Minha militância no dia das eleições

22/01/2013 | Política.

Hoje, 22 de janeiro de 2013, votei pela primeira vez em Israel. Foi uma experiência bacana fazer parte desta expressão da democracia. Não escondo de ninguém em quem eu voto, até porque fiz uma militância aberta e com orgulho. Sou um peil do Meretz. Peil é o termo “militante” em hebraico. Não sou filiado ao partido (talvez um dia venha a ser), mas fui voluntário na campanha para estas eleições. Pendurei bandeira na minha janela. Saí às ruas em duas ocasiões para panfletar. Hoje, no dia das eleições, saí para uma boca de urna organizada pelo partido (aqui em Israel não é ilegal, desde que seja a pelo menos 100 metros da entrada do colégio eleitoral) com mais quatro militantes, próximo ao bairro Florentin[1], no sul de Tel-Aviv.

Cheguei às 7h e já haviam faixas do Avoda (Partido Trabalhista) na região. Eu e a responsável pela campanha na zona sul da cidade, Silvi Biton, penduramos muitos cartazes e faixas do Meretz, tornando o local visivelmente verde (cor do partido). Mais tarde chegaram mais dois voluntários: uma estudante e dois adolescentes de 14 anos. Haviam panfletos, cartazes, adesivos para que distribuíssemos. Todos os militantes receberam camisetas do partido e já às 7h, hora em que eram abertas as urnas, começamos a campanha.

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Meretz na boca de urna
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O grupo Luta Socialista

Mais tarde chegaram militantes dos partidos Chadash, Dam[2], Avodá (que só tinha um único militante), Ale Yarok[3] e do grupo apartidário Luta Socialista. Tel-Aviv é tradicionalmente uma cidade de tendência liberal, e, sobretudo na região onde militei, há muitos eleitores de partidos de esquerda. O colégio, no entanto, por ser próximo ao bairro Shapira, também tem muitos eleitores religiosos e tradicionais, que votam em partidos como o Shas, o Likud e o HaBait HaYehudi. Posso afirmar que mais de 1/5 dos eleitores nos cumprimentavam de forma entusiasmada, pediam adesivos e declaravam seu voto no Meretz. Em algumas ocasiões, no entanto, fomos agredidos verbalmente. Não tantas, como eu suponho que aconteceriam caso estivesse em Jerusalém, por exemplo. Nossa sorte foi estarmos próximos à militância do Chadash, ainda mais impopular dentre os conservadores do que o Meretz. Em uma ocasião, um eleitor rasgou um panfleto do Chadash e passou ofendendo seus militantes (que naquele momento eram uma mãe e uma criança de aproximadamente oito anos). O sujeito votou e retornou para nos ofender um pouco mais. Eu argumentei com ele, quando me perguntou se o que eu desejava era me casar com um homem (o Meretz é a favor de leis civis que promovam o direito dos homossexuais). Respondi dizendo que tinha namorada, mas que achava justo que quem desejasse um casamento com pessoas do mesmo sexo tivesse o direito de escolher. Ele se envergonhou um pouco por ter “suspeitado de minha heterossexualidade” e baixou o tom. Argumentou, desta vez de forma menos agressiva, que o Meretz, quando defende acordos com os árabes (que, segundo ele, não querem paz), deixa de ser um partido sionista. Eu lhe disse que saí do Brasil para viver em Israel, por ser um Estado judeu, e que não é justo que ele questione minha identidade sionista. Ele passou a me tratar de forma educada e conversamos por um bom tempo. Não consegui convencê-lo de que o Meretz é a melhor opção para um judeu tradicional como ele, mas acho que consegui mostrá-lo que não é porque sou de esquerda e secular que não sou sionista.

 

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Partido Dam
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A líder do Meretz Zahava Galon

Às 10h chegou ao local, cercada de militantes, a número um do Meretz, Zahava Galon. Muito atenciosa, elogiou o nosso trabalho e se mostrou confiante no crescimento do partido nestas eleições. Zahava foi tratada como uma estrela na região, atendendo a pedidos de abraços e fotos com os eleitores. Um de seus correligionários me disse que, mais cedo, em Petach Tikva (cidade onde Zahava vive e vota), a líder do Meretz fora hostilizada devido ao grande número de eleitores de Likud, HaTnua e HaBait HaYehudi na cidade, clima totalmente distinto do encontrado no sul de Tel-Aviv. Galon foi embora às 10h45, bastante satisfeita com o que viu.

Votaram neste colégio duas atrizes que recentemente encenaram papéis de destaque na série Chatufim (“Sequestrados”, que inspirou a série norte-americana Homeland) e um ex-participante do Big Brother israelense. Uma emissora de TV espanhola também estava presente cobrindo as eleições em Israel.

Às 12h30 chegou ao local Dov Chanin, número três da lista do Chadash. Muito simpático, cumprimentou pessoalmente a todos os militantes do Meretz (que não é o seu partido) com aperto de mão, inclusive este que vos escreve. Após conversar conosco, com militantes do Dam, do Luta Socialista, e logicamente do seu partido, Chanin foi entrevistado pela TV espanhola.

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Dov Chanin

Minha militância se estendeu até às 14h, quando fomos trocados por outros três voluntários. Pouco antes de terminar, chegaram ao local três militantes do partido Otzma LeIsrael (um adulto de aproximadamente 50 anos e dois adolescentes de menos de 13 anos). Sem lugar para estender suas faixas e prender seus cartazes por chegarem tarde, pediram para que tirássemos parte da nossa propaganda para que eles pudessem divulgar o seu partido. Obviamente, nenhum dos partidos presentes concordou. Eles, então, se retiraram do local e, imagino eu, foram em direção a outro colégio eleitoral mais vazio.

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Militantes do Otzma LeIsrael

A experiência foi bastante interessante, a meu ver. Tirei algumas fotos e espero que vocês tenham gostado. Caso desejem vê-las em tamanho maior, cliquem nelas com o botão direito do mouse e pressionem a opção “abrir em outra aba (ou janela)”. Lamentavelmente são de qualidade baixa, pois eu fotografei com o meu telefone celular.  Ao sair, fui ao meu colégio eleitoral e exerci o meu direito político, votando no Meretz. Que tenhamos boa sorte!


[1] Bairro que concentra muitos jovens, muitos deles estudantes, mas pela proximidade com a parte sul da cidade, também concentra muitas famílias pobres e refugiados africanos.

[2] Partido Socialista.

[3] Partido cuja principal bandeira era a legalização da maconha.

[4] Trajes simbólicos religiosos.

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