Dayenu! Basta!

“Por que essa noite é diferente de todas as outras noites?”. Assim se perguntam os judeus do mundo inteiro na noite do Pessach, todo ano, há milhares de anos. O Pessach celebra a liberdade, o fim do domínio de outro povo sobre o povo judeu, que conquistou sua soberania, o direito de decidir sobre o seu próprio destino. No dia 19 de Abril de 1943, a noite do seder [1] de Pessach, muitos judeus do mundo inteiro se repetiam essa mesma pergunta, vacilantes e sem nenhuma esperança de reaver a liberdade propícia à ocasião. Na Hagadá [2] está escrito que em cada geração, cada um deve se sentir como se ele próprio tivesse saído do Egito. Os judeus de 1943 talvez nunca tivessem se sentido tão próximos da escravidão do Egito, e ao mesmo tempo, tão longe de sair dela.

Mas os judeus do Gueto de Varsóvia tinham um sentido especial em fazer a teimosa pergunta. Pois foi nesse mesmo dia que estourou o Levante do Gueto de Varsóvia, a primeira resistência armada organizada de judeus na diáspora, depois de 2000 anos, contra alguma perseguição. Sem apoio e em condições precárias, resistiram aos nazistas por mais tempo do que o próprio exército polonês. O “Dayenu” (Basta!), tradicionalmente entoado em todo seder, foi levado ao seu sentido mais profundo, num desabafo desesperado. Basta! Para nós, chega! Dayenu!

Esse heróico movimento foi organizado por jovens, de não mais do que 20 anos, chaverim, membros, de movimentos juvenis – Hashomer Hatzair, Dror,… Esses movimentos juvenis atuavam de forma ilegal dentro do Gueto, educando jovens judeus, contrabandeando armas, e em alguns casos, até organizando migrações ilegais para a Terra de Israel. Os próprios líderes dos movimentos, de vários guetos pela Europa, conseguiram fugir e se reunir. Eles tinham a oportunidade de migrar para Israel, fundar kibutzim, e viver como sempre sonharam. No entanto, eles escolheram voluntariamente voltar para os seus guetos de origem, por acreditarem que seriam mais úteis ao povo judeu atuando na Europa, onde os judeus mais precisavam deles. Muitos nunca mais saíram. Mas eles puseram em prática o espírito ativista que inspira até hoje os movimentos juvenis,  onde a realização coletiva se torna a sua própria realização pessoal. Deram um sentido ao milenar relato de liberdade, à vida daqueles que se sacrificaram por ela. E deram a resposta, já há muito esperada, à insistente pergunta do seder. Por que essa noite é diferente de todas as outras noites? Porque para nós, basta! Dayenu!


Notas:

[1] Literalmente, “ordem”. Nome do tradicional jantar de Pessach.

[2] Literalmente, “relato”. Livro ritualmente lido na noite de Pessach.

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