Crise da democracia israelense?

26/12/2012 | Eleições; Política

Em uma pesquisa sobre a confiança da população israelense nas instituições políticas de seu país, realizada recentemente pelo Instituto Israelense para Democracia, os partidos políticos foram aqueles que obtiveram o menor índice de aprovação. Segundo a pesquisa, apenas 34% da população (variação mínima entre as populações judaica e árabe) têm confiança nos partidos políticos; para entender melhor o que esses 34% representam, compare-os aos 73.4% e aos 78.6% da população que confiam no Supremo Tribunal e no presidente, respectivamente. Os números já seriam expressivos se baseássemos nossa análise em uma comparação entre instituições políticas; no entanto, as variações no nível de confiança nos últimos 10 anos agravam consideravelmente o quadro: entre os anos de 2003 e 2012 temos uma média de 24.7% da população depositando confiança nos partidos políticos israelenses – em 2008 observa-se o menor índice (15.3%) e em 2011 o maior (35.6%). O que surpreende nesses números é a estabilidade sustentada em níveis muito baixos, tanto em uma comparação entre instituições, quanto em uma análise temporal. Diante desse quadro, duas perguntas tornam-se essenciais: (1) Qual a razão para essa percepção negativa em relação aos partidos políticos israelenses? (2) O baixo índice de confiança aponta uma crise democrática em Israel? Essas são algumas das perguntas que tentarei responder.

Israel - Crise da democracia Israelense?

A avaliação negativa que a população israelense faz de seus partidos políticos é resultado de três fatores:

(1) Frágil fidelidade partidária. Nos últimos anos, vimos Ehud Barak saindo do Avoda para formar um novo partido (Atzmaut), Tzipi Livni deixando o Kadima e formando Hatnua, Amir Peretz e Amram Mitzna saindo do Avoda e juntando-se a Livni, Naftali Bennet migrando do Likud para Habait Hayehudi e Benjamin Netanyahu e Avigdor Liberman colocando suas diferenças partidárias de lado e formando uma lista comum para as eleições de 2013. Esses são alguns [dentre outros muitos] exemplos que ilustram o baixo nível de fidelidade partidária em Israel.  Como você reagiria ao ver parlamentares do seu partido migrando para outro? Seria ele um traidor? Um estrategista, talvez? Interesseiro? Não posso dizer com precisão qual seria a sua reação diante dessa situação, mas posso, sim, afirmar, que ela não seria positiva; e é natural que assim seja. O eleitor tende a organizar o seu mapa político mental de acordo com as relações que políticos estabelecem com seus partidos; quanto mais associado um político estiver ao seu partido, maior será a certeza do eleitor quanto as posturas desse político. Esse fenômeno ocorre porque todos nós criamos uma idéia geral do que significa ser membro do Avoda ou do Likud, mas não criamos uma idéia geral para cada membro separadamente (criamos para alguns – aqueles em evidência na mídia e no imaginário popular – mas, ainda assim, com base na associação que ele/ela estabelece com seu respectivo partido). Esse mecanismo é chamado por Daniel Kahneman e Amos Tversky de ‘representação‘; segundo eles, a nossa mente não é capaz de captar e distinguir todas as partes, mas é brilhantemente hábil na construção de categorias sociais que conectam as partes e tornam associações possíveis. Por exemplo, eu não preciso te explicar cada item de um cardápio para você entender que um restaurante é bom ou ruim; basta uma boa refeição para você supor que as outras serão boas – essa é a sua idéia geral. O mesmo ocorre na política; diante das constantes mudanças de parlamentares na composição dos partidos, o nosso mecanismo de representação é afetado, ou seja, as associações que antes eram evidentes tornam-se confusas e a eficiência das categorias políticas que construímos em nossas mentes para melhor julgar e avaliar o comportamento de parlamentares diminui; da mesma forma, depois de algumas más experiências, o nosso “bom restaurante” vai parecer estar com problemas. Com a diminuição de seu poder associativo, o eleitor médio passará, naturalmente, a desconfiar dos partidos (assim como passaria a desconfiar do restaurante). De fato, como poderia o eleitor confiar em um partido ‘X’ que tem um ex-membro do partido ‘Y’ e outro de ‘Z’? Com membros que antes pertenciam ao partido ‘Y’ e ‘Z’, qual a verdadeira identidade do partido ‘X’? O ponto é: quanto mais difícil for a aplicação do mecanismo de representação no âmbito político, menor será o interesse e a confiança do eleitor no sistema partidário em geral.

(2) Principalmente na última década, as diferenças entre os partidos se tornaram quase imperceptíveis. Para demonstrar a veracidade desse argumento, seria suficiente citar a declaração da atual líder do partido Avoda que afirma ser “um erro histórico considerar o Avoda um partido de esquerda”. Essa afirmação contradiz não só a própria história do partido, mas a organização do mapa político israelense até então concebida. No entanto, para melhor “apreciarmos” as semelhanças nas plataformas ideológicas dos partidos em pontos cruciais na política israelense, alguns exemplos tornam-se necessários. Considere as posições de Likud, Israel Beiteinu, Avoda e Yesh Atid com relação ao processo de paz e aos assentamentos: todos, sem exceção, são a favor das negociações com a Autoridade Nacional Palestina; todos se opõe a divisão de Jerusalém; e todos concordam com a manutenção dos assentamentos na Cisjordânia (com uma pequena variação nas regiões a serem anexadas). Você deve estar pensando: “mas esse é apenas um aspecto”. Tem razão, mas ao analisar as políticas econômicas de cada um, percebe-se, mais uma vez, que, salvo uma ênfase maior do Avoda no Estado de bem-estar social, o sistema capitalista seguirá operando sem grandes alterações; de fato, as leis de livre mercado, as políticas de não-intervenção e desregulamentação, a manutenção da desigualdade social “produtiva” e o foco em crescimento econômico serão todos devidamente preservados pelos partidos supracitados. Mas qual é o efeito dessa “convergência ideológica” na confiança populacional nos partidos políticos? Para responder a essa pergunta o conceito de ‘representação’ será novamente necessário. Quando as diferenças ideológicas tornam-se mínimas ou inexistentes, nossas categorias políticas mentais já não são mais capazes de distinguir como cada partido se associa a uma ideologia específica. Como saber se o meu partido ainda representa a idéia que tenho dele? Diante da aproximação ideológica dos partidos, a confiança é abalada e, com isso, todo o sistema partidário tende a entrar em falência. Além disso, com a queda no nível de confiança nos partidos, outros fatores terão que determinar a escolha do eleitor (se este optar por escolher); um desses fatores é o que chamo de personificação partidária, o qual explico abaixo como uma das conseqüências de uma emergente cultura presidencialista em Israel.

(3) Emergência de uma cultura presidencialista. Esse último fator é, na realidade, um paradoxo. A estrutura política em Israel é parlamentarista, ou seja, o líder do maior partido na câmara legislativa tem o direito de tentar formar coalizão com maioria absoluta (60+1 – o parlamento possui 120 cadeiras) e, caso esta se estabeleça, ele/ela se tornará automaticamente primeiro(a)-ministro(a). Nesse sistema o eleitor vota no seu partido de preferência, que ganha representação na câmara em proporção ao número total de votos recebidos. Como podemos então afirmar que há a emergência de uma cultura presidencialista, se o eleitor tem somente partidos como opção de voto? Um paradoxo, não? Não exatamente. Em princípio, prensaríamos que o sistema político de um país determina a sua cultura política, ou seja, um padrão comportamental do eleitor que age [na maioria dos casos] segundo as normas estabelecidas; dessa forma, em um sistema que preza pelo voto em partidos, é natural que estes se tornem o ponto de referência para o eleitor. Correto? Não; seria natural, se outros fatores não fossem considerados. Em Israel o eleitor acostumou-se a debater sobre as políticas do Bibi, as propostas da Shelly, o retorno da Tzipi Livni, a queda do Shaul Mofaz, a ascensão do Yair Lapid, as ideologias do Naftali e os discursos do Liberman. Nada errado com isso; a questão é que o ponto focal da população israelense não está mais nos partidos políticos, mas em seus representantes. Dessa forma, observamos uma inversão do que seria uma cultura parlamentarista de representação partidária: o eleitor não decide votar no Likud por sua plataforma ideológica, mas por como essa é representada por Benjamin Netanyahu; o eleitor não está mais interessado em saber se o Avoda é realmente de esquerda ou de direita, mas sobre o que Shelly Yahimovitch pensa sobre o assunto; o eleitor médio não sabe quais as propostas do partido Hatnua, mas sabe exatamente quem é Tzipi Livni; o eleitor não sabe com precisão o que o partido Habait Hayehudi oferece com relação a política econômica israelense, mas abraça graciosamente o carismático Naftali. Diante desse quadro, vemos claramente a emergência de uma cultura presidencialista; uma cultura em que políticos são colocados em evidência e partidos tornam-se meras representações de seus líderes. Somada a fragilidade da fidelidade partidária em Israel e a acentuada convergência ideológica observada no últimos anos, essa nova cultura presidencialista é mais um agravante na desconfiança que o eleitor apresenta em relação aos partidos políticos israelenses.

Essa desconfiança nos partidos políticos israelenses indicam que estamos diante de uma crise democrática? A confiança em partidos políticos não é só um sinal de que uma sociedade é proporcionalmente representada, mas é, também, uma boa indicação de que o interesse público está no centro da discussão política. Não posso garantir que estamos diante de uma crise, pelo menos não na esfera política. Por enquanto, a crise está na cabeça do eleitor que tenta decifrar os recentes acontecimentos políticos e restabelecer seu mecanismo de representação; o problema é que para a instalação de uma crise política generalizada, basta uma pequena crise psicológica não ter sido bem tratada. Nesse caso, a democracia israelense precisa de tratamento.

Comentários    ( 17 )

17 Responses to “Crise da democracia israelense?”

  • Raul Gottlieb

    26/12/2012 at 17:04

    Excelente análise! Parabéns.

    Creio que existe um quarto e importante fator: a percepção pelo israelense que os políticos são corruptos.

    Veja que Israel não figura numa posição honrosa no ranking da ONG International Transparency que mede a percepção de corrupção do país.

    Ao mesmo tempo os muitos últimos casos de corrupção envolvendo políticos, cujo episódio mais recente envolve um ex-Rabino Chefe, ajudam a fixar a percepção que políticos tem uma moral muito duvidosa (Israel tem um ex-presidente na cadeia, condenado por assédio sexual).

    As pessoas tendem a não confiar em pessoas cuja moral não cheira bem. Ao menos em Israel, porque aqui no Brasil o fenômeno parece ser inverso.

    • Gabriel

      26/12/2012 at 17:45

      Oi Raul, é verdade… aqui em Israel a corrupção é realmente mal vista. O bom é que os políticos corruptos são julgados e condenados se culpados.
      Pode demorar, mas acontece. E o exemplo que você citou, do próprio presidente ter sido preso por acusações de assédio sexual, demonstram que o sistema judiciário pelo menos funciona e os criminosos não são livrados impunemente simplesmente porque tem meios financeiros para lavar a mão de altos cargos em algum ministério.
      A moral do sistema judiciário se mantem forte no país na minha opinião.

    • Bruno Lima

      26/12/2012 at 20:30

      Obrigado pelo comentário, Raul.

      Você levanta uma questão interessante, mas desconsidera dois fatores importantes: (1) a idéia de que corrupção e política estão associados não é nova. De fato, a busca por poder, a guerra de interesses, os mecanismos de controle e a popularidade sempre fizeram com que as pessoas tendessem a ver a política como um “jogo sujo”; o quadro torna-se ainda mais grave se considerarmos o uso do dinheiro público. No entanto, apesar dessa percepção negativa, as pessoas nem sempre foram descrentes em relação aos seus partidos; pelo contrário, tinham certeza sobre suas ideologias, sobre a fidelidade de seus integrantes e sobre a importância que seus partidos tinham para o sistema político como um todo. Corrupção (como percepção popular) sempre esteve lá; outros fatores parecem indicar a queda da confiança populacional nos partidos.

      (2) Eu somaria ao seu dado “Israel não figura numa posição honrosa no ranking da ONG International Transparency que mede a percepção de corrupção do país” os 73.4% da população que confia no Supremo Tribunal de Justiça. Esse dado nos leva a crer que o israelense acredita que ações ilegais, como a corrupção, não passarão impunes. Você pode ainda dizer: “mas isso não altera a visão que a população terá de seus políticos” (note que me refiro a políticos e, não, partidos). Não teria tanta certeza; diante de um sistema justo (a punição independe de classe ou status social) e eficiente (os indiciamentos e processos tendem a ocorrer com relativa rapidez), o eleitor pode pensar que política é acompanhada de corrupção, mas, também de punição. Dessa forma, apesar de pensar na política como um jogo corruptível, ele poderá seguir jogando (e confiando – relativamente – em seus jogadores), por saber que a punição virá. É como jogar futebol sem juiz ou com juiz; no primeiro caso, não teremos um orgão externo que punirá quando necessário (independente do time); cada time brigará para que a sua decisão (por um penalti, um cartão, um escanteio, etc.) seja aceita. Assim, podemos dizer, é complicado jogar; não dá pra confiar no jogadores e não há quem controle eles. No segundo caso, jogamos tranquilos, pois sabemos que, apesar de cada time tentar impor a sua vontade diante de jogadas duvidosas, há um árbitro em quem confiamos. A relação entre política-corrupção-tribunal de justiça segue a mesma lógica. Novamente, outros fatores parecem apontar para a queda da confiança em partidos.

      Ainda assim, um ponto interessante!
      Grande abraço.

  • Yair Mau

    26/12/2012 at 17:24

    excelente, parabéns! leitura fluida e bem argumentada

  • Gabriel

    26/12/2012 at 17:32

    Acho que os partidos políticos israelenses nunca foram fortes e sempre houveram mudanças e novos partidos e migrações. Como comunicador, vejo que a diferença está nos meios de comunicação e na difusão dessas ações. Antes era muito mais fácil controlar a opinião pública e manter a democracia alinhada. Com o advento da Internet, o aumento do seu alcance, as redes sociais e a sua influência na opinião das pessoas, cada vez mais fica difícil para a população entrar em acordo.
    Além disso, ficou muito mais fácil cavar por sites de partidos, ser exposto a spinning e outras coisas que ajudam a confundir mais e mais… Criando uma falta de confiança por parte da população.
    Todos os dias somos bombardeados por informações que vão exatamente de frente uma contra a outra e acabamos ficando céticos com relação a tudo que os políticos falem. Acho que a maior barreira para a democracia é a Internet, que veio como utopia democrática e que cada vez mais ajuda a sabotar essa mesma democracia com excesso de informação e desinformação com o mesmo status. Não digo que internet deva ser eliminada, mas que as pessoas devem aprender a LER melhor tudo aquilo ao que são expostas. E os políticos (e principalmente seus marketeiros), devem parar de tentar adaptar suas mensagens para esses públicos – é um ciclo vicioso de bad practices.

    • Bruno Lima

      26/12/2012 at 20:49

      Obrigado pelo seu comentário, Gabriel.

      Achei interessante a sua perspectiva, mas você desenvolve o seu argumento com base numa idéia completamente equivocada.
      Você afirma que “(…)os partidos políticos israelenses nunca foram fortes (…)”
      O Mapai de Ben Gurion, Herut de Menachem Begin, Likud de Shamir e o Avoda de Rabin (para dar só alguns exemplos) não foram partidos políticos israelenses fortes? Não foram referências para o seus respectivos eleitores? Não simbolizam ideologias claras e propostas bem definidas? Não possuiam integrantes leais? A minha opinião é que sim.

      Você ainda diz que “(…)sempre houveram mudanças e novos partidos e migrações (…)”.
      Concordo, mas não na mesma proporção que ocorre hoje. A atual fluidez política impossibilita a formação de qualquer parâmetro analítico; confiar que estaremos falando do mesmo Avoda ou do mesmo Likud daqui há dois meses tornou-se quase impossível. Além disso, cabe aqui dizer que esse é apena um dos fatores para queda da confiança populacional nos partidos políticos israelenses; como explico no texto, convergência ideológica e a emergência de uma cultura presidencialista são outros dois fatores (observe que não temos três expliacações paralelas, mas um argumento composto por três aspectos conectados).

      Apesar dessas duas ressalvas, acho que a relacão que você estabelece entre bombardeio de informações e desconfiança é um insight interessante.
      Novamente, obrigado por opinar!

      Grande abraço.

    • Gabriel

      27/12/2012 at 09:05

      Tem razão, os partidos sim foram fortes. Coloquei depois porque acho que eram fortes. Não realmente fortes, mas logravam passar essa mensagem e lograram manter essa imagem nos livros de história. Não significa que seja verdadeira… entende?
      A repercussão das idéias no meio digital e antes disso pela televisão à cabo, mudaram o cenário político – já que a política depende da opinião pública e a mesma esta mudando…

  • Nelson

    26/12/2012 at 17:50

    Os caras daqui, as vezes, ficam na dependencia de alguem “com carisma”. Ah, faltam lideres de carisma nos dias de hoje, isso é perigoso.

    • Bruno Lima

      26/12/2012 at 20:58

      Concordo 100%, Nelsinho!

    • Gabriel

      27/12/2012 at 09:07

      As pessoas em todo o mundo estão em busca do “salvador da pátria” na política. Esperando que o messias venha no espectro político para resolver todos os problemas das pessoas com seu sorriso mágico.

  • João Koatz Miragaya

    27/12/2012 at 12:18

    Excelente análise!

    Há três pontos para os quais eu chamaria atenção em um texto fututo, Bruno, e fica a dica!

    1) Apesar de concordar com você na sua percepção geral de que deve-se analisar o porquê dos números apontarem uma confiança tão baixa, eu determinaria outro espaço para analisar porque aumentou tanto a confiança nos partidos de 2008 para cá, mesmo com a bagunça feita por políticos como Barak, Amsalem, Livni, Peretz, Mitzna e outros.

    2) Apesar de concordar 100% com seu ponto número 2, eu acredito que a crise, no meu entender, tenha acontecido de forma muito mais violenta quando se formou o Kadima, atraindo para si, ao mesmo tempo, Ariel Sharon e Shimon Peres (dentre outros). Por mais que o Avodá e o Likud já fossem muito mais semelhantes do que pensávamos, o Kadima despolitizou o pouco que restava do espectro político israelense. Foi um fenômeno aparentemente passageiro, mas que deixou marcas profundas.

    3) Excelente a sua análise sobre o novo “presidencialismo” em Israel. De fato, o povo vota nas pessoas, não nos partidos. Basta ver as propagandas políticas. Ninguém fala do HaTnua, do Avoda, do Likud ou do Yesh Atid, mas de Livni, Shely, Bibi ou Lapid. E há gente que não sabe mais no que cada um destes acredita. Quem entende hebraico, assista a este vídeo da propaganda do Meretz e entenderá: http://www.youtube.com/watch?v=vkPibeGoFSQ

    Além disso, é curioso constatar que há poucos partidos sem os chamados “desertores”. Bait HaIeudi e Meretz são, talvez, os dois principais destes. O primeiro está em alta, na minha opinião devido à relação entre junção entre Likud e Israel Beiteynu e a insatisfação da direita com a atuação do governo na última operação em Gaza (a direita radical votava no Libermann, e agora nem ele é suficiente). Outro motivo é o surgimento de uma figura carismática entre laicos e ortodoxos, que posa de moderno mas tem ideias ultraconservadoras, que é o líder do partido Naftali Bennet.

    O Meretz é um caso curioso de quem nada contra a corrente. Sua líder, Zahava Galon, diz toda semana em programas de televisão que o partido é coerente, não tem traidores nem desertores e que não procura estrelas. Defende o mesmo que qualquer partido de esquerda no mundo defende e sempre afirma que a lista do Meretz é excelente. Mas as pessoas parecem não querer saber de uma semi-desconhecida, que defende propostas, ao invés de se apresentar individualmente, que não cogita fazer parte de uma coalizão guiada pela direita ou pelo falso centro, e que defende um partido coerente. E a política israelense se torna cada vez mais personalista.

    Não foi sempre assim. Ben-Gurion, quando saiu do Mapai e criou o Rafi, conseguiu míseras 10 cadeiras na Knesset, e perdeu para o inexpressivo Levi Eshkol. Há 45 anos, nem o mais imponente chefe de Estado da história do país era grande o suficiente para derrotar a instituição Mapai. Há 10 anos, no entanto, Ariel Sharon derrotou sozinho Likud, Avodá e toda a política israelense em função do pragmatismo. São difíceis novos tempos.

    • Bruno Lima

      28/12/2012 at 00:14

      João, obrigado pela análise profunda do meu texto!
      Concordo com você nos três aspectos e acho que cada um tem potencial para se transformar em texto.
      A sua comparação entre Meretz e os demais partidos em relação a ’emergência da cultura presidencialista’ em Israel é muito verdadeira; é difícil ver Zahava Gal-on como uma grande líder, pois ela coloca a liderança do partido nas idéias que este representa. O apelo popular é mínimo e a decisão por não participar do jogo político “presidencialista” tem custado caro para o Meretz em termos de mandato! Na minha opinião, uma pena que assim seja; mais um sinal de que a política israelense transformou-se em um grande teatro onde todos querem ser protagonistas e o público assiste sem nem entender o enredo. O problema é que o ingresso pra essa peça está saindo muito caro para população; como eu digo no texto: “a democracia israelense requer tratamento!”

      Grande abraço.

  • Artur Benchimol

    28/12/2012 at 12:19

    bacana a discussão, galera.

    Eu jogaria um ingrediente a mais na panela do descontentamento dos israelenses: o cinismo.

    Israel mudou de uma sociedade de sonhadores para uma sociedade de realistas. Vamos associar as instituições que estavam na pesquisa: presidente (simbólico), judiciário (funcional) e partidos políticos (representativo). O presidente é como a rainha da Inglaterra, certo? Tem que achar bonitinho. Fácil de confiar. O legislativo, com uma característica de “profissionalismo”, condenando a tempo e com base, tem um critério “objetivo” de avaliação. Se funciona, tá bom. Agora, os partidos políticos, que estabelecem diretamente a ponte eu-sociedade através da representação, ganham míseros 24%? Reflete, pra mim, um pouco de auto-descontentamento. Um pouco de “ah, somos todos assim mesmo”, “nada vai mudar”, “políticos são todos ____”, enfim, aquela boa e velha internalização de visões de mundo fatalistas, baseadas em uma suposta “natureza humana”, que tomam de assalto o eu, e consequentemente, os partidos políticos.

    Concordo com o tratamento indicado pelo Bruno: terapia neles.

    Um pouco de Caetano não faria mal também.

    Grande abraço aos meus pensadores sionistas favoritos.

    • Bruno Lima

      30/12/2012 at 11:19

      Artur, muito interessante o seu comentário.

      Na minha opinião, você traz uma questão ainda mais profunda do que a discutida no texto. Se bem interpreto o que você diz, há em Israel uma crise de identidade maqueada de crise política. Essa é uma avaliação que requer tempo para ser constatada, mas é uma hipótese a ser considerada. Eu, particularmente, tendo a concordar. O israelense vive um período de desconstrução de seu discurso identitário. Israel passou um longo período em que as referências simbólicas eram claras e a narrativa social acomodava-se bem a elas; no entanto, muitos cientistas políticos argumentam que o país está em um período de transição de um discurso republicano, em que o bem comum e o serviço ao coletivo eram prioritários, para um discurso liberal, em que o bem individual e a propriedade privada ganham ênfase. Observe que esse processo não começou agora, mas os primeiros sintomas da crise de identidade/democrácia/partidária que se desenvolveu silenciosamente nos últimos anos começam a surgir somente agora.

      Concordamos, então, que a crise partidária em Israel é, em essência, uma crise da representação do eu. Temos, assim, duas opções: (1) o pós-modernismo israelense se renderá a um novo status quo identitário que servirá de base fixa para construção do discurso comum (provando-se assim que o pós-modernismo é uma perspectiva tórica equivocada. Ela se contrapõe a idéia durkheimiana de restabelecimento constante da harmonia social que, sim, passa por momentos de crise – anomia, como ele chama – mas sempre tendendo a reorganização social); ou (2) o Israelense aprenderá a lidar com a realidade pós-moderna em que a identidade não tem bases fixas, os discursos são oscilantes, os parâmetros sociais são fluidos e a ordem se volta mais para o indivíduo e menos para o coletivo. Veremos…
      Previsões são parte do trabalho científico; elas dão origem as hípoteses que nos desenvolvem…
      Nesse sentido, a sua análise/hípotese é, na minha opinião, um grande passo!

      Obrigado pelo carinho..

      Grande abraço!

  • Deia Naslauski

    30/12/2012 at 23:17

    excelente texto Nobru!

    • Bruno Lima

      31/12/2012 at 10:54

      Obrigado, Deia!
      Estou na dívida de um texto que explique como o tratamento da democracia israelense deve ser realizado. Quem deve ser o terapeuta? Como reconstituir confiança? Essas são algumas das questões que ainda tenho que reponder..
      Em breve…

      Beijo.

  • Raul Gottlieb

    02/01/2013 at 20:52

    O Artur toca num ponto interessante que remete a um pensamento que me parece genial e que ouvi pela primeira vez do Amos Oz:

    Um sonho só é perfeito enquanto não realizado. No momento exato em que se realiza ele já não é exatamente igual ao que sonhamos. Na transformação do imaginado para o real o sonho perde muito de sua mágica.

    Ou em palavras mais chulas (não ditas pelo Amos Oz): ninguém peida na frente da namorada nova.

    Israel é fruto de um sonho e a queda do imaginado (por dois mil anos!) para o real é grande e brutal e este é um fator nada desprezível nesta discussão toda.

    Mas, a meu ver, mesmo assim Israel vai muito bem.

    Abraço, Raul