de criarem um país certamente não foi Israel.
      Em tempos bem mais atuais, Israel ofereceu, DUAS vezes, praticamente tudo o que os palestinos dizem querer, em Camp David e em Taba e as propostas foram ignoradas.
      É mais ou menos assim Rodrigo: você alega que certo terreno que eu ocupo é seu. Após décadas de briga eu digo: ok, você tem razão, mas eu construí um galinheiro em um dos cantos e lhe dou 97% dele e você SAI CORRENDO!!!!!! Acredite, foi o que aconteceu.

      Finalizando: Israel ocupava Gaza e resolveu se retirar (e nem eu como judeu consigo avaliar direito o custo político e psicológico de tirar os israelenses de lá). Primeira ação palestina após a saída das tropas: incendiar as sinagogas. Segunda: incendiar a estufas. Terceira: começar a lançar foguetes sobre Israel.

  • Rodrigo

    24/07/2014 at 22:36

    Mario, obrigado por responder e me esclarecer melhor. Eu realmente não nego que a mentalidade dos Palestinos seja negativa em diversos pontos. E essa mentalidade tem raízes muito fortes e profundas no emocional do povo.

    Mas creio que a discussão se torna confusa quando começamos a olhar para o fato de eles comemorarem atos odiosos. Aqui o foco se perde pois parece que isto dá a Israel o direito de contra-atacar da forma como faz.

    Esse questionamento pode inflamar muitas pessoas pois entendo a dificuldade humana de lidar com tamanha provocação e falta de humanidade por parte Palestina. Infelizmente, é um povo que há milênios sofre pela falta de humanidade em sua própria cultura (espero não estar sendo preconceituoso aqui).

    Mas se a falta de humanidade e desprezo pela vida do israelense por parte dos Palestinos é vista de forma tão negativa (por quê é!), não podemos dizer que a ofensiva de Israel é melhor, ou menos pior.

    Por mais que a motivação Israelense para atacar a Palestina se derive da postura do Hamas, não há razão no mundo que torne isso algo justificável do ponto de vista moral.

    Claro que essa é uma opinião pessoal e, daqui do Brasil, não posso ter idéia do que seja esse terror. Mas talvez isso me faça ver as coisas de outra forma, sem olhar através do prisma do terror.

    A situação é gravíssima, eu sei. Sem solução visível.

    Mas essa “solução” que mata mulheres e crianças certamente não é a melhor.
    E não é o fato de que os terroristas usam mulheres e crianças como escudo e de cometerem todas essas atrocidades que dá a Israel razão sobre o que faz. Nada justifica bombardear uma escola (sob pretexto nenhum, mesmo que digam que tem bombas lá embaixo).

    O problema é que tudo é colocado como uma questão de “falta de escolha” como se esses ataques fossem a única resposta possível. E além disso ainda se contesta por quê os Palestinos não se voltam contra o poder deles. É a única coisa que eles têm. Quem mais no mundo mostra pra eles uma outra solução?

    Agora, responsabilizar pessoas em situação de tão grave e duradoura miséria e que já sofreram o que sofreram e que já NASCEM dentro disso tudo, como se a culpa de estarem levando bomba na cabeça fosse deles…que raciocínio é esse? Por quê ver todos eles como o Bin Laden e não como um John Lennon em potencial? Por quê matá-los em vez de ajudá-los?

    E antes que alguém pergunte: Não, não sei como ajudá-los, mas tudo o que eu sei é que eles precisam de ajuda, não de bombas. Qualquer “solução” dada fora desse paradigma não pode ser colocada como uma solução verdadeira.

    • Mario S Nusbaum

      25/07/2014 at 17:06

      Não precisa agradecer Rodrigo, é um prazer trocar idéias com pessoas bem intencionadas e sempre se aprende alguma coisa, o “lucro” é mútuo.

      “O problema é que tudo é colocado como uma questão de “falta de escolha” como se esses ataques fossem a única resposta possível”
      Com toda sinceridade, a única outra que vejo é cortar o fornecimento de energia. Gostaria muito de ouvir uma terceira.
      “É a única coisa que eles têm. Quem mais no mundo mostra pra eles uma outra solução?”
      Não é verdade Rodrigo, e nem precisa sair de lá para perceber isso: AP. Não sou daqueles que a consideram moderada, mas pelo menos ela não faz de tudo para que morra o maior número possível de palestinos. Isso para não falar que o Abbas pelo menos mora lá.

      “Agora, responsabilizar pessoas em situação de tão grave e duradoura miséria e que já sofreram o que sofreram e que já NASCEM dentro disso tudo, como se a culpa de estarem levando bomba na cabeça fosse deles…que raciocínio é esse?”
      Vou dizer. O já nascem dentro disso tudo depende, claro, da idade de cada um. Quem tem mais de 50, nasceu em um território administrado pelo Egito, quem tem 40, em um administrado por Israel mas não bombardeado. Quem tem 8, nasceu num lugar sem nenhum israelense e cujo governo adotou a política de lançar foguetes sobre o vizinho diariamente. Não lembro se foi nesse blog, mas recentemente escrevi quais foram as três primeiras coisas que o governo de Gaza fez após assumir o controle:
      1) Incendiar sinagogas
      2) Incendiar estufas, que produziam alimentos e geravam renda
      3) Atacar Israel

      “Por quê ver todos eles como o Bin Laden e não como um John Lennon em potencial?”
      Bom, estatisticamente pode surgir qualquer um dos dois por lá, mas a MASSA é educada para ser bin ladens, e isso pode-se provar facilmente.

      Que eles precisam de ajuda é óbvio, e eu concordo plenamente, mas não dá para ajudar antes de derrubar o hamas. Alemanha e Japão foram MUITO ajudados, mas só depois do nazismo e do regime imperial serem derrotados.

      um abraço e bom final de semana

    • Rodrigo

      25/07/2014 at 23:07

      Entendo o seu ponto Mario e você não está errado de forma alguma em nenhum argumento no que tange às motivações por parte de Israel e do Hamas. Mas, ao que parece, o Hamas pouco se importa com a vida dos Palestinos, o que faz com que essa “reação desproporcional” seja inócua para resolver a situação.
      Minha revolta toda reside aí.
      O texto que estamos debatendo trata de responsabilidade. Como se a reação de Israel fosse natural e aceitável. Nesse ponto, não nego de forma alguma a responsabilidade do Hamas. Mas também, não podemos culpar a população palestina por não pegarem em armas e se revoltar contra o poder de seus governantes. Até por quê, quem tomaria o poder então? Seria realmente melhor para Israel?
      Veja bem, não me oponho a Israel, só questiono a estratégia usada para a resolução do problema, pois a suposta solução não resolve nada e causa muito sofrimento.

Você é humano? *