A Democracia é mais Judaica que um Estado Nação

Recentemente em Israel há muita discussão em torno de uma lei básica polêmica proposta por alguns ministros do parlamento israelense. Recomendo a leitura do artigo Lei Nacional do Povo Judeu publicado pelo Conexão Israel no dia 27 de Novembro para entender melhor sobre o assunto. Em ocasião desta proposta de lei, um amigo e rabino em Nova Iorque escreveu um artigo explicando porque ele não apoia a lei básica e achei interessante traduzir para expandir a discussão aqui no Conexão. Leia o texto na íntegra:


 

A Democracia é mais Judaica que um Estado Nação

Joshua Weinberg, The Times of Israel, publicado dia 21/11/2014

Quando decidi imigrar para Israel já faz quase uma década, um dos principais motivos foi a inspiração que eu sentia dos primeiros visionários sionistas. A abordagem Herzliana me ensinou sobre a necessidade de uma entidade judaica política soberana na Terra de Israel e a convocação enfática de Ahad HaAm para o desenvolvimento de uma sociedade judaica impregnada de cultura, literatura e idioma judaicos era bem forte. Tinha muito respeito pelo comprometimento de Gordon com a terra e pela visão de Kook de que o Estado de Israel seria o primeiro florescer da redenção.

Eu procurei em Israel uma identidade judaica nacional e étnica, viver a vida de cultura judaica pública que só é possível vivenciar em Israel. Me emocionava fazer parte deste grande experimento e também fazia a minha parte para criar um estado Judaico e Democrático. Como judeu liberal, me preocupava o conteúdo judaico do estado. Todo judeu teria o direito de participar? O Estado Judaico seria acessível para todos os tipos de costumes, correntes e interpretações judaicas? Sempre me senti confortável lidando com estes assuntos, pois podia confiar no caráter democrático do estado.

As coisas estavam longe de ser perfeitas – racismo, machismo e intolerância pareciam envenenar as notícias regularmente – mas eu sempre podia recorrer à Corte Suprema, o Parlamento e a Declaração de Independência (a constituição de Israel) para sustentar o sagrado espírito democrático.

Esta semana, tudo isso está sendo questionado por uma grave proposta de lei que será escutada durante a sessão plenária de domingo no parlamento (23/11/2014). São o sionismo e a visão de mundo de Elkin e Shaked que eu acredito que farão mais para negar o trabalho e feitos dos nossos ancestrais do que qualquer outra proposta já vista no parlamento israelense.

A Lei Básica “Israel – o Estado Nação do Povo Judeu”, proposta e redigida pelos membros do parlamento Elkin, Levin e Shaked não é apenas uma grande ameaça para os direitos civis das minorias de Israel, mas também se opõe a uma maioria de cidadãos que são contra a inserção de Leis Judaicas como leis estatais.

Enquanto o poder Legislativo de Israel propõe medidas tão aterradoras e imperdoáveis, como é que o primeiro-ministro e seu corpo diplomático continuarão defendendo Israel como a “única democracia do Oriente Médio”? Estamos prestes a unir-nos aos nossos vizinhos que negam abertamente os direitos das minorias e que buscam que as leis religiosas façam parte da lei civil? Queremos que os judeus da diáspora se afastem ainda mais de Israel com o efeito devastador que esta proposta garantiria?

Quando Israel embarcou no processo de negociação de paz durante os anos 90, era claro que a maioria da sociedade queria um Estado Judaico e Democrático e que estava disposta a abandonar o sonho de uma Terra de Israel Maior (Israel bíblica) para poder realizar parte do sonho pelo menos – por mais doloroso que possa ser. Aparentemente, parte da sociedade acredita que para manter um “Estado Judaico” (estreitamente definido), a democracia é descartável. A última versão da proposta, por enquanto e ainda bem, incluiu Israel como um Estado Judaico e Democrático, mas grande parte do conteúdo continua sendo o mesmo.

Um Estado Judaico deve ser um Estado onde é possível viver uma vida judaica pública e nacional, além de sustentar a nossa tradição bíblica de justiça e lealdade ao estrangeiro em nosso meio, além do cuidado com os mais pobres. Como a professora Ruth Gavison diz: “Um fortalecimento da visão deste estado, incluindo a ênfase na vitalidade e centralidade do seu caráter judaico único, será alcançado muito mais facilmente através de diversas outras atividades direcionadas”.

O Sionismo de hoje apenas será relevante se tiver as mãos atadas a Democracia, liberdade e tolerância. Vamos olhar para os nossos pioneiros e lembrar aos ministros Elkin, Levin e Shaked que até mesmo Jabotinsky acreditava que a democracia era o sistema político ideal, enfatizando a sua crença na “democracia, um regime parlamentar, liberdade de pensamento, imprensa e associação”.

Joshua-Weinberg O rabino Joshua Weinberg é presidente da ARZA, a Associação de Sionistas Reformistas da América. Ele foi ordenado recentemente pelo Programa Rabínico Israelense HUC-JIR em Jerusalém e reside hoje em Nova Iorque.

 

Na minha opinião, o rabino Joshua bate em uma tecla fundamental: a democracia é mais judaica do que qualquer estado-nação, mesmo este estado-nação sendo rotulado de judaico.

Judaico para quem? Segundo o judaísmo de quem? Quem seria judeu para o estado? É papel do estado definir quem é judeu? Quais seriam as consequências para correntes judaicas sem representação política? Qual é o limite da influência da religião na vida civil?

 

 

Comentários    ( 14 )

14 comentários para “A Democracia é mais Judaica que um Estado Nação”

  • Marcelo Starec

    03/12/2014 at 17:59

    Oi Gabriel,
    Concordo com a sua opinião, notadamente a primeira parte dela: “a democracia é mais judaica do que qualquer estado-nação, mesmo este estado-nação sendo rotulado de judaico.” Definir exatamente quem é judeu é algo muito complexo, e sempre foi, é e sempre será tema de debate…Aliás, a ONU criou Israel como Estado Judeu, Lar Nacional do Povo Judeu. Uma Lei Básica nesse sentido não tem nada de novo e tampouco fere o direito que as minorias em Israel sempre tiveram e continuarão a ter, tanto pelo texto desta Lei Básica como até mesmo pelo espirito democrático do povo judeu. Concluindo, retorno a sua opinião inicial: “a democracia é mais judaica do que qualquer estado-nação, mesmo este estado-nação sendo rotulado de judaico.”…É isso…

    • Gabriel Guzovsky

      05/12/2014 at 16:57

      Bonito Marcelo,

      Foi com esse espírito que fiz alyah para Israel. 🙂
      Infelizmente os aparelhos políticos aqui são movidos por gente e não ideais. Na prática daria espaço para doutrinação que já é praticada por alguns setores religiosos com representação política em Israel.

      Abração!
      Gabriel

  • Raul Gottlieb

    03/12/2014 at 20:44

    Gabriel,

    Este assunto me confunde.

    Eu nasci judeu num estado que se definia católico e democrático pela constituição e nunca sofri discriminação pelo Estado por ser judeu. A democracia foi para o espaço quando eu tinha 13 anos, mas foi para todos, católicos, judeus e todos os demais. Depois voltou a democracia e a nova constituição apagou a definição religiosa do Estado. Nada mudou. Continuei tendo os mesmos direitos e deveres.

    O que a definição de que Israel é um Estado Judaico vai mudar na vida dos cidadãos não judeus? Quais direitos lhes serão subtraídos? Quais obrigações adicionais lhes serão acrescentadas?

    Você (ou mais alguém) sabe responder isto com casos concretos?

    O Estado hoje só serve comida kasher, os feriados são os do calendário judaico e assim por diante. Mas nenhum não judeu é discriminado por conta destas coisas. Tem gente que fala que o Hatikva não o representa. Mas quando eu presto atenção no hino do Brasil digo que ele também não me representa, pois não concordo com quase nenhum dos conceitos lá expostos. Mesmo assim continuo sendo brasileiro com todos os direitos e deveres associados.

    O que vai mudar na realidade israelense caso Israel se defina como estado judaico e democrático?

    Você leu algo a respeito? Sabe esclarecer?

    Abraço, Raul

  • Mario S Nusbaum

    03/12/2014 at 23:28

    ” não é apenas uma grande ameaça para os direitos civis das minorias de Israel, mas também se opõe a uma maioria de cidadãos que são contra a inserção de Leis Judaicas como leis estatais.
    Enquanto o poder Legislativo de Israel propõe medidas tão aterradoras e imperdoáveis,” Posso não ter entendido, mas não vi NADA disso na tal lei. Acho ela completamente dispensável, sem sentido e fora de hora, mas também inócua.

    • Gabriel Guzovsky

      05/12/2014 at 16:41

      Oi Mario,

      Se trata de uma lei básica que parece inocente a primeira vista. Porém a mudança é ideológica e os seus efeitos deverão ser aparentes em algumas gerações apenas.
      Hoje em dia temos diversas correntes do judaísmo espalhadas por todo o mundo. O povo do livro foi expulso de Sião e viveu diásporas que não cabem nas mãos e de todas as diásporas também ficaram sementes por onde passavam.

      O judaísmo não se limita a uma corrente e a maioria dos judeus do mundo (especialmente nas Américas) não são considerados judeus pelas atuais autoridades rabínicas de Israel.
      Dar mais poder ao judaísmo na legislação, no momento e na prática, seria dar mais poder para correntes específicas ortodoxas que têm organização política em Israel.

      O problema é a união formal da religião e do Estado. Além de na prática, a democracia ser uma forma bastante judaica (pós-moderna/iluminada) de governar.
      Tem gente que acredita que Israel precisa de um REI. Imagina só o caminho que poderia trilhar em algumas gerações com maioria de partidos religiosos messiânicos.

      Abraço,
      Gabriel

    • Mario S Nusbaum

      07/12/2014 at 03:10

      Obrigado pela explicação Gabriel, mas tenho a impressão (não passa disso, palpite) que você está sendo extremamente pessimista. Para que não reste dúvida, sou radicalmente contra QUALQUER união entre religião e Estado e se esta lei ajudar a caminhar nessa direção, concordo totalmente com você.

      Não tenho intenção por enquanto de fazer aliá, mas sempre tive curiosidade em saber como meu judaísmo seria considerado em Israel. Por um lado sou ateu, por outro cohen,
      O que você quer dizer com “a maioria dos judeus do mundo (especialmente nas Américas) não são considerados judeus pelas atuais autoridades rabínicas de Israel.”? Ate onde sei, e não sei muito, o problema se limita a conversões feitas por rabinos não-ortodoxos. Vai mais longe do que isso?
      um abraço e um Shabat Shalom atrasado.

    • Gabriel Guzovsky

      10/12/2014 at 12:44

      Sobre as autoridades rabínicas, aqui em Israel são considerados válidos apenas os procedimentos religiosos efetuados pela autoridade religiosa ortodoxa.
      Cada caso é um caso, mas as autoridades aqui têm muita desconfiança de todas as outras correntes do judaísmo e sua validade.
      É a forma que encontram para fazer com que pessoas sejam ensinadas (eu consideraria “doutrinadas”) de acordo com as autoridades ortodoxas de Israel o que é ser judeu.

    • Otávio Zalewski

      04/01/2015 at 13:52

      O que as autoridades rabínicas não concordam são conversões feitas por linhas não ortodoxas, argumento não de todo errado. Porque este tipo de conversão inibe pessoas com interesses escusos e se fossem levados a risca não aconteceria a inundação de falsos judeus russos que começaram a chegar a partir de 1989.
      Abraço, Otávio.

  • Alex Strum

    08/12/2014 at 20:25

    Francamente não entendo como esta lei pode afetar a democracia.
    Me parece que mais do que a lei o centro da questão é a caracterização do que é povo judeu.
    Nós judeus temos a peculiaridade de sermos identificados como uma religião embora cada vez mais judeus sejam seculares, eu incluído, e mesmo assim se consideram pertencentes ao povo judeu.
    Se a lei continuará a permitir que judeus de todo o mundo, independente de corrente religiosa, puderem fazer a aliá, eu apoio a lei.
    Se a lei garantirá que em Israel os judeus poderão se defender sem depender de outros, eu apoio a lei.
    Se a lei irá obrigar a certificação de um rabino para poder ser considerado judeu, eu sou contra a lei.
    Se a lei irá discriminar as outras etnias minoritárias que vivem em Israel, com exceção da possibilidade de imigração que deve ser exclusiva para judeus, eu sou contra a lei.
    Alex

  • Dani Lindenbaum

    12/12/2014 at 03:38

    Sei que hoje em Israel, qualquer pessoa pode se tornar judia e consequentemente cidadão israelense. Conheço amigos que não tem nem pai e mãe judeus, chegam em Israel, se convertem, a conversão é rápida, e tem direitos como qualquer cidadão que nasceu em Israel. Para ser cidadão alemão tem que ter avô alemão. Então Israel continua dando oportunidades para todos que querem abraçar o judaísmo. Estivem em um Kibutz de pessoas que fazem a conversão e vi com meus próprios olhos. Mas veja bem, “pessoas que querem abraçar o judaísmo”, e quem não quer? e um ateu? e uma pessoa que não quer abraçar a religião?..e os árabes não judeus? tem os mesmos direitos???…

    • Alex

      13/12/2014 at 19:07

      O que significa “abraçar o judaismo”?
      Na minha opinião enquanto não formos capazes de separar judeu-povo, judeu-religião e israelense, teremos problemas.
      Uma coisa é se converter à religião judaica, outra é naturalizar-se israelense e uma terceira é pertencer ao povo judeu. As duas primeiras são opções pessoais e a terceira não.
      Da mesma forma como os descendentes de italianos obtem a cidadania italiana, qualquer judeu, independentemente de ser, ou não, religioso, deve ter o direito `a cidadania israelense. Os que não forem judeus devem atender a determinados pré-requisitos para poderem se naturalizar israelenses, assim como em qualquer outro país. Nenhum desses requisitos entretanto deveria, na minha opinião, ser a conversão religiosa.
      Misturar cidadania com religião não dá certo.

    • Marcelo Starec

      13/12/2014 at 20:37

      Oi Dani,
      Acho que a sua questão pode ser facilmente respondida por fatos: Israel foi criado pela ONU para ser o Estado dos judeus – para a autodeterminação do povo judeu. E apesar disso, o número de árabes muçulmanos que vivem em Israel aumentou 13 (treze) vezes entre 1948 e hoje, atingindo hoje cerca de 1,5 milhão. O número de cristãos até mais do que isso – e veja – eles podem sair quando quiserem, mas só saem para fazer turismo!…Em Israel de hoje, um País “high-tech”, cujo coração é o Technion, 21% dos alunos são árabes (a mesma proporção que eles tem na população geral!) e se você fizer uma pesquisa, descobrirá quer Israel é o País que possui a população de origem árabe mais bem educada de todo o mundo!…A lei israelense sempre garantiu direitos iguais a todos os cidadãos que lá residem, independente de cor, religião, etnia, orientação sexual ou qualquer outro aspecto que você queira citar…Infelizmente, o mesmo não vale para os vizinhos, muito pelo contrário…

    • Gabriel Guzovsky

      30/12/2014 at 21:49

      Concordo Marcelo, existe melhor tratamento por que a declaração de independência garante essa igualdade. Uma lei básica que colocasse Israel como Estado Nação do Povo Judeu, mudaria essa relação de direitos iguais (obrigatórios) e sentiríamos seus efeitos negativos em algumas gerações.

      Acho que é uma lei desnecessária que geraria mais problemas do que soluções. O que sim Israel precisa é cuidar das suas fronteiras, em todos os sentidos.

    • Alex Strum

      31/12/2014 at 13:53

      Presumo que esta lei deve, ou deveria, ter mais a ver com os judeus da diáspora do que com os cidadãos Israelenses que por lei tem direitos iguais independentemente de serem ou não judeus.
      Penso que seria interessante que nós judeus da diáspora pudessemos obter o passaporte israelense, independentemente de fazer aliá, da mesma forma que descendentes de europeus obtem o passaporte da comunidade européia. Pelo menos simbolicamente isto reforçaria a idéia que Israel é o Estado Nação do povo judeu.

Você é humano? *