Como me tornei israelense

12/01/2014 | Opinião; Sociedade

Hoje, um de meus molares foi arrancado e pronto: senti que conquistei o status de israelense da gema. Certo que esse dente e eu temos uma história longa para contar, mas o fato é que não entendo essa profusão de falta de dentes na população local. Vejo por aí até pré-adolescente com dente definitivo faltando na boca, e fico aqui matutando se o problema é o preço dos tratamentos ou se o assunto de fato não preocupa ninguém. Seja como for, agora sou uma dessas, fico desdentada (felizmente é um lá no fundão, molar encarnado da peste) até fevereiro, quando posso começar a suar frio ao ver o custo de implante por aqui. Coisa de milionário mesmo.

Pensando nisso, acabei fazendo um ranking mental de tudo aquilo que hoje me faz uma cidadã israelense não apenas no passaporte. E são vários itens, muito mais do que me daria conta caso o dentista não tivesse hoje arrancado meu amado dentão.

1. Trabalho em uma das famosas start-ups israelenses, ou seja, pequenas empresas que começam com pouca gente e uma boa ideia para, depois, vender pros americanos. Como Waze, caso mais conhecido (até o momento).

2. Outro dia, fazendo tradução simultânea pra um grupo de angolanos, me vi explicando a eles, na hora do almoço, as maravilhas de comer humus com pita.

Hummus completo
Hummus completo

3. Tô viciada em café. Claro que o vício não é novo, mas sempre achei que café em demasia fosse coisa de brasileiro. Que nada. Programa número um de israelense é ir tomar café, e há dezenas de diferentes redes por todo o país. Uma melhor que a outra, na minha humilde opinião.

Café em Israel
Café em Israel

4. Depois de achar muito esquisito, incorporei dois hábitos israelenses: comer salada de manhã (em especial pepino e tomate) e gostar de abacate no sushi. Bem, a outra opção seria colocar cenoura junto com o salmão…

5. Acho graça na chuva. Antes, como boa paulistana, migrava para o mau humor assim que via o céu se armar. Aqui, chuva é vista como bênção divina – há muitas passagens na Torá que deixam explícito o controle de Deus sobre esse benefício, que precisa ser merecido. Além disso, nas rezas judaicas sempre há um agradecimentozinho extra pela água que cai dos céus.

Chuva na capa do jornal Haaretz
Chuva na capa do jornal Haaretz

6. Conformei-me com o pó. Ou melhor, me acostumei a ele. E o dia inteiro passo hidratante nas mãos, para tirar a sensação de ressecamento. O que não ajuda: precisava, mesmo, era de um banho de abacate.

Hamsim em Israel - Muito pó no ar
Hamsin em Israel – Muito pó no ar

7. Enfio toda a roupa junta na máquina. Nada dessa fineza de separar sintéticos, delicados, claros e escuros. Vai tudo junto. E, no inverno, vai tudo junto também pra secadora. Paciência.

8. Faço churrasco de kebab e hambúrguer. Carne aqui é coisa caríssima, então a saída mais barata é essa aí. Não recomendo, mas é o que rola.

9. Coleciono cupons de farmácia. Não tem jeito: a forma mais econômica de fazer compras é essa. E há promoções o tempo inteiro, tipo dois pelo preço de um, o segundo produto por um shekel. No começo, achei americano demais me render a essa mania. Hoje, fico procurando cupons por aí. E uso.

Cupons da maior rede de farmácias - SuperPharm
Cupons da maior rede de farmácias – SuperPharm

10. Depois da refeição, é costume colocar oleaginosas na roda, o que, aqui, são o máximo. Achei esquisito no começo, hoje adoro. Terminou de bater o pratão de almoço de Shabat, vai pra mesa semente de girassol, castanha de caju, pistache… hum, bateu uma fominha agora.

Castanhas na mesa
Castanhas na mesa

11. Sexta-feira virou, de fato, fim de semana. Por muitos meses me senti culpada, principalmente porque estava ainda trabalhando conectada ao Brasil. Como assim, eu tô por aí e todo mundo trampando? Até que me toquei que, enquanto tá todo mundo por aí no domingo, eu tô aqui trampando. Pronto, passou a culpa. Sexta é finde.

12. Não levo nem busco minha filha na escola, afinal a violência urbana é perto de zero e o trânsito é civilizado. Se ela aguardar pelo sinal verde do pedestre, chega em paz. Então tá feito e a bichinha tá solta por aí, e eu liberada pra outras coisas, né?

13. Paro no farol quando vejo que vai ficar amarelo. Quando cheguei, achei que esse era o costume apenas de uma amiga minha querida, que mora aqui desde a década de 80 e que circulou um monte comigo resolvendo pepinos no comecinho da mudança. Ela é, sim, incrivelmente educada no trânsito, mas não é só por isso que para o carro. Todos, ou quase todos porque besta existe em todo lugar, param.

14. Dirijo carro automático, o que aqui é maioria absoluta. No começo não gostei, achei meio preguiçoso esse negócio de deixar que o motor decida qual a marcha ideal. Hoje adoro. Você viaja tranquilinho e nos cotidianos engarrafamentos não ficam com dor na batata da perna de tanto usar a embreagem.

15. Não me preocupo em andar com notas de valor alto: aqui eles sempre têm troco. No Brasil essa é uma batalha permanente, né? E algumas vezes você até sai sem o que quer comprar porque o cara não tem troco. Aqui tem troco. Sempre. Até demais.

As 4 notas de shekalim em circulação por Israel
As 4 notas de shekalim em circulação por Israel

16. Ouço rádio e já sei discernir entre Shlomo Artzi e Eyal Golan, dois cantores famosos por aqui. Na verdade, isso só quer dizer que magicamente a música israelense não mais parece para mim uma coisa só. De fato, cada um tem seu estilo. Não acreditava nisso antes, hoje sei que é assim.  Não que isso faça grande diferença na minha vida – continuo gostando mais de MPB.

17. Acompanho programas tipo Cohav HaBá (A Próxima Estrela), mais um dos diversos programas de competição de cantores estreantes. E não é que de vez em quando aparecem coisas interessantes ali? Nesses últimos tempos, dois irmãos haredim (ortodoxos) ganharam projeção máxima na mídia. São dois figuras que fizeram teshuvá – ou seja, eram de família laica e se tornaram religiosos por escolha própria – mas, antes disso, tocaram muito Pink Floyd. Mandam bem, os danados. Se alguém quiser tirar a prova, é só dar uma clicadinha na imagem abaixo:

Irmãos Gat no programa Kochav HaBá
Irmãos Gat no programa Kochav HaBá

18. Acredito em liquidações. Aqui, a turma de fato torra o estoque. Talvez por serem as estações tão definidas, talvez por haver por trás disso a cultura americana, sei lá eu. Mas queima de estoque é isso mesmo: queima de estoque.

19. Desisti de pegar fila. Isso é uma instituição que, aqui, inexiste. Acho um horror, por outro lado não sinto a menor saudade da mania brasileira de fazer fila pra tudo, até para o que não precisa.

20. E, principalmente, tô ficando cada vez mais teimosa. Se não fosse por isso, não teria lutado tanto por esse dente e consultado, pasmem, 6 dentistas antes de cair nas mãos do delicado dentista Paul, argentino que suou frio pra fazer o bicho se descolar da minha boca – e que, no final, me elogiou por ter sido uma boa garota.

 

Comentários    ( 12 )

12 Responses to “Como me tornei israelense”

  • Ricardo Panessa

    12/01/2014 at 19:27

    você é uma excelente escritora banguela…. o que prova que nem todo banguela separa sílabas erradamente……

  • Mario S Nusbaum

    12/01/2014 at 22:37

    “Carne aqui é coisa caríssima,”
    Caro quanto Miriam?

    • Judite Orensztajn

      14/01/2014 at 00:23

      Não é tão caro assim, peixe é mais caro, por exemplo. É que a Miriam ainda não aprendeu que também há promoções e ofertas de carne. Nós não somos ricos e comemos muita carne de 1ª, inclusive picanha, e fresca, não congelada. Ela chega lá!

    • Mario S Nusbaum

      14/01/2014 at 17:44

      Obrigado Judite, nunca imaginaria que peixe fosse mais caro.

    • Miriam

      15/01/2014 at 13:13

      Olá, Mario!
      Bem, o assunto provocou certa polêmica. Por aqui, um quilo de entrecôte ou filé custa por volta de 180 shekalim (51 dólares), filé de frango não sai por menos de 32 shekalim (9 dólares – frango é a opção mais acessível em Israel), carne moída para kafta ou bolinho custa por volta de 70 shekalim (20 dólares). Claro que há promoções, com as quais você barateia a vida. Mas elas são isso: promoções, exceções. O preço básico, pelo menos em Raanana, é esse. Ao menos para o meu padrão de vida, que está bem na média israelense, graças a Deus, o valor é considerável e pesa no bolso – mas claro que isso varia de acordo com a perspectiva de cada um. Quanto ao peixe, concordo com a Judith: o bicho é caro. Mas nem todos. Preparo um pescado bacana de San Pieter que custa, sem promoção, 32 shekalim (os 9 dólares do filé de frango) o quilo. Mas se eu quiser salmão, salto pros 70 shekalim (20 dólares), enquanto no Brasil ele custava 32 reais (algo como 13 dólares). A conclusão fica por sua conta 🙂 Abraço e obrigada pela participação!

  • דני

    14/01/2014 at 13:38

    יפה!
    איך קוראים לרופאה שיניים?
    תודה

    • Miriam

      15/01/2014 at 13:14

      Olá, Dani. Vou me informar sobre o nome completo dele e envio para você o quanto antes.
      Obrigada e um abraço!

  • Raul Gottlieb

    15/01/2014 at 17:02

    A carne no Brasil também é mais barata que o peixe. Um kg de salmão pode chegar a mais de 55 reais, enquanto que um kg de filé mignon fica em torno dos 40 reais.

    Sempre achei que tinha que ser o contrário, já que as vacas demandam terreno e pasto e o peixe apenas pesca. Mas assim é.

    Em Israel isto é ainda menos compreensível. Não há pasto para vacas e a carne deve ser quase que integralmente importada. Mas há uma costa razoável para o tamanho da população, sem contar o Kineret. Assim que o peixe deveria ser mais barato. Mas também não é.

    • Mario S Nusbaum

      16/01/2014 at 15:02

      Não é bem assim Raul. Você está certo em relação ao salmão, mas em compensação encontra-se sardinha a 3 reais o quilo.
      Hoje em dia Atum é mais caro que salmão, pelo menos em SP

  • Raul Gottlieb

    16/01/2014 at 20:59

    Comparei carne de primeira com peixe de primeira.

    A minha esposa (que é a única metade da família que faz compras) garantiu que igualando as qualidades o peixe é mais caro que a carne na grande maioria dos casos. Eu acreditei (e continuo acreditando) porque não acreditar seria muito caro.

  • Mario S Nusbaum

    17/01/2014 at 14:33

    Faço parte do mesmo tipo de metade que você Raul (com exceção de supérfluos,
    que são minha especialidade), por isso não tenho condições de discutir o assunto a fundo.
    Apenas acho que não existe nenhuma carne a preço de sardinha.
    E já que estamos falando em preço de carne, lembro perfeitamente quando em restaurantes americanos ela custava mais ou menos o triplo do que aqui, e hoje está empatado.
    Atualmente é bem mais fácil comparar, já que existem redes brasileiras nos EUA.
    um abraço