Diálogo na escuridão, para abrir os olhos

Nunca fui um grande fã das artes ao ponto de investir em idas a museus. Nas vezes que estive foram visitas rápidas, apenas para marcar o “v”. Há coisa melhor para se fazer do que analisar desenhos, pinturas, quadros e estátuas. Questão de gosto mesmo.

Em 2012, ainda no começo do semestre na faculdade, os alunos foram avisados pela professora que dentre uma série de atividades e assuntos, a cadeira incluiria a visita a um museu. Me mantive indiferente, até porque não odeio museus, apenas não morro de amores. Mais próximo da época da visita, a professora mandou por e-mail os detalhes, dizendo que ficava na cidade de Holon e se chamava דיאלוג בחשיכה (Diálogo na Escuridão), mas preferi não me aprofundar muito no assunto, quis esperar para ver.

Na semana da visita, comentei com alguns amigos sobre o museu e descobri que estaria indo ao chamado “Museu dos Cegos”. Ouvi alguns elogios e fiquei com uma pequena esperança de encontrar um lugar bacana, onde pudesse ver algo que me chamasse atenção. Sinceramente, não depositei muitas fichas, mas estava curioso, afinal não todo dia se vê trabalhos e exposições de cegos.

No trajeto entre Tel Aviv e Holon, nos foi esclarecido que o “Diálogo na escuridão” se encontra dentro de um espaço chamado מוזיאון הילדים (Museu das Crianças), sendo uma das exposições permanentes do museu. Eu começava a entender um pouco melhor para onde estava indo. Chegamos no primeiro horário da manhã – para os interessados, é necessário agendar a visita – e havia uma série de outros grupos esperando para entrar. Atrasou. A “ficha” já estava na metade do caminho e ninguém parecia estar alí para apreciar obras de arte.

Entramos. O “Diálogo na escuridão” é oficialmente chamado de exposição, mas é necessário abrir a alma e o coração para ver o que está exposto. Por uma hora, vive-se a vida de um deficiente visual, exatamente da forma como ele vive a vida; sem enxergar com os olhos. Com receios e as vezes com aflição. O local é adaptado para ser uma “mini cidade” e o visitante experimenta a sensação de ter que viver a vida sem um dos seus sentidos, talvez o mais importante.

O “diálogo”, como sugere o nome da exposição, é essencialmente introspectivo, e a exposição é uma verdadeira lição de vida. Pessoalmente, não tinha vivido nada parecido e assumo que a partir daquele momento passei a ver as coisas por outros ângulos. Colocar-se no papel de um deficiente é um exercício obrigatório para entendê-los. Ajudar e entender a perspectiva do deficiente deveria estar na lei, e quem desrespeitasse deveria ser punido.

As sociedades brasileira e israelense tratam o deficiente físico como um estranho, como um esquisito. Não educamos as crianças para que entendam do que se trata e não damos muita importância a como eles estão tendo que viver as suas vidas. Deficientes são pessoas absolutamente normais que não tiveram a mesma sorte de outras. Nasceram ou adquiriram uma limitação que os impede de ver, ouvir, falar.. Não podemos e não devemos impedí-los de nada além de sua própria limitação.

Israel ainda é atrasado no fornecimento de boa estrutura e meios que facilitam a vida de quem não possui todos os sentidos. Apesar de estar bastante a frente do Brasil, este não é um bom parâmetro de comparação, infelizmente.  Algumas obras pontuais podem ser vistas aqui e ali e a maioria dos ônibus já possui avisos de voz em cada ponto, algumas estações possuem explicação em braile e algumas ruas possuem sinalizadores sonoros que orientam os pedestres. Eventualmente o tema é tratado em nível nacional. Precisamos muito mais do que isso. Precisamos educar e fornecer a estrutura necessária para que possam ter uma vida normal, com o menor número de obstáculos possível.

A exposição também existe nos Estados Unidos, Itália, Coréia do Sul e Áustria. Em todos os países, além de ajudar a aumentar a conscientização quanto a deficiência, criaram-se também milhares de oportunidades de trabalho para cegos. Desnecessário comentar que se você ainda não visitou, está convidadíssimo a fazê-lo assim que possível.

Continuo longe dos museus e das artes, mas ultimamente tenho conseguido enxergar além do que meus olhos podem ver. Deixo o convite para aqueles que ainda não fizeram, que o façam também. 

Mais informações sobre o Museu das Crianças em seu site oficial childrensmuseum.org.il (em hebraico e inglês).

É necessário agendar visitas com antecedência através do site ou no telefone +972-3-650-3000.

Comentários    ( )

Um comentário para “Diálogo na escuridão, para abrir os olhos”

  • Rafael Stern

    23/05/2014 at 22:31

    Beg, você sabe onde o museu foi criado, onde começou? É uma iniciativa israelense?
    Fomos no shnat, mas como você nunca tinha ido até 2012, imagino que quem levou foi o machon…

Você é humano? *