De vegano em vegano…

Desde que me mudei para Israel diminuí drasticamente meu consumo de carne. É caro e não é nem de longe saborosa como no Brasil, na minha humilde opinião. Essa mudança na alimentação acabou fazendo muito bem pro meu corpo, mas em nenhum momento pensei em virar vegetariana. Continuo carnívora, mas uma carnívora mais consciente sobre a indústria da carne.

Ser vegetariano em Israel é bem fácil, come-se muita salada, grãos, ovos, laticíneos e o que antes me parecia quase impossível, fazer uma refeição sem carne, virou o meu dia a dia.  Mas ser vegetariano não é mais o movimento do momento. Faz algum tempo que se fala mais em veganismo.

O movimento vegano vem crescendo aqui, não necessariamente em número, mas em termos de barulho. Para quem não conhece, o veganismo de uma forma geral é uma filosofia de vida que boicota o consumo de qualquer produto animal. Isso significa que veganos além de não consumirem carne, não comem ovos ou laticínios, mas não só isso, não vestem couro ou utilizam qualquer produto de origem animal.

Nos cardápios dos restaurantes há sempre opções sinalizadas como vegana, passando pelo Aroma, uma cadeia de cafés super popular, até restaurantes chiques do país. Recentemente o Nanuchka, um dos restaurantes da moda de Tel Aviv, de comida da Geórgia, mudou inteiramente sua cozinha para se tornar vegano, o que foi notícia nos sites e recebeu aplausos do público. Do lado da minha casa há um café super charmoso com um adesivo colado na porta “Vegan Friendly”, algo como amigável para veganos.

As redes sociais e a internet são recheadas de vídeos a favor do direitos dos animais, receitas e fotos de comidas veganas. Obviamente a rede responde a isso com coisas engraçadas como esse Tumblr que fez muito sucesso chamado “Vegans que me deprimem” (em hebraico)

Até aí nada demais, mais uma opção de estilo de vida dentro de tantas outras. A questão é que alguns veganios estão se tornando extremistas – o que infelizmente não é palavra nova na região. Alguns meses atrás uma marca de laticínios, Noam, espalhou outdoors por Tel Aviv com a foto de uma criança com o slogan “Para o meu filho somente Noam”. Dias depois do início da campanha vários outdoors apareceram pichados, transformando a frase em “Para o meu filho somente assassinato”.

No dia da independência, Yom Haatzmaut, a ação dos defensores dos animais conseguiu chamar atenção – não sei se para bem ou se para mal. A tradição em Israel é celebrar a independência com um churrasco entre amigos e familiares. Este ano um grupo de ativistas foi ao parque Hayarkon em Tel Aviv, e montou uma churrasqueira de mentira, expondo gatos, ratos e coelhos mortos, para tentar conscientizar as pessoas em volta. As famílias que estavam celebrando ficaram furiosas, especialmente porque havia muitas crianças sendo expostas aos cadáveres dos animais. Os pais se exaltaram, a confusão pegou fogo e a polícia foi chamada. E parece que não foi a primeira vez. Segundo os jornais um grupo já havia sido preso em 2013 por espalhar cabeças de vacas e peixes pela cidade, às vezes em chafarizes, tornando a água vermelha-sangue.

O fenômeno é interessante. Por um lado, somente em uma sociedade em que as pessoas tem um alto nível crítico e possibilidade de manifestar livremente o seu pensamento, é que uma ideologia como esta tem a capacidade de se espalhar com tamanha facilidade, veemência e rapidez. Por outro, é curioso ver o surgimento de um novo movimento radical, uma espécie de “polícia da castidade” com ares “religiosos” em plena Tel Aviv. Uma minoria fundamentalista – que vive prometendo a salvação da humanidade – acredita que em prol de sua causa, tudo é permitido, de tentativas de conversão forçada até a defesa pelo cerceamento da liberdade alheia.

Colaboração Marcelo Treistman

Comentários    ( 13 )

13 comentários para “De vegano em vegano…”

  • Daniel

    12/05/2014 at 23:14

    Vegan Friendly é mais do que apenas uma frase colada na porta de restaurantes com pratos veganos…

    http://www.vegan-friendly.co.il/

    Em 1 ano, o número dos estabelecimentos israelenses cadastrados pulou de 5 para 150 ( isso até meados de 2013 ).

    Inclusive, há o texto da Soraya Rajs no próprio Conexão Israel, no link abaixo.

    http://www.conexaoisrael.org/israel-abre-os-olhos-por-uma-noite/2013-08-28/colaborador

  • Ricky

    13/05/2014 at 16:27

    Ola,

    Ha cerca de 5 meses virei vegano baseado numa filosofia de vida. Não deixei de comer carne por saúde, qualidade ou preço. Os motivos são outros. Motivos esses que baseam o pensamento da esmagadora maioria das pessoas (chutando um numero eu diria mais de 90%) que viraram veganas. (Motivos que não vou listar aqui para não restringir a interpretação do meu comentario a eles.).

    Acho que o texto mostrou o movimento da maneira errada. Por mais que no paragrafo final seja dito “Uma minoria fundamentalista”, me parece que o texto generaliza (“o que infelizmente não é palavra nova na região”) toda a ideologia que está por tras disso.

    Como escrito no texto, a minoria faz esse tipo de ação de mau gosto, chegando as vezes a ser criminosa (ações as quais eu sou completamente contra), mas o texto em sí mostra o veganismo em Israel apenas sob essa otica. Não toca em momento algum nos porquês de o país estar sofrendo essa transformação. Certamente não é por cabeças de boi em chafariz publico.

    Não é a toa que Israel está sendo considerado o primeiro “país vegan” do mundo e eu acredito que o texto poderia, ao invés de apontar extremismos, tentar mostrar o lado bonito da coisa ou explicar o que nos levou a ser um país onde cerca de 5% da população é vegana e 8% vegetariana (fonte: http://www.theveganwoman.com/israel-going-first-vegan-nation/). E contando…

    Mesmo assim, acho muito bom o conexão tocar nesse tema que, como o Daniel disse aqui em cima, está crescendo tanto nesse lado do mundo.

    • Mila Chaseliov

      13/05/2014 at 16:45

      Oi Ricky,
      o que não é novo na região é o extremismo, não importa qual seja a ideologia. Infelizmente aqui existe extremismo pra todos os lados.

      Eu tenho uma amiga está perdendo cabelo por conta da dieta, e tem que tomar vários suplementos médicos pra tentar evitar. Acho que se se chega ao ponto de danificar o próprio corpo por uma filosofia de vida é radicalismo. E sou contra radicalismos, só isso.

      O texto foi exatamente motivado pela ação do grupo. Eu não sou vegana, e acho que esse fenômeno é mais “Medinat Tel Aviv”do que o país. Os veganos representam 2% da população.

      De qualquer forma é um fenômeno interessante, que merece ser observado. Tenho curiosidade de saber como é no Brasil. Você sabe?

      Abraços.

    • Ricky

      14/05/2014 at 09:41

      Oi Mila,

      a grande questão disso tudo é que o texto tinha o objetivo de atacar esse tipo de atividade (criminosa, certa, errada, não interessa) e vocês “juntaram” a farinha. No momento em que escrevem dessa maneira, chamando a atenção ao veganismo, introduzindo o tema com “positividade”, eu não espero que a unica vertente do texto seja essa dura (e importante) critica. Se o objetivo era esse, como você disse, poderia ter ficado claro.

      Em relação à sua amiga que está perdendo cabelo, acredito que você saiba que você e todas as pessoas estão tambem danificando seu proprio corpo com toda a ingestão de produtos animais. Quanta gente não está com as arterias entupidas de gordura, ou tem intolerancia à lactose ou etc etc etc? Já que nós estamos danificando nossos corpos com a alimentação, cada um escolhe qual tipo de problema quer! Eu escolho um que eu imagino fazer mal para o menor numero de pessoas, animais ou ao meio ambiente possivel. Mas não se engane achando que você não danifica seu corpo comendo. Mesmo sendo radicalmente contra radicalismos, acho que você pode dar um pouco mais de atenção à esse ponto.

      Não faço ideia de como é no Brasil, virei vegano em Israel e passei só uma semana no Brasil. Por incrivel que pareça, o país da soja não está preparado para os veganos como está Israel.

      Abs

  • Soraya

    13/05/2014 at 17:36

    Oi Mila,
    Acho legal o conexão abordar o veganismo novamente. Quem acompanha o que acontece em Israel sabe que esse tema já se tornou corriqueiro na mídia, fala-se disso o tempo todo. É um tema atual e faz parte da sociedade israelense atual.
    No entanto, a comparação com religião e o uso de palavras como fanatismo, extremismo, radicalismo, cerceamento de liberdade são, na minha opinião, tentativas de tirar a credibilidade de um movimento que é baseado em motivações racionais e morais: 1) o reconhecimento dos animais como seres capazes de sentir dor e desfrutar, 2) a compreensão de que animais tem direito à própria vida, 3) o reconhecimento de que a única maneira de evitar o sofrimento e a exploração desses seres é não incentivar o consumo de produtos vindos da exploração animal. As motivações não são emocionais e muito menos religiosas ou espirituais, como muitos costumam afirmar.
    É comum ver pessoas irritadas com o ativismo pelos direitos dos animais, seja ele do estilo exemplificado acima ou através de palestras, cartazes, etc. Mas quem entende as motivações do veganismo sabe o quão importante o ativismo é para a causa. Quanto menos demanda pelo produto vindo da exploração animal, maiores são as chances de diminuirmos o abuso que esses seres sofrem. Ou seja, o ativismo é necessário.
    É importante citar que esse grupo ativista citado no texto, o 269 Life, é só um dos muitos grupos ativistas pelos direitos dos animais. E como o Ricky disse, não representa as atitudes de todos os veganos.
    É interessante que você mesma escreveu que crianças estavam expostas a cadáveres de animais, mas essa exposição é feita a todo tempo, na comida do dia-a-dia e na churrasqueiras das mesmas famílias que se enfureceram com os ativistas, só que de maneira maquiada. Onde está a reflexão dessas pessoas?
    E eu te pergunto, o que é radical? O que acontece nos abatedouros não é radical? Incentivar isso não é radical?
    Por último, interessante você usar o termo cerceamento de liberdade para o veganismo, que busca justamente o fim da escravidão animal. Eu ainda não vi um vegano tentar tirar um garfo de carne da boca de alguém. E só pra citar um exemplo, ja viu o tamanho da gaiola de uma galinha presa pela indústria de ovos? Quem ta tirando a liberdade de quem?

  • Daniel

    13/05/2014 at 19:47

    Soraya, quer casar comigo ?

    • Marcelo Treistman

      14/05/2014 at 12:09

      Mila, parabéns pelo texto. Gostei bastante e acho que você levanta pontos importantes.

      Antes de entrar no meu comentário propriamente dito, eu gostaria de ressaltar que eu também amo os animais – ao ponto, mais pra mal passado. Ultrapassado o ponto inicial vamos ao que segue:

      O veganismo apresenta uma belíssima filosofia de vida. A maior parte das pessoas que conheço que se tornaram veganas, o fazem por uma sincera preocupação com o meio ambiente e uma relevante preocupação com a situação de vida e abate dos animais destinados a consumo humano.
      Esta é a parte bonita do veganismo. Mas há a parte perigosa citada no texto: a do “cerceamento de liberdade” questionada pela Soraya. Explico:

      Para pessoas como a Soraya, eu, você e o resto da sociedade, não deveríamos ter direito a consumir carne. Ela votará e escolherá governantes que prometam limitar ou até mesmo cassar o direito de um indivíduo de abrir um açougue.

      O ponto é: existe certa militância vegana (minoria, diga-se de passagem) que deseja tornar a alimentação carnívora em um fato criminoso como o canibalismo. Para eles, o consumo de carne está baseado em um preconceito daqueles que creem que animais são “seres inferiores” – daí o conceito de “especismo” criado para ser análogo ao “racismo”.

      Esta é justamente a questão moral indicada pela Soraya: “Bicho é equivalente a seres humanos porque também sente dor”. Para a Soraya, cada vez que você ingere um hamburguer, você – sim ou sim – comete um assassinato ou no mínimo é cúmplice de tal absurdo! Esta conduta (comer um hamburguer), portanto, deveria ser vedada por lei e seus infratores deveriam ser punidos com o rigor legal. Para este grupo de pessoas, não há argumento possível que justifique o assassinato de seres vivos.

      É possível combater este argumento?

      Creio que não… Os polos do debate não partem da mesma premissa. Eu, e acredito que você também MIla, não sofremos por saber que uma vaca não teve o devido acompanhamento psicológico que lhe preparou para a sua morte no abatedouro. Talvez – de fato – estejamos em estágios diferentes de consciência e civilização. Eu posso conviver tranquilamente com esta acusação. E você?

      A conclusão que eu tiro de toda esta questão é uma só: A Soraya e os manifestantes veganos tem o direito de defender o seu ponto de vista. Tem o direito de se manifestar e de votar em quem quiser. Tem direito a sua ideologia e tem direito a queimar cadáveres de ratos em churrasqueiras de praças públicas no meio de famílias que comemoram felizes o dia da independência com seus cadáveres de vaca.

      Trata-se, em princípio, do mesmo direito que um crente messiânico tem de professar a sua fé em voz alta para todo mundo ouvir em um ônibus lotado numa segunda feira de manhã. O mesmo direito que católicos tem de defender a criminalização do aborto e eleger o lobby “pró-life”. O mesmissimo direito que um comunista tem de criticar o capitalismo como fonte de salvação da humanidade. A questão “moral” sempre estará na base do argumento destes “manifestantes”.

      Simplifico ainda mais: a linha que separa uma defesa de uma ideologia de um comportamento público incoveniente (e chato!) é muito tênue. E como toda manifestação exarcebada, estes manifestantes estão fadados a virar uma caricatura deles mesmos. Apenas mais um grupo fundamentalista que perdeu o senso de humor e que se transformou em um belo tema de piadas.

      Pode ser que este movimento desapareça em alguns anos. Pode ser também que ele cresça e, daqui a um tempo, sejamos todos proibidos de comer uma costelinha no bafo.

      Eu, que defendo o direito a livre expressão, só posso esperar (e somente esperar) que em meu próximo churrasco feliz no parque, eu não seja incomodado por crentes messiânicos declamando textos bíblicos em voz alta, por católicos loucos contrários ao aborto, por comunistas defendendo uma ideologia econômica pré-histórica ou por aqueles que desejam salvar o mundo com uma beterraba em suas mãos.

      Marcelão

  • Raul Gottlieb

    14/05/2014 at 22:00

    Eu também amo os animais, como o Marcelo e seria vegano se a comida fosse boa. Mas o meu gosto não se dá bem com ela.

    Uma vez ficamos numa pousada maravilhosa em Mendoncino, perto de San Francisco, mas ao chegar lá descobrimos que era vegana! Resultado a minha atual esposa que tem um paladar muito pouco afeito às coisas doces não conseguia engolir o café da manhã. Ela já acorda de mau humor pelo simples fato de ter acordado e depois disso enfrentar um café da manhã de panqueca (sem ovo) de chicória com chá de cardamomo selvagem foi demais para ela. O que salvou é que a região é muito bonita.

    Enfim, cada um com a sua filosofia e a sua visão de vida. O que incomoda é a pregação dos que tentam te “converter”. Nada contra uma conversa amistosa, aconselhamentos, etc. Mas quando isto chega no nível missionário a pessoa se torna desagradável. Afinal de contas os homens são carnívoros há milênios, sem sinal de que tenham se dado mal. Que mal faz comer mel, ovo, leite?

    Vamos trocar o lema bíblico ertez zaval chalav udvash (terra que emana leite e mel) para eretz zaval ierakot (terra que emana verduras)? Esta coisa vegana me parece contrária à Torá. Mas cada um na sua, é claro, com todo o carinho pelas alternativas dos demais.

  • Daniel

    15/05/2014 at 04:15

    Depois de ver toda a mudança da Soraya de perto, acompanhando tudo, voce, MArcelao, escrever aqui que “Para pessoas como a Soraya, eu, você e o resto da sociedade, não deveríamos ter direito a consumir carne. Ela votará e escolherá governantes que prometam limitar ou até mesmo cassar o direito de um indivíduo de abrir um açougue” é :
    1 – Piada ?
    2 – Uma forma de resposta que você achou interessante, para colorir o seu texto e trazer o leitor para o seu lado, mesmo sabendo ser mentira?
    3 – Nao tem 3… Só consigo ver essas 2 opçoes…..

    E dizer que toda comida vegana é ruim é falta de informacao e preguiça…. Vide o prato israelense, humus, falafel, salada e pita!!!!!!

    Vale lembrar que eu nao sou vegano nem vegetariano, amo os animais, e nao como o Marcelao de jeito nenhum!!!

    Bjs
    Daniel

    • Marcelo Treistman

      15/05/2014 at 11:30

      Daniel,

      É justamente pelo fato de eu ter acompanhado a transformação alimentar da Soraya que eu posso falar com propriedade sobre a ideologia que a acompanha. Tudo o que foi relatado em minha mensagem trata-se somente da mais pura verdade. Não tenho nenhum objetivo de fazer piada. O assunto é muito sério.

      A escolha da Soraya pelo veganismo é uma forma de proteção de seres vivos contra a exploração de um enorme mercado e ainda contra o cometimento de danos fisicos e emocionais nestes animais criados com o objetivo de consumo humano. A Soraya sofre por saber que um pinto está numa gaiola com outros 500 pintinhos. A Soraya sofre por saber que um filhote foi separado de sua mãe apenas para que seres humanos possam satisfazer os seus desejos alimentares pecaminosos, seja por uma justificativa de “gosto”, cultural, religiosa, histórica… Para ela, deixar de comer carne, faz parte de um processo que nos elevará como sociedade.

      Dito isto, a Soraya possui – sim – uma ideologia política que objetiva cassar o direito da existência do “mercado da carne”. E isto não é nenhum pecado. Como eu disse, ela tem o direito de defender esta ideologia. É apenas coerência e bom-senso… E a Soraya, pelo que eu me lembre, é uma pessoa muito coerente…
      Explico: eu, por exemplo, sou contra o canabalismo. Obviamente, eu não posso defender que apenas EU não me alimente de outros seres humanos enquanto eu sei que o meu vizinho exerce esta conduta com naturalidade. Defendo leis e políticos que compartilham desta minha ideologia com o propósito de impedir um comportamento que eu considero absurdo. O canabalismo deve ser vedado, tanto para mim, quanto para outros cidadãos. É uma questão moral.

      O mesmo vale para a Soraya, não…? Ela mesmo escreveu que a questão vegana é uma “questão Moral”. Esta moral impede que ELA coma animais, bem como a leva a apoiar projetos de lei que cassem a possibilidade de um indivíduo em abrir um açougue. Afinal de contas, a moral da Soraya enxerga o consumo de carne como eu vejo a questão canibal. E, se a Soraya consegue equiparar animais a seres humanos, com direitos inalienáveis a vida, logicamente ela não fica confortável em saber que o seu vizinho está se alimentando de um outro “ser vivo”. E que este ser vivo “sofreu” apenas para servir de alimento ao “mais forte”…

      Portanto repito a frase com a certeza de ter elucidado a questão: “Para pessoas como a Soraya, eu, você e o resto da sociedade, não deveríamos ter direito a consumir carne. Ela votará e escolherá governantes que prometam limitar ou até mesmo cassar o direito de um indivíduo de abrir um açougue”.

      Então Daniel, você que também acompanhou a mudança alimentar da Soraya de perto poderá nos explicar melhor o seu ponto. Por que das duas, uma: ou a questão vegana é uma questão “moral” e a Soraya defende a limitação do mercado da carne para todos os cidadãos ou ela não é uma pessoa coerente com a sua ideologia. Qual das duas opções você escolhe?

      Sem mais, desejo-lhe um fraterno abraço.

  • Soraya

    23/05/2014 at 18:18

    Depois de algum tempo, eu decidi responder a esses posts, porque criou-se uma situação desagradável, com a citação do meu nome algumas vezes. Não sou representante dos veganos, então a discussão sobre o que vocês acreditam ser a minha opinião não é relevante para os leitores. Por favor, não citem o meu nome em suas suposições. Se eu quiser, falo em meu nome.
    No mais, quero dizer duas coisas.
    A primeira, em relação ao cerceamento de liberdade. Acho que nenhum vegano deseja que seus amigos e familiares que são consumidores de produtos animais sejam forçados a qualquer coisa. O desejo é que as pessoas deixem de comprar tais produtos através da conscientização e através de um desejo próprio de deixar essa prática de consumo. Por isso, repito, ações ativistas são importantes, levantando a questão, fazendo as pessoas refletirem, conscientizando (não estou defendendo ações específicas do 269 Life, estou falando da importância do ativismo de uma maneira geral). E, se um dia chegarmos ao ponto de serem aprovadas leis para, por exemplo, proibir-se o consumo da carne, é porque a maioria das pessoas já deixou de praticar tal ação. Será, portanto, uma mudança desejada pela maioria.
    Outra coisa, a Mila disse ter curiosidade sobre o veganismo no Brasil.
    O alcance do veganismo no Brasil não chega aos pés do que está acontecendo em Israel. Acho que o motivo é, em parte, cultural. Como vocês sabem, a carne está presente em quase todas as refeições dos brasileiros. E, em Israel, o consumo é menor. Mas, além dessa questão, o veganismo cresce com mais velocidade em Israel, porque tem grupos ativistas muito fortes, que conseguiram uma façanha importante para a causa: conquistar a mídia. A mídia israelense viu um potencial de polêmica muito grande no veganismo. E, como o país é muito pequeno, qualquer burburinho já vira notícia que se espalha com facilidade. Um exemplo, foi a matéria investigativa do Kolbotek que revelou a violência contra animais no abatedouro da Tnuva (Adom Adom). O repórter da matéria, é um ativista vegano muito conhecido, que vive dando entrevistas para a imprensa israelense.
    Há grupos ativistas grandes e fortes no Brasil também, mas eles ainda não conquistaram a mídia brasileira. Como o país é muito grande, uma ação integrada entre diferentes grupos ativistas se torna um pouco complicada de ser realizada, em Israel é muito mais fácil de isso acontecer. E, com tanta notícia ruim por aqui, fica um pouco difícil fazer com que esse assunto ganhe destaque na imprensa, como tem acontecido em Israel.
    Ser vegano no Brasil é totalmente possível. Preparar refeições veganas em casa é muito fácil. Comer fora é um pouco mais complicado. Ainda bem que existem os buffets. Mas aos pouquinhos, o veganismo ficará um pouco mais popular aqui. Em algumas cidades, já existem mercadinhos veganos, por exemplo. E, com a popularidade do facebook, o infoativismo tem um alcance muito grande no Brasil.

    • Marcelo Treistman

      28/05/2014 at 13:19

      “se um dia chegarmos ao ponto de serem aprovadas leis para, por exemplo, proibir-se o consumo da carne, é porque a maioria das pessoas já deixou de praticar tal ação. Será, portanto, uma mudança desejada pela maioria (Rajs, Soraya – Brasil, maio de 2014)

      Revelo portanto o que eu já havia escrito. A ideologia vegana vê com bons olhos um futuro em que sejam construídas leis contrárias ao consumo de carne. Este é o cerceamento de liberdade indicada em meu comentário. A partir do momento que exista uma lei que proíba o consumo de carne (ainda que apoiada pela maioria), estaremos cerceando a liberdade daqueles que desejam consumí-la. E, como dito, não há nenhum pecado nisso (afinal de contas, já cerceamos a liberdade de consumo de “carne” por parte dos canibais… É uma questão moral!!!). Este desejo pelo “cerceamento” é parte integrante do ativismo vegano.

      Agradeço muitíssimo a Soraya, por ter nos ajudado a esclarecer esta questão.

      Sem mais perguntas, Meritíssimo.

Você é humano? *