Crianças vs Brócolis – e o problema com a Democracia

29/06/2016 | Política

bitan-pizza

Todo mundo sabe que brócolis é bom. Cura câncer, AIDS, unha encravada e tira nome sujo do SPC. Mesmo assim, nem todo mundo come brócolis. Não gosta, e prefere morrer de pereba e nó nas tripas. Pais dão brócolis aos seus filhos, mesmo quando estes não gostam. Largam no prato e avisam que não vai ter sobremesa se não comerem tudo. Bons pais, conscientes, dão aos seus filhos uma dieta balanceada, mesmo que haja briga, choro e pratos (ainda cheios) voando.

Está na onda, agora, um tipo de educação na qual os pais querem ser cool. Dar sopa de Sucrilhos com Fanta Uva, e pizza com ketchup — tudo com ketchup — porque é isso que as crianças querem comer. Elas não gostam de brócolis, vamos dar uma aliviada então.

E é esse aí o problema da democracia.

Se as crianças pudessem votar, votariam pela proibição imediata do brócolis e pela universalização do ketchup. Até mesmo no Sucrilhos com Fanta Uva. Morreriam todos em dois dias, numa comatose hiperglicêmica, com um sorriso hipertenso cheio de buracos de cáries.

Se você não vive Netuno, e esteve por lá, sem wifi, durante as últimas semanas, sabe sobre o Brexit (plebiscito sobre a saída da Inglaterra da União Europeia). Não entro no mérito das vantagens e desvantagens de cada uma das opções. Mas uma lista impressionante de profissionais e acadêmicos das mais diversas áreas relevantes explicaram por que o Brexit seria uma má ideia. Foram, como já sabemos, ignorados.

É mais ou menos como ter um exército de médicos e nutricionistas dizendo que você pode não gostar muito de brócolis. Mas trocar por pizza, vai te tornar gordo. Do outro lado, um sujeito de cabelo engraçado falando que essa pizza é feita de uma farinha mágica, cheia de proteínas, vitaminas e sais-mineirais. Além de tudo, emagrece. Na verdade, é feita de brócolis!

O mesmo se passa a respeito de medidas contra o aquecimento global nos EUA, ou a respeito de qualquer coisa que envolva austeridade fiscal no Brasil.

Ou, a respeito da política das colônias em Israel.

Não existe praticamente nenhum general, das forças armadas ou de inteligência (AMAN, Shin Beit ou Mossad) que não insista, vocalmente e publicamente, que a política das colônias em Israel é catastrófica em termos de segurança, de economia, ética e nutrição. Eles dizem, vez após vez, que não é a questão de que o povo se recusa a comer o brócolis que eles entendem como essencial. O problema é que já não é nem pizza que estão nos alimentando, afirmam. É veneno mesmo.

Nossos aclamados nutricionistas insistem que Sucrilhos com Fanta Uva, balas soft e estricnina é, não só refeição completa, mas delicioso e nutritivo.

Um dos lumiares do estadismo desses últimos dias, foi um parlamentar chamado David Bitan, líder da coalizão (coalizão parlamentar, não coalizão dos próprios neurônios, entenda-se). Bitan, num discurso aclamado por todos que gostam de memes, afirmou que:

“Há alguma coisa na função de chefe do Mossad e chefe do Shin Beit que os torna esquerdistas”.

O meme responde: “Algo como compreensão da realidade, conhecimento e fatos, digamos?”

memeA notícia é real, e Bitan não se deu conta da ironia.

Ontem mesmo Israel assinou um acordo com a Turquia. É um acordo importantíssimo para a região toda. Ele vem sendo negociado há mais de seis anos, com idas e vindas dos dois lados. É excelente para Israel. É excelente para a Turquia e, ouso afirmar, que é bom até mesmo para os palestinos.

Pois eis que, para a minha total e completa surpresa (não, não fiquei surpreso de verdade — isso foi sarcasmo), aparece mais uma competentíssima estrela do estadismo internacional: Naftali Bennett.

Sem perder a chance de perder uma chance, saiu atrás do seu eleitorado. E seu eleitorado, segundo as pesquisas, é composto por gente ressentida e, suspeito, lobotomizada. As pesquisas apontam que 56% da população em Israel é contra o acordo. Com sua profunda dependência a opinião de idiotas, Benjamin Netanyahu voltaria atrás se pudesse. Felizmente não pode — o acordo já está assinado. Bennett pode exercer seu direito de espernear a fim de fazer Netanyahu parecer mal na fita. Mas o brócolis já está servido. E é até gostoso.

Comentários    ( 2 )

2 comentários para “Crianças vs Brócolis – e o problema com a Democracia”

  • Mario S Nusbaum

    03/07/2016 at 00:46

    Eu gosto de brócolis Gabriel, mas não gostaria nem um pouco que me proibissem de comer quantas pizzas, feijoadas e picanhas eu quiser.
    E tem mais, ovo, segundo “exércitos de médicos e nutricionistas” era o máximo, passou a ser ruim para a saúde e agora voltou a ser bom.
    Na MINHA opinião os assentamentos são ruins, muito ruins, para Israel e o acordo com a Turquia PARECE ser bom, mas não acho que sou dono da verdade.

    • Gabriel Paciornik

      06/07/2016 at 09:28

      Mário, antes de tudo, que fique claro: um governo responsável não existe para proibir o que eventualmente cause mal, embora algumas escolas políticas (notavelmente a democracia brasileira) pensem assim.

      O governo está aí para tomar medidas dolorosas a curto prazo, mas que, eventualmente, a médio e longo prazo, são muito mais benéficas tanto para a população em geral, quanto para os indivíduos. E não simplesmente fazer a vontade imediata do povo por votos e poder.

      Entendo tua colocação de que às vezes especialistas estão errados. Às vezes, mentem por motivos políticos (a exemplo de como se iniciou a guerra do Iraque). Uma das benesses da democracia é que haverá, literalmente, uma população inteira para escrutinar cada sentença de um plano político. Este é o papel de uma oposição responsável.

      Minha crítica é que há muito populismo e demagogia vendendo porcaria como se fosse vitamina. E o povo aceita.

Você é humano? *