Conflitos que seguem

19/11/2014 | Conflito; Opinião

Por Gabriel Paciornik

Israel só faz headline (manchete) quando está envolvido em um escalada bélica de proporções cinematográficas. Ou seja: só quando dá uma imagem publicável. Mas a verdade é que a situação neste momento é muito mais crítica, problemática e perigosa do que durante os 50 dias de guerra com o Hamas.

Para a população civil em Gaza, obviamente o entrevero deste verão foi mais mortífero e destrutível. Mas em uma visão de longo prazo, a guerra não teve significância política nenhuma. O princípio, meio e fim eram previsíveis. Os acordos (não) firmados já eram conhecidos e tanto a posição de Israel como a do Hamas no cenário mundial quase não tiveram mudanças. Já o movimento popular em Jerusalém que corre pelos últimos meses tem potencial político muito mais sério e explosivo.

Desde junho, principalmente jovens, principalmente árabes e quase todos de Jerusalém vêm criando manifestações violentas contra alvos civis pela cidade. Isso inclui apedrejamento de ônibus, trens e carros, uso de fogos de artifício e rojões contra pessoas e atropelamentos em pontos de trem e ônibus. Uma tentativa de assassinato com arma de fogo a um ativista religioso e, hoje de manhã, um ataque dentro de uma sinagoga onde até a hora em que escrevo morreram cinco pessoas.

É importantíssimo ressaltar que não se tratam de palestinos[ref]O autor refere-se ao fato de que tais personagens são árabes de cidadania israelense. Apesar disto, muitos árabes, que vivem em Israel consideram-se palestinos, nacional-etnicamente. Nota do Editor[/ref]. São cidadãos israelenses, com todos os direitos e deveres civis plenos. É importante ressaltar também que não têm liderança organizada e em sua maioria não são afiliados a movimentos políticos, apesar de terem uma inspiração claramente jihadista.

A motivação é variada, mas os pretextos são muitas vezes religiosos, no sentido de “defender El-Aksa dos judeus”. Sendo El-Aksa a grande mesquita que fica na Jerusalém antiga, na Explanada das Mesquitas, ou Monte do Templo (porque lá estava construído o templo de Herodes, destruído em 70 DC). Pelo jeito precisa ser defendida dos judeus…

A política da prefeitura de Jerusalém quanto à população árabe que vive do lado oriental da cidade é historicamente de ausência. Vários serviços públicos do lado de lá são ignorados ou excludentes. Ultimamente, um muro que separa alguns dos bairros de Jerusalém tem causado transtorno especial a quem mora do lado árabe. O assassinato do adolescente árabe por extremistas judeus logo depois do sequestro e morte de três rapazes judeus também é usado como pretexto e motivação para os movimentos nos últimos meses. (Os culpados pelo assassinato foram presos e esperam julgamento).

Assim que, se falta liderança e falta motivação concreta e clara do lado árabe, não falta perplexidade do lado judeu. A polícia faz o que pode, o que não é muito (note que o exército ainda não está envolvido). Os políticos estão completamente perdidos, e a população reflete um desespero que se vê nas pesquisas de intenção de voto.

E por que haveria uma pesquisa de intenção de voto? Porque a coalizão está se esfacelando. Os motivos são, nesta ordem: ego, ego e ego. O quarto motivo seria medo. Bennet (HaBait HaYehudi) ameaça Bibi (Likud), que briga com Lieberman (Israel Beiteynu). Todos os três de extrema direita. Líderes de três partidos que estão tentando descobrir quão à direita é direita demais. O público vota de acordo: Likud tira 22 mandatos, Bait HaYehudi fica em segundo, com 17. Lieberman perde um pouco e cai para 9, segundo pesquisas de opinião recentes[ref]Segundo o Canal 10 de televisão. Veja aqui em hebraico[/ref].

E neste cenário, onde dentro do Likud há um movimento para tirar Netanyahu da liderança, todo mundo tem a perder, mas ninguém quer dar o braço a torcer e ninguém tem solução para nada.

O atentado desta manhã, combinado com problemas na resolução de um acordo entre os EUA e o Irã só tornam o cenário mais e mais extremista. E como vimos, extremismo cresce junto dos dois lados. Melhor a situação não vai ficar.

 

* Gabriel Paciornik é curitibano, casado e vive em Israel há 17 anos.

Comentários    ( 4 )

4 comentários para “Conflitos que seguem”

  • Marcelo Starec

    20/11/2014 at 00:37

    Oi Gabriel,
    Infelizmente, o que está ocorrendo, a meu ver, é muito claro. Não há uma solução simples para todo esse problema, pois as lideranças árabes – palestinas não parecem querer!…Os israelenses – mais especificamente os judeus, cristãos, druzos e uma parcela dos muçulmanos deseja e consegue conviver em harmonia e paz, mas há um percentual dos árabes muçulmanos, mesmo dentro de Israel, que tem essa visão “jihadista” a qual você se refere…Uma visão com o viés de não aceitar o outro!…Entendo que isso não é de modo algum aceitável e mesmo uma democracia das mais fortes e vibrantes do mundo, como é o caso de Israel, precisa impor alguns limites mínimos – os quais tem de ser respeitados. E essas são também as obrigações mais comezinhas de qualquer cidadão. Nenhum árabe deseja sair de Israel, embora possa fazê-lo quando quiser, mas quer ter todos os benefícios e direitos – perfeito!…Mas para isso tem de se esperar que, no mínimo, respeitem os demais e não desejem matar os judeus, os cristãos, os druzos e por aí vai…Manifestar-se pacificamente em prol de alguma questão que lhes aflige – justo!…Agora, tudo tem limite!…E quem deseja realmente ser “jihadista” – então que sofra as devidas consequências pelos seus atos….
    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    20/11/2014 at 11:27

    A meu ver, a frase “o extremismo cresce junto dos dois lados” não fica em pé.

    Claro que existe extremismo em todos os lados, o que é absolutamente natural – é até mesmo uma condição da natureza.

    Mas o extremismo judaico é incomparavelmente menor e muitas vezes menos aceito pela maioria dos judeus do que no mundo islâmico, onde ser moderado representa muitas vezes um risco concreto para a vida.

    Ou seja, o extremismo não cresce junto coisa nenhuma. O extremismo floresce no lado árabe de uma forma muito mais vigorosa do que do lado judaico.

  • Raul Gottlieb

    20/11/2014 at 11:32

    Completando o comentário anterior:

    “Não precisamos pedir desculpas por termos valores mais iluminados. Nem precisamos nos rebaixar ao nível da barbárie por medo de demonstrar nossa justificada alta auto estima.”

  • Rita Burd

    20/11/2014 at 14:57

    O perigo existe e é escancarado. A população civil precisa estar protegida com detectores de metal. Assim como existem as máscaras que salvam , os civis devem usar detectores de metal, como defesa e alarme.
    Querem nos prejudicar? Então vamos nos proteger.
    AM ISRAEL CHAY

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