Depreciável assassinato do jovem árabe Muhamed Abu Khdir – Os quatro pecados de uma injustiça

07/07/2014 | Conflito; Opinião; Sociedade

*Por Gabriel Ben-Tasgal

A polícia israelense deteve seis suspeitos ultra-nacionalistas judeus, possíveis responsáveis pelo assassinato de Muhamad Abu Khdir. O profundo desejo de vingança por trás do assassinato Eyal Yifrah (19 anos), Gilad Shaer (16 anos) e Naftali Frenkel (16 anos) não deve apaziguar o profundo desprezo em relação a este tipo de reação. Os radicais judeus não necessitavam de um incentivo para “vingar-se” dos árabes. O problema é profundo, existente e também bastante minoritário. Caso se confirme a culpabilidade dos seis, se tratará de uma injustiça que carrega quatro pecados condenáveis e despreciáveis: trataria-se de um assassinato que atenta contra a justiça mais básica, que despreza os valores judaicos, que prejudica Israel de um ponto de vista geopolítico e que prejudica duramente os esforços da Hasbará[ref]Diplomacia pública[/ref] israelense no mundo. Quatro pecados postos em ordem normativamente.

Sobre a Justiça... Os assassinos são fiéis alunos de Trasímaco (de A República). Para eles a justiça é imposta pelo mais forte e são eles os que se sentem fortes frente a um indefenso jovem árabe de Shuafat (sua vítima). Para eles, todos os árabes são uma ameaça e nenhum meio é tabu para erradicar esta ameaça. São uma minoria barulhenta no seio da sociedade israelense, um grupo de sicários[ref]Nota do tradutor: Grupo de fariseus radicais, conhecidos como Zelotas Sicários, que iniciou a Primeira Guerra Judaico-Romana no ano 66 d.e.c., acarretando na destruição do Segundo Templo Sagrado (70 d.e.c.)[/ref] modernos a quem devemos combater e extinguir. Frente a eles, aqueles que desejam a destruição do Estado de Israel, devemos citar e destacar aqueles, entre nós, que consideram que a justiça só pode ser alcançada por meios totalmente justos e nobres. Nada justifica, nem a defesa própria, matar outro ser humano, nos tentam explicar diários israelenses como o “Haaretz”. Estou convencido que a maioria dos israelenses consideram que para defender a nossa existência e permanência nestas terras sobre as quais temos direito, devemos pagar um preço que não pode ser outra coisa que não realizar ações que não desejamos. Treinar os nossos filhos para a guerra, apoiar o assassinato seletivo de um terrorista que pretende matar civis israelenses, impôr um bloqueio marítimo para que os terroristas do Hamas não introduzam armas em Gaza… são ações que, em circunstâncias normais, não deveríamos estimular e apoiar, porém nos vemos obrigados a realizar por imposição do agressor. O assassinato de um inocente, devido à sua identidade nacional árabe, é uma ação distante do nossas concepções sobre a justiça mais básica como sociedade.

Sobre os Valores Judaicos… a Lei de Talião (mais conhecida como Olho por Olho) nunca esteve vigente no judaísmo de forma literal, já que este mandamento era e é interpretado como um ressarcimento econômico e não como vingança.  As cortes de justiça de outrora calculavam a cifra da compensação de acordo a uma combinação do Nezek (dano), o Tzar (sofrimento), o Ripui (a cura), o Shevet (lucro cessante) e o Boshet (a vergonha). Os terroristas que assassinaram os três jóvens israelenses devem ser rapidamente abatidos, suas casas devem ser derrubadas e seus líderes militares exilados. Os terroristas judeus que assassinaram a Muhamad Abu Khdir devem ser tratados da mesma forma. O que é certo é que suas ações não respeitam os ensinamentos judaicos.

Sobre a atualidade política… Os terroristas judeus podem conseguir que o foco de atenção internacional e local passe de centrar-se no Hamas e suas ações criminosas, como vem acontecendo, para a violência gerada pela sociedade israelense. Enquanto o governo israelense pretende, com razão, romper a aliança anti-natural Hamas-OLP, uma ação como a recente inflama a população palestina, aproximando posturas moderadas e radicais contra o que eles consideram “uma agressão geral de Israel contra si”. O governo israelense, em vez de centralizar seus esforços em combater o Hamas e seus aliados em Gaza e Hebron, deve agora dedicar esforços supremos em conter uma possível Terceira Intifada e um levantamento da minoria árabe israelense contra as instituições nacionais. O assassinato tampouco favorece Israel sob esta perspectiva.

Sobre os esforços na Hasbará israelense… Da mesma forma que os imorais no mundo descontextualizam e modificam historicamente certas ações militares dos grupos clandestinos judeus antes da criação do Estado (King David, Deir Yassin, etc) para fundamentar seu claro apoio ao terrorismo árabe-islâmico (“todos fazem terrorismo, inclusive os judeus no passado”, costumam dizer), o que aconteceu em Jerusalém nesta semana será utilizado para seguir atacando Israel e descreditar sua legitimidade no que concerne os movimentos nacionais. A Autoridade Palestina se apressou em acusar Israel de tudo o que aconteceu. Não devemos nos surpreender, no passado já mentiram e manipularam a morte de Muhamad A-Dura (Segunda Intifada) para provocar e estimular distúrbios contra Israel. Os que acusam e demonizam Israel não exitarão em felicitar o rápido acionar das Forças de Defesa do país, não relativizarão o atentado, relacionando-o a uma parte minúscula da sociedade israelense, nem mesmo citarão a condenação de Rachel Frenkel[ref]N.T.:Mãe de um dos três jovens judeus sequestrados, Naftali Frenkel[/ref] contra o assassinato do jovem árabe inocente. Para estas pessoas, o assassinato do rapaz inocente é “outro argumento a mais” que ajudará a apagar do mapa o que nunca deveria ser criado… Israel.

164220_10200980394726042_845763613_nGabriel Ben-Tasgal, nasceu na Argentina e hoje vive em Israel. É graduado e mestre em Ciências Políticas pela Universidade Hebraica de Jerusalém, e pós-graduado em Relações Públicas na Universidade Autônoma de Barcelona. Possui também título em jornalismo e publicidade pela Universidade de Tel-Aviv. É diretor-geral da organização que promove hasbará em espanhol HaTzad HaSheni (La Cara de la Verdad), e leciona sobre Oriente Médio, história de Israel e educação.

Quer ler o original? Clique aqui.

Comentários    ( 6 )

6 comentários para “Depreciável assassinato do jovem árabe Muhamed Abu Khdir – Os quatro pecados de uma injustiça”

  • Yair Mau

    07/07/2014 at 16:45

    Obrigado ao Gabriel Ben-Tasgal pelo excelente artigo, claro e direto. Me chamou atenção a parte que diz: “Os terroristas que assassinaram os três jóvens israelenses devem ser rapidamente abatidos, suas casas devem ser derrubadas e seus líderes militares exilados. Os terroristas judeus que assassinaram a Muhamad Abu Khdir devem ser tratados da mesma forma.” Obrigado pela coerência, afinal conforme Netanyahu disse, terrorismo é terrorismo, não importa de quem venha. Espero que contemos com a sua colaboração também no futuro.

    • André Rozenbaum

      07/07/2014 at 16:58

      Yair e demais,

      A tradução do artigo do Gabriel foi pedida por ele ou por vocês?

      Acho que seria show ter ele no time. Principalmente pelo fato dele ser mais a direita. Mas ser bem racional e sempre argumentar ao invés de xingar.

      Abs e obrigado

    • João K. Miragaya

      07/07/2014 at 17:17

      Oi André. Estamos atentos ao que ele produz e obviamente queremos tê-lo mais vezes conosco.

      Um abraço

    • Yair Mau

      07/07/2014 at 17:17

      Nós pedimos, acabou de ser divulgado no facebook, olha lá. Abraço!

  • Eloi Laufer

    07/07/2014 at 20:52

    O artigo é excelente e deixa bem claro que a mesma punição a ser dada aos assassinos palestinos deverá ser aplicada ao assassino israelense, no entanto para que o mundo todo fique sabendo da aplicação das penas, isto deverá ser publicado amplamente, de forma que não hajam dúvidas quanto a possível existência de dois pesos e duas medidas…

Você é humano? *