Crimes passionais: o preço desse mau casamento de conveniência

Quando ambos os ex-cônjuges têm razão, pagam juntos o prejuízo. Israelenses e palestinos estão novamente assustados, matando e morrendo, investindo em grades ou psicólogos e rezando baixinho para o mesmo Deus na hora de dormir. Tudo para, em seguida, conviver com o assustador fantasma da guerra.

miriam

O clima por aqui mudou com a chegada do outono e com os consecutivos atentados terroristas que estremecem nossa região. Contrariando recomendações, fui passear pela cidade velha de Jerusalém e me deparei com moscas entediadíssimas com a falta de movimento. Em lugar de esbarrões com ondas de turistas, os poucos transeuntes são observados por policiais e soldados que guardam cada metro de rua.

Nas lojas do shuk árabe, é hora de descanso. Os vendedores sentam-se frente às portas de metal verde para fumar narguilé. Todo mundo com aquela cara de quem já viu esse inevitável filme junto. Em pleno feriado de Sucot, momento em que a cidade deveria fervilhar de visitantes, eles calculavam silenciosos o tamanho do prejuízo do terrorismo, da falta de entendimento, do extremismo de todos os lados. E, surpresa, atino que em Israel, como no Brasil, se faz tudo igual, mesmo quando se busca um resultado diferente. A política por aqui é burlesca como é, aliás, em todo o resto do mundo. Não faz o menor sentido. Ninguém ouve, apenas grita – em Israel e todo o Oriente Médio, parece que ninguém aqui sabe dialogar, ainda mais em voz baixa.

Enquanto o mundo político devora-se a si mesmo, as populações, forçadas a esse casamento por conveniência, se estranham e têm que se virar para se defender. Uma professora brasileira e palestina que conheci há alguns meses me contou que seu filho pequeno volta a fazer xixi na cama toda vez que desconfia que soldados israelenses estão de novo perto do vilarejo onde moram, próximo à Ramala. Ela se diz crente que a vida será infinitamente melhor no momento em que as populações israelenses e palestinas entenderem que vivem um confronto militar e geopolítico que não precisa ser também civil e humano. Eu concordo. Isso  facilitaria incrivelmente nosso já pesado cotidiano.

Mas não é assim e temos criado, por aqui, a geração do medo. Mesmo na minha suburbana Raanana, uma grande amiga proibiu seus filhos de andarem sozinhos na rua. A porta da casa é mantida trancada; as crianças, dentro, estão assustadas. Ela não é exceção.

Meu sobrinho adolescente teve que mudar os planos do fim de semana e voltar às pressas para seu kibutz no norte, onde vive e estuda, encontrando um trajeto que não passasse pela cidade de Afula, palco de dois atentados na semana passada (um na rodoviária pela qual ele sempre passa). Está proibido pela administração da escola de viajar nas próximas semanas. Ou meses. Ou enquanto a situação persistir. Semana passada, minha filha de 13 anos relutou em ir comigo para Jerusalém. “Tenho medo de passear pelas ruas onde um casal judeu foi esfaqueado”, ela me disse. Tem razão? Ela me sonda a respeito de boatos de atentados que recebe pelo Whatsapp. Minha nova regra caseira: só acredito naquilo que sai no jornal. Ela me pergunta se deve se preocupar com os árabes que vê na rua. A verdade é que já não sei. Respondo a ela que não, baseada em uma íntima decisão de não “panicar”.

Visitei Sderot com minha família na semana passada. Por pura curiosidade ou fascínio de imigrante ingênuo, como pensa meu marido israelense, que nunca pisou ali. Muito próxima da fronteira com Gaza, é a cidade israelense que mais sofre durante as guerras no sul. Nossa guia, a “quase” brasileira Ogenia Schcolnik, nos levou a um mirante de onde avistamos nosso “ex-cônjuge”. A proximidade nos permitia até ouvir o chamado do Muezim para a reza.

Ogênia, moradora desde sempre do kibutz Bror Chail, que também fica ali pertinho, nos contou de suas lembranças pré-divórcio. De como os israelenses visitavam e conviviam com palestinos. Do intercâmbio, da troca de serviços, da convivência de um “casal” que convive sem paixão, mas comprometido o suficiente para manter as aparências. Da possibilidade da compaixão em horas difíceis, fruto da convivência pacífica apesar das dores cotidianas.

Hoje isso não existe mais. O casal está rancoroso, seus filhos moram em casas separadas e convivem com mitos endemonizantes. O travesseiro que separava os corpos transformou-se em um tribunal com juízes crueis e dois réus carentes, chorando pelo consolo que lhes cabe.

Ele não virá.

Foto: Miriam Sanger

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Comentários    ( 12 )

12 comentários para “Crimes passionais: o preço desse mau casamento de conveniência”

  • Rita Burd

    14/10/2015 at 14:47

    Miriam
    Excelente o teu depoimento, como sempre.
    Tenho o meu primo com a família que moram há muitos anos em Raanaa. Que lugar maravilhoso, tranquilo e que choque quando eu soube dos atentados logo ali, naquele oásis florido e bem cuidado.
    Estou conectada e sempre estive, com Israel. A cada dia de paz eu fico em paz, em compensação para cada agressão ou atentado, me sinto atingida e perco a paz.
    Rita

    • Miriam Sanger

      14/10/2015 at 18:26

      Oi, Rita.
      Obrigada pela solidariedade. Hoje foi tudo calmo, graças a Deus. Que continue assim!
      Abraço,
      Miriam

  • Mario S Nusbaum

    14/10/2015 at 19:21

    ” De como os israelenses visitavam e conviviam com palestinos. Do intercâmbio, da troca de serviços, da convivência de um “casal” que convive sem paixão, mas comprometido o suficiente para manter as aparências.” Por que/quando/como tudo isso acabou?
    O problema Miriam é que um dos cônjuges obedece cegamente a terceiros que fazem de tudo, literalmente, para que o casamento não dê certo. Acho que não preciso dizer qual deles, mas por via das dúvidas, aí vai: é o que tem por hábito se explodir.

    • Miriam Sanger

      15/10/2015 at 10:42

      Olá, Mario.
      De fato, a comunicação precisa de dois interlocutores envolvidos. Mas há camadas e camadas de lixo, medo, manipulação e sofrimento nesse comportamento de obediência cega aos qual você se refere. Tão grandes e complexas que nem os próprios palestinos conseguem lidar com elas. Por isso, creio que nossa única saída é torcer para que surja dali um líder que consiga unificar posições e tendências, e que possa, em nome de todos os árabes que habitam por aqui, negociar claramente as condições para uma convivência suportável.
      No entanto, importante repetir, ainda mais em tempos de ódio: não se pode generalizar. Não há unidade nem mesmo por trás do extremismo. O que precisamos ver é a voz da razão se sobressair à da ignorância. Isso já acontece em alguns lugares, como Egito e Jordânia.
      Um abraço!
      Miriam

    • Mario S Nusbaum

      15/10/2015 at 15:31

      Oi Miriam,

      ” nossa única saída é torcer para que surja dali um líder que consiga unificar posições e tendências, e que possa, em nome de todos os árabes que habitam por aqui, negociar claramente as condições para uma convivência suportável.”
      Não poderia concordar mais, e não poderia discordar mais daqueles que negam isso e vivem ditando regras sobre o que Israel deveria fazer.

    • Miriam Sanger

      15/10/2015 at 15:56

      🙂

  • Fabio

    14/10/2015 at 20:06

    Ola Miriam,

    Desculpe-me pela sinceridade so que este texto e de pessimo gosto.

    Comparar o conflito ou justificar palestinos terroristas que matam pela justificativa divina de ir para o ceu, encontrar virgens, com um casamento mal sucedido e bem contraditorio.

    Infelizmente, pessoas leem este texto, e se iludem que o problema e algo facil de resolve-lo, e que o problema e ma vontade dos politicos.

    Veja o que esta acontecendo na Europa, ou em todos os paises dominados pelo extremismo islamico onde centenas de milhares de pessoas sao mortas por ano pela justificativa divina.

    Em relacao a Sderot, nao consigo entender a frase que fala que ir visitar Sderot e curiosidade de imigrante novo… nao tem muito cabimento morar num pais tao pequeno e nao conhece-lo.

    ,

    • Miriam Sanger

      15/10/2015 at 10:36

      Olá, Fábio.
      Entendo que não tenha gostado do texto. Nele eu apenas expressei a minha opinião, que não precisa de nenhuma forma ser aceita.
      Utilizei um casamento fracassado como metáfora. Nos tempos antigos, povos se uniam por questões de poder. Os nossos foram reunidos por questões que nada têm a ver com amor, desejo, pontos em comum. Estamos simplesmente compartilhando a mesma terra (cama). Essa foi a figura que busquei desenhar.
      Essa nova onda de violência foi motivada por líderes políticos, um exemplo evidente de má vontade em buscar uma solução racional. O povo árabe é diversificado e há grupos diferentes, cada um com seus anseios e características. Extremistas de todos os credos e nacionalidades precisam ser contidos, e não representam toda a população. Os terroristas não representam todo o povo árabe ou palestino (lembrando que os últimos incidentes foram causados por árabes israelenses). Da mesma forma, os terroristas judeus que fizeram tanto papelão esse ano não me representam e nem a ninguém que eu conheça pessoalmente.
      Individualizar é importante, generalizar é perigoso.
      Sderot é uma cidade distante, conhecida nos noticiários pela proximidade com Gaza e pelos frequentes ataques que sofrem quando há guerra na região. Nâo há um único ponto turístico ou atração. Só quem tem curiosidade por saber como vivem as pessoas por lá a visitam. Por isso digo que fui até lá por curiosidade de imigrante, e meu marido, israelense, nunca pensou que ela valeria uma visita, assim como outras dezenas de pequenas cidade locais. Vivi 43 anos em São Paulo e não conheço nem mesmo o bairro do Butantã, do qual fui vizinha por muito tempo. Seria perfeitamente aceitável caso eu nunca tivesse conhecido Sderot, mesmo vivendo em um país pequeno.
      Obrigada pela mensagem!
      Miriam

    • Fabio

      15/10/2015 at 18:32

      Onde exatamente generalizei ?

      Incidentes voce se refere a atenatados ? Nao acho que os termos tem os mesmos valores.

      Nao escrevi en nenhum momento que todos os arabes sao terroristas, mas nao consigo entender porque voce utiliza termos como extremistas ao inves de terroristas, e necessario dar nome aos bois.
      os casos de esfaqueamento atropelamentos ou de incediar casas de forma proposital sao casos de terrorismo e nao extremismo.

      Acho seu texto de extremo ufanismo, acreditar numa situacao poetica completamente hipotetica que esta extremamente distante separam Sderot de Raanana).

      Mas prefiro parar por aqui…

      .

    • Miriam Sanger

      17/10/2015 at 21:08

      Olá, Fábio.
      O dicionário define que “incidente” significa, entre outros termos, “evento” e “ocorrência”. Escrevi nesse sentido e achei que isso estivesse claro no texto.
      Não substituí uma palavra por outra. Todo terrorista é um extremista, mas todo extremista não se torna terrorista. E extremistas são todos os que participam de alguma forma dessas ações, inclusive os líderes que os incitam. Assim, creio que utilizei o termo de forma correta.
      Há algum outro significado para ufanismo que não seja patriotismo? Se houver, não conheci, e por isso não entendi sua colocação.
      Também não entendi sua última frase.
      De qualquer forma, creio que estamos com um problema grave de comunicação. O que acontece, mesmo nas melhores famílias.
      Obrigada pela participação,
      Miriam

  • Marcelo Starec

    14/10/2015 at 20:35

    Oi Miriam,

    Muito bom artigo. Sinto em suas palavras o mesmo pessimismo que estou sentindo hoje!…O que fazer?…Confesso que não sei e sinceramente acho que ninguém sabe – o que quem propõe algo faz é dar um palpite, sem nenhuma segurança do resultado a curto, médio e longo prazo. A minha sugestão é tentar pensar fora da caixa e um primeiro ponto é entender que o fundamentalismo islâmico e judaico (ou de qualquer outra fé) não reage em conformidade com a “lógica ocidental”, por assim dizer…O islâmico está hoje muito forte – e no poder em muitos locais – e não acredita em paz – mas tão somente em Hudna (Trégua – até poder vencer!) e na Taqyia (Pode mentir descaradamente, contanto que seja para atingir um objetivo a longo prazo). Nesse contexto, o “quanto pior, melhor” interessa a essa lógica extremista!…Entendo que quem quer entender o contexto deste conflito a fundo, precisa parar e refletir acerca das pessoas reais e não de “palestinos idealizados” ou minorias reais que não tem força para enfrentar os extremistas. Enfim, se o desfecho (assim espero!) puder ser de Dois Estados pacíficos, lado a lado, isso dependerá de uma mudança radical na liderança palestina, uma geração com educação ocidentalizada e moderna, educada e disposta a coexistir…Aí sim pode-se chegar a uma paz verdadeira. Em caso contrário, o que Israel terá na Judeia e Samaria será uma “Nova Gaza” (e o Abbas será destituído pelo Hamas ou outro grupo extremista)…e a absurda demanda por 5 milhões de refugiados para dentro de Israel – o que transformará Israel na sonhada “palestina laica” por setores da esquerda brasileira, sob domínio islâmico pelo voto, será algo real !!!…Tenho muita pena das pessoas comuns palestinas, que são manipuladas e esse cenário será péssimo para eles também, não somente para os judeus. Mas é isso, o mundo islâmico do Oriente Médio é em regra um mar de ódio e até quando Israel continuará a ser um oásis de progresso?…Até quando?…O nosso futuro está em jogo!!!….

    Abraço,

    Marcelo.

    • Miriam Sanger

      15/10/2015 at 10:24

      Olá, Marcelo.

      Pois é, pessimismo é o tom desse momento de crise. Todas as soluções possíveis estão na mesa, mas nenhum parece atender a todos. Começo a achar que há problemas para os quais não existem soluções, e esse é o pior dos mundos.
      Pensar fora da caixa seria ótimo. Mas, enquanto não houver vontade, nem isso haverá de trazer resultados.
      Vamos torcendo pelo melhor e fazendo nossa parte, sem ódio, sem medo.
      Abraço!
      Miriam

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