A corrida que parou Jerusalém

por Adam Mehl

Alguns acontecimentos têm o poder de “paralisar” a cidade de Jerusalém. Fala-se, normalmente, de eventos religiosos ou políticos, como a grande manifestação ortodoxa de algumas semanas atrás (leia aqui e aqui sobre esse dia). Porém, ao contrário do preto monotônico que tomou a cidade naquela ocasião, na última vez que Jerusalém parou suas ruas ganharam uma diversidade muito grande de cores. Essa foi a 4ª Maratona Internacional de Jerusalém, no último 21 de março, evento do qual participei e tentarei transmitir um pouco da minha experiência pra vocês.

Rua Yafo, uma das principais da cidade.
Rua Yafo, uma das principais da cidade.

Primeiro, vale a pena mostrar alguns números para ilustrar a dimensão desse dia[ref]Fontes: http://www.jerusalem-marathon.com/ e http://www.haaretz.com/news/national/.premium-1.581066[/ref]. Foram 25 mil participantes, oriundos de 54 países e divididos em 5 modalidades de corrida: 800m (evento beneficente); 5 km; 10 km (da qual eu participei); 21 km e 42 km. Segundo a prefeitura, 100 mil pessoas se hospedaram na cidade, gerando uma receita de mais de 10 milhões de shkalim (cerca de 3 milhões de dólares). A corrida foi marcada para uma sexta-feira, dia que muitos não trabalham. Mesmo assim, muitas escolas e creches que teriam atividades não abriram as portas em função do evento. Com exceção de poucos acessos importantes, praticamente todas as ruas principais estavam fechadas para a corrida. As mudanças no trânsito começaram na noite anterior e foram até cerca das 14h.

Ao contrário da Maratona do Rio, por exemplo, que é percorrida somente pela orla, em Jerusalém os participantes passam pelas principais vias da cidade, incluindo a Cidade Velha, o que dá um tom especial pra quem corre. Quem saísse às ruas naquela manhã só veria os corredores e o público ao seu redor. Como acontece nas corridas de rua mundo afora, quem não corria estimulava os participantes com gritos e palmas. Além disso, personagens fantasiados e os grupos de batucada ao longo do percurso foram contratados para animar a corrida.

Um dos grupos de percussão que animaram o evento. Arquivo pessoal.
Um dos grupos de percussão que animaram o evento. Arquivo pessoal.

Apesar dos organizadores do evento terem divulgado que a data foi escolhida em função de condições climáticas propícias, o calor estava muito forte. Some isso às descidas e (principalmente) subidas da cidade e dá para ter uma ideia melhor da dificuldade da prova. Não à toa essa é considerada a maratona mais difícil do país e uma das mais difíceis do mundo.

Tel Aviv teve sua Maratona há cerca de um mês, e muitos participantes aproveitaram a época de Purim para correr fantasiados, dialogando com o clima leve e descontraído da cidade. Já a corrida de Jerusalém, na minha visão, foi marcada por uma mensagem mais sutil passada pelos corredores: a política está presente em todos os âmbitos da cidade, mas é possível que seus habitantes convivam e participem juntos de seus eventos mesmo com opiniões diferentes.

Ao longo do percurso, vi corredores e espectadores com as mais diversas faixas e camisas: “Am Israel Hai[ref]“O povo de Israel vive”[/ref]”; “Os terroristas não vencerão”; “Linha de chegada à frente: dois Estados para dois povos”; entre outras. Havia também inúmeros grupos uniformizados (Unidades do Exército Israelense, Yeshivot[ref]Instituições de ensino religioso judaico[/ref], Combate ao Câncer, Prevenção de Acidentes de Trânsito, etc). Destaque para bebês sendo levados em carrinhos por suas famílias e para os diversos cadeirantes que completaram suas provas. Na contramão dessa diversidade saudável, manifestantes com bandeiras palestinas tentaram impedir a passagem de corredores no Portão de Damasco, mas foram detidos pelos policias. O caso foi uma exceção nesse dia festivo.

Corredores entrando na Cidade Velha de Jerusalém.
Corredores entrando na Cidade Velha de Jerusalém.

Outro ponto que eu chamaria a atenção na Maratona de Jerusalém é a possibilidade de se aproveitar a cidade de uma forma diferente. Além de um estímulo ao esporte e à qualidade de vida, eventos como esse mostram que Jerusalém pode sair dos seus esteriótipos e ser ressignificada pelos seus moradores quando eles fogem da rotina e tiram o foco – mesmo que só esporadicamente – dos seus tão conhecidos problemas.

Me mudei para Jerusalém na véspera da corrida, e não conseguiria imaginar uma recepção tão boa. Depois de passar pela linha de chegada e me juntar a outros milhares de corredores e acompanhantes no Parque Sacher, vi que a beleza da cidade não está só nos seus três mil anos de história e nas suas pedras calcárias, mas também na forma que as pessoas (per)correm esses caminhos.

Foto de capa: http://www.police.gov.il/Images/MainArticleImageImg/9b9d671f-c83b-43b1-bf88-e8705cfc5f06_1-DSC_5432-001.jpg

Adam Mehl veio morar em Israel em 2013, alguns meses depois de se formar em Economia na UFRJ. Está ansioso por conhecer cada vez mais seu novo país; suas culturas, políticas, naturezas e pessoas.
Adam Mehl veio morar em Israel em 2013, alguns meses depois de se formar em Economia na UFRJ. Está ansioso por conhecer cada vez mais seu novo país; suas culturas, políticas, naturezas e pessoas.

Comentários    ( 4 )

4 Responses to “A corrida que parou Jerusalém”

  • Raul Gottlieb

    29/03/2014 at 12:47

    Deve ser muito cansativo correr uma Maratona em Jerusalém, devido à altitude da cidade e, principalmente, às suas grandes subidas e descidas. A maratona do Rio é toda no plano. Kol Hakavod para você.

    E é impossível deixar de pensar também no simbolismo “Atenas-Jerusalém” desta corrida. Esta expressão foi usada por Leo Strauss para tipificar o homem moderno que se debateria, segundo ele, entre Atenas (o racionalismo) e Jerusalém (a espiritualidade).

    A Maratona de J’lem leva Atenas para Jerusalém, ao invés de opor dos dois conceitos. Acho sensacional.

    • Mario S Nusbaum

      29/03/2014 at 15:36

      Não acredito que a altitude, semelhante à de SP, chegue a afetar Raul. As subidas e descidas sim, sem dúvida.

    • Dessa

      29/04/2015 at 02:14

      Tenho muita vontade de conhecer Jerusalém e gostaria de saber qual a época mais em conta para se comprar passagens e onde posso fazer isso!!
      Se alguém puder ajudar…. ^^
      Desde já agradeço!

  • Mauricio Peres Pencak

    03/04/2014 at 23:00

    Tenho o hábito de correr e um de meus sonhos é realizar esse percurso. PARABÉNS!