Desfrute da liberdade e tenha ótima viagem

12/02/2014 | Conflito; Sociedade

Há algumas semanas, o colega Bruno contou em seu post um acontecimento desagradável vivido por uma moça ao se apresentar no aeroporto de Israel, para tomar seu vôo com destino a Turquia. Este foi o disparador e o motivador para escrever estas linhas sobre um assunto que pude conhecer tão bem.

Quis o destino que, além dos 6 meses prestados obrigatoriamente ao exército, fosse trabalhar na segurança do aeroporto Ben Gurion por exatos três anos. Ali cheguei por casualidade, em 2008, quando buscava um trabalho interessante e desafiador. Mandei meu currículo, fiz as entrevistas e em poucos dias o curso preparatório foi iniciado. Curso longo, difícil, cheio de testes complicados para alguém que ainda iria completar três anos no país. Não se tratam necessariamente de testes físicos, mas provas que objetivam verificar o nível de aptidão e prontidão para desempenhar um cargo de imensa responsabilidade.

Desde que a onda de ataques suicidas se intensificou, aeroportos de todo o mundo foram obrigados a modificar suas realidades, colocando uma ênfase enorme nos procedimentos que garantem a segurança de seus passageiros. Ben-Gurion, em Israel, é o aeroporto que por motivos tão obvios quanto tristes, mais investe em segurança no mundo. Desde equipamentos, passando pela parte física estrutural, até o material humano. Não se correm riscos, não se permitem dúvidas, e sabem por quê? Porque você precisa chegar no seu destino são e salvo.

Para aqueles que não entendem e não se envolvem com a segurança, não se apressem em tirar conclusões. Se você nunca esteve em um cargo de responsabilidade onde dezenas ou até centenas de vidas podem depender da sua atitude e do seu comportamento, você não está qualificado a julgar alguém que já esteve e talvez não saiba que segurança não é apenas imediatista, não lida somente com o que se vê no momento. Existe todo um aparato que apoia e informa o sistema, trazendo e levantando dados durante 24 horas por dia, já que, assim como o aeroporto não para, não param também as más intenções daqueles que têm vontade de derrubar o próximo vôo.

Há muitos anos o sistema não falha. Houve tentativas? Claro. Algumas. Se você chegou ou saiu de Israel, foi graças ao preciso, árduo e minuncioso trabalho feito por todos os envolvidos responsáveis para que você tenha uma bela experiência.

Os famosas filas de espera pré-procedimento de segurança do Aeroporto Internacional Ben-Gurion (TLV).
As famosas filas de espera pré-procedimento de segurança do Aeroporto Internacional Ben-Gurion (TLV).

Não considero que a população esteja pagando qualquer tipo de “preço”. Não considero que uma segurança que busca evitar atentados e assim preservar vidas, possa da mesma forma tirar a liberdade de um indivíduo. Entendo como questão de prioridade. Primeiro você precisa estar vivo para depois discutir sobre filosofia e direitos humanos. Acredito que a segurança do país e, mais especificamente a do aeroporto, vem desempenhando seu papel com excelência e me solidarizo com todos aqueles que foram interrogados por mais de uma hora, com aqueles que perderam seus vôos e precisaram remarcá-los, e com todos que se revoltaram na hora da verificação, e justamente em função do comportamento anormal, tiveram todos seus pertences checados. Mas também lhes agradeço já que, graças a esse trabalho, todos têm podido viajar em paz. Desrespeito e humilhação não estão incluídos, portanto, se você acredita que foi abusado, reclame.*

Eventualmente escuto relatos de pessoas que contam suas  desagradáveis experiências como passageiros do aeroporto. Isto não são equívocos. Você não foi confundido com um terrorista, você precisa apenas entender que terroristas não têm idade, não têm nacionalidade e nem sequer um perfil pré-determinado. Você sempre vai ser verificado.

Meu conselho a todos os passageiros de aeroportos e principalmente em Israel: Pense e discuta sobre seus direitos e sobre liberdade antes de entrar no aeroporto e ao sair do aeroporto. Lá dentro, se você estiver bem intencionado, mantenha a calma, não discuta com as autoridades, aguarde todos os procedimentos e assim, certamente, você terá uma ótima viagem.

*Se você se sentiu lesado de alguma forma no decorrer dos procedimentos de segurança no aeroporto, envie uma mensagem (em hebraico ou inglês, de preferência) para:  pniyotnatbag@iaa.gov.il

Foto de capa: http://cdn.timesofisrael.com/uploads/2013/02/F110811ZEL10.jpg

Comentários    ( 15 )

15 Responses to “Desfrute da liberdade e tenha ótima viagem”

  • Marcelo Starec

    12/02/2014 at 02:20

    Oi Bernardo,

    Artigo excelente e muito esclarecedor. Parabéns! Tenho plena convicção de que a equipe de segurança de Ben Gurion faz um excelente trabalho, permitindo, a despeito de tantas e óbvias ameaças, que os israelenses e os turistas possam exercer plenamente o direito de ir e vir, um direito humano básico e tão importante!

    Abraço,
    Marcelo.

  • Raul Gottlieb

    12/02/2014 at 17:40

    Muito obrigado por compartilhar a tua interessante experiência conosco, Bernardo. A meu ver, pessoas com um mínimo de capacidade analítica e uma pitadinha de bom senso deduzem, mesmo sem a ajuda do teu texto, que o nível da segurança nos aeroportos e demais fronteiras é sempre proporcional ao nível de ameaça. Porém é sempre bom ouvir de alguém que tem experiência concreta no assunto.

    Claro que os controles causam irritação nos viajantes, mas é ainda mais claro que a conta desta irritação tem que ser apresentada aos que tentam os ataques e não aos que tentam preveni-los.

    Infelizmente quem está na frente do viajante irritado é o agente da prevenção, o que o torna alvo da irritação das pessoas que (i) ou tem o raciocínio momentaneamente embotado pela irritação (até pessoas muito equilibradas ficam nervosas ao levar uma fechada no trânsito, ao serem revistadas e interrogadas no aeroporto, etc.); (ii) ou que tem os miolos irremediavelmente comprometidos por uma visão torta de mundo.

    O teu texto joga uma boa luz neste assunto que nos afeta a todos – desde os que são obrigados a parar na Lei Seca até os que são revistados nos road blocks da Palestina. Obrigado de novo.

    Ah, sim! Ia esquecendo de dizer o quão lapidar é a frase “Primeiro você precisa estar vivo para depois discutir sobre filosofia e direitos humanos.”. Brilhante!

  • Carlos Cohen

    12/02/2014 at 18:26

    Já recebi diversas visitas em minha casa, já levei as pesoas ao aeroporto para voltarem e os ajudei nos procedimentos de segurança, sempre digo o mesmo que está no artigo, mantenha a calma e faça tudo que pedem, sempre fui atendido por agentes atenciosos e simpáticos, basta a gente aceitar que estamos AJUDANDO quando abrimos nossas malas e respondemos todas as perguntas falando somente a verdade, e não sendo invadidos como tentam pixar por aí.

  • Rodrigo

    13/02/2014 at 00:19

    Brilhante, Beg, principalmente na escolha dos temas…

  • Mario Silvio

    13/02/2014 at 11:51

    Parabéns pelo texto Bernardo, muito bom mesmo. Tenho uma dúvida técnica: estou pensando em ir para Israel com a minha mulher e ela não fala inglês. Como fazer com o “interrogatório”? Imagino que eu não posso ser o intérprete, certo?

    • Bernardo K. Schanz

      13/02/2014 at 23:11

      Não tem problema, Mario Silvio. Você pode dizer que estão juntos, que são casados. Assim serão verificados juntos.
      ps. Não deixe de avisar quando vier visitar o país. Um café na conta do Conexão 🙂

    • Mario Silvio

      14/02/2014 at 00:37

      Obrigado Bernardo, e pode deixar, aviso sim.

  • RITA BURD

    13/02/2014 at 15:04

    “Primeiro voce precisa estar vivo para depois discutir filosofia e direitos humanos”.

    Parabéns BEG, o teu texto reflete o que um homem responsável pela segurança do Aeroporto Ben Gurion, pensa e faz.
    SEMPRE agradeço aos seguranças que me revistam porque entendo que eles estão CUIDANDO de mim e de todos os passageiros. Eles então comentam: é muito RARO alguém agradecer, geralmente reclamam.
    Reclamar os cuidados e revistas é aceitar a insegurança e a irresponsabilidade do aeroporto.
    Kol haKavod,
    que as cabeças pensantes encontrem na Conexão Israel os conteúdos para as suas informações.

  • Maria

    16/02/2014 at 19:15

    Eu já tive várias vezes problemas com a security do Ben Gurion, por motivos aparentemente bobos como estar viajando sozinha (motivo de grande indagação) ou estar carregando uma grande sacola com 5 metros de fazenda metalassê de Paris) mas eu nunca reclamei, porque sei que tudo o que eles fazem visa a nossa segurança. Realmente é um saco quando a gente arruma a mala todos ajeitada para voltar e chega no aeroporto e tem que tirar tudo da mala para fora na frente de todos…mas faz parte.

    • Mario S Nusbaum

      18/02/2014 at 13:45

      Bernardo, se não for abusar, tenho outra dúvida. No post do Bruno a amiga dele estava saindo do país.
      Ter certeza de que a pessoa não está carregando explosivos ou armas eu entendo, mas por que
      o interrogatório? Afinal ela está INDO EMBORA!
      Por mim gai gezinte rait e mais nada.

    • Bernardo K. Schanz

      18/02/2014 at 15:06

      Lhe respondo pessoalmente quando vieres visitar.
      Um abraço

    • Mario S Nusbaum

      18/02/2014 at 15:17

      Muito obrigado Bernardo, e assim que tiver batido o martelo da viagem, comunico vocês, um abraço.

  • daniel

    23/02/2014 at 21:44

    Quando cheguei em Israel, em 2010, fui conduzido a uma sala e interrogado por uns 5 minutos, depois de novo, as mesmas perguntas feitas por outra pessoa. Eu sorri, ela sorriu (era linda, e eu por engano peguei no crachá dela!) e fui liberado. Na saída, semanas depois, me espantei com a minuciosidade das revistas, do tempo na fila etc., mas no final, já no avião, senti um alívio danado, porque não parecia possível que um monstro terrorista pudesse realizar um atentado depois daqueles procedimentos de segurança. Então, lá vou eu de novo, e espero que os procedimentos sejam ainda mais rigorosos, se necessário.

  • Henrique Samet

    19/10/2014 at 22:43

    A Palestina é consenso mundial e fato consumado. Não aceitar o que se desenha é temerário.
    A Palestina já existe. Enquanto isto, nacionalistas extremados articulam sua eliminação simbólica ou real através de estratagemas postergadores como este tal de estado judeu, como se reconhecer o Estado de Israel fosse pouco. Um estado terá características majoritárias de um de seus segmentos caso este se mantenha. O tal do estado judeu depende exclusivamente do que a maioria de seus cidadãos decidirem. É uma deformação cognitiva e antidemocrática pedir ao outro um reconhecimento que só pertence a cidadania. A identidade palestina se construiu com o Nakba assim como a judaica e israelense tem raízes em outras tantas desgraças como o Holocausto. Exigir que reconheçam um estado judeu é exigir que deixem de ser palestinos, o que não passa de provocação. A promessa de deus a Abrahão só vale para quem acredita nela. É de um subjetivismo que não facilita negociação. Os milhões de palestinos estão aí, processo visível, identificável, mensurável. Uma evidência.
    Os extremistas acreditam que podem impor tudo e que a força preponderará, sem distinguir o mais forte do mais apto. Sobreviveu não o dinossauro, mas o mamífero pequeninho. O estado judeu é este dinossauro e pode desaparecer se não tiver a aptidão de reconhecer que não está sozinho e nem