Crônica da primeira chuva em meu caminho

Hoje, pela primeira vez em pelo menos seis meses, a chuva me pegou pelo caminho. Ela já tinha dado seus primeiros sinais uma meia hora antes e, assim, parte do trecho de bike que percorri para chegar em casa foi feito enquanto eu sentia o cheiro bom de terra molhada. Daí a chuva voltou, enxaguou o chão e se foi, em menos de cinco minutos. Sei que foi só um ensaio rápido: segundo a previsão, teremos pela frente dois dias de dilúvio, até com neve no Hermon. Chegou a hora de tirar dos sacos fechados a vácuo toda a roupa de inverno, botar no lugar as de verão, sumir com os ventiladores e mudar o modo do ar-condicionado.

Já devo ter dito em algum texto que adoro as estações do ano bem demarcadas daqui. O cenário estaria mais completo, ao menos na minha imaginação, se a gente tivesse essa coisa de ver a folhagem ficar vermelha e amarela antes de cair, como acontece mais no alto do nosso hemisfério Norte. Não rola (a verdade é que Israel permanece muito verde no inverno, na maior parte dos lugares. Às vezes mais verde do que no tórrido verão, por motivos óbvios). No entanto, Israel é ponto de parada da rota migratória das aves que fogem da Europa para o clima ameno da África. Para mim, é uma troca justa – cores por bichos felizes –, e logo mais vou de novo pro norte, mais especificamente para o Vale de Hula, para ver a bicharada chegando e saindo em bandos.

Nem todo mundo, no entanto, encara uma programação “outdoor” no inverno, e conheço muitas famílias que embarcam em um espírito “toca do urso” até meados de março, quando o clima começa a esquentar. Aqui, na suburbana Raanana, onde se consolidou uma calorosa comunidade brasileira, a programação mostra isso: depois do piquenique no parque foi a vez do boliche e, em um dia desses próximos, alguns veteranos levarão uma turma de olim chadashim (os novos imigrantes) para o supermercado. A ideia é explicar para quê cada produto de limpeza serve, quais as marcas mais conhecidas, opções de comida daqui que não existem no Brasil etc. Medida sábia: lembro que uma das minhas grandes dificuldades no começo da aliá era entender com que produto se limpa o quê. Não só porque não conseguia ler o rótulo mas, também, porque até então nunca havia feito uma faxina séria na vida. Estou longe de ser a única.

O supermercado foi por muitos meses meu local de passeio favorito em meus primórdios como  israelense. Passava por lá pelo menos umas 3 ou 4 vezes por semana e ficava ali tentando desvendar um novo mundo. Não sei se fazia isso porque era um momento em que eu poderia ficar de bobeira tentando entender onde eu tinha ido parar, forçando a ficha a cair ou talvez fosse pela liberdade de ficar exercitando minha curiosidade sem que ninguém imediatamente se prontificasse a facilitar minha vida, já apelando para o inglês. Talvez fosse simplesmente porque era uma experiência que me aproximasse de minha vida cotidiana anterior. Vá saber.

Passou. Há tempos o mercado é incumbência do marido. Ele compra o “hardware” (arroz, carne, legumes, materiais de limpeza etc.); minha parte é o “software”, tipo queijinho de cabra, chocolate 70% amargo, novos tipos de granola. Talvez eu tenha superado a fase do super porque senti que já poderia exercer o meu fascínio por esse novo mundo atentando a outras coisas, como o noticiário.

(Fazendo um parêntese para falar de atualidade… Nem preciso dizer que, com tudo o que aconteceu em nosso pobre norte do país nesse fim de novembro (veja a matéria do João aqui), clima foi o único tema que existiu por aqui – agora, o único passou a ser responsabilidade: quem paga o prejú, o governo ou as seguradoras?, e também a dor das famílias que perderam tudo.

Ouvi uma ideia interessante em uma prédica rabínica nessa última sexta-feira. Disse ele que Israel está localizado em uma região em que não é totalmente desértica e também não é totalmente temperada. Ano após ano, o povo judeu “trabalha”, em suas orações, para que Deus se lembre de suas necessidades, enviando o clima certo para que a terra permaneça viva e produtiva. E assim, nos últimos dias, os israelenses religiosos rezaram fervorosamente pela chuva. Os laicos acham isso bobagem, mas quase sempre em seus comentários falam “a metereologia afirma que vai chover no dia tal, se Deus quiser”.

Sem julgamentos de uma parte ou de outra, graças a Deus nos esperam dias de chuva. A terra vai descansar do esforço de manter-se viva, a poeira cinzenta que cobre os carros virará lama, as ruas se inundarão e todo mundo vai começar a reclamar dos transtornos no trânsito.

Mas isso já é outra história.

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