Cuspindo na democracia

Se todos os dias de nossas vidas podem ser considerados “dias históricos”, existem alguns que decidimos guardar em um lugar especial e seguro dentro da gente. Ontem, dia 10 de maio de 2013 foi um destes dias.

Estive no muro das lamentações para rezar o shacharit (reza matinal) junto com as “mulheres do Kotel” . Eu não costumo rezar o shacharit. Não é algo que faça parte do meu cotidiano, mas ontem a minha reza tinha um propósito maior do que apenas a oração. Representava a minha postura ideológica frente ao monopólio ortodoxo do Judaísmo que existe no Estado Judeu.

Muro das Lamentações no início do século XX - Sem divisão de gêneros.
Muro das Lamentações no início do século XX – Sem divisão de gêneros.

Veja o vídeo-documentário que o Yair Mau produziu sobre este dia.

As “Mulheres do Kotel” são uma organização cujo objetivo é garantir os direitos das mulheres de rezar em voz alta, ler a Torá e e praticar o seu judaísmo no Muro das Lamentações. Há 25 anos, o grupo se reune para rezar no local. Algumas mulheres vestem um talit e kipá (vestes rituais), que tradicionalmente são considerados “trajes masculinos”. Diversas vezes, membros do grupo já foram detidos, presos, interrogados e impedidos de retornar ao local durante um período predeterminado pela polícia.

A reza de ontem tinha um gosto especial. Acontecia duas semanas após um tribunal de 2ª instância em Jerusalém ter assegurado o direito das mulheres de rezarem no muro determinando que não houvesse mais prisões. Além disso, nesta mesma semana, houve a divulgação de que Natan Sharansky – o líder da Agência Judaica – estaria analisando um plano para acrescentar um espaço de rezas no Muro para o público “misto”, onde homens e mulheres poderiam estar juntos. Rabinos contrários às decisões, convocaram milhares de alunos e alunas de yeshivot a protestarem contra aquilo que consideram um grande sacrilégio.

Antes de avistar a barreira de segurança que dá acesso ao pátio central do Muro, parecia que estava chegando em um Maracanã lotado. Era possível ouvir aquele som seco, alto e que é quase impossível distinguir as palavras ditas, que emanam das torcidas organizadas. Ao entrar, entendi o que ocorria. Nunca havia visto tantas pessoas naquele local. Era difícil caminhar. No meio de um imenso cordão humano feito por policiais, o grupo de mulheres faziam as suas preces. Consegui – não sem algum esforço – chegar até elas e juntar-me ao grupo.

 

Israel - ConexãoIsrael - mulheres

Ali dentro, presenciei os piores xingamentos e tentativas de agressões físicas. E cuspes. Muitos cuspes. Em um momento vi uma cadeira voando. Empurra-empurra. Garrafas de água e café foram jogados em nossa direção. Fiquei apreensivo. O que aconteceria se os policiais não conseguissem segurar aquela fúria? Melhor me concentrar na reza – pensei…

Ali dentro, rezando junto com aquelas mulheres, olhei para cada uma das líderes daquele movimento. Que coragem! Determinação para enfrentar a ortodoxia e dizer-lhes claramente que o judaísmo não lhes pertence. Que vivemos em um país democrático e que o fundamentalismo religioso não é bem-vindo.

Israel - ConexaoIsrael - mulheres1

Olhei o muro por alguns instantes. O dia estava quente e o sol refletia nas pedras. Um pedaço de parede que é um símbolo de nosso povo a milhares de anos testemunhando mais uma vez um momento determinante para a sua história.

A reza chegou ao final. Cantamos alto o Hatikva (hino nacional de Israel) que eu senti como uma homenagem as instituições do país que garantiram o direito democrático àquelas mulheres. Uma das líderes nos pediu para sairmos juntos cuidando para que ninguém ficasse para trás. Pediu-nos calma e que não respondêssemos às agressões.

Foi feito um corredor de policiais para nos conduzir à saída. A comparação com um “corredor polonês” não poderia ser mais correta. Do lado esquerdo mulheres ortodoxas. Do lado direito um mar de vestes pretas. Todos nos atacavam verbalmente.

A sensação foi muito estranha. Em Israel, o impensável acontecia: judeus (do lado de fora do corredor) gritando para os judeus (do lado de dentro do corredor): “vão embora!”; “vocês não pertencem a este lugar”; “Putas!”; Pedras foram atiradas em nossa direção. E novamente cuspes. Muitos cuspes.

Eu olhei fixamente para alguns daqueles garotos que nos agrediam. Garotos. Vi o olhar de nojo por aquelas mulheres estarem vestidas com uma kipá. Vi a raiva pela escolha de um judaísmo que não era o deles. Vi o ódio ao diferente que é ensinado por rabinos em escolas que deveriam estar prezando pelo debate de idéias e não instigando o confronto físico.

Ontem – guiado por um grupo de mulheres – demos um grande passo para vencer o establishment ortodoxo em Israel. Não tenho dúvidas de que este é somente o início de uma grande caminhada.

Este dia ficará marcado na história de Israel, nas paredes daquele muro e na cabeça daquele que vos escreve.

Comentários    ( 30 )

30 Responses to “Cuspindo na democracia”

  • Raul Gottlieb

    14/05/2013 at 10:36

    Concordo com o Daniel Furrier que o debate neste espaço é muito interessante. Eu tenho defendido que a visão charedi (ultra-ortodoxa) é uma visão política e não religiosa.

    Que a visão política charedi é anti-moderna, no sentido que ela nega a reconhecer os direitos individuais do ser humano à livre escolha de seu caminho pela vida: seus hábitos, seu parceiro, seus amigos, sua profissão, seus interesses, livros, filmes, hobbies e etc., seu partido político e sua forma preferida de organização comunitária, etc. etc.

    Isto é demonstrado inclusive pela escolha da roupa com a qual se vestem, que foi retirada – como diz a Mila com muita graça – do Varsóvia Fashion Week 1783 e não de alguma roupa tradicional sempre usada pelos judeus (que na verdade não existe, pois os judeus sempre se vestiram conforme a moda local – a menos quando foram proibidos). A ideia de que existe algum mandamento religioso que obriga a pessoa a vestir capote preto no verão de Beer-Sheva ou do Rio é fruto da mais completa desinformação. Deus seguramente não nos quer suarentos e fedorentos.

    Isto também é demonstrado pelo movimento que fundou a ultra-ortodoxia (que não aconteceu no Monte Sinai como pensam alguns desinformados), liderado pelo Rabino Moshe Scharaiber – o Chatam Sofer – em meados do século 19 na Hungria. Ele decretou que “o novo é proibido pela Torá” (tirando de contexto uma frase do Talmud que proibia certo procedimento agrícola na lua nova) como uma reação ao movimento Reformista que pregava uma total revisão das leis e costumes judaicos tendo em vista a enorme mudança política na Europa – onde os judeus passaram a ser considerados cidadãos pela primeira vez desde a Idade Antiga – e também ao movimento Ortodoxo, fundado pelo Rabino Samson R. Hirsch, que pregava “bom é Torá integrada aos costumes locais” (uma tradução livre de “Iafé Torá im derech eretz”) e que defendeu a integração dos judeus na sociedade europeia (ele se formou advogado e escrevia em alemão), só que diferente da Reforma optou por manter a halachá, contorcendo-a para apaziguar a lei antiga aos tempos modernos de igualdade, de pesquisa científica, de tecnologia, de liberdade intelectual, etc.

    É preciso distinguir os charedim dos ortodoxos. Os primeiros são anti-modernos, ou seja, anti democráticos e anti-libertários, os segundos não o são. Com os primeiros não há diálogo porque sua opção política é de negar que o diálogo possa existir, os segundos tem pensamento político democrático.

    Tudo isto me veio à mente ao ler o noticiário dos jornais de Israel de hoje. O líder do Shas (partido charedi sefaradi) se revolta contra uma nova lei que obriga as escolas que recebem subsídios do Estado ensinar o currículo básico do Estado, que inclui o que eles chamam de “inutilidades que desviam a pessoa da Torá”: matemática, química, física, inglês, geografia, história e assim por diante.

    A religiosidade é incompatível com a resolução de integrais? A Torá proíbe conhecer a ordem dos afluentes do Rio Amazonas ou onde fica o Butão? Quem lê Torá não pode ler Sheakespeare, pintar ou gostar de chorinho? Obviamente que a Torá não é incompatível como nada disso. Mas uma atitude anti-moderna é.

    E esta é a natureza da luta dos charedim, cuja oposição às mulheres que querem rezar com Talit é apenas uma pequena demonstração.

    Eles são politicamente a favor da existência de comunidades (e não de indivíduos) submissas e dirigidas autocraticamente por Rabinos não eleitos à semelhança da organização política da Europa feudal. Todo o resto é mera consequência desta postura.

    • João K. Miragaya

      14/05/2013 at 11:07

      Daniel e Raul,

      Por favor, evitem generalizar os charedim ou os ortodoxos. Nem todos os charedim são autoritários a este ponto, assim como nem todos os ortodoxos são democratas e “aceitam a modernidade”. Assim como nem todos os laicos, reformistas, conservadores e tradicionalistas o são.

      Existem diversas correntes e diversos indivíduos com pensamentos distintos, e não é justo que os juntemos como farinha do mesmo saco.

      Nenhuma corrente, religiosa ou política, está isenta de ter cometido erros ao longo da história. Nenhuma corrente possui membros desprovidos de sentimentos como o ódio ou a indiferença.

      Não estou de acordo com a porrada em uma só categoria. Se compusessem de fato uma unidade política, eu tenho certeza de que as mulheres do Kotel sequer se aproximariam da Cidade Velha, pois o número de presentes ali foi ínfimo próximo ao total de estudantes de yeshivot em Jerusalém.

      Criminalizar uma categoria específica é a rejeitar o diálogo. Há charedim avessos à violência e dispostos ao debate, e eu prefiro valorizar a estes a virar as costas a todos.

      Um abraço

  • Raul Gottlieb

    14/05/2013 at 13:56

    Caro João, temos que distinguir as atitudes pessoais das posturas políticas. O que eu coloquei foram as posturas políticas das duas correntes e nisto não me parece haver muita dúvida:

    Os charedim seguem o “chadash assur min hatorá” postulado pelo Chatam Sofer e são anti-modernos no sentido de não aceitarem as liberdades individuais.

    Os ortodoxos seguem o “Torá im derech eretz” postulado pelo S.R.Hirsch e são modernos e democráticos.

    Claro que não existe ninguém que segue totalmente as diretrizes de algum movimento. Cada pessoa se permite um nível de acomodação dentro da linha que pertence. E tem também aquelas que não pertencem a linha alguma, pois não tem vocação para pensar nestas coisas e/ou simplesmente fazem o que lhes parece correto ou confortável, sem se sentir ligadas a um compromisso coletivo.

    Então, você está certo, as pessoas não são todas iguais.

    Mas você não tem razão ao dizer que estamos criminalizando alguém ao dizer que a corrente na qual ele está filiado pensa da maneira x. Estamos apenas categorizando o pensamento daquela corrente e não a atitude individual da pessoa.

    Repare que no meu comentário eu não ligo a violência ao pensamento do Chatam Sofer nem a santidade ao de S.R. Hirsch. Sei que a violência é opção individual dos que a cometem e não uma categoria de pensamento.

    Abraço, Raul

Você é humano? *