João K. Miragaya

O fim da diáspora

O futuro do judaísmo será o Estado de Israel. Eu não hesito em afirmar que não haverá judeus fora daqui a um horizonte visível. Se hoje existe um Estado judeu, um Estado de judeus ou um Estado de maioria judaica, pouco importa: o fato é que o Estado de Israel é o único país no mundo onde o crescimento vegetativo de judeus não diminui ano a ano, fora alguns pequenos casos insignificantes de comunidades abastecidas por imigrações sazonais. Este futuro é óbvio e, salvo uma revolução no mundo judaico, é também muito previsível. Só não vê quem não quer.

 

Por que eu digo isto? Em primeiro lugar, esta não é simplesmente a minha opinião: é uma previsão baseada em números demográficos e processo histórico do povo judeu. Os números da Agência Judaica apontam que a população judaica no mundo cresceu em torno de 5% (de 13,3 a 13,8 milhões) nos últimos 10 anos. A Agência de Estatística de Israel mostra que, o número de judeus no país em 2002 era de 4,9 milhões. Em 2013 já são 6,04 milhões, ou seja, um aumento de mais que 10% em 11 anos. Percebemos, então, que a população judaica em Israel cresceu em 1,14 milhão de pessoas, enquanto a mundial cresceu em 0,5 milhão. Conclusão: a população judaica da diáspora diminuiu em mais de 600 mil pessoas em 10 anos.

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Agência Judaica

Isso te surpreende? A mim, sinceramente, não. Já escuto estas previsões há uns 10 anos, não me soa nem um pouco estranho. Via com meus próprios olhos isto acontecer através de um processo gradual conhecido popularmente pela comunidade judaica como “assimilação”. Este está longe de ser um fenômeno de pequenas comunidades: nos EUA, o número de judeus em 2002 era de 5,75 milhões. Hoje é de 5,425 milhões. Nem mesmo os judeus ultraortodoxos escapam desta onda no país que concentra a metrópole com mais judeus no mundo: Nova Iorque. Na França, terceira maior comunidade judaica do mundo, a queda foi de 520 mil para 480 mil judeus. Reino Unido, Canadá, Rússia, África do Sul, Argentina, Austrália e outros também registraram quedas. Em 1945, logo após o Holocausto a população judaica era de 0,06% da população mundial. Hoje é de 0,02%, o que mostra igualmente que a população judaica não acompanha o ritmo de crescimento mundial. O Ministério da Absorção mostra números igualmente alarmantes: mais de 150 mil de judeus se assimilam todos os anos. E, por fim, uma pesquisa sobre o judaísmo nos EUA divulgada recentemente pelo diário Haaretz mostra que 1/3 dos judeus no país montam árvores de Natal e 58% se casaram com não judeus. Os números podem ser alarmantes para alguns, previsíveis para outros e apocalípticos para quem desconhece a história dos judeus na diáspora pós-Revolução Francesa. Eu me encaixo no segundo grupo.

 

Até a Revolução Francesa o judaísmo nunca foi simplesmente uma religião. O concepto de laico não existia até meados do século XVIII. Podemos afirmar com quase 100% de precisão que todos os habitantes do planeta eram pessoas religiosas. As filosofias de vida laicas são um fenômeno contemporâneo, desconhecidos até então. Os judeus, em especial, minoria em todas as regiões do globo, eram mais um povo com uma religião. Se mudar de religião significava mudar de povo, para os judeus, na prática, isto era 10 vezes mais relevante: o povo judeu não possuía o mesmo status da maioria em nenhum lugar do mundo. Só com o advento da cidadania, do Estado laico e da igualdade civil os judeus puderam, paulatinamente, ser reconhecidos como cidadãos e possuir os mesmos direitos que os outros. Este movimento, iniciado durante a Revolução Francesa, criou uma crise nas comunidades judaicas na Europa: enquanto parte preferia manter seu judaísmo, outra parte estava disposta a abrir mão do mesmo em prol da cidadania. Neste momento surge a haskalá, ou iluminismo judaico, concebido por um grupo de filósofos (dos quais o mais eloquente era Moises Mendelsohn) teorizando sobre a possibilidade de existência de um judaísmo puramente religioso, que pudesse ser compatível com a cidadania. “Judeu em casa e cidadão na rua” era seu lema. Este momento histórico possibilitou a criação das mais diversas correntes judaicas, como o reformismo, o conservadorismo, a ortodoxia e o judaísmo secular. Podemos dizer que somos filhos deste momento.

 

Agência Israelense de Estatística

Agência Israelense de Estatística

A chamada emancipação não resolveu a questão judaica: a cidadania não foi concedida em todo o mundo, principalmente onde os judeus se encontravam mais concentrados. E mesmo onde os judeus passaram a gozar de plenos direitos, o antissemitismo persistiu deixando marcas, fosse pelas mãos de civis, fosse pelas próprias mãos do Estado (como no Caso Dreyfus e no Holocausto). O sionismo surgiu para responder a esta problemática: judeus que não desejam se assimilar e desejam ser cidadãos livres em todos os sentidos.

 

O Estado de Israel já existe há 65 anos. O antissemitismo ainda não deixou de existir, mas já se configura como um fenômeno bem menos relevante do que era na primeira metade do século XX na grande maioria dos países onde se encontram judeus. A imigração a Israel também diminuiu, sobretudo na medida em que os judeus que estavam em perigo utilizaram de seu direito de retorno em massa durante os primeiros 50 anos do Estado. A maioria dos judeus da diáspora não corre mais perigo de vida por serem judeus. Já o judaísmo em seus países corre sério risco de desaparecimento, e isto pouco tem a ver com o antissemitismo. Muito pouco.

 

O caminho proposto por Moises Mendelsohn e pelos outros maskilim 1 tem-se mostrado um fracasso. A mentalidade “judeu em casa e cidadão na rua” funciona para poucas gerações. A diminuição do número de judeus no mundo é um reflexo da incongruência desta teoria: o judaísmo como religião pode ser aplicado de forma individual, mas a continuidade do judaísmo como cultura e como povo não é compatível com um simples conjunto de práticas religiosas a serem executadas em casa e na sinagoga. A assimilação, se já não oferece mais cidadania, vem ganhando do judaísmo de goleada por um simples motivo: faz mais sentido assimilar-se a ser judeu na diáspora. É muito difícil ter uma vida essencialmente judaica fora de Israel, e os que se esforçam para isso muitas vezes o fazem por vontade própria de manter a tradição, pois esta luta não os premia materialmente. Em resumo, manter-se judeu por força da tradição é uma luta conservadora, e, como todos os movimentos conservadores, a luta contra a assimilação tende a ser vencida pela correnteza aos poucos. É como o filho de um torcedor do América-RJ, que pode manter-se torcedor por respeito ao seu pai, mas dificilmente conseguirá o mesmo de seus descendentes. A perda de interesse pelo judaísmo é um fenômeno triste, embora natural. E, sobretudo quando há casamentos mistos, e a influência da sociedade se soma à da metade da família, a assimilação torna-se iminente.

 

Não escrevo este texto para criticar os casamentos mistos (eu mesmo sou filho de um) e muito menos para criticar os que definem como objetivo pessoal ou profissional a luta contra a assimilação. Sei que há centenas de excelentes profissionais que ajudam a retardar este processo natural no Brasil e outras dezenas de milhares em toda a diáspora. Eu, no entanto, discordo desta luta e destes métodos.

 

Moises Meldelsohn

Moises Meldelsohn

O único lugar onde a assimilação não ocorre naturalmente é Israel. Aqui, tanto para um judeu ortodoxo quanto para um judeu laico, o fluxo da vida judaica é visível no seu dia-a-dia. Encontrar comida kasher é mais fácil do que o contrário. Reunir-se com a família no Shabat (sábado) é tão parte do cotidiano quanto o almoço de domingo no Brasil. A televisão te lembra de que as festas estão por chegar através de programas humorísticos, comerciais e dos telejornais. O futuro do povo judeu é discutido por intelectuais diariamente nos círculos acadêmicos e governamentais e exposto ao público pelos partidos políticos em época de eleições (não só quando há conflito). O judaísmo invade a sua vida por osmose, seja ele religioso ou laico. É evidente que eu discordo da coerção ortodoxa no que se refere ao seu desejo de guiar meu dia-a-dia, e nem todas as influências judaicas são positivas no Estado de Israel. Mas é impossível negar que aqui tais influências existem, e impedem qualquer tipo de assimilação.

 

Não sei dizer exatamente se a preocupação com o futuro do povo judeu foi o grande motivo da minha aliá (imigração). E nem tenho como objetivo convencer a ninguém que faça o mesmo. Meu objetivo é simplesmente mostrar a minha opinião, o que tentei fazer por meio deste texto: atualmente só em Israel se assegura a continuidade do povo judeu. O fim da diáspora judaica está próximo. Quem viver verá.

 

Notes:

  1. Pensadores da Haskalá


 

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28 opiniões sobre o artigo “O fim da diáspora”

  1. Claudio Daylac →
    24/10/2013 em 18:59 #

    A negação da diáspora, pilar básico do sionismo clássico, tornou-se um tabu ao longo das décadas, mas tem um peso quase profético em sua inevitabilidade. E não é a Aliá que vai acabar com a diáspora, é a diáspora que vai acabar com a diáspora.

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  2. marcelo
    24/10/2013 em 19:05 #

    Acho que mesmo que ninguem se assimile, a populaçao judaica diminuiria ano a ano no brasil e outros países, pois a taxa de natalidade é menor que de mortalidade.

    em israel esse fenomeno ainda nao acontece, mas sabemos que as populaçoes ortodoxas, principalmente as mais pobres, crescem bem mais que a populaçao laica, entao poderiamos afirmar tbm que um dia a populaçao laica de israel vai sumir? nao sei…

    sobre as diásporas, nao podemos esquecer que israel tem alimentado algumas delas com muitos imigrantes ultimamente, e em algum momento isto pode aumentar dependo dos problemas que ocorrerem internamente em israel. li uma vez que tem 50 mil isralenses na california.

    além disto se a populaçao judaica da argentina por exemplo, diminui 15% em dez anos(inventei este dado) e esta média se mantem por 100 anos, vamos supor que começamos o cálculo com 300 mil habitantes, cem anos depois teremos continuaremos com uma comunidade de 59 mil. portanto, discordo de vc nem nos, nem nossos netos assistirão ao fim da diáspora.

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  3. Mario Silvio
    24/10/2013 em 19:46 #

    Pode ser, mas não acho inevitável e se vier a acontecer nenhum de nós estará vivo para ver.
    Se ainda não acabou no Irã, Turquia e Egito, quanto vai demorar para acabar nos EUA, Canadá e Europa Ocidental? Cem anos? Acho pouco, está mais para 300.

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  4. Michel Ehrlich
    24/10/2013 em 22:09 #

    Primeiramente, parabéns pelo site. Não costumo usar muito os comentários, mas o tema me causa especial interesse.

    Não sei se o momento é bom para tentar prever o futuro (ou não) da diáspora. A formação e expressão das identidades estão em plena fase de transição. Díficil prever o que virá, mas não acho que o século XXI será uma simples continuidade da tendência do seculo XX. Hoje, as identidades estão cada vez mais fragmentadas, o que causa conflitos mas também abre oportunidades para novas formas de expressão do judaísmo, não necessariamente como a única cultura de uma pessoa, que não tem mais a necessidade de escolher entre isso e aquilo, o que pode revigorar a vida judaica na diáspora. O que me parece que é o problema (e acho que em Israel tambem se consideramos alguma forma de prática judaica e não somente o “ser judeu” numericamente) é que as instituições judaicas não estão acompanhando o judaísmo. Recentemente foi feita uma pesquisa grande sobre o judaísmo nos EUA (não tenho link dela agora, mas causou bastante repercussão, deve ser fácil de achar). Uma parcela considerável dos judeus americanos se diz “sem religião”, mas ao mesmo tampo quase a totalidade se considera muito orgulhosos de serem judeus. Esse último dado me faz supor que essas pessoas gostariam de ter algum tipo de prática judaica que fosse coerente com seus valores e com suas outras identidades. Porém, as comunidades judaicas de modo geral ainda são muito “sinagogacentradas”. Assim, essas pessoas acabam se assimilando, na minha opinião, menos por estarem fora de Israel (até porque são pessoas que tem uma identidade americana muito importante para elas – o que num contexto pós-moderno é normal e não nega suas identidades judaicas ou sionistas) e mais por não terem espaço para expressar um judaísmo que lhes seja significativo (e não vejo como impossível que surjam novas instituições judaicas na diáspora). Acho que cada vez mais judeus se identificam com uma forma pós-moderna de judaísmo (que ainda precisa ser melhor desenvolvida), mas as instituições judaicas permanecem atrasadas, oferecendo somente um judaísmo que já não reflete mais os anseios dos judeus.

    Outra linha de pensamento que tive lendo teu artigo é a seguinte:
    A minha crítica àqueles que “combatem a assimilação”, seja pela via religiosa (só há futuro para o judaísmo na religião) ou pela via sionista (só há futuro para o judaísmo em Israel) é que colocam o “ser judeu” como um fim por si próprio, visão da qual discordo. Para mim, ser judeu é um meio para fortalecer determinados valores que considero positivos na minha identidade (conceito ainda muito abstrato, preciso desenvolve-lo melhor, mas definitivamente considero o judaísmo como meio e não como fim). Por exemplo, não tenho dúvidas que estatisticamente falando, tenho maiores chances de continuar judeu e que meus filhos o sejam se eu virar ortodoxo. Mas, virando ortodoxo, o judaísmo se tornaria um meio para um fim que, dentro dos meus valores, não é positivo (para outras pessoas pode ser, nesses casos, a ortodoxia já é uma resposta). Por isso, prefiro “arriscar”. Se a minha única opção fosse ser ortodoxo ou deixar de ser judeu, não teria dúvidas que deixaria de ser judeu sem remorso. O que quero dizer com isso é que na verdade, ao invés (ou antes) de procurarmos respostas para a pergunta “como posso ser/continuar sendo judeu?” deveríamos procurar respostas para uma pergunta muito mais difícil, mas que acho muito mais relevante: “Por que/para que ser judeu? De que forma o judaísmo contribui para eu ser uma pessoa melhor?”. Pessoalmente, acho que a ausência de respostas (certamente há muitas) para essa pergunta é o que realmente causa a assimilação. Pessoas deixam o judaísmo quando este deixa de contribuir positivamente para suas vidas. Concentrando todos judeus em Israel concordo que evitamos o fim do judaísmo em termos numéricos, mas será que evitamos a sua perda de significado? Não há por que manter o judaísmo pelo simples fato de manter. Com cada um tendo claro para sim o por que de ser judeu, poderá analisar se viver Israel potencializa o fim para qual o judaísmo é o meio, ou não.

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    • marcelo
      24/10/2013 em 23:49 #

      belo comentário!

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    • Mario Silvio
      25/10/2013 em 12:24 #

      Excelente! Destacoe concordo 100%:

      “Acho que cada vez mais judeus se identificam com uma forma pós-moderna de judaísmo (que ainda precisa ser melhor desenvolvida), mas as instituições judaicas permanecem atrasadas, oferecendo somente um judaísmo que já não reflete mais os anseios dos judeus.”

      “Se a minha única opção fosse ser ortodoxo ou deixar de ser judeu, não teria dúvidas que deixaria de ser judeu sem remorso. “

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    • João K. Miragaya
      João K. Miragaya →
      26/10/2013 em 10:54 #

      Prezado Michel,

      Obrigado pela sua participação e pelo seu comentário. Sua análise me pôs a refletir bastante sobre alguns pontos, em especial o “por que ser judeu”. Há teorias no campo da psicologia (a mais famosa neste aspecto vêm de James Márcia) que afirmam ser as identidades pelas quais já passamos por alguma reflexão, crise e reafirmação, as que consolidam-se como mais fortes no mosaico de identidades culturais pós-modernas. Seu comentário encaixa-se perfeitamente com esta perspectiva.

      Gostaria de dizer que não te vejo discordando de mim no seu comentário. Enquanto eu afirmo que caso não haja uma revolução no mundo judaico, a diáspora provavelmente terá seu fim, você afirma que ainda é cedo para sabermos que direcionamento terão as identidades judaicas num futuro a médio/longo prazo. A diferença é que eu não sou tão otimista quanto você.

      Eu acredito que estes judeus norte-americanos que, apesar de rejeitarem a religião, são judeus orgulhosos, não estão conseguindo transmitir às próximas gerações a importância na manutenção da identidade judaica. Por que eu vejo desta forma? Porque os números me mostram isso.

      Entenda: eu não trato o judaísmo como uma simples identidade religiosa. Trato como uma identidade cultural com forte influência no estilo de vida das pessoas. O mundo pós-moderno nos mostra, ao mesmo tempo, um desapego às velhas identidades, por um lado, mas por outro também tem refletido num radicalismo extremo. O judaísmo cada vez mais reflete estes dois lados: os religiosos ortodoxos vêm ganhando adeptos enquanto os liberais ou laicos diminuem.

      Mas você tem razão: o passado e o presente não necessariamente nos dirão como será o futuro. Talvez até mesmo em Israel o judaísmo deixe de ser uma identidade relevante no futuro. Talvez o pós-sionismo, tendência ainda pequena aqui em Israel, torne-se majoritário. Não há como saber.

      Um abraço e volte sempre!

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  5. marcelo
    24/10/2013 em 23:16 #

    sensacional comentário este do michel. conheci um cara de seattle, o pai um judeu americano, e a mae uma nipo-peruana. qdo descobriu q eu era judeu ele disse; eu tbm! ele nao disse que o pai era, ou que ele é half-jewish ou filho de casamento misto. ele apenas disse, eu tbm sou, e tbm sou nipo-peruano, ele é as duas coisas, e disse que adora os grupos de jovens judeus, pois eles sao mto unidos e fazem bem uns aos outros, por isso ele gostava de fazer parte de grupos de judeus, e é isso q ele considerava ser judeu, nao fez bar-mitzva, nem frquentou escola judaica ou sinagoga. toda a identidade vinha de fazer parte de grupos de jovens judeus da comunidade e da universidade.

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  6. Gabriel Mordoch
    25/10/2013 em 04:37 #

    Muito bom artigo, obrigado João. Deixo aqui uma questão para refletirmos: se o Estado de Israel depende de forças judaicas diaspóricas (não só economicas mas também políticas), como sobreviverá num futuro totalmente desprovido de diásporas judaicas?

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  7. Raul Gottlieb
    29/10/2013 em 20:33 #

    Caro João,

    Mais uma vez estamos na familiar situação de nos encontrar dos lados opostos do balcão.

    Tenho uma visão espiritual e uma visão pragmática sobre esta questão e ambas convergem para uma mesma direção – o judaísmo na Dispersão (evito usar o termo Diáspora para qualificar o judaísmo fora do estado Judaico atual, pois prefiro reservar este termo para o tempo histórico em que não havia um estado Judaico. No meu critério, Diáspora é forçada, Dispersão é voluntária) não vai terminar, nem cedo nem tarde. E veja que eu não digo os judeus e sim o judaísmo (o que inclui os judeus).

    Do lado espiritual temos o fato de que será um empobrecimento terrível o final do judaísmo na Dispersão. Empobrecimento cultural, empobrecimento social, empobrecimento em todas as dimensões que se possa enxergar. Isto é um fato e não uma questão de opinião. O corte de um manancial empobrece e diminui o fluxo do rio.

    Os judeus viveram na Dispersão e na Diáspora por quase uma centena de gerações e não acabaram. Porque haveriam de acabar agora? Já haviam judeus dispersos no tempo dos Reinos de Judá e Israel. O Talmud da Babilônia foi feito na Diáspora em paralelo com o Talmud feito em Israel (chamado de Ierushalmi por simplificação de rótulo), etc. etc. etc. Foi o judaísmo da Diáspora que inventou e construiu o Sionismo.

    Espiritualmente eu acredito que o judaísmo é (e sempre será) mais sábio do que supõem os profetas do apocalipse e não permitirá ser voluntariamente empobrecido.

    Do ponto de vista pragmático eu não vejo muita complicação em ser judeu fora de Israel – nos países democráticos, é claro. Estamos a menos de 70 anos da fundação do Estado judaico, logo o seu impacto ainda é muito forte nas nossas comunidades. Acho extremamente cedo para traçar tendências baseado nos números destes primeiros anos.

    Parece-me que faltam informações sobre o futuro (frasezinha besta essa, pois sempre faltam, não é?) para prever que o declínio populacional atual seja permanente e que perdure por mais dezenas de gerações ao ponto de fazer o judaísmo fora de Israel tender a zero.

    Parece-me também que, como criação de judaísmo (e não de judeus), a Dispersão é tão ou mais ativa que Israel. Não tenho certeza disto, mas creio que a produção de livros sobre judaísmo é tão fecunda por aí como pelos lados de cá. Sempre que posso eu consulto as novidades editoriais judaicas e não vejo uma clara predominância israeli.

    Finalmente eu penso que a visão dos maskilim funcionou perfeitamente e ela evitou uma assimilação muito mais acentuada do que a verificada.

    O espaço (e o tempo) aqui é curto para desenvolver este raciocínio com a profundidade que ele merece, mas em brevíssimas pinceladas a minha visão é que ao oferecer uma alternativa democrática ao judaísmo, a Reforma permitiu que aqueles que não se conformaram seguir vivendo dentro do esquema totalitário que o judaísmo rabínico havia se transformado encontraram na Reforma um caminho para manter o judaísmo.

    Eu (por exemplo) teria, mais facilidade em abandonar o judaísmo do que o meu direito de casar com quem eu bem entenda ou de interpretar a Torá e a literatura judaica conforme a minha cabeça e não conforme a cabeça de um dos chachamim do passado (escolhido pelo Rebbe do presente conforme a conveniência da situação).

    Em mais uma afirmação sem comprovação científica, parece-me que você vai encontrar que a situação de assimilação em algumas gerações é muito mais frequente nas famílias que adotaram a ortodoxia em meados do século 19 (quando ela surgiu) do que nas famílias dos maskilim. Ou seja, vai ser mais fácil você encontrar gente que fala: “meu bisavô era ortodoxo” do que “meu avô era Reformista”.

    Muitos dos que desprezaram a Reforma porque para eles era a ortodoxia ou nada viram seus filhos ficar com nada, porque a ortodoxia atrai intelectualmente um pequeno grupo de pessoas.

    É um prazer conversar contigo de novo. Quem sabe um dia a gente concorda com alguma coisa?

    Abraço,
    Raul

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    • João K. Miragaya
      João K. Miragaya →
      29/10/2013 em 22:11 #

      Oi Raul,

      Quando falamos sobre futuro, eu não tenho como provar nada. Mas a minha percepção, como alguém que tenta compreender a situação global atual (e não a dos últimos 1900 anos) me leva a pensar que este será o futuro. Novamente eu não faço nenhum julgamento moral: em nenhum momento eu disse que o fim da diáspora será algo positivo para o judaísmo (e neste ponto eu até concordo contigo).

      Certamente quando lidando com o comportamento humano, não podemos utilizar os números de forma 100% objetiva. Tampouco discordo de você neste ponto.

      O que me convence de que meu argumento é correto é a minha vivência na diáspora e em Israel aliada aos estudos que eu li. É uma percepção minha, falo sobre algo que está acontecendo agora e se mostra uma tendência. Se acontecerá, de fato? Não sei. Não tenho bola de cristal. Mas acredito que este seja o caminho.

      Um abraço

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    • Claudio Daylac →
      30/10/2013 em 00:46 #

      Raul,

      Diáspora (תפוצה) não subentende uma condição forçada. É sinônimo de dispersão.

      O Estado de Israel acabou com o exílio (גולה) dos judeus, permitindo que voltassem para casa. Esta situação, sim, era considerada forçada.

      Um abraço.

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  8. Raul Gottlieb
    29/10/2013 em 20:45 #

    Não quis poluir o outro comentário que eu postei, que é sério, com a seguinte reflexão:

    O meu neto Rafael, que muitos dos autores do Conexão conhece, fez um ano há uns 30 dias. Se ele continuar crescendo na mesma razão dos primeiros 13 meses ele terá uns 72 metros de altura e pesará algumas toneladas quando tiver 20 anos…

    Ou seja, nada na natureza (incluindo os fenômenos sociais) mantém uma curva de evolução constante.

    Não é realista prever que a evolução demográfica judaica se estabilize nas proporções atuais!

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    • marcelo
      30/10/2013 em 22:35 #

      Isto! acho que pra analisar melhor estes dados é preciso estudar um pouco sobre demografia, o crescimento de uma população varia muito, de acordo com diversos fatores. a assimilação é um deles. e como já disse, e repito, só os emigrantes de israel para outros lugares já manteriam uma diáspora judaica que duraria enquanto israel durar e mais um pouco. enfim achei uma conclusão equivocada a de que a diáspora terá fim, ainda mais num futuro próximo. Não é pecado repensar uma opinião, mesmo que tenha sido publicada num artigo de um portal da internet. Existem cidade que tem sua população diminuindo mto em certos periodos, mas muito difícil sumirem. chega uma hora que o crescimento negativo diminui.

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  9. David Danziger
    29/10/2013 em 22:41 #

    Também nao costumo comentar, mas a qualidade de alguns dados que foram levantados são no seu artigo são debatidos aqui. Achei então relevante colocar aqui.

    http://www.haaretz.com/jewish-world/jewish-world-features/1.552571

    Também vi um artigo interessante sobre um exemplo atual de forma não-religiosa de expressão nos EUA. Uma instituição que parece trazer uma alternativa atual para a comunidade judaica, na linha de pensamento que o Michel trouxe.

    http://www.haaretz.com/opinion/.premium-1.552139

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    • marcelo
      30/10/2013 em 22:42 #

      Boa! outra dado importante sobre o declínio de populaçao judaica, a geração dos nossos avós e bisavós teve muito mais filhos que nossos pais tiveram,e nós aparentemente estamos seguindo o mesmo caminho. ou seja, aquelas gerações “maiores” nascidas entre 1930 e 1960 vão “saindo de cena” aos poucos, potanto continuaremos vendo uma diminuição dos judeus na diáspora nas próximas decadas, mas depois disso, mantida esta média de “poucos filhos” que nossos pais tiveram, isto tende a se estabilizar, portanto, isto somado ao que o texto incado do haaretz diz sobre asssimilação, novamente, nao veremos o fim da diáspora, nao nos próximos 500 anos(que é ano pra caramba).

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  10. Raul Gottlieb
    30/10/2013 em 09:24 #

    Caros João e Cláudio,

    Está tudo muito claro, João, nós temos visões bem diferentes do futuro do judaísmo e como você disse “quem viver verá”. Como eu vou viver mais uns 20-30 anos no máximo, verei a Dispersão ainda firme e forte até o fim dos meus dias. Você vai viver muito mais, então depois você me conta.

    Eu aceito que etimologicamente seja assim mesmo. Mas gosto de fazer a distinção entre os períodos, porque a meu ver a realização sionista precisa ser marcada de forma bem acentuada.

    Abraço grande, Raul

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  11. Artur Benchimol
    31/10/2013 em 02:01 #

    Excelente discussão, gente. E bela escolha de tema, João!

    Estou com o Raul. A diáspora é muito mais antiga que o Estado de Israel e sobreviverá, com perdas, mas sobreviverá. O alarde em torno do fim da diáspora é um argumento do sionismo clássico, mas acho que a fase do “nós estamos certos porque eles estão errados” já pode passar. Para os dois lados.

    É importante ressaltar que a discussão sobre a sustentabilidade da diáspora tem em sua margem a discussão sobre o modelo de Estado-Nação. Esse modelo, apesar de ser mais velho do que Israel, é ainda extremamente novo se comparado com a diáspora.

    Mesmo sendo tão recente, nossos tempos já sugerem novas formas de organização social, política e, principalmente, novas formas de identidade. Muitos estados estão em crise: Espanha e França são casos emblemáticos. A diáspora judaica não é a única no mundo e é difícil acreditar que os Estados terão essa influência assombrosa de apagá-las. Acho mais fácil em algum ponto da história, com cada vez mais mobilidade de gente e idéias, nos tornarmos todos mais estrangeiros, mais de todos os lados, do que os Estados isolarem as identidades hermeticamente e para sempre.

    Também achei a reflexão do Michel sensacional. A pergunta seguinte à essa discussão – tanto para a diáspora quanto para Israel – é: “o que significa ser judeu?”. É um olhar interno que dá prosseguimento a um diálogo de três mil anos. Cabe a nós continuá-lo, entendendo que a maioria das respostas existe sem necessariamente ser em detrimento das outras.

    Forte abraço!

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  12. Rafael Stern
    04/11/2013 em 01:04 #

    Bela discussão. Gostaria de levantar um ponto que não foi abordado. Será que Israel não trouxe coisas negativas para o judaísmo também? Acho que não intencionalmente, claro. Mas algumas coisas foram acontecendo de uma forma que trouxeram consequências negativas. A extrema militarização de Israel (não questiono a necessidade) transformaram o ethos judaico de uma forma profunda. Hoje em dia Israel é reconhecida no mundo pelo seu extremo avanço no setor de segurança, o krav magá é famoso no mundo inteiro, mas eu não acho que era exatamente isso o que as profecias definiram como “or la goym”. Muitos jovens deixam de fazer aliá para não servir exército. Misturando um pouco do medo, da falta de mentalidade de quem não cresceu numa sociedade militarizada (o pai, tios, primos de quem nasceu na diáspora geralmente não serviu no exército), acho que há uma parcela de “até que ponto estou disposto a me transformar para garantir a todo custo um Estado?”. Ou, utilizando o termo do poeta Natan Alterman, um Estado deve ser servido numa bandeja de prata? É claro que a ocupação não é inerente ao sionismo, e estou disposto a me opor a ela de todas as formas (que em breve possa ser votando!), mas fato é que os judeus hoje em dia, de uma forma ou de outra, oprimem outro povo. Além de tudo isso, o envolvimento dos ortodoxos na política (de novo o mau uso do sionismo, mas ainda assim) e a coerção religiosa causam repulsa nos judeus laicos perante qualquer abordagem espiritual do judaísmo. Acho o judeu da diáspora muito mais tolerante e aberto ao judaísmo religioso, e acho de verdade uma perda essas identidades tão bem definidas em Israel. Como o Raul citou as duas versões do talmud, quero acrescentar que o talumd da Babilônia é muito mais utilizado do que o israelense, muito porque o israelense é mais pobre, pois a população judaica em Israel, quando esse talmud foi escrito, estava ainda muito ocupada com as revoltas, pobreza, e outras consequências nefastas da ocupação romana. Enfim, acho que consequências negativas do sionismo não podem ser ignoradas, e tornam o debate mais complexo.

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    • Artur Benchimol
      05/11/2013 em 19:27 #

      Rafael, gostei muito da sua reflexão. 100% de acordo. Acho importante entendermos as consequências positivas e negativas do sionismo. Não como um discurso para legitimizar ou deslegitimizar Israel, mas sim para enriquecer o debate e perceber a riqueza de termos as duas coisas nos nossos tempos.

      Israel é um contraponto à diáspora, uma nova resposta no debate judaico. Quando pensamos nas “concessões” que o judaísmo fez para a viabilização do Estado de Israel (mistura de estado e religião, ocupação de outro povo, etc), me vem à cabeça as concessões que a diáspora fez para manter-se sempre comodamente à margem do poder: perseguições, dilemas de identidade, elitismo, para nomear alguns.

      Só consigo reconhecer as respostas à pergunta sionista quando escuto uma voz individual: quem faz aliá, o faz no contexto da própria vida e história – e tentar justificá-lo apenas do ponto de vista nacional e judaico-sionista não deixa de ser uma ilusão totalizante.

      Esse discurso totalizante de “torne-se israelense, ou seu judaísmo desaparecerá” é uma novidade que me chama bastante a atenção. Me parece uma voz um pouco infantil (talvez até adolescente) do sionismo. E acredito que a diáspora, nos últimos séculos, tem passado recibo, amedrontando-se.

      Talvez haja a necessidade de um resgate à diáspora, de uma militância pró-diáspora. Mas aí me lembro que a diáspora não é dada à essas coisas afirmativas; que seus métodos são mais sutis e menos ruidosos e nunca me permito esquecer que foram eles que nos carregaram 2000 anos no exílio até os dias de hoje.

      Não acho que em algum momento a diáspora vá “comprar a briga” com Israel. Acho que Israel tem um papel em sua crise, mas também vejo que há um certo cinismo em Israel tentar medir a diáspora “com a mesma vara que se mede a si mesmo”. Se a degradação quantitativa da diáspora é o lema do sionismo, a diáspora poderia recorrer à uma degradação qualitativa de Israel. Mas não se trata disso.

      A negação da diáspora teve um papel importantíssimo no início do sionismo, mas não perdoa o sionismo do pecado de ter se comportado como um filho ingrato.

      Espero que em breve o sionismo, alguns dos meus amigos e a sociedade israelense possam ultrapassar esse discurso e entender que Israel é uma realidade e sua identidade não depende apenas de ser a negação da diáspora.

      Poderemos então ver israelenses menos hostis ao judaísmo religioso, casamentos civis e liberais em Israel, religiosos menos dependetes de subsídios estatais e, quem sabe, uma diáspora menos conservadora e assustada com próprio fim.

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  13. Ronan Negreiros
    04/11/2013 em 14:51 #

    É bem recorrente esta preocupação,pois este tema é particularmente controverso,mas uma coisa podemos constatar,que em algumas comunidades da Diaspora o encolhimento é visivel, e, segundo relatos do Museu da Diaspora elas já são consideradas extintas,cito o exemplo da comunidade de Manaus/Am, que esta registrada como extinta pelo referido Museu

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    • marcelo
      05/11/2013 em 17:36 #

      q coisa, a comunidade de manaus tá bem ativa, sim!

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      • ronan
        05/11/2013 em 19:25 #

        Concordo Marcelo,a comunidade de Manaus esta ativa,citei somente como dado que não deve estar atualizado pelo Museu da Diaspora,umcordial shalom

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  14. Rafael Stern
    07/11/2013 em 02:25 #

    Artur Benchimol, adorei o seu comentário. Achei seu pensamento bem alinhado com o meu! E você escreve muito bem! Parabens! Concordei com tudo!

    Ronan, eu moro eu Manaus. Eu cheguei aqui contratado pela comunidade judaica para começar uma nova instituição judaica: um movimento juvenil sionista (e ano que vem o grupo de Manaus vai ser o maior do Brasil no programa de um ano que esse movimento promove em Israel). A comunidade judaica de Manaus é formada de judeus saídos do Marrocos que já moram na Amazônia há 203 anos, e chegaram em Manaus há uns 150, o que faz dela a segunda comunidade judaica mais antiga do Brasil (a primeira é em Belém). O clube Hebraica acabou de passar por uma reforma grande e está lindo. A sinagoga está vibrante, e acabamos de aprovar a aquisição de um terreno para ampliar o estacionamento. Uma casa de cultura judaica está sendo construída ao lado da sinagoga, e organizamos uma exposição no maior shoping de Manaus, que atraiu dezenas de milhares de visitantes. E essa comunidade, nada extinta, atraiu um grupo bastante interessante: o Beit Chabad chegou aqui há uns 4 anos, mas não vai muito bem, realmente.

    E já que estamos falando de números, aí vai. A comunidade tem de 700 a 800 judeus há muito tempo! Muito mesmo! Não está crescendo nem diminuindo, mas se mantendo assim há muito tempo. Eventuais aliot são compensadas por imigrações (inclusive de israelenses, deve ter uns 10 por aqui) e conversões. E em cada kabalat shabat temos umas 120 pessoas na sinagoga. Deve ser a mais alta proporção no Brasil de judeus na sinagoga em relação ao tamanho total da comunidade.

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    • Artur Benchimol
      08/11/2013 em 01:36 #

      Obrigado, Rafael! Bom saber que você está cuidando da comunidade de Manaus. Acho que você não precisa olhar muito longe para entender meu carinho por essa comunidade.

      Muito além do que museu da diáspora pode dizer, a comunidade do norte do Brasil não “acabou”. Tanto não cabe à dita instituição dizer quem está vivo ou não, quanto não se trata disso. A comunidade do Iraque provavelmente deve ter também “acabado” de acordo com o museu (e cá entre nós, com uma bela parcela de culpa dos paradigmas nacionalistas do século passado), mas se você for ao México ou a Londres, vai ver que ela anda muito bem, obrigado.

      Na comunidade comunidade amazonense se dá o mesmo. Foram pro Rio, Israel, São Paulo. Acho que no final das contas, o número deve ser maior do que os que imigraram diretamente do Marrocos para o Brasil no século retrasado.

      Mas talvez essa perspectiva dos números seja um sintoma em si. Perguntar se a sinagoga/clube/tnuá/país está vazia ou cheia é sempre mais fácil do que se questionar sobre o que está acontecendo ali.

      Parabéns pelo trabalho!

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  15. Rafael Stern
    07/11/2013 em 02:39 #

    Tenho mais uma coisa a dizer. Vocês viram esse artigo que saiu recentemente na Nature?

    http://www.nature.com/ncomms/2013/131008/ncomms3543/full/ncomms3543.html

    Nele, os autores analisam a origem genética dos judeus ashkenazim, e, baseados no DNA mitocondrial (de origem exclusivamente materna), chegam à conclusão que 81% das mulheres ashkenaziot não tem origem no Oriente Médio (exílio após a destruição do 2º templo), mas sua origem genética é rastreada na Europa pré-histórica, indicando que os homens judeus levados ou fugidos para Roma teriam se casado em larga escala com mulheres não judias. O artigo é um pouco longo e técnico, mas vale a pena fazer uma leitura dinâmica!

    Acho que não faltava nenhuma comprovação genética, mas esse artigo me fez pensar em muita coisa… Eu acho que esse estudo embasa um debate muito necessário. No mês passado saiu uma pesquisa nos EUA de grande repercussão, mostrando afiliações religiosas e outras coisas. A pesquisa estimou que 58% dos judeus norte-americanos casados estão casados com conjugês não judeus.
    As lendas da tradição judaica (midrash) comentam que apenas uma pequena parcela (entre 25% e 40%) dos judeus saiu do Egito. A maioria decidiu ficar por lá mesmo, e grande parte do contingente populacional que atravessou o mar Vermelho é chamada pela Torá de Erev Rav (conceito definido como uma mistura geral de vários povos escravos, entre eles os descententes do Yaakov, também chamado de Israel após lutar com um anjo, e por isso seus filhos são Benei Israel). Da mesma forma, quando o reino era dividido entre Israel (10 tribos) e Judá (Judá, Levi e parte de Biniamin), o reino de Israel foi invadido pelos babilônios e as 10 tribos, levadas como escravos para o Golfo Pérsico (e talvez muito além, como a tribo de Menashe para a Índia) se “assimilaram” praticamente sem dixar rastros.
    A questão que fica para mim é por que as 10 tribos perdidas para além do rio Sambation se “assimilaram”, casando com não judeus, e as 2,5 tribos do reino de Israel, ao serem exiladas e também casarem com não judeus (ou não judias, como esse estudo específico conclui) continuaram mantendo uma memória de uma terra distante, com tradições, cultura, idioma (ou pelo menos alfabeto), e sonhos muito particulares? O que aconteceu com o primeiro “Erev Rav” pode ser considerado compreensível, afinal, segundo as lendas, eles viram o mar se abrir, pragas, milagres envolvendo água e comida no deserto, a revelação dos dez mandamentos e a Torá… Agora, o que teria acontecido com o segundo “Erev Rav”, esse grupo misturado de europeus antigos e pessoas exiladas do Oriente Médio para que esse grupo se conectasse de uma maneira tão profunda com uma cultura tão específica e distante, a ponto de milhares de anos depois se tornarem um grupo tão fechado? E por que teria surgido um antissemitismo tão forte contra o “povo que matou Jesus”, se claramente esse povo já tinha se misturado tão rápido com a população local?
    Acho que pensando nessas questões, podemos pensar numa abordagem mais positiva do que o pânico espalhado por algumas instituições judaicas sobre os índices de casamentos mistos (58%) nos EUA. Afinal, as comunidades judaicas nas Américas mal estão completando 100 anos, o que não é nada comparando com os 1.800 da Europa.

    O que me faz concluir que ao invés de um “fim da diáspora” deveríamos estar falando de um “renascimento da diáspora”, em outros lugares, após um século conturbado de realocações e caos sistêmico.

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  16. Almeida
    07/11/2013 em 06:42 #

    João,só faltou um detalhe.
    Em Israel existem arabes,cristãos,drusos,etc e apesar de ainda em numero menor,já existem casamentos mistos em Israel.
    Não podemos esquecer dos não judeus que vieram na aliá russa,os mais otimistas falam em 350 mil não judeus e os mais pessimistas dizem que são 750 mil,igualmente estão se casando com judeus e a assimilação tende a aumentar dentro de Israel tambem !!!
    Atualmente estou no Brasil e encontrei um sabra que me disse não se considerar judeu,eu questionei diretamente se a mãe dele era judia e os avós,ele ficou sem graça e disse que sim,neto de sobreviventes do holocausto e que seria então “mais ou menos judeu”,veja bem que não se trata de assimilação e sim de uma crise de identidade e não é um fato isolado em Israel e sequer podemos dizer tambem que isso se deve ao fato dele ser laico !

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  17. Oi
    07/03/2014 em 00:09 #

    Pelo menos as russas que vivem em Israel são bonitas rsrs
    A melhor maneira de manter o Judaísmo é se tornar ortodoxo, evitar contato com o mundo secular e ter uma familia grande. Se de 100 ortodoxos 3 se tornarem secular, seria lucro nos números por causa da predominancia futura .
    O objetivo de nossas vidas é ser feliz, embora a ortodoxia seja complexa, o meio é questão de ótica.

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