Israel e a casa das diferenças

Aos treze anos, realizei a cerimônia do meu Bar-Mitzvá em uma sinagoga ortodoxa. Durante a adolescência, vi lentamente a minha casa sair do modelo “judeus de Yom Kipur” para se aproximar dos rituais judaicos. Tefilin e kashrut começaram a fazer parte do meu cotidiano. Às sextas feiras participava com prazer do kabalat shabat e lembro com saudade da conversa amigável com os rabinos.

Em paralelo, frequentava um movimento juvenil sionista.  Pouco a pouco fui aprendendo um conteúdo judaico que não havia recebido na escola. Quando olho para trás, é fácil perceber o exato momento em que o conceito sionista fundiu-se com a minha ideia de judaísmo. Ser sionista havia se tornado parte de minha identidade judaica. E o meu sentimento judaico começava a se ampliar para além das fronteiras da minha casa e daquela sinagoga das sextas feiras, com seus rituais que não preenchiam o meu desejo por  valor e significado.

Mais velho, fui morar um ano em Israel e tive contato com diversas formas de vida judaica. Para alguém que nasceu e cresceu na diáspora, era divertido e interessante perceber a tamanha variedade de “judaísmos”. As diferenças apenas me confirmavam que a definição verdadeira do que é “ser judeu” só poderia ser alcançada através da soma de todos esses pequenos fragmentos.

Dentro de mim, surgiu uma imensa curiosidade de entender a construção desse grande mosaico. Ao estudar o nosso passado, mais forte era a minha convicção de que nunca tivemos uma forma única e que a busca por novos significados jamais cessou. Trata-se do motor central que preserva o judaísmo. A cada camada histórica era possível encontrar as diversas variantes judaicas e seus embates.

Quando retornei ao Brasil, aquela sinagoga em que me sentia tão bem acolhido, já não representava um local onde eu pudesse expressar livremente o meu judaísmo. E mais que isto, a minha expressão singular de ser humano que busca construir um mundo melhor e mais justo. Achava estranho o fato de Israel ser lembrado sempre como uma “terra” e nunca como um “Estado”.

Sentia falta de bandeiras com a Estrela de David, de comemorações como o Yom Haatzmaut e Yom Hazikaron. Não me conformava em enquadrar a vida num conjunto de rituais ancorados em valores de mera lealdade a um passado que não vivi (e que mais nenhum outro frequentador havia vivido – mesmo os Rabinos) e que, portanto, era apenas imaginado.

Obviamente, não vejo nenhum problema que um judeu se sinta confortável junto a ortodoxia.  Mas não posso negar algo que vejo como uma grande paradoxo: não foram poucas as vezes que ouvi a frase: “a corrente ortodoxa é a única responsável pela “manutenção do judaísmo” Ora, pensava eu, será mesmo?

Era curioso perceber a contradição latente: o mesmo modelo de vida que estas pessoas acreditavam ser o único capaz de preservar o judaísmo, era aquele mesmo modelo de vida que eles “não escolheram” para si…  A ideia era mais ou menos a seguinte: ainda bem que existem os ortodoxos, para manter o “judeu” que eles não são e que escolheram não ser… Feliz dos cariocas, brasileiros, judeus do mundo inteiro, que possuem os ortodoxos para fazer “tudo aquilo que é importante” para a preservação do judaísmo. Um modelo de vida tão importante, mas tão importante, que estas pessoas desejam um contato mínimo com ele (a não ser superficialmente – no nível meramente ritual – em Yom Kippur, por exemplo…)

Na minha cabeça de adolescente eu percebia que era exatamente o mesmo que dizer que “a honestidade” – como valor -, é algo de suma importância em nossas vidas. Diriam estas pessoas: “A “honestidade” é o que nos mantém sadios como como sociedade e como nação… Ainda bem que existem alguns poucos homens virtuosos para preservar e cultuar a “honestidade”, pois assim nós não precisamos praticá-la… Sim, estas pessoas pensam que  não precisam praticar “a honestidade”, pois há, beezrat hashem, os “virtuosos da capa preta” que preservarão a “honestidade” para eles…

A lógica – portanto – é a seguinte: Existem muitas pessoas que concedem ao judaísmo ortodoxo a capacidade ÚNICA de preservação de nosso povo e – curiosamente – rejeitam inserir este modelo em suas próprias vidas. Quanto mais importante mais distante! Quanto mais este judaísmo se apresenta como necessário para a preservação de nosso povo, mais desnecessário ele se faz presente em suas vidas. Ora… Não deveria ser o contrário?

Felizmente, faço parte de uma geração privilegiada em que “ser judeu” deixou de ser um destino pré-determinado no nascimento para se transformar numa escolha. Particularmente, minha família estava inserida no mundo moderno e com a característica fundamental de profundo respeito às escolhas individuais. Fora isso, sempre tivemos uma habilidade inigualável para contornar através do diálogo atritos naturais que eram consequência da divergência.

Lentamente, me aproximei do judaísmo liberal, onde me sentia mais completo e onde a vida fazia mais sentido. Entre todas as correntes, era esta a que me oferecia a melhor possibilidade (na minha opinião) da junção entre sionismo e judaísmo, e acima de tudo, aquela que me apresentava a religião judaica como uma ferramenta, e não como uma barreira, na construção de um mundo pautado nos valores democráticos e na dignidade humana.

Há sete anos decidi morar em Israel. Era neste local que eu poderia viver rodeado da cultura que eu tanto valorava. Língua, artes, culinária, música, história, feriados, humor, conflitos… tudo judaico. Até mesmo o nome das ruas! Tudo essencialmente judaico.

Logo, porém, dentro do meu novo país, me deparei com um profundo problema que se originava justamente na religião. Diferente da diáspora, em Israel a diferença entre as correntes judaicas deixa de ter lugar apenas no campo ideológica para ser discutido na seara política – define e definirá a natureza do país que desejamos legar às próximas gerações. Não há nada que enfureça mais a moderna e democrática sociedade israelense do que a certeza de que ela financia um modelo de vida que não apenas é irrelevante para ela, como também despreza os valores da modernidade. A ortodoxia se opõe de forma veemente aos valores seculares de igualdade e livre escolha, ao sionismo, ao exército, à igualdade entre os gêneros, ao livre-pensamento, à especulação científica, etc… E no entanto, é esta sociedade (secular, que faz o exército, que determinou a igualdade entre os sexos e que defende o livre pensamento) que se vê obrigada a sustentar um modo de vida antagônico. Além disso, as notícias do país apontavam para a violência decorrente de um fundamentalismo religioso.

O que existe hoje em Israel é a divisão entre aqueles judeus que aceitam uma visão pluralista e aqueles que querem estabelecer um monopólio da definição do que é judaísmo. Entre aqueles que consideram os valores humanos como um valor universal e aqueles que justificam o preconceito com as mulheres e os não judeus ou condenam o homossexualidade. Entre aqueles que utilizam a religião para impor verdades tidas como absolutas e aqueles que que acreditam na democracia e separam a política do mundo das crenças pessoais.

(tradução livre): “Torá e Suprema Corte – A Torá Decide“.
Propaganda que identifica o desejo de que leis religiosas (ou a interpretação que certo grupo faz das leis religiosas) se sobreponham as leis civis democraticamente instituídas  

A percepção não poderia ser mais clara: A educação que tive em casa deveria determinar as políticas do Estado de Israel. Para os meus pais, o respeito à individualidade do outro estava acima do que eles entendiam por religião. Esse respeito às escolhas pessoais é a semente ideológica de onde nasce a democracia. E esta é a única saída para um país que deseja continuar democrático.

Os ortodoxos que desejam controlar o espaço público, negam a democracia porque não possuem este entendimento de tolerância a escolhas diferentes. O que vemos acontecer em Israel hoje, não é apenas um extremismo de um grupo que se afastou do centro e sim o conflito entre dois pensamentos irreconciliáveis. Eu jamais vou aceitar a imposição de um comportamento que contraria a minha visão de humanidade (por exemplo, que impeça às mulheres de exercer cargos públicos ou que diz que os não judeus não são humanos – vejam o filme abaixo), mesmo que a origem deste comportamento seja atribuída a Deus.

A convivência se baseia no respeito à individualidade. Somente o diálogo e a capacidade de contornar as tensões geradas naturalmente pelas diferentes formas de “ser judeu” podem manter a unidade dentro da diversidade. Qualquer pensamento que negue a individualidade não possui espaço em nosso país.

Eu aprendi desde cedo, que sob o mesmo teto e sobre o mesmo chão é possível conviver com as múltiplas formas de ser judeu.

Aproveito a oportunidade para compartilhar com os leitores um pequeno trecho de uma minissérie escrita e produzida por um de meus heróis israelenses chamado Yaron London. O programa é dividido em 4 blocos e chama-se “O povo escolhido” (העם הנבחר). Em cada capítulo, Yaron questiona as características e mitos formadores de nosso povo.  Acredito que o vídeo é perfeito para demonstrar o que escrevo acima.

No trecho a seguir, Yaron visita uma família ortodoxa na cidade de Modiin Ilit. A entrevista é uma tentativa de encontrar respostas para perguntas importantes, como por exemplo: tendo em vista o crescimento demográfico da população ortodoxa em Israel, existirá espaço para alguém como Yaron (laico e ateu) no futuro? Como as crianças desta comunidade são educadas em relação ao diferente? O que aprendem na escola? Existe o respeito a liberdade individual? Existe tolerância a uma escolha de vida não ortodoxa?

*Em alguns momentos se fará necessário pausar o vídeo para ler integralmente as legendas*

Comentários    ( 17 )

17 Responses to “Israel e a casa das diferenças”

  • Vivianne

    10/06/2013 at 21:30

    Olá, Marcelo. Quero lhe parabenizar pelo excelente artigo que você produziu. Eu estou realizando algumas pesquisas acerca da história de Israel e, principalmente, do povo judeu. Tenho um profundo interesse em conhecer mais sobre a cultura, a religião, a educação e outros aspectos que compõem esse país e o Conexão tem sido bastante útil a esse objetivo.
    O que você falou a respeito da individualidade é importante. A comunicação é uma ferramenta fundamental para que as pessoas possam, pelos menos, compreender uns aos outros e aceitar as diferenças; como você disse: manter a unidade dentro da diversidade. Lembro- me de que foi acreditando nessa ideia que Ludwik Zamenhof criou o Esperanto (uma língua neutra internacional). Tenho um amigo judeu e a nossa relação só é possível devido a contemporização e o respeito a liberdade de pensamento que cultivamos mutualmente.

  • Vivianne

    10/06/2013 at 21:41

    Espero poder continuar lendo e apreciando as suas interessantes postagens. Shalom!