Delicioso escapismo

The Promised Podcast é um programa semanal produzido pela TLV1, uma estação de rádio pela internet, transmitida 24 horas por dia, em inglês, da Kikar HaMediná (A Praça do Estado), no coração de Tel Aviv, para o mundo.

Cada episódio tem um formato fixo: os três participantes – a jornalista Allison Kaplan Sommer, o educador e colunista Don Futterman e o professor universitário e âncora do programa Noah Efron – debatem três temas polêmicos da última semana em Israel e, ao final, como bons imigrantes (no caso deles, dos Estados Unidos), contam experiências vividas nos últimos dias que os fizeram refletir e concluir “Que país!”.

Apesar de uma inegável diferença geracional, me identifico com os comentaristas. Somos imigrantes e viemos de uma educação judaica humanista, esquerdista e pacifista – Noah Efron é um antigo membro norte-americano do movimento juvenil Habonim Dror que tanto me influenciou e ainda ajuda a moldar a minha visão de mundo. Optamos por morar em Israel por acreditar que esta é a nossa pátria, o único lugar onde é possível viver uma vida judaica plena. Muitas vezes, entretanto, nos vemos angustiados ao constatar que a realidade do Estado de Israel no século XXI é mais cruel, insensível e preconceituosa do que aquela das décadas anteriores. De certa forma, somos nostálgicos em relação a uma época da história do país que não vivenciamos (e que provavelmente nunca existiu de verdade).

No episódio da primeira semana de agosto, gravado dias após os atentados realizados por terroristas judeus em Jerusalém (esfaqueamento na Parada Gay, cujas vítimas incluíram um colega de turma meu da Universidade Hebraica e uma adolescente que acabou não resistindo aos ferimentos) e na Cisjordânia (incêndio de casas palestinas que resultou na morte de um bebê e seus pais), percebe-se que Efron simplesmente não tem mais forças de seguir debatendo as grandes questões do Estado.

Abandonado por seus dois costumeiros interlocutores, ambos em viagens ao exterior, o âncora deixa de lado o formato e opta por convidar a historiadora e linguista especializada no idioma yidish Sandy Fox para debater um tema que levantou polêmica ao ser analisado em um dos episódios anteriores: bandas e artistas israelenses que compõem e interpretam suas canções em outros idiomas.

O leitor mais antigo do Conexão Israel sabe que, muitas vezes, também tenho dificuldade de encarar a realidade israelense, especialmente em seus verões, quando a temperatura sobe e os nervos ficam à flor da pele. A decepção com as manchetes é tão grande que simplesmente não consigo organizar minhas idéias.

O resultado do escapismo de Noah Efron, no entanto, é uma bela playlist do que há de melhor na música produzida em Israel, nos diversos idiomas falados por aqui. Uma linda coleção que exemplifica a diversidade cultural israelense sem deixar de marcar sua posição. Os desabafos, antes e depois da playlist, assim como a escolha da famosa canção hebraica Ein Li Eretz Aheret (Não tenho outro país) para finalizar o programa, com seus poderosos versos “Não tenho outro país/Ainda que minha terra esteja ardendo [em chamas]” e “Não me calarei, pois meu país/mudou de cara”, quase me levaram às lágrimas.

Convido os leitores a ouvirem todo o programa (em inglês), e a conhecerem os demais episódios deste interessantíssimo podcast[ref]Podcast é um arquivo de áudio ou vídeo, divulgado com periodicidade regular e com conteúdo semelhante ao de um programa de rádio ou televisão, que pode ser baixado da Internet e reproduzido no computador ou em dispositivo próprio. (Adaptado do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).[/ref], mas quem quiser apenas ouvir música pode pular direto para o 12º minuto.

O link para ouvir é este aqui e as faixas tocadas, com seus respectivos idioma e artista, estão listadas a seguir:

Árabe: Ruba Shamshoum – Fuqaati (My Bubble) (فُقاعَتي – ربى شمشوم)

Francês: Riff Cohen – J’aime

Russo: Sadyle – Imena

Amárico (idioma etíope): Zvuloon Dub System – Tenesh Kelbe Lay

Dialeto judaico-iraquiano: Dudu Tassa & the Kuwaitis – Walla Ajabni Jamalak

Dialeto judaico-iemenita: A-Wa – Habib Galbi

Dialeto judaico-marroquino: Joe Elbaz & The Blues Angels – Moroccan Hoochie Coochie

Ladino (dialeto judaico-espanhol): Guy & Roey Zu Aretz – Quando El Rey Nimrod

Yidish (dialeto judaico-alemão): Ramzeilach – Fir Zin

Romeno: Balkan Beat Box – Balkumbia

Espanhol: Los Caparos – Volver

Inglês: Daniella Spektor and Rotem Bar Or – Giant Heart

Hebraico: Corinne Alal – Ein Li Eretz Aheret

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Comentários    ( )

One Response to “Delicioso escapismo”

  • Marcelo Starec

    11/09/2015 at 05:49

    Oi Claudio,

    Interessante o artigo, pois permite muita reflexão!…Em primeiro lugar, quero aqui concordar inteiramente com a sua frase: “De certa forma, somos nostálgicos em relação a uma época da história do país que não vivenciamos (e que provavelmente nunca existiu de verdade).” Esse é o ponto!…Na verdade, entendo como um certo tipo de preconceito, ainda que um “preconceito positivo” buscar no passado, nos pioneiros sionistas, uma sociedade ora formada por pessoas perfeitas e maravilhosas…Eram idealistas sim!..Buscavam o bem sim!…Mas, dito isso, eles falharam em alguns aspectos, embora tiveram tanto sucesso em outros. Em geral, fizeram o melhor possível !…Chegaram lá em paz, construíram um país, apesar de tantas dificuldades…Foram atacados a todo tempo por árabes que não os queriam lá!…Eram pessoas que vinham com uma cultura moderna e extremamente liberal em um mundo totalmente avesso a tudo isso!…Imagina um muçulmano, acostumado com valores “conservadores”, na mesma linha de hoje, sendo confrontados com mulheres jovens e bonitas de bermuda, enxadas na mão, lavrando a terra, dando ordens – vivendo de um modo muito liberal até mesmo para padrões ocidentais da época…Enfim, se aceitar o diferente já era difícil, imagine então coexistir com judeus com esse perfil…Eles não foram aceitos e em meu entender tampouco estavam preocupados em buscar o dialogo com o “outro”, não que isso fosse fácil !…Por fim, foram atacados com o intuito de serem todos “jogados ao mar”, ou seja, sofrerem um genocídio – venceram, com muita dificuldade !…Foram justos com os tantos árabes que lá ficaram e o país cresceu, ficou mais forte, se desenvolveu e mudou muito!…Em muitos sentidos foram heróis e eu particularmente tenho muito orgulho deles e do que eles fizeram, apesar de improvável !…mas é um tanto ingênuo ficar olhando para eles como pessoas que estavam lutando pela paz – não estavam – estavam lutando para sobreviver e vencer!…e hoje, em meu entender por um erro, uma parte da esquerda vai para esse lado nostálgico buscar ali uma história de pessoas “perfeitas em todos os sentidos”…Não eram! Nunca foram!…e tampouco seria razoável imaginar uma hipótese de Israel voltar a ser o “País com os valores de 1948″…Nada disso faz sentido!…Precisamos olhar para a frente e não para trás!…e no mais entender que hoje a sociedade israelense é muito mais rica, próspera, tolerante e vencedora – provendo muito mais segurança e tranquilidade a seus habitantes – e com questões ainda não resolvidas, mas que são as mesmas que já existiam lá, para os pioneiros, que por razões óbvias de risco existencial estes tão somente se preocuparam em sobreviver apesar delas…e nada mais!….

    Abraço,

    Marcelo.

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