Direita e Esquerda em Israel – Parte 1: Quatro blocos?

30/12/2012 | Eleições; Política

Devido à sua condição específica, em que uma democracia parlamentarista, com cidadãos oriundos das mais diversas regiões do mundo reunidos, coabita com profundas questões de segurança, religião e direitos de suas minorias, além de manter ocupadas regiões sem status político definitivo estabelecido e não gozar de relações diplomáticas com a maioria dos países à sua volta, a política no Estado de Israel não pode ser profundamente analisada com a simples divisão dos partidos sob a ótica ocidental de direita/esquerda.

O parlamentarismo representativo israelense, sob o qual nunca um partido logrou obter maioria absoluta no Parlamento (Knesset), induz à construção de coalizões que totalizem, ao menos, 61 dos 120 membros do parlamento, e são costumeiramente frágeis. Este sistema político-eleitoral, apesar de limitar a estabilidade dos 32 governos formados em 64 anos, permite que os mais distintos setores de uma sociedade bastante diversificada e multicultural se façam representados na Knesset e, possivelmente, em um governo, permitindo que suas necessidades e prioridades sejam apresentadas e discutidas em meio à opinião pública nacional.

Nesta minissérie de dois artigos, analisarei como os partidos atualmente presentes na Knesset (e alguns favoritos a estrearem na próxima legislatura) se posicionam frente a estas questões distintas e complexas.

Primeiramente, apresentarei os agrupamentos de partidos, que dividem o Parlamento em quatro grandes blocos, com afinidades internas e tendências a alianças em função de suas ideologias similares, ou do perfil demográfico de seu eleitorado típico. No próximo artigo, descreverei de maneira mais detalhada como cada partido se posiciona em relação aos múltiplos critérios possíveis para a definição entre esquerda e direita e como essa nuance multifacetada dificulta a formação de coalizões.

Na página especial do ConexãoIsrael sobre as eleições de 2013, é possível ler um artigo dedicado especialmente a cada partido, com o detalhamento de sua liderança e plataforma ideológica. Também está disponível uma ferramenta de comparação entre as propostas dos partidos com relação aos principais temas em discussão nesta campanha.

Quatro grandes blocos

Em uma primeira análise, muito similar à maneira como os israelenses interpretam o caso, os partidos podem ser divididos em quatro grandes blocos: a direita sionista, a centro-esquerda sionista, os partidos religiosos judaicos e os partidos de eleitorado majoritariamente árabe. Até as últimas décadas do século XX, os blocos sionistas se dividiam entre a esquerda e a centro-direita, mas mudanças demográficas na população judaica israelense causaram a inversão deste cenário.

A direita sionista é atualmente o bloco com mais deputados e é composta, teoricamente, por três principais partidos: Likud (União, liderado pelo primeiro-ministro Biniamin Netaniahu), Israel Beitenu (Israel é a Nossa Casa, liderado por Avigdor Lieberman) e HaIchud HaLeumi (A União Nacional, de Uri Ariel). Enquanto que o Likud está mais alinhado com o liberalismo e o conservadorismo europeus e americanos, os outros dois partidos têm inclinações mais nacionalistas. Israel Beitenu representa um público de judeus que chegaram a Israel após a dissolução da União Soviética (20% da população), bastante anti-comunista, mas estritamente secular.

HaIchud HaLeumi, por sua vez, representa a parcela nacionalista do sionismo que, ainda que laica, está fortemente ligada à presença judaica nos territórios ocupados por questões históricas e espirituais com um tom messiânico. Uma facção à sua direita se desmembrou e concorrerá de maneira independente sob o nome Otzmá LeIsrael (Poder para Israel). Suas posições são mais nacionalistas e algumas de suas propagandas chegaram a ser proibidas e retiradas das ruas por incitarem o público judaico ao ódio anti-árabe.

Considerado por Netaniahu como seu “parceiro natural”, o bloco dos partidos religiosos também é formado por três facções: HaBait HaYehudi (A Casa Judia, de Naftali Bennet), Yahadut haTorá (Judaísmo da Torá, liderado pelos rabinos ortodoxos ashkenazitas) e Shas (sigla para Os Guardiões da Torá Sefaraditas, liderado pela troika Eli Yishai, Arie Dery e Ariel Attias). HaBait HaYehudi é o antigo Partido Nacional Religioso, da corrente sionista religiosa, cujos deputados e eleitores são judeus religiosos, porém que levam suas vidas de forma integrada ao resto da sociedade. Este partido esteve presente em todas as coalizões de governo israelense, à direita e à esquerda, até 1992, quando se recusou a fazer parte de um governo que negociava a devolução dos territórios ocupados aos palestinos.

Yahadut HaTorá é uma coligação de dois pequenos partidos que representam os dois lados da grande divisão existente dentro da ortodoxia ashkenazita. Os ashkenazitas são os judeus que chegaram a Israel vindo das comunidades da Europa Central e Oriental, onde o judaísmo ortodoxo estava dividido há séculos entre os hassídicos e os “lituanos” (que não são necessariamente da Lituânia, mas se opuseram ao surgimento do hassidismo). Esta facção parlamentar geralmente participa dos governos, não tem fortes posições ideológicas no que tange economia e segurança, mas faz questão de ocupar algum ministério da “área social”, onde pode beneficiar seu eleitorado, a parcela mais pobre da população judaica israelense.

O Shas representa o público religioso sefaradita, dos judeus oriundos das comunidades do países islâmicos e do Mar Mediterrâneo, conhecidos em Israel como “judeus orientais”. Ainda que tenha em Ovadia Yosef (ex-Rabino-Chefe do país) seu líder espiritual, não possui rabinos em sua liderança política, mesmo que a maioria de seus deputados sejam considerados judeus ultra-ortodoxos. Apesar de ser um partido religioso, tem uma grande base eleitoral composta por judeus seculares, ou de famílias que observam a maioria das tradições judaicas, mas não se classificam como ultra-ortodoxas, e vivem integradas à sociedade israelense.

Em uma movimentação interessante, o rabino Chaim Amsalem, deputado considerado “rebelde” pela bancada do Shas, fundou um partido que também disputa o voto do eleitorado sefaradita, porém vai de encontro às atuais políticas de favorecimento ao público ultra-ortodoxo no que tange a dispensa do serviço militar obrigatório e o auxílio financeiro governamental aos homens adultos que não trabalham para dedicarem-se ao estudo exclusivo dos textos religiosos. Num trocadilho com o nome de seu líder, o partido se chama Am Shalem (O Povo Inteiro), e defende a integração maior dos ultra-ortodoxos na sociedade, através de sua participação no exército e no mercado de trabalho.

Para as eleições de 2013, os dois grandes partidos da direita sionista estão concorrendo em uma lista conjunta (similar às coligações brasileiras) sob o nome HaLikud Beitenu (O Likud é a Nossa Cassa), de modo que terão certamente a maior bancada da próxima legislatura. Outra lista conjunta foi formada pelos partidos que habitam a fronteira entre os blocos direitista e religioso: HaBait HaYehudi e HaIchud HaLeumi, cujo eleitorado é demograficamente similar.

A centro-esquerda sionista é um bloco que está se redesenhando ao longo das últimas campanhas eleitorais. Durante as décadas de 1990 e 2000, uma série de partidos – sendo o Kadima, o último deles – surgiu e desapareceu na tentativa de preencher o “centro político” do país: um público, tido como majoritário, que apoiaria as políticas econômicas não-socialistas e o conceito de “terras por paz” no que se refere às negociações com os palestinos.

Atualmente, compõem este bloco na Knesset o Partido Trabalhista (liderado por Shelly Yachimovich), o esquerdista Meretz (Vigor, sob liderança de Zehava Galon) e o centrista Kadima (Avante, de Shaul Mofaz). O principal partido do bloco é o Partido Trabalhista, herdeiro histórico do Mapai, que liderou a construção do Estado de Israel e encabeçou todos os governos entre 1948 e 1977. Após abandonar todas as suas aspirações socialistas entre as décadas de 1980 e 1990 e passar por momentos mais social-democratas, hoje tem uma campanha fortemente baseada no retorno ao estado do bem-estar social. É a favor da criação do estado palestino, mas com a manutenção dos grandes blocos de assentamentos judaicos na Cisjordânia e de acordos que garantam a segurança do Estado de Israel.

À sua esquerda, encontra-se seu aliado histórico de inúmeras coalizões e herdeiro do antigo Mapam, o Meretz. Com a inclinação dos trabalhistas ao centro, o Meretz se afirma como o único partido da verdadeira esquerda israelense. Defende uma forte atuação do estado na economia, a total desocupação da Cisjordânia, viabilizando a criação do estado palestino, e a separação entre a religião e o estado, ainda que seja um partido judaico e sionista.

Condenado à implosão por todas as pesquisas, o Kadima foi fundado em 2005, pelo então primeiro-ministro Ariel Sharon, com antigos membros do Partido Trabalhista, do Likud e do Shinui (o partido que o antecedeu no centro político), para viabilizar a saída unilateral da Faixa de Gaza. Após quatro anos na oposição, perdeu toda sua força e tem seu lugar almejado por dois novos partidos: HaTnuá (O Movimento, liderado por Tzipi Livni, antiga líder do Kadima) e Yesh Atid (Há um futuro, de Yair Lapid). Ambos oferecem a fórmula mágica: a política econômica da direita aliada ao processo de paz prometido pela esquerda.

Por fim, pode-se considerar um bloco bastante heterogêneo de partidos cujo eleitorado é majoritariamente composto pelos cidadãos árabes do país (palestinos com cidadania israelense, que residem dentro das fronteiras internacionalmente reconhecidas de Israel). O Chadash (Frente Democrática pela Paz e pela Igualdade, liderado por Mohamad Barakeh) é uma lista conjunta de árabes e judeus, mas três de seus atuais quatro deputados, assim como a maioria de seus eleitores, é árabe. Herdeiro do histórico Partido Comunista, não se define como sionista e defende a total retirada de Israel da Cisjordânia, uma maior tributação dos ricos e a total separação entre a religião e o estado.

Ra’am (Lista Árabe Unida, na sigla em hebraico) e Ta’al (Movimento Árabe pela Renovação, também na sigla em hebraico) concorrem em uma lista unificada. Assim como o Balad (sigla hebraica para Pacto Nacional Democrático), são os partidos que buscam representar os diferentes setores da sociedade árabe-israelense: muçulmanos, cristãos e até beduínos que, ainda que também sejam árabes e muçulmanos, vivem em sua própria sociedade, organizada de maneira tribal e nômade. Estas listas defendem a total desocupação israelense da Cisjordânia e o direito de retorno dos refugiados palestinos a Israel.

Cabe ressaltar que, ainda que presentes no parlamento israelense desde a primeira Knesset (eleita em 1949), os partidos árabes e o Chadash (ou o Partido Comunista anteriormente) mantém uma postura constante de “boicote à política sionista” e jamais são considerados candidatos reais à formação de coalizões. Esta posição é um dos empecilhos atuais ao retorno da centro-esquerda ao poder. Mesmo assim, no início da década de 1990, quando o Shas se retirou da coalizão liderada pelo primeiro-ministro trabalhista Yitzhak Rabin em vista das negociações para a devolução dos territórios ocupados aos palestinos, deixando-a com apenas 58 deputados, sob risco de queda do governo, os partidos árabes, interessados no continuação do processo de paz, votaram junto com o bloco de esquerda e mantiveram aquele governo, liderado pelos trabalhistas com apoio do Meretz, no poder.

Em quais pontos o Israel Beitenu está mais próximo do Meretz do que de seu companheiro de lista Likud?

Sob quais circunstâncias o Shas teria interesse em participar de uma coalizão de centro-esquerda?

No próximo artigo, analisaremos de maneira mais detalhada como cada partido se posiciona em relação aos múltiplos critérios possíveis para a definição entre esquerda e direita e como as diferentes nuances dessa realidade multifacetada dificultam a formação de coalizões.

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