A curiosa história do primeiro censo de Israel

06/06/2016 | História; Sociedade

O primeiro censo demográfico de Israel teve o mérito de mapear a população do Estado em seus primeiros meses, e ainda deixou um legado de valor incalculável para o funcionamento da vida quotidiana do cidadão israelense: o número de identidade.

Quando a Guerra de Independência já se aproximava do fim, o Governo Provisório – formado por David Ben-Gurion, a partir da liderança do Yishuv (comunidade judaica residente no Mandato Britânico da Palestina) e da Agência Judaica (o braço executivo do movimento sionista) – começou a planejar a organização da vida civil do país, que incluía eleições para a Assembleia Constituinte (Primeira Knesset). De certa forma, muitas instituições que estão presentes no dia-a-dia dos cidadãos israelenses já haviam sido criadas pelo movimento sionista: universidades, sistema de saúde, bancos. Por outro lado, faltava a capacidade de pensar no Estado como um todo, planejar seu futuro, alocar recursos – e isso não poderia ser herdado dos britânicos, que sequer mantinham um registro populacional.

Para esta missão, foi escolhido o Escritório Central de Estatísticas (CBS na sigla em inglês), fundado apenas alguns meses antes e presidido pelo respeitado demógrafo Roberto Bachi, um judeu nascido em Roma, cuja carreira acadêmica teve de ser transferida para Israel após a publicação das leis raciais italianas em 1938. O CBS propôs que fosse realizado um censo demográfico, com três principais objetivos:

  • Conhecer a quantidade de habitantes do Estado de Israel, judeus e árabes, e sua composição demográfica.
  • Estabelecer um cadastro de eleitores para a Assembleia Constituinte.
  • Criar um registro populacional organizado e metodológico, baseado em números de identidade.

Israel ainda se encontrava em guerra, e algumas decisões tiveram de ser tomadas com o objetivo de adaptar a metodologia comumente utilizada em censos à situação do país à época. Uma vez que a guerra visava justamente definir quais áreas ficariam sob controle judaico e quais sob controle árabe, foi decido que o censo seria realizado apenas no território que se encontrava sob controle militar das Forças de Defesa de Israel em 14 de outubro de 1948 – regiões conquistadas posteriormente seriam recenseadas assim que possível.

Também foi decidido que os recenseadores visitariam cada base militar das FDI a fim de incluir também todas as pessoas em serviço. Como não paravam de chegar novos imigrantes judeus (olim), principalmente da Europa Oriental e do Mundo Árabe, os campos de refugiados montados para absorver esta população em trânsito também foram incluídos no itinerário do censo.

Primeiramente, cada residência recebeu um questionário do CBS que visava coletar as seguintes informações sobre cada cidadão: sobrenome, nome, nome dos pais e dos filhos, data de nascimento, local de nascimento, sexo, estado civil, data de chegada a Israel (aliá), data de estabelecimento no local de moradia atual, cidadania e nacionalidade – a lei israelense difere entre cidadania (associada ao país, podendo ser “cidadania israelense”, por exemplo) e nacionalidade (associada à nação, podendo ser árabe ou judeu, por exemplo) – religião, idiomas que fala, nível de alfabetização, profissão, ocupação, endereços residencial e de trabalho, informações sobre casamento, divórcio, adoção e tutela, além de datas de saída do país e falecimento.

A segunda fase do censo ocorreu em 8 de novembro de 1948, quando foi imposto um toque de recolher em todo o país, das 17 horas à meia-noite. Durante este período, 14 mil pessoas treinadas pela equipe do professor Bachi visitaram cada residência do Estado de Israel. Ao chegar à casa, o recenseador coletava o questionário, conferia seu preenchimento e ajudava os cidadãos em dúvida quanto a qualquer dos itens. Após contar o número de habitantes da família, o agente do CBS entregava a cada cidadão um canhoto contendo seu novo número de identidade (mispar zehut). E assim seguia-se sucessivamente de casa em casa, de rua em rua, de bairro em bairro.

Os números de identidade tinham valor de registro para as eleições – até hoje não existe um documento eleitoral israelense com número próprio equivalente ao título de eleitor brasileiro, ou ao Voter ID americano, e os cidadãos votam com documentos de identidade e são registrados como eleitores de acordo com seus números de identidade. Posteriormente, cada cidadão recebeu sua carteira de identidade (teudat zehut) com o mesmo número e as informações fornecidas durante o censo.

Como o censo foi realizado de maneira totalmente manual e de forma massiva, em apenas sete horas, os números de identidade foram previamente separados e alocados entre os recenseadores. Os números mais baixos, de quatro ou cinco dígitos (o primeiro sendo 1001) foram usados em Jerusalém e números mais altos, de até seis dígitos foram reservados para o norte do país. Desta forma, entre as pessoas que residem em Israel desde seus primeiros meses, é possível determinar sua cidade – ou até mesmo seu bairro ou rua de origem – apenas por seu número de identidade.

Novos números de identidade são dados a bebês ainda no hospital, e aos olim assim que desembarcam nos portos e aeroportos. Mesmo entre os membros da seita ultraortodoxa anti-sionista Neturei Karta, que se negaram a colaborar com os recenseadores durante o primeiro censo, foram alocados números de identidade gradualmente, à medida em que precisaram receber serviços do Estado. Os números de identidade foram expandidos para comportar o crescimento populacional e atualmente contam com nove dígitos, sendo o nono apenas verificador.

Outros cinco censos foram realizados desde então em Israel (1961, 1972, 1983, 1995 e 2008), tendo ocorrido em situações menos emergenciais e com maior tranquilidade. O último envolveu um número bem menor de recenseadores, que percorreram o país entre 28 de dezembro de 2008 e 19 de fevereiro de 2009 e coletaram dados que foram publicados a partir de 2010. Um diferencial do censo em Israel, um país formado por imigrantes e que continua recebendo um fluxo constante de cidadãos nascidos no exterior, é seu foco nas estatísticas de imigração, com perguntas sobre o número de gerações da família no país e de onde emigraram.

O número de identidade, criado originalmente para cadastrar o eleitorado, se tornou o número de identificação universal em Israel, usado pelos israelenses para registrar-se em qualquer serviço ou instituição. Naturalmente, cada tipo de documento, como carteira de motorista e passaporte, entre outros, possui um número próprio, mas todos também trazem sempre o número de identidade. Exceto pelo tempo em que está no exército, onde efetivamente reina um sistema de identificação particular, o cidadão israelense consegue administrar todas as instâncias de sua vida, dos órgãos públicos às empresas privadas, tendo apenas um número memorizado.

E apenas isso já poderia ser considerado um milagre da redenção do povo judeu na Terra de Israel!


Foto de capa de Rodrigo Uriartt. Seu Flickr é https://www.flickr.com/photos/ruriak/

Comentários    ( 6 )

6 Responses to “A curiosa história do primeiro censo de Israel”

  • Marcelo Starec

    06/06/2016 at 18:49

    Oi Claudio,

    Muito bom o artigo! Gostaria de comentar aqui sobre a população árabe de Israel, a qual desde então até hoje somente cresceu. A cada dia Israel tem mais cidadãos árabes – hoje 13 vezes mais cidadãos árabes do que quando do primeiro censo! No mais, não custa também recordar que os centenas de milhares de judeus que vieram dos países árabes foram, em grande parte, expulsos e hoje em todo o Oriente Médio, com exceção de Israel, a população judaica está praticamente extinta e o mesmo vem ocorrendo, infelizmente, também com os cristãos dessa região.

    Abraço,

    Marcelo.

    • Raul Gottlieb

      10/06/2016 at 14:27

      Marcelo, a proporção de árabes em Israel se mantém relativamente estável. Acho que eram 19% em 1948 e são 21% hoje. O Claudio sabe confirmar este número? Abraço, Raul

    • Claudio Daylac

      12/06/2016 at 21:10

      É por aí mesmo.

    • Claudio Daylac

      12/06/2016 at 21:09

      Oi, Marcelo!

      A população árabe-israelense cresceu em termos absolutos, mas se mantém em torno de 20% desde 1948.
      A única época de exceção a esta tendência são os primeiros anos do Estado, quando a aliá massiva da Europa e do Mundo Árabe levou a parcela judaica da popualção a se aproximar de 90%, o que foi posteriormente “corrigido” pela maior taxa de natalidade árabe.

      Os cristãos são 2% da população (10% dos árabes são cristãos), mas eu não tenho os números de evolução desta população pra te dizer se aumentaram. Em termos absolutos, com certeza aumentaram.

      Obrigado por mais uma visita e um grande abraço!

  • Raul Gottlieb

    10/06/2016 at 14:37

    Oi Claudio,

    Muito bom o texto e muito bom o novo formato do Conexão. Agora vocês tem que caprichar na escolha das fotos, visto que elas são mais visíveis (teve uma foto de um texto sobre política com 3 pessoas enfiando a cara na cueca um do outro que deixou a minha atual esposa enojada – eu também a achei inadequada). Mas o importante é que o novo formato está muito bonito. Parabéns para vocês!

    Gostei do teu censo. Estamos na semana de Bamidbar, que conta sobre um dos censos dos judeus no deserto, ordenado por Deus e feito por Moisés, sem o auxílio do Roberto Bachi. Assim que o teu texto é, inclusive, adequado do ponto de vista religioso. Interessante que em outro ponto da Torá o censo é feito com cada pessoa aportando meio shekel para o tesouro nacional. Ou seja, para ser contado como parte do povo a pessoa tem que contribuir. Uma ideia bacana, não é?

    Um última de pequena observação: o Bach não foi obrigado a ir para Israel. Ele foi obrigado a sair da Itália, por conta de restrições econômicas com origem racial. Mas poderia ter vindo para o Brasil como fizeram muitos outros italianos. Ou para qualquer outra parte do mundo. Ou se arriscar a ficar na Itália em subempregos (muitos judeus italianos sobreviveram se escondendo sem sair do país). Israel foi a opção sionista dele.

    Abraço,
    Raul

    • Claudio Daylac

      12/06/2016 at 21:13

      Oi, Raul.

      Não sei sobre qual imagem você está falando, mas vou passar teu feedback pra frente. Pode ser que o novo layout tenha dado ênfase a uma imagem que antes era marginal.

      Sobre o censo, usamos atualmente a palavra mifkad, que tem origem justamente nestes episódios bíblicos de contagem.

      Sobre o Bachi, com certeza não foi obrigado a fazer aliá. Israel era apenas uma entre as (não) muitas opções disponíveis aos judeus europeus à época, mas sua condição de acadêmico renomado talvez o tenha ajudado a receber um visto na época do Livro Branco britânico.

      Um abraço!