Coxinha de gefiltefish

15/04/2016 | Cultura e Esporte; Opinião

Desde, mais ou menos, 2013, o brasileiro descobriu a dor e a alegria de fazer parte de uma sociedade, que discute política com paixão, em nível nacional. A partir daí, almoços de família, cerveja com os amigos e até festinhas de criança, não tem sido mais a mesma coisa. A timeline do Facebook se tornando uma batalha campal entre memes de direita que assassinam a gramática, memes de esquerda que assassinam a ortografia e ambos matando a lógica e o bom senso. Mais assustadores que as fotos dos cachorrinos estrupiados, que antes disso, vinham nos assombrar.

A impressão é de que sempre foi assim, que aquele seu cunhado sempre foi um mortadela vagabundo, e seu chefe, coxinha reaça. Mas, essas expressões são novidade no mundo político nacional. Fazer uso delas, de forma acusatória durante a festinha da firma, ou passeio no parque, coisa inédita. E depois dos cachorrinhos estrupiados no Facebook, parece que esse é o mais novo sinal de fim do mundo.

(Não que o Brasil não tivesse experimentado violência explosiva antes. Mas, em âmbito nacional, uma comoção digna de quebra-pau em casa, que dividisse a pátria de forma tão binária e irredutível, exigindo um posicionamento histérico e estridente, foi apenas em 64, e agora.)

Aqui, Israel tem algo a ensinar para o Brasil. Como diz o dito, para cada dois judeus, há três opiniões diferentes. Com 6 milhões de judeus, temos 9 milhões 18 trilhões de opiniões*  – todas contraditórias e apaixonadas. E a paixão política já existe há mais de 100 anos.

* De acordo com meu colega Yair, corretamente me puxando a orelha pela minha falta de cuidado com Análise Combinatória: “muito mais! cada um tem a sua opinião, e uma opinião a mais para cada par de pessoas. Se há N pessoas na população, então o número de pares é o coeficiente binomial B(N,2) = N! / ((N-2)! * 2!). Some-se a isto N, e temos que o número de opiniões numa população de N judeus são B(N,2) + N. Para 6 milhões de judeus são 18000003000000 opiniões, ou um pouco a mais que 18 trilhões.”


Israel principiou-se com briga entre Trokistas e Leninistas, financiados por um banqueiro francês e um industrial italiano bilionários. Seguiu-se (sem abandonar a briga anterior: apenas adicionando-se a ela) a briga entre trabalhadores do campo e seus correspondentes urbanos. Entre os que falavam yídish e os que falavam hebraico.

Briga é um eufemismo. Famílias deixavam de falar com seus filhos se estes respondessem em hebraico. Lojas eram boicotadas se tivessem cartazes em yídish.

E, por fim, a briga sobreviveu à guerra. Diferentes formas de lutar também se tornaram causa de pancadaria. O Irgun, e o recém criado IDF, quase se mataram por conta de um barco e sua carga (caso Altalena). Sequelas desta briga de 1948 duram até hoje, com velhinhos mutualmente se acusando de traidores e apontando suas combalidas bengalas uns aos outros. Direitistas fanáticos, velhos ou não, ainda vociferam contra Ben-Gurion.

Brigas — brigas de rachar famílias para sempre — seguiram-se. Foi por causa do movimento dos kibutzim que tinham mais força política que os trabalhadores urbanos, embora fossem minoria. Foi por causa do desacordo entre Ben-Gurion e Eisenhower durante a guerra de Suez. Ben-Gurion foi acusado de tudo, e o MAKI (seu partido) sangrou por dentro. Até pouco tempo atrás,, os herdeiros do MAKI, o Partido Trabalhista, mantinham uma divisão interna entre os que apoiaram Ben-Gurion e os que eram oposição interna.

Anos depois, foi a vinda dos judeus dos países árabes. O que era para ser um evento migratório, se tornou um dos maiores motores políticos de Israel anos depois (ou seja; hoje). O Brasil tem coxinhas contra mortadelas? Aqui havia (e ainda há) o chraime contra o gefiltefish. Os gefiltefish (os judeus Ashkenazim, vindos da Europa) fizeram filme ridicularizando os chraime (os judeus Sefaradim, de maioria vindos do norte da África e oriente) e dificultando sua acensão econômica e social, por muito tempo.

E essa cicatriz de tantos anos surtiu efeitos: Os gefiltefish de Tel-Aviv votaram, no ano passado, em sua maioria, na centro-esquerda. Os chraime da periferia votaram no Likud.

Tudo porque, em 1977, Menachen Begin (lembram do caso Altalena, do IDF contra o Irgun? Pois é, Menachen Begin era o chefe do Irgun) enfim, tudo porque Menachen Begin, primeiro Primeiro Ministro direitista de Israel, apoiou esses imigrantes dos países árabes. Por conta das condições que encontraram na época em que vieram a Israel, por conta da maneira como o governo os atendeu, até hoje famílias sefaradis tem uma dificuldade quase física em votar no Partido Trabalhista, ou qualquer outro partido que os lembre a esquerda.

A briga toma tons cinematográficos com cismas entre gerações, como Yael Dayan, filha de Moshe Dayan, que serviu na Knesset como pacifista do movimento Paz Agora. Ou, no caso mais extremo, Miko Peled, neto de Katsnelson, um dos que assinou a declaração de independência de Israel, e filho de Moti Peled, herói da guerra de 1967. Hoje Miko é uma das mais importantes vozes do movimento BDS contra Israel, e chama seu pai de terrorista.

Em algumas épocas, a tensão sai do controle. No último confronto contra o Hamas, por exemplo, artistas foram execrados por terem expresso suas opiniões, ao ponto do boicote. Embates nas ruas, extremamente violentos, sujaram movimentos pró e contra o governo. As expressões “terrorista”, “fascista” e “traidor” são evocadas com frequência e facilidade demais. Parece familiar? Bem-vindos ao clube.

Comentários    ( 5 )

5 comentários para “Coxinha de gefiltefish”

  • Rubens Mau

    15/04/2016 at 21:00

    Boa comparação, gostei ! Apenas uma ressalva: você se referiu no artigo ao MAKI -que na verdade é o antigo partido comunista de Israel. O partido de Ben Gurion era o RAFI.

  • Marcelo Starec

    16/04/2016 at 00:07

    Oi Gabriel,

    Ótimo artigo!…Uma coisa é certa – É difícil encontrar um país no mundo em que se discute mais do que em Israel…Essa é uma característica milenar do povo judeu…Seja nos estudos da torá ou em qualquer outro campo,tudo sempre foi muito discutido…A cultura é muito mais de questionar e pensar do que do inverso…mas apesar disso tudo, de uma maneira quase que mágica, repentinamente todos se unem nos momentos importantes!!!…

    Abraço,

    Marcelo.

  • Dani Lindenbaum

    04/05/2016 at 02:33

    Nem Maki, nem Rafi. O partido de Ben Gurion era o MAPAI.
    Bom texto.

Você é humano? *