Dia da lembrança

20/04/2015 | Sionismo; Sociedade

Abrevia-se para Yom HaZikaron o “Dia da Lembrança em Homenagem aos Soldados Caídos e Vítimas de Terrorismo” no país. É um dos dias mais especiais do calendário israelense, sua data no calendário foi escolhida propositalmente para a véspera do Dia da Independência. Recorda-se neste dia os 25.758 sraelenses que morreram (até hoje) devido aos conflitos pelos quais o país passou, sendo 23.320 soldados (da ativa ou da reserva, mas que caíram em serviço), além de 2.538 vítimas de atentados terroristas. Neste ano, especialmente, nos recordaremos dos 72 que caíram na Operação Margem de Proteção, no último verão (67 soldados e cinco civis).

(Em 2013 eu escrevi sobre este dia. Caso queira relembrar, clique aqui)

É praticamente impossível que um israelense não sinta a perda de algum ente próximo, quase todos conhecem alguém que morreu em qualquer uma das cinco guerras do país, dezenas de operações militares, além de duas intifadas, até mesmo em acidentes ocorridos em treinamentos durante o serviço militar. Os cemitérios ficam superlotados e diversas cerimônias são feitas ao redor do país. A mais importante destas se realiza no Cemitério Militar Monte Herzl, onde está enterrado o pai do Sionismo Político Theodor Herzl[ref]Outras figuras importantes, como Ze’ev Jabotinsky, a maior parte dos primeiros-ministros, presidentes e outros políticos importantes israelenses também se encontram lá[/ref] e milhares de militares caídos, desde o soldado mais simples até o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas (Ramatkal). Lá estará, nesta quinta-feira, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que normalmente vai ao cemitério dois dias antes de Yom HaZikaron, a fim de recordar-se de seu irmão, Yonathan Netanyahu, caído na Operação Entebbe, em 1976.

Outras cerimônias são feitas ao longo do país. Todos os kibutzim as realizam, sempre trazendo as fotos dos seus membros caídos em serviço (quase todos os têm). Escolas, unidades do exército, repartições públicas, universidades, municípios, todos organizam cerimônias. Grupos pacifistas, idem. Uma cerimônia interessante é organizada pelo grupo Combatentes pela Paz, formado inicialmente por ex-combatentes israelenses e palestinos, que hoje pregam o diálogo e a aceitação do outro como forma de se chegar à paz, e fazem uma cerimônia com familiares de vítimas israelenses e palestinas.

Duas sirenes soam para recordar estas mortes, uma na noite de terça-feira (às 20h) e outra na manhã de quarta-feira (às 11h). Quando soam estas sirenes, todos param o que estão fazendo. Motoristas interrompem suas viagens, saem e se põem de pé. Pedestres param e escutam a sirene em silêncio. Operários param sua obra, nos escritórios as pessoas põem-se de pé. Ao fim da sirene as pessoas voltam a seus afazeres. Na televisão, os programas são todos sobre os caídos. Documentários e mais documentários sobre o tema, mostrando a tristeza das viúvas (e também viúvos), a dor dos órfãos, dos pais que perderam seus filhos. Na rádio, somente canções tristes. Várias destas canções foram escritas especialmente para as vítimas, e são todas relembradas neste dia.

Um projeto interessante é feito pelo centro cultural Beit Avi Chai. A fim de desenvolver as mais diversas expressões culturais na sociedade israelense de forma criativa, a instituição preparou uma série de animações com base em histórias de caídos nas guerras. Legendei três delas para o português, todas as outras possuem legendas em inglês (acesse o seu canal do youtube aqui). As três animações contam as tristes histórias de uma filha, uma mãe e um namorado de uma soldada caídos. Vejam e tentem compreender pelo que passam os israelenses neste triste dia.

(Para que o leitor compreenda melhor um dos vídeos, saiba que, quando um soldado cai em serviço, o aviso é dado por três oficiais pessoalmente à família)

Yom HaZikaron (Dia da Lembrança) – Portões dos ceus
Yom HaZikaron (Dia da Lembrança) – Todos os verões
Yom HaZikaron (Dia da Lembrança) – Mil beijos

Comentários    ( 3 )

3 comentários para “Dia da lembrança”

  • Isabel

    20/04/2015 at 09:45

    João Ótimo texto. Muito Muito Obrigada !
    Eu e meus amigos conversamos ontem sobre isso.
    No primeiro parágrafo você descreve exatamente .

  • Raul Gottlieb

    20/04/2015 at 11:18

    Nós contamos um mais um mais um. Chegamos a 25.664 ontem.

    É triste saber que este número continuará a aumentar, pois o mundo continua a perseguir os judeus.

    Desta vez o antissemitismo atávico na Europa atua através de engajados prepostos árabes, numa mistura letal de racismo europeu com intolerância religiosa islâmica.

    Contudo, temos sorte.

    Há setenta anos atrás não fomos capazes de contar um mais um mais um. De registrar cada tragédia individual. De contar as histórias de desamparo e as de superação.

    Há setenta anos atrás tudo o que foi possível fazer foi uma estimativa e chegamos aos estarrecedores seis milhões, um número redondo que achata os indivíduos singulares que compõem esta tragédia.

    Hoje podemos contar cada um e isto é positivo. O mundo continua um lugar muito feio (na Síria eles não conseguem contar, divulga-se que chegaram a 250 mil vítimas, um número igualmente redondamente obsceno), mas pelo menos nós adquirimos, pela força, visto que esta é a linguagem que os nossos adversários respeitam, o direito de contar os 25.664.

    E isto é uma benção.

    Que sejamos capazes de defender o Estado de Israel. Cada um da forma que está ao seu alcance. Um mais um mais um.

  • Marcelo Starec

    21/04/2015 at 06:02

    Oi João,
    O seu artigo é realmente emocionante!…De fato, cada morte é algo muito doloroso, seja para nós ou, creio eu,seja para quem for…todos sentem a morte dos seus, por isso achei muito interessante essa informação que você nos trouxe sobre israelenses e palestinos compartilhando a dor pelas suas vítimas. Felizmente, embora seja algo muito duro de se colocar de um modo tão simples, o número de vítimas em 67 anos de constantes agressões e guerras contra Israel, que começaram justamente assim que o Estado declarou a Independência, exatamente no local então designado pela ONU até hoje foi relativamente baixo tanto do nosso lado quanto do lado de lá…Isso devido a Israel ter conseguido sobreviver e continuar a existir, pois caso contrário muito provavelmente teria havido um genocídio de judeus, onde as baixas seriam com certeza muito maiores – haja vista os demais conflitos (onde Israel não está envolvido) entre os vizinhos e os seus resultados,em termos do número de baixas…mas esse é um cenário que Israel conseguiu não ter de testar, o que por si só foi uma grande vitória, embora não suficiente (já que sem um Estado Judeu que possa viver em paz com os vizinhos, o sonho de Herzl não se completa, no meu entender). Assim, gostaria de novamente elogiar o seu excelente texto e deixar aqui a opinião e o sentimento de que precisamos continuar lutando pelo nosso direito de existir, luta essa que não está, infelizmente, definitivamente resolvida e simultaneamente, buscar os caminhos que nos levam a paz sem esquecer que, de fato, só chegaremos a ela conseguindo ter exito em sobreviver e se manter fortes, mas sem ter a arrogância de achar que somos o máximo – tanto no sentido extremo de entender não precisar de paz quanto no extremo oposto de buscar a paz a qualquer preço, como se a questão existencial fosse irrelevante. É nesse meio termo que, em meu entender, podemos ter exito nessa desafiadora empreitada, a de manter vivo o povo judeu e o seu Estado….
    Abraço,
    Marcelo.

Você é humano? *