Como relembrar a Shoá…

06/05/2016 | Sociedade

Ontem, em Israel, foi celebrado o Yom HaShoa, o dia do Holocausto. E no mundo inteiro judeus param para lembrar os seis milhões do seu povo que foram mortos, vítimas do racismo.

O Facebook e páginas relacionadas ao mundo judaico se enchem de homenagens: fotos de campos de concentração, câmaras de gás e estrelas amarelas, como as usadas pelos judeus no período da Segunda Guerra Mundial. A principal mensagem é: lembrar para que não se repita.

A televisão israelense, nos últimos dias, também levantava a mesma bandeira e apontava um fator importante para a memória do Holocausto: hoje há em Israel cerca de 120 mil sobreviventes e somente uma ínfima parte dedica seu tempo a contar sua história em colégios e atividades com jovens. E, obviamente, em poucos anos eles não estarão mais aqui para contar o que passaram.

Como lembraremos então o que aconteceu? Será suficiente tocar a sirene em memória das vítimas? Passar filmes do Holocausto para os jovens que não podem mais ver os depoimentos das pessoas que sofreram nas mãos dos nazistas? Como manter acesa essa identidade com o Holocausto? Mas quem tem que se identificar com isso?

No meio de Pessach, a festa de liberdade, passei por uma experiência interessante de identidade e humor judaico. Dois amigos conversavam, um de origem ahskenazita (Europa) e outro de origem marroquina. Os marroquinos costumam celebrar o final do Pessach com uma festa chamada Mimuna. Então o ashkenazita, em tom irônico, pergunta: “então, marroquino, você vai me convidar pra festa do seu povo, a Mimuna?” E o marroquino responde: “você vai me convidar para a festa do seu povo, o Dia do Holocausto?”

Eu, fã de carteirinha do fantástico humor negro judaico, não me contive, e o ashkenazita me disse: “você não cresceu aqui, mas essa é uma piada bem comum entre os ashkenazitas e o resto”.

Tanto a conversa entre eles, quanto o comentário no final dizem muita coisa. Mas, principalmente, enfatiza a ainda presente e forte diferenciação entre as culturas ashkenazita e os mizrahit (vamos colocar nessa classificação todos os judeus oriundos de países de maioria muçulmana). Só os judeus que viviam na Europa sofreram com o Holocausto (Na verdade, parte de judeus egípcios, marroquinos, argelinos, tunisianos e sírios foram perseguidos. Por exigência alemã, os japoneses instalaram um gueto em Pequim). A memória da vitimização em função da perseguição nazista não faz parte da cultura judaica mizrahi. Isso só é incorporado posteriormente.

Então, após lembrar dessa conversa e da preocupação levantada por todos sobre a presevação da história do Holocausto, comecei a me questionar o que devemos fazer? O que há de errado? Há algo de errado?

Sim. Há algo de errado. Há algo de errado na forma como lembramos o Holocausto. Há algo de errado na forma em que o mundo vê o Holocausto. Há algo de errado com o mundo. Há algo de errado conosco.

Não podemos tratar o Holocausto como algo nosso, dos judeus. Foram seis milhões de judeus que morreram? Sim, foram. Mas também morreram homossexuais, comunistas, opositores ao nazismo, ciganos, negros, deficientes. Todos que não se enquadravam no modelo nacionalista nazista. Eram todos humanos. Todos. Sem exceção. Inclusive os assassinos.

Quanto mais reduzirmos a memória do Holocausto e esquecermos que se trata de um crime contra a humanidade, menos a humanidade se lembrará que fazemos parte dela e menos se identificará com ela.

Massacres acontecem diariamente nesse mundo bárbaro mas cada um só é capaz de se lembrar do que lhe interessa, porque somos cada vez menos humanos. Nesse mundo da barbárie cotidiana queremos defender o nosso, sem mesmo saber o que é o nosso.

Nesse dia do Holocausto não temos que lembrar somente dos seis milhões de judeus massacrados pelos nazistas nos campos de concentração. Temos que nos tornar mais humanos. Temos que exigir do mundo que ele se torne mais humano. Temos que lembrar de todas e todos que sofrem diariamente por conta de toda a intolerância que se radicaliza mundo à fora.

A memória do Holocausto está em risco porque, muitas vezes, queremos torná-la um “privilégio” dos judeus e esquecemos da humanidade, ao mesmo tempo em que a humanidade esquece da gente.

Foi isso o que eu pensei quando desci da minha bicicleta, quando a sirene começou a tocar aqui em Israel. Que o Holocausto deve ser lembrado por todos como um crime contra a humanidade, e que só poderemos fazer isso quando entendermos que a intolerância é um crime contra a humanidade. Acho que essa é a melhor forma de homenagearmos as dezenas de milhões de vítimas da Segunda Guerra Mundial.

Foto: https://i.ytimg.com/vi/EahsJf2WTQg/maxresdefault.jpg

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