De Amor e Trevas

29/04/2016 | Sionismo

Amos Oz publicou De Amor e Trevas* (Sipur al ahava vechoshech – סיפור על אהבה וחושך) em 2002. Trata-se de uma autobiografia parcial, cobrindo sua infância, adolescência e juventude. O livro rapidamente alcançou sucesso internacional e foi traduzido para cerca de 30 idiomas, incluindo versões não-oficiais em árabe e curdo.

O livro é escrito no envolvente estilo de Amos Oz, um dos mais renomados autores israelenses de todos os tempos, e um dos mais reconhecidos internacionalmente na atualidade. É contada com riqueza de detalhes a história da vida do autor, ainda morando com seus pais em um pequeno apartamento na Jerusalém dos últimos anos do Mandato Britânico e nos primeiros anos do Estado de Israel, inclusive durante a Guerra de Independência.

Capa da edição brasileira
Capa da edição brasileira

O garoto começa a jornada como o frágil Amos Klausner, filho de imigrantes intelectuais sionistas-revisionistas da Europa Oriental, e a termina como Amos Oz, membro do Kibutz Hulda, após hebraizar seu nome para afirmar-se como pioneiro sionista. Através destas transformações, transparece a própria história do sionismo realizador clássico, e seu objetivo de criar um novo judeu, em oposição aos decadentes estereótipos do judeu da diáspora.

A forma como esta pacata história familiar se envolve e se enrosca com a história do país durante aqueles anos expõe a origem do envolvimento político de Amos Oz, seu patriotismo e suas convicções ideológicas. O detalhamento com que os fatos são relatados transforma o livro em um vibrante documento da época, de leitura obrigatória para qualquer pessoa interessada no tema.

De Amor e Trevas é um daqueles raros casos de obra que já nasce com status de clássico, e suas múltiplas versões internacionais lhe garantiram lugar cativo em muitas estantes pelo mundo. Nada mais natural que apenas alguém que gozasse de certo  prestígio tanto entre a intelligentsia esquerdista israelense da qual Amos Oz faz parte, quanto entre os figurões de Hollywood, conseguisse obter os direitos para produzir sua adaptação cinematográfica.

Foi aí que entrou Natalie Portman. A atriz americana nascida em Jerusalém é declaradamente sionista e orgulhosa de sua identidade judaica e israelense – além de usar o prestígio de ser um dos principais nomes da década em Hollywood para defender todo tipo de causas que os americanos chamam de “liberais”, inclusive a solução de dois Estados para o conflito entre Israel e os palestinos.

A lenda conta que Natalie Portman adquiriu os direitos cinematográficos sobre a obra em uma conversa com Amos Oz e sua mulher, na casa da família. Em seguida, a atriz partiu em uma jornada de oito anos para financiar e escrever De Amor e Trevas (A Tale of Love and Darkness, 2015), sua estreia como roteirista e diretora.

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Cartaz brasileiro do filme

Dada a envergadura quase épica da obra literária, era claro que sua adaptação cinematográfica viria acompanhada de concessões. E também é um consenso, após 120 anos de cinema, que os filmes tendem a decepcionar se comparados às grandes obras originais – na ponta da língua, eu teria apenas O Poderoso Chefão para citar como a exceção que confirma a regra. São mídias diferentes, com possibilidades e limitações distintas, que devem ser respeitadas e apreciadas.

Optando por filmar em Jerusalém, foi usado o setor ultra-ortodoxo do bairro de Nachlaot, com suas ruas estreitas e casas antigas que, em pleno 2016 de Israel como “start-up nation”, enganam tranquilamente como 1948, da época da cidade sitiada e dos racionamentos. Mas com exceção à icônica descrição da votação do Plano de Partilha da Palestina na Assembleia Geral das Nações Unidas, o filme abre mão de grande parte do papel de documento histórico narrado em primeira pessoa que o livro possui.

O foco na relação entre o jovem Amos e seu pai Arieh, que permeia todo o livro, é alterado para a relação do garoto com a mãe Fania, interpretada pela própria Natalie Portman. Por ser um personagem menos interessante – ainda que bastante complexo – esta escolha acaba por tirar do filme um pouco da força que o livro possui enquanto análise da sociedade judaica ashkenazita de Jerusalém da época, em especial de seus círculos intelectuais.

Natalie Portman escolheu uma obra maior que a vida para sua estreia como roteirista e diretora, uma tarefa ingrata. Como resultado, ficamos com uma película que se encaixa bem na categoria dos bons filmes que tratam de pequenas e interessantes histórias, trazendo um profundo drama familiar, mas usando a História apenas como pano de fundo.

Assista o trailer legendado em português europeu:


De Amor e Trevas deve finalmente estrear no circuito brasileiro no próximo dia 5 de maio.

* A tradução do título original do livro e do filme é “Uma história de amor e trevas”, nome pelo qual foram lançados em Portugal. O título brasileiro de ambas as obras é apenas “De amor e trevas”, conforme lançado pela Cia das Letras em 2005.

Comentários    ( 2 )

2 Responses to “De Amor e Trevas”

  • Marcelo Starec

    29/04/2016 at 21:59

    Oi Claudio,

    Muito bom saber!…Um livro e um filme que eu não deixarei de ler e assistir!!!…Gosto muito de ambos (Amoz Oz e Natalie Portman)…Ela é uma excelente atriz, além de defender em geral valores com os quais me identifico!!!…..

    Abraço,

    Marcelo.

  • Paulo

    02/05/2016 at 05:17

    Olá, Cláudio.

    Ótimo artigo. O livro já conheço, mas não sabia que seria levado ao cinema. De certa forma, discordo de você quando diz que O Poderoso Chefão é exceção que confirma a regra. Há muitos bons filmes inspirados nos livros, desde que não esperemos uma reprodução literal. Torço para que Amor e Trevas faça jus a Amos Oz. Aproveito para recomendar a leitura de “os judeus e as palavras”, uma parceira dele com Fânia Oz, sua filha. Abraço e obrigado.