Comendo com os olhos

Deparei-me, nesses dias, com o próprio pecado capital. Imagine um país em que, apesar de ostentar a vergonhosa taxa de 30% da população convivendo diariamente com a insegurança alimentar[ref]https://www.fao.org.br/q870mpmesnrsf.asp[/ref], é capaz de desperdiçar 50% das frutas e das verduras plantadas. No qual 30% da produção agrícola não chega a sair do campo por não atender a padrões estéticos. Em que 14% do que é comprado pelo consumidor final não chega a ser utilizado, indo direto da geladeira para o lixo. Que país é esse, meu Deus do céu? Pasme: o nosso.

Esses são alguns dados da bela reportagem que a apresentadora Miki Haimovich exibiu em seu programa semanal no Canal 2, o Hamearechet, no começo de março. Em minha opinião, é de longe o que há de melhor na TV israelense, que peca pela paixão por programas burlescos no formato “reality show” ou por competições de gosto duvidoso entre cantores amadores. Bem-editado, bem-conduzido, bem-filmado, esse é um exemplo de produção esmerada que, infelizmente, parece não inspirar ninguém. Depois de assistir a reportagem, que teve como chamada o título “Comida não se Joga Fora” (Ochel lo Zorkim), fui dormir sem fome, mas entristecida.

Israel - conexaoisrael - comida lixo

Miki, loira de olhar inteligente, foi procurar as razões que fazem com que Israel, país cuja população foi a princípio formada por levas de sobreviventes do Holocausto, corra na contramão da história, jogando no lixo a comida preciosa que poderia alçá-lo de um status vergonhoso: o de país desenvolvido com maior porcentagem da população vivendo abaixo da linha da pobreza[ref]http://www.jpost.com/National-News/Annual-report-shows-17-million-Israelis-living-below-poverty-line-335255[/ref]. Ela passeou por todo o ciclo de vida dos alimentos, desde o momento em que são plantados, colhidos e selecionados, até aquele em que são vendidos, comprados, processados e indelicadamente descartados. Também fez um paralelo com a Europa, de onde tirou o exemplo positivo da sociedade alemã, que busca se reeducar e comprar apenas aquilo que haverá de consumir no próprio dia e talvez no seguinte, e com os Estados Unidos, que desperdiça dez vezes mais alimentos do que os países asiáticos subdesenvolvidos. A má notícia é que estamos mais próximos do segundo exemplo do que do primeiro.

Israel - verduras super  Os números de Israel são uma temeridade. Para começar, 30% do que é   produzido não chega a sair do campo por motivos puramente estéticos: o israelense “come com os olhos” e, assim, o mercado somente absorve aquilo que é simétrico, perfeito. O raciocínio também pode ser inverso, claro, com o mercado apenas oferecendo as versões “aperfeiçoadas” do que é produzido, mantendo, assim, o preço dos produtos nas alturas. Com essa postura, joga-se no lixo uma incalculável parcela do esforço financeiro envolvido na produção agrícola, desde a aquisição da semente e a mão-de-obra humana, passando pelos recursos hídricos e fertilizantes e chegando até ao desgaste do solo. Nessa hora ninguém parece se lembrar de que, ao pagarmos por uma maçã perfeita, pagamos também pela desperdiçada.

Miki exibiu em seu programa bacaninha os depoimentos de alguns chefes de família a respeito de sua relação com o consumo alimentar de sua trupe, expondo o desvio de comportamento que leva o israelense a protagonizar um desperdício indigerível. Quatro das motivações apuradas pela reportagem são especialmente marcantes, e quem conhece o israelense de perto vai entender sobre o que estamos falando aqui. Em primeiro lugar, está o caso de amor apaixonado entre israelenses e promoções. Todo supermercado tem as suas em bases semanais e, normalmente, envolvem o estímulo à aquisição de mais por menos, do tipo “o segundo item por 50%” ou “compra 2 e leva 3”. Unido a isso está a neurose do israelense em não ser “frayer”, sentimento que foi explicado bem por Yair Mau em artigo recente aqui no Conexão. Em resumo, o israelense quer sair da “negociação” com a sensação de que se deu bem, mesmo que isso se refira à compra do mercado. Com o carrinho transbordando de produtos duplicados ou triplicados, ele parece não perceber que quem está se dando bem ali é o mercado e não ele, que provavelmente não terá tempo de consumir o que comprou multiplicado. O terceiro aspecto apontado pela reportagem refere-se à falsa sensação de poder que sente aquele que tem a possibilidade de se desfazer daquilo a que muitos não têm acesso. O quarto tem a ver com a rotina do Shabat: toda sexta-feira é dia de cozinhar comida “nova” para o tradicional jantar familiar na sexta à noite. E, na quinta-feira seguinte, chega a fatídica hora de jogar tudo fora para abrir espaço na geladeira. Quase uma maratona gastronômica. Transformando essa piração em números, estima-se que uma família de quatro pessoas gaste 2,3 mil shekalim por mês em alimentos e, desses, o correspondente a 1,4 mil shekalim apodrece nos lixões. Por que? “Kacha”, responde o israelense. Um equivalente do nosso vago “porque sim” (ou do inglês “because”).

Outro protagonista da gastança em Israel é o exército. Em um país cuja juventude passa 2 (meninas) ou 3 (meninos) anos em serviço militar, não se divulgam os números, mas há de se imaginar o que há de ser, em termos de investimento, manter a alimentação dessa moçada. Toda a montanha de comida que sobra no bandejão vai, todo santo dia, diretamente pro lixo. E por que não para outro lugar? Porque o exército não pode se responsabilizar pela qualidade do alimento no momento em que ele finalmente chegar ao prato de quem precisa. Como solucionar essa questão? Com investimento em transporte e armazenamento. Mas… “karra”.

Israel - alimentos lixo

Não há de servir de consolo, mas esse é o panorama alimentado por todos os países desenvolvidos, em menor ou maior grau. Organizações internacionais como a Food and Agricultural Organization, da ONU, estima que um terço da produção agrícola mundial voltada para consumo humano é desperdiçado a cada ano, o que representa 1,3 bilhão de toneladas de alimentos. Em regiões pobres, como em países da África, isso acontece como resultado da falta de infraestrutura de colheita, transporte e armazenamento. Em regiões ricas, em função do padrão estético quase alegórico e fantasioso imposto pelos supermercados, que querem satisfazer o cliente vendendo “carinha bonita” – pesquisas apontam que as grandes redes perdem 15 bilhões de dólares por ano para manter os altos estoques, necessários para ostentar suas bancas com montanhas de frutas e verduras à disposição.

A boa notícia – creio que a única – do programa foi a apresentação do trabalho feito por organizações em todo o mundo que dedicam-se ao “resgate de alimentos”. Em Israel, a maior e mais conhecida é a Leket[ref] http://leket.org.il[/ref], fundada em 2003. O papel delas é chegar aos mercadinhos e mercadões antes que os alimentos não vendidos, e ainda em perfeitas condições de serem utilizados com segurança, cheguem ao lixão. Com eles, milhares de pessoas são alimentadas diariamente. Mas nem mesmo ela nos salva de mais esse paradoxo israelense: se nos guetos e nos campos de concentração de 70 anos atrás os judeus se alimentaram com casca de batata (quando havia), hoje jogamos a batata inteira no lixo. Mudar essa realidade é facinho-facinho, bastando apenas o investimento em campanhas de conscientização por parte do governo e uma proposta pessoal de mudança comportamental no ambiente mais gostoso de nossas casas – a cozinha. E por que não começar já? “Kacha”.

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “Comendo com os olhos”

  • Marcelo Starec

    20/03/2014 at 03:12

    Oi Miriam,
    Gostei do artigo!
    Como economista, entendo ser esta uma questão muito abrangente, que diz respeito a todo um modus operandi do mundo em que vivemos e onde Israel também se inclui. O mundo hoje é muito mais produtivo do que era no passado, mas também gera um bocado de desperdício, de todo o tipo!
    Lendo o seu artigo, me lembrei de quando fui voluntário num kibbutz e as frutas na época eram separadas manualmente – as que não estavam perfeitas, iam para fazer suco e as demais eram vendidas “in natura”.
    Hoje, tudo é muito maior – a produção, o consumo, o desperdício…E mudar isso requer mesmo uma “mudança comportamental” da sociedade, mas essa deve ser no sentido de focar não apenas na quantidade produzida per capita mas também no menor desperdício, gerando menos lixo e poluição, mas sem uma visão ingênua de voltar ao passado, onde se produzia relativamente pouco. O importante é usar a “high tech” (onde Israel pode contribuir muito!) e chegar a um mundo melhor por aí…
    Abraço,
    Marcelo.

  • Mario Bendetson

    21/03/2014 at 15:04

    Parabéns pelo artigo e pela pesquisa. Uma pequena correção: o programa se chama “HaMarechet” (algo como “A Redação”) e não “HaMearechet”, que seria “A Anfitriã”. De nada!

    • Miriam Sanger

      23/03/2014 at 10:57

      Mauricio e Marcelo, agradeço os elogios. E para o terceiro M, Mario, o elogio e a correção :).
      Abraços e boa semana a todos!
      Miriam

  • Raul Gottlieb

    23/03/2014 at 21:01

    Querida Miriam,

    Fiquei bem surpreso com a informação do começo do teu texto: “… um país em que, apesar de ostentar a vergonhosa taxa de 30% da população convivendo diariamente com a insegurança alimentar…”.

    Eu simplesmente não vejo ninguém com sinais de subnutrição em Israel. Quanto mais um em cada três pessoas! Até os charedim que optaram por ser pobres não ostentam os sinais característicos de subnutrição.

    Daí fui na fonte que você citou e fiquei ainda mais surpreso! Aquele link não é sobre a fome em Israel.

    De onde você tirou esta informação? Qual parte daquele link fala sobre Israel?

    Um abraço,
    Raul

  • Miriam Sanger

    24/03/2014 at 08:19

    Olá, Raul!

    Infelizmente o panorama é, sim, desalentador. Cada fonte ostenta um número diferente, mas todos eles abordam diretamente aquele cidadão que não tem condições de comprar com autonomia os alimentos de que necessita para viver (e para alimentar sua família). Aqui estão alguns links que tratam sobre o problema da fome e da insegurança alimentar em Israel.

    http://www.jpost.com/Features/In-Thespotlight/Poverty-and-food-insecurity-in-Israel

    http://fsi.org.il/?page_id=265

    http://www.haaretz.com/news/national/.premium-1.571150

    http://books.google.co.il/books?id=7rgHmpppZ-
    wC&pg=PA145&lpg=PA145&dq=food+security+israel+30%25&source=bl&ots=E9zcktbCyp&sig=5SVJ8LR5rrrVwHft0xATXKN_AMw&hl=en&sa=X&ei=h8wvU8LaCIyS7AbBwICYBg&ved=0CC8Q6AEwAQ#v=onepage&q=food%20security%20israel%2030%25&f=false

    http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4154773,00.html

    Quanto ao link, quis por meio dele apenas dar acesso rápido à explicação sobre o que é a insegurança alimentar, pois acredito que seja importante entender minimamente esse conceito para entender a matéria. Ele de fato não tem relação com os índices israelenses.

    Abraço!

    Miriam